Valéria Serguéievna telefonou às sete e cinco, quando Vera esfregava do fogão o leite que tinha transbordado.
O telefone zumbia no parapeito da janela, e só por aquele zumbido Vera já percebeu quem estava a ligar.

Lera gostava de telefonemas de manhã cedo.
Nessa altura, a pessoa ainda não se recompôs, ainda não teve tempo de erguer defesas, ainda não inventou uma resposta decente.
Vera atendeu e prendeu o telefone com o ombro, continuando a passar o pano molhado pelo círculo branco na boca do fogão.
— Como pudeste abandonar o meu filho?
— Quem vai pagar agora o empréstimo dele?
A voz era como se Vera não tivesse saído do apartamento duas semanas antes, mas o tivesse incendiado e fugido.
— Bom dia, Valéria Serguéievna.
— Não preciso desse teu bom dia.
— Ele tem o pagamento depois de amanhã.
— Quarenta e oito mil e setecentos.
— Tu percebes sequer o que é um atraso no pagamento?
— Achas que eles vão esperar?
Vera parou de esfregar o fogão.
— Eu já não vivo com o seu filho.
— E a datcha?
— Também decidiste perder a datcha?
— A raiva já te bloqueou completamente o cérebro?
O círculo branco no fogão espalhou-se debaixo do pano.
Vera endireitou-se.
Gleb repetira até ao fim que a datcha não tinha nada a ver com aquilo.
Depois dizia que era apenas uma formalidade no papel.
Depois começou a gritar que ela não entendia nada de assuntos de homens e se metia onde não devia.
E Lera falou logo da datcha, sem pensar.
— De onde é que a senhora sabe da datcha? — perguntou Vera.
Do outro lado fez-se silêncio.
Depois Valéria tossiu, como se se tivesse engasgado com o próprio grito.
— Todos já sabem, o banco sabe, o notário sabe.
— E tu és a única, como sempre, que não entende nada.
— A senhora esteve no banco?
— Estive, e então?
— Ele devia morrer lá sozinho?
— Sou mãe dele.
Lera percebeu que tinha dito demais e imediatamente voltou a elevar o tom.
— E não te agarres às palavras.
— Por causa dessas tuas implicâncias, a vossa vida toda foi para o diabo.
Vera desligou a chamada e sentou-se no banco.
Na pequena cozinha alugada havia silêncio.
Sobre a mesa estavam um pacote aberto de aveia, uma faca, um pacote de leite preso com uma mola.
Atrás da parede alguém tossiu e depois abriu a água.
Uma manhã comum, daquelas que não ficam na memória.
Mas agora tinha uma aresta afiada.
Vera tirou uma pasta da mala.
Tinha-a levado à pressa no dia anterior, sem sequer a examinar direito, apenas a enfiara num saco junto com a camisa de dormir e a caixa dos medicamentos.
Os papéis estavam amarrotados, alguns em plásticos, outros soltos.
Contrato de crédito, extrato, cópia do passaporte dela.
Pedido de constituição de garantia.
E o consentimento como esposa.
A assinatura parecia a dela, se não se olhasse durante muito tempo.
Se não se soubesse como ela desenhava a letra V e que nunca riscava a cauda do apelido.
Vera passou o dedo pelo papel.
Não o tinham falsificado como nos filmes, de forma grosseira e descarada, tinham-se esforçado muito.
Ela recordou como tudo tinha começado e onde tinha ido parar.
Não começou no banco, nem sequer com a carta, mas com uma panela de borscht.
—
Naquele dia, Gleb chegou numa quinta-feira mais cedo do que o habitual, o que já era estranho.
Normalmente, ou se atrasava, ou telefonava a dizer que tinha passado por casa do Liokha, ou simplesmente aparecia depois das nove com cheiro a cigarros alheios e com as suas palavras de sempre: que estás a olhar, eu não estive em nenhum bar.
Mas dessa vez chegou às seis e até comprou pão e tomates, embora houvesse em casa.
— Que festa é esta? — perguntou Vera, quando ele começou a remexer nos sacos com energia excessiva.
— Sem motivo nenhum.
— Não posso?
Ele beijou-a na face, coisa que já não fazia há muito tempo.
Sentou-se na cozinha e começou a contar que um conhecido tinha encontrado uma boa oportunidade com fornecimentos, que só era preciso investir um pouco, mas que depois poderiam viver tranquilamente, sem contar cada cêntimo.
Vera serviu-lhe borscht, pôs a caixa do pão na mesa e percebeu logo: ele já tinha apanhado o dinheiro.
Ele começava sempre de longe apenas depois de já ter feito alguma coisa.
— Quanto? — perguntou ela.
— Tu és sempre assim.
— Quanto?
— Pouco.
— Gleb.
Ele fez uma careta.
— Cem.
— A quem?
— Não foi a bandidos, se é isso que estás a pensar.
— A quem?
Ele pegou na colher, soprou o borscht, sem olhar para ela.
— Ao banco.
— Para quê?
— Para um negócio.
Vera sentou-se à frente dele.
— Que negócio?
— Não comeces.
— Acabei de te contar e já estás como uma investigadora.
Cinco minutos depois, já falavam mais alto.
Dez minutos depois, ele gritava que naquela casa era impossível fazer fosse o que fosse sem interrogatório.
Quinze minutos depois, bateu a porta.
Algum tempo depois, Vera encontrou uma carta na gaveta.
Não era de cem, mas de quatrocentos e oitenta.
E não era a primeira prestação, era um aviso de atraso.
Quando Gleb voltou à noite, a sopa já estava fria.
— Senta-te, — disse Vera.
— Estou cansado.
— Senta-te.
Ele sentou-se.
Olhou para a carta, depois para ela.
— Andaste a remexer, então.
— Isto estava na gaveta dos recibos.
— Eu não remexo, eu vivo aqui.
Ele quis atirar-lhe alguma coisa em resposta, mas mudou de ideias.
— Isso é antigo.
— A data aqui é de ontem.
— É refinanciamento.
— O quê?
— Fechei o antigo com um novo.
— Que antigo?
E foi aí que ele se confundiu.
Primeiro falou do carro, depois de um amigo, depois de um negócio qualquer.
Depois falou de uma ajuda urgente à mãe.
E no fim, contradizendo-se a si próprio, soltou que aquilo nem sequer era assunto dela, porque ele era homem e resolveria tudo sozinho.
Vera ouvia e de repente percebeu que, por trás da raiva, já nem havia surpresa.
Só cansaço, há muito conhecido, como um dente doente.
Ela levantou-se e foi até ao armário onde ficava a pasta com os documentos do apartamento e da datcha.
A pasta não estava lá.
— Onde estão os documentos? — perguntou ela.
— Que documentos?
— Não te faças de parvo.
— Eu não levei nada.
— Gleb, onde está a pasta da datcha?
Ele respondeu depressa demais:
— Eu não toquei na tua datcha.
Aquilo foi pior do que uma confissão.
À noite, ele ressonou, depois levantou-se para fumar, depois voltou a ressonar.
E Vera ficou deitada, a olhar para o teto.
Não pensava nem no amor nem na traição.
Pensava na fenda torta por cima do armário, que já devia ter sido tapada, no facto de haver carne picada no congelador, no turno de sexta-feira e no facto de que, se a pasta realmente não estava no sítio, então o problema já não era a mentira.
A mentira na casa deles há muito se tornara mobília.
Ali havia algo mais caro.
—
De manhã, encontrou a pasta na despensa, atrás da caixa com os sapatos de inverno.
Dela tinham desaparecido as cópias dos documentos de propriedade e o passaporte antigo dela.
Em compensação, apareceu uma procuração que ela nunca tinha visto na vida.
Vera foi ao banco logo depois do trabalho.
Lá cheirava a café de máquina e a perfumes alheios.
A rapariga atrás do vidro repetia com voz decorada que as informações eram dadas apenas ao cliente.
Vera já se preparava para sair quando passou um homem de fato cinzento, deslizou o olhar pelos papéis dela e parou.
— É por causa do terreno em Malakhovka? — perguntou ele em voz baixa.
Ela assentiu.
— Espere.
Levou-a para um pequeno gabinete sem janela e falou depressa, como se não quisesse que alguém o ouvisse.
Havia dois créditos.
O primeiro tinha sido fechado com o segundo, e no segundo a garantia era o terreno dela.
Na operação estivera presente a mãe do devedor.
E havia ainda outra estranheza: parte do dinheiro do segundo crédito não fora para quitar o primeiro, mas levantada em numerário por procuração.
— Que procuração? — perguntou Vera.
O homem virou o ecrã para ela.
Ali havia um requerimento digitalizado.
Uma assinatura em nome dela e uma pessoa autorizada.
Não era Gleb.
Era uma mulher.
Uma certa Valéria Andreevna Júkova.
— Quem é? — perguntou Vera.
A sogra era Valéria Serguéievna.
— Alguma parente, provavelmente, — o homem encolheu os ombros.
— Está indicado assim.
Vera olhava para o ecrã e não percebeu de imediato o que exatamente a tinha atingido.
Depois percebeu.
Valéria Andreevna.
Lera chamava-se Lera, embora no passaporte fosse Valentina Serguéievna.
Sempre, a vida inteira.
Até ralhava na policlínica se lá lhe chamavam Valentina.
Portanto, não era a sogra.
Ela saiu do banco com uma expressão tal que o segurança à porta quis perguntar-lhe alguma coisa, mas não se atreveu.
Na rua caía uma chuva miúda.
Vera ficou debaixo da pala a olhar para as pessoas a correr pelo estacionamento com pastas por cima da cabeça.
Lera não era Lera.
Parecia uma ninharia, um nome alheio.
Mas é precisamente com ninharias dessas que, de repente, começa a rachar toda a imagem habitual.
Como quando se pensa durante anos que se tem uma parede estrutural, e afinal é pladur.
Ela não foi logo para casa.
Sentou-se num banco atrás da loja, tirou o telefone e ligou à filha.
Alina não atendeu de imediato.
— Mãe, estou no trabalho.
— Preciso de te perguntar uma coisa.
— Sabes por que razão chamam Lera à avó?
— Como assim?
— Sempre lhe chamaram assim.
— Nos documentos, ela é Valentina.
A pausa foi curta, mas Vera ouviu-a.
— Pois, sim, — disse Alina.
— O pai dizia que era uma história qualquer de família.
— Que a avó não gostava do verdadeiro nome.
— Quando é que ele dizia isso?
— Não me lembro.
— Há muito tempo.
— Sabes mais alguma coisa?
— Mãe, o que aconteceu?
Vera não contou tudo sobre o banco.
Só falou da datcha e da assinatura falsa.
Alina suspirou ao telefone.
— Por favor, não comeces um escândalo.
— Estás a falar a sério?
— E o que é que queres que eu diga?
— Ele já anda todo nervoso.
— E a avó também.
— A avó, — repetiu Vera.
— Sim.
— Quando foi a última vez que a viste?
— Há umas três semanas.
— Ela pediu-me para levar medicamentos.
— Em casa dela?
— Não.
— Noutro apartamento.
Vera ficou calada.
— Que outro apartamento, Alina?
A filha também se calou.
Depois disse, já com mais cautela:
— Mãe, não grites.
— Eu pensei que tu soubesses.
— Parece que a avó tem um quarto algures junto à estação.
— O pai pediu-me para levar um pacote, havia lá uma mulher com um menino.
— Eu pensei que fosse uma cuidadora, talvez, ou inquilinos.
— Não me meti.
Vera olhou para o asfalto molhado debaixo dos pés.
A chuva já tinha parado, mas ela tinha a sensação de que a água corria em algum lugar dentro dela.
— Não me disseste.
— E o que é que eu devia ter dito?
— Eu pensei mesmo que tu soubesses.
—
Meia hora depois, ela já estava diante da porta de Lera.
Não foi Lera quem abriu.
Uma mulher de cerca de trinta e cinco anos, morena, com uma velha T-shirt de estar em casa.
Do quarto espreitou um menino de boné, o mesmo de que a vizinha falara.
Viu Vera e escondeu-se logo.
A mulher também recuou, como se a tivesse reconhecido por uma fotografia.
— Quem procura?
Da cozinha veio a voz de Lera:
— Quem é, Nástia?
E tudo se encaixou de forma tão brusca que Vera até perdeu o medo.
Lera apareceu no corredor com uma tigela nas mãos.
Viu Vera e ficou branca.
E não era uma figura de estilo.
Ficou mesmo branca, até os lábios se tornaram cinzentos.
— Como é que descobriste?
Vera desviou o olhar para a mulher.
— É esta a tal Valéria Andreevna?
Nástia apertou a tigela contra o ventre.
— Gleb não disse que a senhora vinha.
— Devia ter dito?
Lera recuperou primeiro.
— Entra, já que vieste.
— Vais ficar parada à porta?
O apartamento não era de Valéria.
Os móveis eram demasiado novos, a renovação barata mas recente, uma mochila de criança sobre a cadeira, latas de leite em pó no parapeito da janela, embora o menino claramente já não precisasse delas.
Simplesmente tinha havido ali, pouco tempo antes, alguém mais pequeno, ou aquilo restara de outra criança.
Sobre a mesa estavam cadernos do segundo ano e um talão de uma loja de móveis.
No campo do destinatário, Vera ainda conseguiu ler o apelido de Gleb.
Nástia baixou os olhos.
Lera começou a falar como se nada tivesse acontecido:
— Pronto.
— Estás satisfeita?
— Viste.
— Agora pelo menos não vais inventar suposições.
— Quem é ela?
— A mãe da criança.
— Isso eu percebi.
— Quem é ela para si?
Lera sentou-se numa cadeira e puxou pesadamente um banco para junto de si.
— Minha filha.
Vera não piscou.
Simplesmente não conseguiu.
— A senhora não tem filha.
— Tenho.
— Só que não para todos.
Nástia estava encostada à parede, magra, tensa, com aquele cansaço no rosto que Vera conhecia demasiado bem pelo espelho.
— Esta sua filha é irmã de Gleb? — perguntou Vera, porque o cérebro se agarrava a qualquer versão, menos à óbvia.
— Meia-irmã, — resmungou Valéria.
— Do primeiro marido.
— Entreguei-a cedo à minha irmã em Riazan, e depois ficou assim.
— Para todos, era como se ela não existisse, e depois voltou para cá com um filho e sem dinheiro.
— E Gleb…
— Ajudava, — disse Lera bruscamente.
— Não somos estranhos.
Vera olhava ora para uma, ora para outra.
— Que criança é que chamou de neto?
— O meu, — disse Lera.
— Sou avó dele.
— E então?
—
Foi então que Vera sentiu a cabeça rodar de verdade.
Não por causa de uma traição, uma traição teria sido até mais simples.
Ali havia algo mais espesso, mais pegajoso e pior.
Gleb, durante anos, não tinha corrido para uma amante, mas para uma meia-irmã de quem ninguém em casa sabia, para o filho dela.
Para uma criança escondida como roupa suja.
E, para essa ajuda, tinham arrastado Vera para um crédito com a sua datcha como garantia.
A cabeça andava-lhe à roda.
— Ele dormia com ela? — perguntou Vera, sem acreditar que estava a dizer aquilo em voz alta.
Nástia ergueu a cabeça bruscamente.
— A senhora enlouqueceu?
— Então por que razão ele pôs tudo em nome dele?
— Por que não vocês?
Nástia riu-se de forma curta, com raiva.
— Em meu nome?
— Eu trabalho de vez em quando, tenho atraso no cartão de crédito, ninguém me daria nada.
— Ele tinha família, morada registada, estava tudo limpo.
Valéria interveio:
— Não ouses caluniar assim o meu filho.
— E por que não? — explodiu Nástia de repente.
— Fui eu que lhe pedi para fazer o segundo crédito?
— Eu disse que alugaríamos alguma coisa mais barata.
— Foram vocês que quiseram tudo “como deve ser”, para o menino ter escola, para o bairro ser bom, para não haver vergonha.
O menino voltou a espreitar do quarto.
Lera mudou instantaneamente de expressão.
— Vai fazer os deveres, Dim.
Ele saiu.
Vera estava de pé no meio da cozinha e sentia que a principal porcaria ainda estava por vir.
Havia demasiadas pequenas estranhezas, Valéria gritara com demasiada segurança naquela manhã sobre o pagamento.
Nástia falava com demasiada calma sobre o segundo crédito.
Algo ali não batia certo.
— Mostrem-me os documentos, — disse Vera.
— Não sou obrigada, — respondeu Lera.
— Então chamo a polícia agora mesmo, por falsificação de assinatura.
Nástia foi a primeira a sobressaltar-se.
— Polícia, não.
— Então os documentos.
Lera olhou para ela com um olhar pesado, depois levantou-se, aproximou-se da cómoda e tirou uma pasta.
Vera abriu-a ali mesmo, na cozinha.
O contrato de compra e venda do apartamento não estava em nome de Nástia.
Estava em nome da filha, Alina.
Ela releu o apelido três vezes.
Depois mais uma vez.
— O que é isto?
Nástia empalideceu.
Lera voltou a sentar-se.
— Foi por isso que te liguei a bem.
— Se o negócio cair, Alina fica com a dívida.
Vera levantou lentamente a cabeça.
— O que quer dizer “em nome de Alina”?
Lera encolheu os ombros, como se se tratasse de uma compra malfeita de um frigorífico.
— Puseram em nome dela.
— Ela tem uma taxa mais baixa, salário oficial.
— Gleb disse que tu não darias consentimento para pôr no teu nome, e Alina confia.
Vera não conseguiu logo juntar as palavras num sentido.
O apartamento para Nástia e Dima estava em nome da sua filha.
O crédito estava garantido pela sua datcha.
E, se tudo ruísse, o banco e os oficiais de justiça viriam não só atrás dela.
— Alina sabe?
— Em parte, — disse Lera.
— Disseram-lhe que era temporário, como um investimento.
— Que depois passariam para outro nome.
Vera pegou no telefone.
No início, os dedos nem acertavam no ecrã.
— Não ouses ligar-lhe agora, — disse Lera bruscamente.
— Ela está no trabalho.
— É precisamente por isso que vou ligar.
— Vais destruir-lhe a vida.
Vera nem olhou para ela.
Alina atendeu quase de imediato.
— Mãe, não posso falar muito.
— Podes.
— Assinaste alguma coisa no notário com o pai?
Silêncio.
— Alina.
— Mãe, não é o que estás a pensar.
— O que é que assinaste?
— Uma procuração qualquer.
— Ele disse que era preciso registar temporariamente um imóvel, depois passariam para outro nome, era como um investimento, eu não li com atenção.
Vera fechou os olhos.
— O apartamento está em teu nome.
— Que apartamento?
— Aquele onde vivem a filha da avó e o filho dela.
Do outro lado ficou tão silencioso que Vera ouviu, algures ao longe, uma porta a fechar perto da filha.
— Filha de quem? — perguntou Alina muito devagar.
— Lera não é só mãe do teu pai, — disse Vera.
— Quer dizer, é mãe dele, mas há também a filha escondida dela.
— E o apartamento está em teu nome.
— Mãe, o que é que estás a dizer?
— O que estou a ler nos documentos.
Um minuto depois, Alina já chorava, mas não alto.
Assim, com inspirações curtas, como na infância, quando tentava não mostrar que lhe doía.
— Ele tirou-me dinheiro, — disse ela.
— Na primavera, cento e vinte mil.
— Disse que era para o tratamento da avó, e depois ainda me pediu para ser co-devedora de uma coisa pequena, mas eu recusei.
— Ele ficou ofendido.
— Mãe… o que é que eu faço agora?
E foi então que Vera compreendeu definitivamente: todo aquele circo sobre o filho abandonado, o crédito e a datcha era apenas a ponta do icebergue.
Eles já tinham começado a avançar sobre a filha.
Cuidadosamente, através de uma procuração, através de palavras como temporário, investimento, depois transferimos.
Da mesma forma que, em tempos, tinham avançado sobre ela.
— Não assines mais nada, — disse Vera.
— Nada.
— E envia-me agora tudo o que tens do notário.
Quando a conversa terminou, havia na cozinha um silêncio tal que se ouvia a torneira a pingar na casa de banho.
— Vocês enlouqueceram todos de vez?!!! — disse Vera.
Lera passou imediatamente ao ataque.
— E o que é que havia a fazer?
— A rapariga não tem onde viver, o menino tem escola, Gleb corre de um lado para o outro como um condenado, e tu só te queixas e contas tostões.
— Ao menos uma vez podias pensar em alguém que não fosses tu.
— Em alguém que não fosse eu?
— Durante vinte e seis anos eu não pensei em mim.
— Por causa do seu filho, tratei os dentes a crédito quando ele perdeu o emprego.
— Comprei-lhe os móveis quando o seu armário se desfez.
— Paguei as dívidas dele porque podiam bater-lhe.
— Expliquei à minha filha por que o pai não foi à formatura.
— E durante todo esse tempo a senhora olhou-me na cara e mentiu-me!!!!
Nástia de repente sentou-se e tapou o rosto com a mão.
— Eu não queria que fosse assim, — disse ela, abafada.
— Ele meteu-se sozinho, no início só ajudava.
— Depois a mãe disse que se podia fazer através de vocês, que a senhora era forte, que aguentaria.
Vera virou-se para ela.
— Através de mim?
— Sim.
— A senhora tem tudo em ordem, trabalho oficial, datcha.
— Ele disse que, de qualquer maneira, a senhora não o deixaria.
E isso era o mais exato.
Não sobre dinheiro, não sobre créditos e não sobre parentes secretos.
De qualquer maneira, a senhora não o deixaria.
Ponto final.
—
Vera saiu a correr do apartamento sem bater a porta.
Na escada cheirava a pano molhado e a ração de gato.
No primeiro andar, alguém fritava cebola.
Uma entrada comum.
Um dia comum.
Gleb esperava-a em casa.
Evidentemente, Lera já tivera tempo de lhe telefonar.
— Por que foste lá? — começou ele à porta.
— Tu percebes sequer o que fizeste?
— Percebo.
— E tu?
— Não dramatizes.
— O apartamento está em nome de Alina.
— Isso também é não dramatizar?
Ele estremeceu.
— A minha mãe contou-te?
— Os documentos contaram.
Ele sentou-se na cozinha e de repente começou a falar não com voz irritada, mas cansada, aquela voz que, em tempos, afetava Vera mais do que qualquer grito.
— Ver, e o que é que eu devia fazer?
— Nástia com uma criança num dormitório, a minha mãe de nervos em franja, o menino não podia mudar de escola.
— Eu queria fazer o melhor, depois tudo se endireitaria.
— À custa de quem?
— Não é à custa de ninguém.
— De quem?
Ele ficou calado.
— Eu devolveria.
— Com quê?
Ele abriu os braços.
Na mesa diante dele havia um pacote de café caro e um talão de uma loja de eletrónica.
No corredor estavam ténis novos.
Vera via tudo aquilo e já nem se zangava.
Apenas juntava tudo numa única pilha.
— Tiraste mais alguma coisa à Alina? — perguntou ela.
— Não.
— Não mintas.
— Pedi-lhe o cartão umas duas vezes.
— Para quê?
— Tinha de fazer transferências.
— Para quem?
Ele não respondeu.
Vera pegou no telefone e ligou a gravação.
Sem esconder, diante dele.
Gleb olhou e sorriu com desprezo.
— A sério?
— Já chegámos a isto?
— Sim.
— Já chegámos.
Talvez tenha sido precisamente por causa da gravação que ele perdeu o controlo.
Pessoas como Gleb mentem tranquilamente enquanto têm a certeza de que depois poderão virar tudo do avesso.
E, quando percebem que as palavras ficarão registadas, começam a confundir-se.
Ele levantou-se de um salto.
— Sim, tirei.
— E então?
— Tirei à minha filha, não a uma estranha.
— Sou pai dela, por acaso.
— Um pai não tira dinheiro à filha para um apartamento secreto e para comprar coisas novas para si!
— E onde é que eu devia arranjar?
— Tu não me darias.
— Claro que não daria.
— Porque és gananciosa.
— Não, porque sou normal.
Ele deu um murro no batente.
— Mas por que continuas com isso?
— Normal, normal.
— E quem de vocês é normal?
— A minha mãe escondeu uma filha a vida inteira para ninguém se meter.
— Nástia está sozinha com um miúdo.
— Eu estou no meio de todos.
— Tu só contas quem deve quanto a quem.
— Tu não estás no meio de todos, Gleb.
— Tu andaste montado em todos.
Ele levantou a mão como se nem fosse contra ela, mas contra o ar.
Não bateu, baixou a mão.
Mas Vera recuou mesmo assim e sentiu que, dentro dela, algo se soltava definitivamente.
Não era medo, era antes o último prego.
Ela pegou na pasta com os papéis, nos seus documentos, no velho envelope com recibos e foi-se embora.
—
À noite, Alina apareceu sozinha, sem avisar.
Sentou-se no banco da cozinha alugada e ficou muito tempo calada, a olhar para os azulejos do chão.
Depois disse:
— Eu pensava mesmo que tu exageravas.
— Sempre.
— Que simplesmente te cansavas e começavas a procurar o pior no pai.
Vera pôs a chaleira ao lume.
— Eu própria também pensava isso.
— Hoje ele telefonou-me.
— Disse que tu tinhas deturpado tudo, que a avó estava doente, que tu te vingavas dela.
— Que Nástia era apenas uma parente distante e que aquilo não era assunto meu.
— E tu?
Alina encolheu os ombros e, de repente, esfregou o nariz com o punho de um modo muito infantil.
— Perguntei-lhe por que razão então o apartamento está em meu nome.
— Ele desligou.
Ficaram sentadas em silêncio até a chaleira ferver.
Depois Alina tirou uma pasta da mala.
— Aqui está tudo o que ele me deu para assinar.
— E também o extrato do cartão, onde se vê para onde transferi.
Vera abriu.
Entre os papéis havia um seguro de vida da devedora.
Devedora: Alina Glebovna Sokolova.
Beneficiário: Gleb Valerievitch Sokolov.
Vera releu duas vezes.
Depois olhou para a filha.
— Tu sabias disto?
— Não.
— O que é isto?
— Nada de bom.
Ela não explicou logo, porque a ela própria repugnava pronunciar em voz alta até que ponto tinham chegado.
Tinham posto em nome da filha não só o apartamento e as obrigações.
Também um seguro em que o pai receberia dinheiro caso acontecesse alguma coisa.
Talvez fosse um esquema padrão, talvez ninguém tivesse planeado nada terrível.
Mas o simples facto era tão sujo que Vera afastou o papel com dois dedos, como se fosse algo estranho.
—
De manhã, Valéria voltou a telefonar.
Desta vez, a voz era abafada.
— O banco exige o pagamento, — disse ela.
— Gleb desapareceu, tem o telefone desligado.
— Nástia grita, Alina não atende.
— Então, estás satisfeita?
Vera estava junto à janela com uma chávena de chá e olhava para o varredor a juntar folhas molhadas num monte.
— Não, — disse ela.
— Não estou satisfeita.
— Então ajuda.
E nisso estava tudo.
Nem desculpa, nem vergonha, nem tentativa de chamar as coisas pelo nome.
Apenas a velha certeza de que Vera se levantaria, se juntaria num nó e continuaria a carregar tudo.
Ela pousou sobre a mesa a apólice do seguro, depois o velho envelope com as suas anotações.
À direita, os valores; à esquerda, as notas: dentes, pneus, medicamentos, dívida ao Liokha.
Quarto.
Operação.
Temporário.
Não uma vida, mas um temporário sem fim.
No telefone piscou uma nova mensagem de Alina: Marquei consulta com um advogado.
Se puderes, vamos juntas.
Vera escreveu uma resposta curta: Posso.
Depois disse ao telefone:
— Eu já não pago mais nada pelo seu filho.
— Vais mandá-lo para a cadeia.
— Isso não é problema meu.
— Sem-vergonha.
— Talvez.
Ela desligou.
Depois sentou-se à mesa, pegou numa caneta e, no verso de um recibo antigo, pela primeira vez em muitos anos, não escreveu uma despesa.
O primeiro ponto era retirar o ónus da datcha.
O segundo era recuperar as chaves de Gleb.
O terceiro era ajudar a filha a sair de tudo aquilo.
Nem uma palavra sobre como salvar Gleb.
E só então Vera percebeu que, pela primeira vez em muitos anos, diante dos seus olhos não estava o incêndio de outra pessoa, mas a sua própria vida.







