💖— JĂĄ decidimos tudo: vocĂȘ vai morar com a avĂł, e Serioja vai ficar no apartamento com a esposa, — anunciou a sogra. Mas ela se esqueceu de perguntar a opiniĂŁo de uma pessoa


Tatiana estava sentada na cozinha, apertando a filha contra o peito.

Alissa ainda nĂŁo entendia as palavras, mas jĂĄ percebia as entonaçÔes — e, naquele momento, agarrava-se com as duas mĂŁos Ă  blusa da mĂŁe.

O telefone sobre a mesa acendeu com uma chamada recebida.

Danil.

Era a terceira vez nos Ășltimos quarenta minutos.

Tatiana nĂŁo atendeu.

Aquele apartamento havia se tornado o lar dela dois anos e meio antes.

Viktor, pai de Danil, entregara-lhes as chaves logo na saĂ­da do cartĂłrio e dissera apenas:

— Morem aqui.

Não houve discursos solenes, condiçÔes nem ressalvas.

Apenas as chaves na palma da mão e um olhar sério e pesado.

Tatiana chorou naquele momento.

Ela sabia que a famĂ­lia de Danil nĂŁo era um bloco unido, mas uma colcha de retalhos costurada Ă s pressas.

Olga se divorciou de Viktor quando Danil tinha cinco anos.

Depois, casou-se com Guennadi, teve Serioja, e assim ficou a situação: dois meninos, dois pais, uma mãe e um nó que ninguém queria desatar.

Viktor nĂŁo desapareceu.

Ele aparecia, trazia coisas e levava Danil para passar os fins de semana com ele.

Guennadi também não era cruel e tratava o enteado de maneira correta.

Mas Tatiana logo percebeu que Olga fazia diferença entre os filhos.

NĂŁo abertamente e nĂŁo com palavras.

Com gestos, olhares e pela ordem em que servia o jantar.

Serioja era sempre o primeiro.

— VocĂȘ estĂĄ exagerando
 — Danil provavelmente teria interrompido a frase se ela tivesse atendido.

Mas ela nĂŁo atendeu.

Alissa adormeceu.

Tatiana colocou-a no berço e voltou para a cozinha.

Olhou para a tela — quarta chamada.

Ela tirou o som e guardou o telefone na gaveta das toalhas.

Duas horas antes, Olga havia telefonado e falado como se estivesse lendo um plano jĂĄ pronto.

Sem pausas e sem qualquer tom de pergunta.

— EntĂŁo, a situação Ă© a seguinte, — começou ela, em tom firme.

— Serioja se casou, não quer morar conosco, e isso está certo, porque os jovens precisam viver separados.

— O apartamento de vocĂȘs Ă© grande.

— VocĂȘ e Alissa vĂŁo morar temporariamente com Zinaida Pavlovna.

— Lá há dois quartos, espaço suficiente.

— E Serioja e Kristina vĂŁo se mudar para o apartamento de vocĂȘs.

Tatiana achou que tinha ouvido errado.

— Espere, Olga Nikolaevna.

— O que a senhora acabou de dizer?

— Eu disse que vocĂȘ vai se mudar.

— Temporariamente.

— Zinaida Pavlovna tem um temperamento difĂ­cil, Ă© claro, mas vocĂȘ vai suportar.

— NĂŁo serĂĄ por muito tempo, apenas atĂ© os jovens se estabilizarem.

— E Danil?

— Danil vai com vocĂȘ, naturalmente.

— Que diferença faz onde vocĂȘs vĂŁo morar?

— VocĂȘs sĂŁo jovens.

Tatiana encostou-se Ă  parede.

Estavam expulsando-a do apartamento que lhes tinha sido dado.

Mandando-a para a casa de uma idosa quase desconhecida, que mal suportava o prĂłprio neto.

Com um bebĂȘ de um ano.

E tudo aquilo era apresentado como um simples “arranjo”.

— Olga Nikolaevna, este apartamento pertence a Viktor.

Houve uma pausa.

Curta e furiosa.

— Viktor deu o apartamento a Danil.

— E Danil Ă© meu filho.

— Eu sei o que Ă© melhor para ele.

— E para mim?

— VocĂȘ Ă© a esposa dele.

— Portanto, tambĂ©m Ă© o melhor para vocĂȘ.

A conversa durou mais trĂȘs minutos.

Tatiana tentou manter a calma.

Ela sugeriu que conversassem, pensassem e decidissem tudo juntos.

Mas a sogra nĂŁo estava discutindo.

A sogra estava apenas comunicando uma decisĂŁo.

Danil chegou Ă  noite.

Tirou o casaco e o pendurou cuidadosamente.

Sentou-se diante de Tatiana.

Seus olhos desviavam-se para o lado.

— VocĂȘ nĂŁo atendeu, — disse ele.

— E vocĂȘ nĂŁo me avisou, — respondeu Tatiana.

— Avisar sobre o quĂȘ?

— Sobre o fato de sua mãe ter ligado para todo mundo, menos para mim, e decidido quem vai morar onde.

— Inclusive eu.

— Inclusive nossa filha.

Danil esfregou o queixo.

Tinha vinte e seis anos, mas, em momentos assim, parecia ter dezesseis.

A mesma expressĂŁo perdida e a mesma incapacidade de falar diretamente.

— Tania, escute.

— Serioja não tem onde morar.

— Kristina veio de um alojamento estudantil, ela não tem absolutamente nada.

— E por isso nós temos que sair?

— Não para sempre.

— Por uns seis meses, atĂ© eles se organizarem.

Tatiana se levantou.

— Danil, este apartamento foi dado por seu pai.

— Não por seu padrasto, mas por seu verdadeiro pai.

— Ele deu o apartamento para nós.

— Para vocĂȘ e para mim.

— Quando nos casamos.

— VocĂȘ se lembra?

— Lembro.

— Então me explique por que tenho que arrumar minhas coisas e ir para a casa de Zinaida Pavlovna, que diz em toda oportunidade que crianças são um castigo.

— Com um bebĂȘ nos braços.

— Por quĂȘ?

— Porque Serioja não tem para onde ir, — repetiu Danil.

— E nós temos?

— Para a casa de uma velha estranha?

— Ela nĂŁo Ă© estranha.

— É a avó de sangue de Serioja.

— E vai nos receber.

Ele olhava para o canto onde estava a cadeira infantil coberta de adesivos.

— Diga-me a verdade, — pediu ela baixinho.

— VocĂȘ concordou?

Ele ficou em silĂȘncio.

— Danil.

— E o que vocĂȘ queria que eu fizesse?!

— VocĂȘ conhece minha mĂŁe.

— O carro está registrado no nome dela.

— Se eu disser “não”, ela vai pegar as chaves.

— Como vou me deslocar depois?

— VocĂȘ trocou nosso apartamento por um carro?

— Eu não troquei nada!

— VocĂȘ permitiu que ela decidisse.

— Por mim.

— Por Alissa.

— Por nós.

— Por causa de um carro.

Danil levantou-se de repente.

— VocĂȘ nĂŁo entende!

— Minha mĂŁe Ă© assim, Ă© impossĂ­vel discutir com ela.

— De qualquer maneira, ela vai fazer o que quiser.

— É melhor esperar atĂ© tudo passar.

— Esperar.

— Num apartamento de dois quartos com uma mulher que odeia crianças.

— Ela não odeia crianças.

— No aniversário do próprio neto Serioja, ela deu a ele um pano de tirar pó.

— Com a inscrição: “Aprenda a limpar sua própria sujeira.”

— Ele tinha doze anos, Danil.

Danil sentou-se novamente.

Colocou as mĂŁos sobre os joelhos.

Respirou fundo.

— Tania, eu imploro.

— Aguente por algum tempo.

— Por mim.

— Por vocĂȘ, — repetiu ela.

— E o que vocĂȘ jĂĄ fez por mim?

— Pelo menos uma vez?

Ele nĂŁo respondeu.

*

Tudo aconteceu no terceiro dia.

Tatiana nĂŁo preparou nada.

NĂŁo fez malas.

NĂŁo ligou para Zinaida Pavlovna.

Ela simplesmente continuou vivendo.

Alimentava Alissa, passeava com ela no pĂĄtio e preparava o jantar.

Esperava que Danil recuperasse o bom senso.

Ele nĂŁo recuperou.

Na manhã de såbado, alguém tocou a campainha.

Tatiana abriu a porta e viu a sogra no corredor.

Guennadi estava atrĂĄs dela.

AtrĂĄs dele estavam Serioja e sua esposa, Kristina.

Todos carregavam caixas.

— Certo, afaste os móveis e coloque isso aqui, — ordenou a sogra, atravessando a soleira.

— Olga Nikolaevna, — Tatiana bloqueou a passagem.

— Eu não vou sair daqui.

— Tania, já chega, — disse Guennadi, atrás da esposa.

— Tudo já foi decidido.

— Danil sabe de tudo.

— Não vamos fazer cenas.

— Sem cenas?

— VocĂȘs entram na minha casa com as coisas de pessoas estranhas e me pedem para nĂŁo fazer cenas?

— Esta nĂŁo Ă© sua casa, — declarou Olga.

— Este Ă© o apartamento que meu ex-marido deu ao meu filho.

— E meu filho disse “sim”.

Kristina estava atrĂĄs de todos.

Permanecia em silĂȘncio.

Olhava para os prĂłprios tĂȘnis.

— Serioja, — Tatiana olhou para o meio-irmão do marido.

— VocĂȘ nĂŁo tem vergonha?

Serioja deu de ombros.

— Vergonha de quĂȘ?

— Metade do apartamento está vazia.

— VocĂȘs sĂŁo apenas duas aqui, vocĂȘ e a pequena, enquanto nĂłs nĂŁo temos nada.

— Sendo justos, nós precisamos mais.

— Sendo justos, — repetiu Tatiana.

— Este apartamento foi dado a Danil.

— Como presente de casamento.

— Pelo pai dele.

— Não pela senhora, Olga Nikolaevna.

— Não por Guennadi.

— Não por Serioja.

— Por Viktor.

— E nenhum de vocĂȘs perguntou a opiniĂŁo dele.

A sogra empalideceu por um segundo.

Depois ergueu o queixo com orgulho.

— Viktor não tem direito a dar opinião nesta família.

— Ele foi embora.

— Ele nĂŁo Ă© ninguĂ©m.

— Ele Ă© o proprietĂĄrio.

— Ele deu o apartamento! — gritou a sogra.

— Deu!

— Pronto, assunto encerrado!

— Ele deu, mas não transferiu a propriedade.

— O apartamento ainda está registrado no nome dele.

— VocĂȘs sabiam disso?

Houve silĂȘncio.

Guennadi trocou um olhar com a esposa.

Serioja colocou a caixa no chĂŁo.

Kristina continuava olhando para os tĂȘnis.

— Isso são apenas detalhes, — disse a sogra entre os dentes.

— Danil Ă© filho dele.

— Ele deu o apartamento ao filho.

— De palavra.

— Isso conta.

— Legalmente, não.

A sogra se aproximou.

— Escute-me bem, mocinha.

— Eu carreguei esta família nas costas durante vinte anos.

— Eu sei o que estou fazendo.

— VocĂȘ veio de fora e nĂŁo tem nada.

— Seus pais moram a quatrocentos quilîmetros daqui.

— VocĂȘ estĂĄ aqui com tudo pronto e ainda se atreve a reivindicar direitos?

— Eu não estou reivindicando nada.

— Estou no meu apartamento e estou pedindo que vocĂȘs saiam.

— Danil! — gritou Olga na direção da escada.

Danil estava no patamar.

Ele nĂŁo havia entrado.

Esperava que tudo se resolvesse sem sua participação.

— Danil, fale com sua esposa, — exigiu Olga.

— Tania
 — começou ele.

— Não, — interrompeu Tatiana.

— Não, Danil.

— Por favor


— De que lado vocĂȘ estĂĄ?

Ele permaneceu em silĂȘncio.

Mudava o peso de uma perna para a outra.

A caixa em suas mãos balançou.

— Do lado do bom senso, — conseguiu dizer.

Tatiana assentiu.

Calmamente.

Devagar.

Uma Ășnica vez.

— Entendi.

Ela tirou o telefone.

Procurou um nĂșmero.

Apertou o botĂŁo de chamada.

— Viktor Andreievitch?

— É Tatiana.

— Desculpe ligar no sábado.

— Preciso da sua ajuda.

— Agora mesmo.

— Eles estão aqui.

— Com caixas.

Houve uma pausa do outro lado da linha, que nĂŁo durou mais de um segundo.

— Estou indo, — respondeu Viktor.

*

Viktor chegou vinte e dois minutos depois.

Tatiana contou o tempo, pois permaneceu na entrada durante todo aquele período sem deixar ninguém passar.

A sogra gritava.

Guennadi inclinava-se sobre ela de forma ameaçadora.

Serioja tentava passar por ela para entrar no corredor.

Kristina havia descido para fumar no pĂĄtio.

O elevador emitiu um sinal.

As portas se abriram.

Viktor era baixo, forte, tinha o cabelo cortado bem curto e mĂŁos de trabalhador.

Ele nĂŁo tinha pressa.

Aproximou-se da porta.

Observou a multidĂŁo no patamar.

As caixas.

As bolsas.

Danil encostado Ă  parede.

— Olá a todos, — disse ele.

Olga se virou.

— NinguĂ©m chamou vocĂȘ.

— Chamaram, sim, — corrigiu Viktor.

— Tatiana me chamou.

— Para o meu apartamento.

— Tenho esse direito.

— Seu apartamento?

— VocĂȘ o deu!

— Eu entreguei as chaves.

— Não os documentos.

— O apartamento está registrado no meu nome.

— Sempre esteve.

— VocĂȘ sabia disso, Olia.

— Mas achou que eu não me envolveria.

Ele se virou para Serioja.

— VocĂȘ Ă© Serioja, certo?

— Filho de Guennadi?

— VocĂȘ nĂŁo Ă© nada para mim.

— Bem, sim, — murmurou ele.

— Pegue suas caixas e vá embora.

— Estou pedindo educadamente.

— Pela primeira e Ășltima vez.

— Este apartamento Ă© de Danil! — interveio Guennadi.

— Não, Guena.

— Este apartamento Ă© meu.

— Aqui está o certificado de propriedade.

— Aqui está o extrato do registro.

— Não tive preguiça de parar no caminho e tirar uma cópia.

Viktor tirou folhas dobradas do bolso interno da jaqueta.

— Quer olhar, olhe.

— Não quer, apenas acredite.

— Mas as caixas tĂȘm que sair.

Guennadi fitou os documentos.

Depois olhou para a esposa.

Em seguida, voltou a olhar para os papéis.

— Olia, vocĂȘ disse que ele tinha transferido a propriedade


Olga permaneceu em silĂȘncio.

— Olia!

— Eu achei que ele tivesse transferido, — conseguiu dizer.

— VocĂȘ nĂŁo achava, — rebateu Viktor Andreievitch.

— VocĂȘ sabia.

— Durante o divĂłrcio, eu lhe disse trĂȘs vezes que o apartamento ficaria no meu nome atĂ© Danil amadurecer.

— Exatamente para evitar que isso acontecesse.

— E agora aconteceu.

— Porque vocĂȘ decidiu que eu estava longe e nĂŁo ficaria sabendo.

Ele se virou para Danil.

— E quanto a vocĂȘ, parabĂ©ns.

— Um agradecimento especial.

— Um moleque que permitiu que a esposa e o bebĂȘ fossem jogados na rua para continuar com o carro da mamĂŁe.

— VocĂȘ ao menos entende o que acabou de acontecer?

— Uma mulher confiou a vida dela a vocĂȘ, e vocĂȘ a traiu.

— Por causa das chaves de um carro.

Danil abriu a boca.

— Pai, vocĂȘ nĂŁo entende


— Eu entendo tudo.

— Ajudei, não me intrometi e aguentei.

— Quando Olga se casou com Guena, não disse uma palavra.

— Quando vocĂȘ começou a atender apenas uma chamada a cada duas, engoli a mĂĄgoa.

— Quando me colocaram na mesa mais distante no seu casamento, eu sorri.

— Mas isto, não.

— Agora chega.

— Viktor, não faça um circo, — sibilou Olga.

— Circo Ă© quando quatro adultos vĂȘm expulsar uma mĂŁe jovem com um bebĂȘ de um apartamento que nĂŁo lhes pertence.

— Eu não estou fazendo circo.

— Estou colocando ordem.

Ele entrou no apartamento.

Tatiana estava na entrada com Alissa nos braços.

A menina dormia apesar do barulho.

— Tania, junte seus documentos, — disse Viktor em voz baixa.

— Seu passaporte e a certidão de nascimento de Alissa.

— Depois vamos embora.

— Para onde? — perguntou Tatiana.

— Ao cartório.

— Hoje Ă© sĂĄbado, mas Lidia Ivanovna trabalha atĂ© as quatro.

— Liguei para ela quando estava no carro.

Tatiana entrou no quarto.

Viktor permaneceu no vĂŁo da porta, bloqueando a passagem.

— O que vocĂȘ estĂĄ planejando? — perguntou Olga, do patamar.

Viktor olhou para ela.

— Estou planejando fazer o que deveria ter feito há muito tempo.

— Vou transferir a propriedade do apartamento.

— Por meio de uma doação.

— Mas não para Danil.

— Para quem?!

— Para minha neta.

— Alissa.

Olga deu um passo para trĂĄs.

— VocĂȘ
 vocĂȘ nĂŁo pode fazer isso.

— Ela Ă© menor de idade.

— Tem apenas um ano!

— Posso.

— Uma doação para um menor Ă© feita por meio de seu representante legal.

— Tatiana Ă© a mĂŁe dela.

— Ela assinará em nome de Alissa.

— Tudo está dentro da lei, Olia.

— Tudo Ă© perfeitamente legal.

— Isso
 isso Ă© loucura!

— Não.

— É a Ășnica maneira de proteger a criança de vocĂȘs.

— De vocĂȘs, chacais.

Guennadi tirou os Ăłculos.

Limpou-os com a ponta da camisa.

Depois os colocou novamente.

Tatiana percebeu que os dedos dele tremiam.

— Viktor Andreievitch, — começou ele.

— Vamos conversar com calma


— Eu estou calmo, Guena.

— Estou completamente calmo.

— VocĂȘ queria mandar minha nora e minha neta morar com sua mĂŁe, que considera atĂ© o prĂłprio neto um peso.

— Foi vocĂȘ quem teve essa ideia.

— Não Olga.

— Olga nĂŁo teria coragem de fazer isso sozinha, precisava de alguĂ©m para organizar tudo.

— E vocĂȘ organizou.

Guennadi fechou a expressĂŁo.

— Eu estava fazendo isso pela família.

— Fazer algo pela família significa considerar os dois lados.

— VocĂȘ estava fazendo isso por seu Serioja.

— À custa da minha neta.

Serioja permanecia em pé com a caixa nas mãos, respirando com dificuldade.

Kristina voltou do påtio, subiu ao patamar e ficou parada, avaliando a situação.

— Serioja, vamos embora daqui, — disse ela baixinho.

— Para onde?! — respondeu ele de forma ríspida.

— Para a casa da avó?

— Para aquele buraco?

— Para qualquer lugar.

— Este lugar nĂŁo Ă© nosso.

— Eu consigo ver isso.

Serioja colocou a caixa no chĂŁo.

Sentou-se sobre ela.

Olhou para o pai.

Guennadi desviou os olhos.

*

Tatiana saiu do quarto com uma bolsa.

Havia colocado dentro dela seu passaporte, a certidĂŁo de nascimento de Alissa e os outros documentos.

Alissa estava em seus braços, enrolada em um cobertor.

Dormia.

Profundamente, teimosamente, como só uma criança sabe dormir.

— Está pronta? — perguntou Viktor Andreievitch.

— Sim.

Eles foram até a entrada.

Viktor segurou a porta aberta.

Tatiana atravessou a soleira.

O patamar estava lotado de pessoas e caixas.

Olga agarrou Viktor pela manga.

— VocĂȘ estĂĄ destruindo a famĂ­lia!

— Que família, Olia?

— Aquela em que a nora Ă© jogada na rua com um bebĂȘ?

— Ou aquela em que o filho vende a esposa por um carro?

— Mostre-me essa família e eu pedirei desculpas.

— Danil Ă© seu filho!

— Sim.

— É meu filho.

— E Ă© exatamente por isso que isso dĂłi.

— Mas Alissa tambĂ©m Ă© do meu sangue.

— Ela não pode se defender sozinha.

— Ele podia, mas não o fez.

Viktor tirou uma chave do bolso.

Trancou a porta do apartamento.

A fechadura estalou, e o silĂȘncio caiu sobre o patamar.

— Danil tinha chaves, — disse Olga.

— Danil me entregou as dele quando pedi.

— Há dez minutos.

— Pelo telefone.

— Ele sabia que eu estava vindo.

— E não fez nada para me impedir.

— Porque, no fundo, entende que estou certo.

Danil estava encostado Ă  parede.

Branco como papel.

Mudo.

— Pai
 — conseguiu dizer.

— Quando aprender a proteger sua família, conversaremos.

— Enquanto isso, continue dirigindo o carro da sua mãe.

— JĂĄ que ele significa mais para vocĂȘ.

Viktor deixou Tatiana passar em direção ao elevador.

Apertou o botĂŁo.

As portas se abriram.

— Para onde vocĂȘs vĂŁo?! — gritou Olga.

— Para onde estão indo?!

— Ao cartório, — respondeu Viktor, sem se virar.

— Eu já disse.

— VocĂȘ nĂŁo tem esse direito!

— É propriedade de Danil!

— Não, Olia.

— É minha propriedade.

— É minha assinatura que está no registro.

— É meu passaporte que consta no sistema.

— São minhas paredes, meu chão e meu teto.

— E sou eu quem decide a quem tudo isso pertencerá.

— Já decidi.

As portas do elevador começaram a se fechar.

No Ășltimo instante, Guennadi deu um passo Ă  frente.

— Viktor, espere.

— Talvez possamos chegar a um acordo.

— Serioja está disposto a pagar aluguel.

— Um valor simbólico


Viktor segurou a porta com a mĂŁo.

Olhou para Guennadi.

— Guena, vocĂȘ Ă© um homem inteligente.

— Pelo menos parece ser.

— Diga-me: se alguĂ©m aparecesse na sua casa com caixas e dissesse que vocĂȘ teria de sair porque outra pessoa passaria a morar ali, vocĂȘ ofereceria um aluguel simbĂłlico?

— Ou diria o que vou dizer agora?

— O quĂȘ?

— Adeus.

As portas se fecharam.

No elevador, Tatiana apertou Alissa com mais força contra o peito.

Olhou para o sogro.

Ele observava os botÔes do primeiro andar e do térreo.

— Viktor Andreievitch, — disse ela.

— Obrigada.

— NĂŁo hĂĄ de quĂȘ, Tania.

— Eu deveria ter interferido antes.

— Muito antes.

— Quando Danil levou vocĂȘ para nos conhecer e Olga perguntou Ă  mesa quanto seus pais ganhavam, eu jĂĄ deveria ter reagido.

— Fiquei em silĂȘncio.

— E veja atĂ© onde isso chegou.

— O senhor nĂŁo Ă© culpado.

— Sou, sim.

— Meu filho Ă© um homem fraco.

— E eu permiti que ele se tornasse assim.

— Deixei isso acontecer.

— Afastei-me quando deveria ter permanecido ao lado dele.

— Ele pode mudar.

— Pode.

— Mas não hoje.

— Hoje, preciso proteger vocĂȘ e Alissa.

— Porque ele nĂŁo protegeu vocĂȘs.

O elevador parou.

Eles saĂ­ram para o pĂĄtio.

O carro de Viktor estava estacionado diante do prédio, com o motor ainda ligado.

— O cartório fica na Rua do Rio, — disse Viktor, abrindo a porta traseira.

— Quinze minutos daqui.

— Liguei para lá, os documentos serão preparados rapidamente.

— Viktor Andreievitch, e se Danil


— Se ele vier pedir perdão?

Viktor sentou-se ao volante.

Virou-se para ela.

— Tania, perdĂŁo Ă© uma coisa.

— O apartamento Ă© outra.

— O apartamento ficará registrado no nome de Alissa.

— Ponto final.

— Que Danil primeiro prove que Ă© pai.

— Depois veremos o resto.

— NinguĂ©m mais vai aparecer na sua porta com caixas.

— NinguĂ©m.

— Eu garanto.

O carro começou a andar.

Tatiana observou a entrada do prédio ficar cada vez menor pelo vidro traseiro.

No quarto andar, no patamar, os outros provavelmente ainda estavam lĂĄ.

Com suas caixas.

Com seus planos.

Seus planos tinham acabado de desmoronar.

Alissa acordou, olhou para Tatiana com seus grandes olhos cinzentos e sorriu.

Tatiana sorriu de volta.

— Estamos indo, minha pequena, — disse ela.

— Estamos indo para casa.

— Mais precisamente, estamos indo buscar a sua casa.

Viktor encontrou o olhar dela pelo espelho retrovisor.

Assentiu.

Brevemente.

Seriamente.

Como no dia em que lhes entregou as chaves em frente ao cartĂłrio.

Mas, desta vez, ele nĂŁo estava entregando chaves.

Estava entregando um futuro.

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