Vera segurava a caneca com as duas mãos, aquecendo os dedos, e olhava para Artiom com calma, quase com carinho.
— Ainda bem que você mesmo tocou nesse assunto, — disse ela em voz baixa.

— Eu pensei que teria de começar.
— Começar o quê? — ele sorriu com desdém, esparramando-se na cadeira.
— Você ao menos entende que, sem mim, vai ficar sem nada?
— Explique.
— Estou ouvindo com atenção.
— O que há para explicar? — Artiom estalou os dedos, como se chamasse um garçom.
— O carro é meu.
— A casa de campo é minha.
— E também vou levar o cachorro, para você não ficar aqui choramingando à noite.
Vera deu um pequeno gole e pousou a caneca na mesa com muito cuidado, como se tivesse medo de acordar uma criança.
— A propósito, Graf só se aproxima de você quando você está com linguiça, — observou ela.
— Mas isso são detalhes.
— Continue.
— Que detalhes?!
— Estou falando sério.
— Se começar a se fazer de esperta, vai sair deste apartamento só de chinelos, entendeu?
— Artiom, — ela sorriu com o canto da boca.
— Você está bufando de um jeito tão ameaçador que o gato do vizinho provavelmente se escondeu debaixo do sofá.
— Você está zombando de mim?!
— Nem um pouco.
— Só estou apreciando o espetáculo.
Ele se inclinou para a frente, e sua voz começou a subir até alcançar tons estridentes.
— Verunia, pelo visto você não está entendendo.
— Vou acabar com você.
— Advogados, documentos, processos.
— Vou deixar você na miséria.
— Na miséria?
— Onde exatamente?
— Em uma viagem ao redor do mundo? — Vera inclinou a cabeça para o lado.
— Tentador, mas meus planos são mais modestos.
— Sempre com essas suas piadinhas! — ele bateu a palma da mão na mesa.
— Estou falando da sua vida, e você fica rindo!
— Eu não estou rindo.
— Estou sorrindo.
Artiom cerrou os maxilares e começou a falar devagar, pronunciando cada palavra entre os dentes, como se estivesse ensinando a ela as regras do jogo.
— Escute bem.
— Vou levar tudo o que conquistamos.
— De acordo com a lei.
— Entendeu?
— De acordo com a lei.
— Entendi, — Vera assentiu.
— A lei é uma coisa boa.
— Principalmente quando se lê até o fim.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que ainda tenho paciência com você.
— Por enquanto.
Artiom andava em círculos pela cozinha, gesticulava com as mãos e parecia muito convincente para si mesmo.
— Quem comprou o carro?
— Eu.
— Quem dirigia, pagava a gasolina e levava à oficina com o próprio dinheiro?
— Eu.
— Portanto, ele é meu.
— Você dirigia, sim, — concordou Vera.
— Mas preciso lembrar em nome de quem ele está registrado?
— Que diferença faz em nome de quem ele está registrado?!
— O importante é quem o usava!
— Ah, que lógica maravilhosa.
Vera recostou-se no encosto da cadeira.
— Eu uso o elevador todos os dias.
— Vou buscá-lo e levá-lo para casa.
— Pare de bancar a palhaça! — rugiu ele.
— De quem é a casa de campo?
— Eu pintei a cerca de lá!
— Uma vez.
— Três anos atrás.
— E, aliás, naquele dia você também pintou o gato.
— O gato de novo!
— O que o gato tem a ver com isso?!
— O gato não tem nada a ver, — concordou ela suavemente.
— Mas a cerca e a casa de campo pertencem à minha mãe, Artiom.
— E o carro também está registrado no nome dela.
— O terreno também.
— Você sabe disso muito bem.
— Alô, tem alguém aí?
Ele parou.
Seus olhos começaram a se mover inquietos e depois voltaram a se acender de raiva.
— E daí?!
— Vamos transferir tudo!
— Vou provar que investi dinheiro!
— Com o quê?
— Com uma lata de tinta e um gato estragado?
— Você!… — ele quase ficou sem ar.
— Você sempre foi ardilosa!
— Colocou as mãos em tudo, registrou tudo no nome dos seus parentes, e eu fiquei feito um idiota!
— Nessa parte concordo parcialmente, — Vera assentiu.
— Não na parte de eu ter colocado as mãos em tudo, mas na parte do idiota.
— O que você disse?!
— Eu disse que você mesmo nunca registrou nada e agora está indignado porque não há nada para dividir.
— É como ir ao casamento de outra pessoa e ficar ofendido porque não lhe deram um pedaço de bolo.
Artiom inclinou-se sobre a mesa, apoiando os nós dos dedos no tampo.
— Estou avisando você.
— Por bem.
— Entregue a casa de campo, entregue o carro e nos separaremos em silêncio.
— E se não for por bem? — Vera ergueu as sobrancelhas com curiosidade sincera.
— O que acontece então?
— Vai respirar ameaçadoramente na minha direção?
— Vou destruir a sua vida!
— Artiom, em dois anos você nem conseguiu instalar o varão da cortina no quarto.
— De que vida você está falando?
— O que exatamente vai destruir?
Ele abriu a boca para dizer algo devastador, mas naquele momento a campainha tocou.
*
Lidia, mãe de Artiom, estava parada à porta.
Ela tirou o casaco, pendurou-o no gancho e entrou na cozinha com o passo seguro de alguém que não viera fazer uma visita, mas tratar de um assunto.
— Eu ouvi tudo ainda no corredor do prédio, — disse ela com tranquilidade.
— Vocês estão gritando para o prédio inteiro ouvir.
— Não sou eu que estou gritando, é ela que me provoca! — Artiom disparou imediatamente.
— Mãe, diga alguma coisa a ela!
— Diga que eu tenho direito!
Lidia sentou-se lentamente em uma cadeira, olhou para o filho e depois para Vera.
— A que você tem direito, meu filho? — perguntou calmamente.
— Enumere.
— Ao carro!
— À casa de campo!
— Sou o marido, sou o chefe da família!
— O chefe da família, — repetiu Lidia, balançando quase imperceptivelmente a cabeça.
— Deixe-me lembrar uma coisa.
— Mãe, não comece com as suas histórias…
— Cale-se, — interrompeu-o, e sua voz ficou firme.
— Quando seu pai e eu nos divorciamos, ele levou tudo.
— Entende?
— Tudo.
— O carro, o apartamento, as economias.
— E, segundo os documentos, ele estava certo, porque tudo realmente pertencia a ele.
— Então eu também…
— Você está na situação oposta, — Lidia olhou diretamente para ele.
— Você não tem um único documento.
— Nada.
— E está sentado aqui exigindo o que pertence aos outros.
— Isso não é um direito, Artiom.
— É descaramento.
— De que lado você está, afinal?! — explodiu ele.
— Do lado da justiça, — respondeu Lidia secamente.
— E hoje ela não está do seu lado.
Vera levantou-se em silêncio, colocou a chaleira no fogo e tirou uma terceira caneca.
— Lidia Pavlovna, prefere com limão ou com hortelã?
— Com hortelã, Vera, obrigada.
— Vocês vão mesmo ficar aqui tomando chá?! — Artiom quase se engasgou de raiva.
— Vocês se uniram contra mim?!
— Ninguém se uniu contra você, — disse a mãe dele com calma.
— Eu só não quero descobrir um dia que meu filho expulsou uma mulher do próprio apartamento enquanto balançava as chaves de outra pessoa.
*
Artiom andava de uma parede à outra, sua voz falhava e as veias de suas têmporas estavam inchadas.
— Isso é injusto!
— Vocês duas estão contra mim!
— Então agora eu não sou ninguém?!
— Você é um homem adulto que, dez minutos atrás, ameaçava me expulsar daqui só de chinelos, — lembrou Vera calmamente.
— Sente-se.
— Termine de beber.
— Escute.
— Não vou ouvir nada!
— Vai, sim, — disse Lidia em um tom que o fez sentar-se.
Vera colocou uma caneca diante dele e apoiou o quadril no armário, cruzando os braços com naturalidade, sem qualquer desafio.
— Agora é a minha vez de mostrar as cartas, — disse ela.
— Você passou a noite inteira me assustando com a lei.
— Então vamos falar de acordo com a lei.
— Vamos! — ele ergueu o queixo.
— O carro pertence à minha mãe.
— A casa de campo também é dela e foi registrada antes do nosso casamento.
— Não há nada para dividir, porque isso não é patrimônio comum do casal.
— Zero.
— Vazio.
— E o apartamento?!
— Nós moramos aqui!
— Este apartamento me foi dado de presente.
— Existe uma escritura de doação, Artiom.
— De antes de você.
— Você se mudou para cá com uma única mala e uma cafeteira.
— A cafeteira é minha! — disparou ele e imediatamente se calou, percebendo como aquilo soara ridículo.
Vera sorriu.
— Leve a cafeteira.
— Sinceramente, de todo o coração.
— De qualquer forma, ela borbulha de manhã como um trator velho.
A sogra soltou uma risadinha discreta dentro da caneca.
— Portanto, não temos nada para dividir, — continuou Vera.
— Nem carro, nem casa de campo, nem metros quadrados.
— E quanto ao cachorro…
— Graf, venha aqui.
O cão levantou-se preguiçosamente do canto, caminhou até ela e sentou-se aos seus pés, encostando o corpo em sua perna.
— Está vendo? — ela coçou atrás da orelha dele.
— Ele fez a escolha sem advogados.
— Isso é injusto, — sussurrou Artiom.
— Ele vinha até mim…
— Por causa da linguiça, — lembrou Vera.
— E isso, convenhamos, não é amor, é comércio.
Artiom ficou sentado, segurando a caneca com as duas mãos.
Ele procurava uma brecha, repassava ameaças na cabeça, mas todas desmoronavam assim que tentava formulá-las.
— Vocês… vocês planejaram tudo isso com antecedência, — conseguiu dizer por fim.
— Não, — respondeu Vera calmamente.
— Eu simplesmente cuidei dos documentos no momento certo, enquanto você pintava o gato.
— Chega de falar do gato!
— Está bem.
— Não vamos falar do gato.
Ela se sentou diante dele.
— Artiom, eu não estou com raiva de você.
— Não mais.
— Cansei de sentir raiva por volta do segundo ano da nossa vida juntos.
— Então você não se importa comigo? — o lábio dele tremeu quase de forma lamentosa.
— Não é que eu não me importe com você, — disse ela suavemente.
— Eu apenas me sinto tranquila em relação a você.
— É um sentimento diferente, e para você é muito pior.
Lidia colocou a caneca na mesa e se levantou.
— Meu filho, escute-me pela última vez hoje, — disse ela.
— Certa vez fiquei sem nada porque acreditei em palavras bonitas e não li os documentos.
— Não quero que Vera repita o meu erro.
— E também não quero que você repita o erro do seu pai.
— Então sente-se, respire e aceite uma coisa simples.
— Aqui, nada pertence a você.
— Você não construiu nada.
— E para onde eu vou? — perguntou ele em voz baixa.
— Para o lugar de onde veio, — respondeu Vera sem raiva.
— Com a mala e a cafeteira.
— Vou até lhe dar uma caixa, para que você não perca nada pelo caminho.
Ele ficou em silêncio por muito tempo.
Depois levantou os olhos, e já não havia neles nem gritos agudos nem ameaças, apenas a confusão de um homem de quem haviam puxado o banco debaixo dos pés enquanto ele estava em cima dele balançando o punho.
— E se eu quiser ficar? — conseguiu dizer.
— Como uma pessoa civilizada.
— É tarde demais, — respondeu Vera calmamente.
— Sabe qual é a diferença entre nós?
— Você enrolou, ameaçou e procurou algo para tomar.
— Eu simplesmente tomo decisões.
— Rapidamente.
— E hoje eu tomei a minha decisão.
— Assim, de repente?
— Para que prolongar?
— Prolongar as coisas é a sua especialidade.
— Eu funciono de outro jeito.
A sogra aproximou-se da porta e se virou.
— Vera, deixe as chaves do carro e os documentos da casa de campo com você, — disse ela.
— Depois você os entrega à sua mãe, e eu mesma ligo para ela.
— E você, Artiom, arrume as suas coisas.
— Vou acompanhá-lo até a entrada do prédio, para que no caminho você não se lembre de mais alguma coisa que seja supostamente “sua”.
— Mãe!
— E não se esqueça da cafeteira, — acrescentou Vera, entregando-lhe a caixa.
— Eu prometi.
Artiom levantou-se, pegou a caixa de forma desajeitada e apertou-a contra o peito como uma criança aperta a mochila no primeiro dia de escola, quando tudo ainda parece assustador e incompreensível.
— Você vai se arrepender… — começou ele por hábito, mas parou ao encontrar o olhar dela.
— Não precisa, — disse Vera calmamente.
— O final desta cena já está escrito.
— E, imagine só, nele não há carro, nem casa de campo, nem Graf.
— Apenas você e a cafeteira.
— Cuidem um do outro.
Ele permaneceu ali por mais um segundo, como se esperasse que ela mudasse de ideia, risse e dissesse: “Está bem, fique.”
Mas ela simplesmente abriu a porta diante dele.
— Graf, despeça-se, — disse ela.
O cão latiu uma vez, de forma curta e objetiva, e depois se virou para a tigela.
— Está vendo? — Vera sorriu.
— Nem ele gosta de despedidas prolongadas.
A porta se fechou suavemente, sem bater.
Vera girou a chave, apoiou-se no batente e soltou o ar com leveza, como alguém que finalmente larga uma bolsa pesada.
— Lidia Pavlovna vai acompanhá-lo, — disse ela em voz alta, embora já não houvesse ninguém atrás da porta.
— Quanto a mim, acho que vou tomar um chá.
— Com hortelã.
— E sem ameaças.
Graf se aproximou, sentou-se ao lado dela e apoiou a cabeça em seu joelho.
— Pronto, dividimos tudo, — disse ela baixinho para ele.
— O sofá para você.
— O silêncio para mim.
— E a cafeteira para ele.
— Na minha opinião, foi justo.
E ela riu com calma e leveza, como uma pessoa que finalmente havia colocado tudo no devido lugar.







