Alisa colocou quatro pratos sobre a mesa, alinhados com precisão, como as letras de uma única palavra.
Fez isso com calma, sem movimentos desnecessários, como se estivesse a preparar uma simples refeição de domingo.

Artiom permaneceu parado à porta, olhando para a mesa como se tentasse decifrar nela uma língua desconhecida.
— Quatro lugares à mesa — disse ele.
— Estamos à espera de convidados?
— Estamos — respondeu Alisa.
— Convidei pessoas que são importantes para ti.
— Senta-te, ainda é cedo.
— Que pessoas? — perguntou ele com um sorriso irónico.
— Hoje estás muito misteriosa.
— Convidei a tua mãe e a tua amante para o jantar, precisamos descobrir quem deve o quê a quem.
Artiom ficou imóvel.
O sorriso irónico ainda permanecia no seu rosto, mas mal se sustentava, como um quadro preso por um único prego.
Ele deu um passo em frente, depois mudou de ideia e ficou onde estava.
— Que tipo de brincadeira é esta, Alisa?
— Não é uma brincadeira — respondeu ela, ajeitando um garfo.
— Repara que estou a falar com calma.
— Não estou a gritar nem a fazer uma cena.
— Quero apenas que todos nos sentemos e conversemos honestamente.
— Já que tu não sabes ser honesto.
— Tu ouves o que estás a dizer? — a voz dele ficou mais aguda.
— Que amante?
— Enlouqueceste?
— Karina — disse Alisa com serenidade.
— Até sei que tipo de café ela bebe.
— Sem açúcar, com leite de amêndoa.
— Compraste-lhe o mesmo quando estávamos de viagem, lembras-te?
— Disseste que ias sozinho.
Artiom desviou o olhar.
Aquele movimento disse mais do que ele gostaria.
— Senta-te — pediu ela.
— Por favor.
— Não estou zangada.
— Quero compreender.
— Talvez eu esteja a fazer algo errado, talvez te tenha perdido algures pelo caminho.
— Explica-me.
— Não há nada para explicar — resmungou ele.
— Foste tu que inventaste tudo e te deixaste levar.
— Karina é apenas uma amiga, nada mais.
— Muito bem — Alisa assentiu.
— Então não tens nada a temer durante o jantar.
— A tua amiga virá, a tua mãe virá e tudo ficará claro.
— Estou a dar-te uma oportunidade.
— Quero mesmo dar-ta.
Ele permaneceu em silêncio.
Os músculos do maxilar contraíam-se.
— Aguentei durante muito tempo, Artiom — continuou ela em voz baixa.
— Fechei os olhos aos teus regressos tardios.
— Ao facto de teres começado a esconder o telefone.
— Ao facto de eu ter passado a ser como um móvel na tua vida.
— Esperei que viesses contar-me a verdade por iniciativa própria.
— E agora?
— Vais organizar uma festa?
— Não uma festa.
— Uma conversa.
— Ainda espero que saiamos dela como uma família — disse ela, olhando-o diretamente nos olhos.
— Mas, se não for assim, que pelo menos saiamos como seres humanos.
Três dias antes daquele jantar, Alisa estava sentada num pequeno café com a amiga.
Veronika fazia girar uma colher entre os dedos e olhava para ela com preocupação.
— Tens mesmo a certeza? — perguntou Veronika.
— Talvez seja realmente apenas uma conhecida.
— Não se escreve a uma simples conhecida à meia-noite: “Boa noite, meu querido” — respondeu Alisa.
— Eu não fui procurar de propósito.
— Foi ele próprio que deixou tudo aberto.
— Ao que parece, já tinha deixado de me levar a sério há muito tempo.
— E o que vais fazer?
— Esclarecer tudo — disse Alisa, dando um gole no chá.
— Não sou daquelas que passam meio ano a andar às voltas.
— Quando há podridão numa casa, não se tenta convencê-la.
— Corta-se pela raiz.
— Uau — Veronika sorriu.
— Isso soa ameaçador.
— Estou cansada de ser conveniente, Veronika.
— Sabes o que há de errado no papel da mulher conveniente?
— Deixam de reparar em ti.
— Tornas-te como o ar.
— Enquanto existe, ninguém se importa.
— Só se lembram dele quando já não conseguem respirar.
— E a mãe dele?
— Porque é que a estás a convidar?
Alisa ficou em silêncio por um momento, escolhendo as palavras.
— Porque a minha sogra dizia-me sempre: “Família significa paciência, minha filha, uma mulher deve saber perdoar.”
— E, ao mesmo tempo, piscava o olho ao filho quando ele chegava tarde.
— Ela sabe da Karina.
— Tenho quase a certeza.
— Quero que todos se sentem à mesma mesa e se olhem de frente.
— Sem sussurros pelos cantos.
— Não tens medo? — Veronika inclinou-se mais perto.
— E se as duas se virarem contra ti?
— Que se virem — respondeu Alisa, encolhendo os ombros.
— O medo aparece quando não sabes o que fazer.
— E eu sei.
— Já tinha decidido tudo há uma semana.
— O jantar é apenas uma cortesia.
— Estou a dar-lhes a oportunidade de escolher como querem parecer nesta história.
Veronika abanou a cabeça.
— Mudaste.
— Não mudei — disse Alisa, juntando as migalhas da mesa na palma da mão.
— Apenas deixei de ter medo de ficar sozinha.
— Quando deixas de ter medo disso, o mundo torna-se surpreendentemente simples.
Ela pagou, vestiu o casaco e voltou-se junto à porta.
— O mais engraçado é que ele ainda pensa que eu me agarro a ele.
— Mas eu agarro-me a mim própria.
— É uma coisa completamente diferente.
*
Na véspera, Alisa foi para fora da cidade, até à casa onde vivia a sogra.
O caminho atravessava um velho jardim, e os ramos rangiam com a brisa leve.
Nina abriu a porta e ficou surpreendida, porque a nora nunca aparecia sem avisar.
— Alisa?
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu — respondeu Alisa, entrando e tirando o casaco.
— Vamos sentar-nos.
— Não vou tomar muito do seu tempo.
— O Artiom sabe que estás aqui?
— Em breve saberá — respondeu ela, sentando-se na beira do sofá.
— Nina, vim fazer-lhe uma pergunta.
— E peço-lhe que responda com sinceridade.
— Sabia da Karina?
A mulher baixou os olhos e ajeitou a toalha da mesinha.
— Não percebo de quem estás a falar.
— Percebe, sim — a voz de Alisa continuou calma.
— Ele trouxe-a aqui.
— Duas vezes.
— Sei disso porque a sua vizinha os viu e acabou por me contar sem perceber que estava a dizer demais.
— Portanto, poupemo-nos ao teatro.
A sogra apertou os lábios.
Já não restava nela nada daquela mulher afetuosa que ensinara Alisa a fazer uma tarte de cogumelos.
— E daí? — disse por fim, com dureza.
— Um homem tem direito a um momento de fraqueza.
— O quê, és santa?
— Não lhe deste filhos a tempo e estás sempre ocupada com os teus próprios assuntos.
— Porque é que estás surpreendida?
— Finalmente chegámos à verdade — disse Alisa, assentindo.
— Portanto, não só sabia.
— Como também aprovava.
— Eu protejo o meu filho — respondeu a sogra de forma cortante.
— E continuarei a protegê-lo.
— E tu vieste aqui exigir os teus direitos.
— Sabes quem és nesta casa?
— Ninguém.
— Entraste na nossa vida, aproveitaste-te de nós e agora fazes-te de vítima.
Alisa ouviu tudo com calma, quase com curiosidade.
— Obrigada pela franqueza — disse ela, levantando-se.
— Acabou de eliminar as minhas últimas dúvidas.
— Pensei que talvez tivesse percebido mal alguma coisa ou que estivesse a ser injusta.
— Mas a senhora colocou tudo no devido lugar.
— Aonde vais?
— Senta-te, ainda não terminámos!
— Terminámos, sim — respondeu Alisa, vestindo o casaco.
— Amanhã espero-a para jantar.
— A si e à Karina.
— Venham as duas.
— Já que vivem tão harmoniosamente pelas minhas costas, vivam durante vinte minutos frente a frente.
— Que descaramento! — exclamou a sogra, levantando-se e apoiando-se na mesa.
— Estás no teu perfeito juízo, rapariga?
— Estou — respondeu Alisa, abrindo a porta.
— Desejo-lhe o mesmo.
— Até amanhã.
*
No dia do jantar, Karina foi a primeira a chegar.
Entrou como se já conhecesse a casa, pendurou a mala no encosto da cadeira e observou a mesa.
— Bonito — disse ela.
— Não esperava que fosses capaz de um gesto destes.
— Gestos são a minha especialidade — respondeu Alisa.
— Senta-te.
— Chá ou vinho?
— Não vais envenenar-me? — perguntou Karina com um sorriso irónico.
— Para quê? — respondeu Alisa, servindo o chá com calma.
— Não vales o trabalho.
Artiom estava junto à parede, alternando o olhar entre as duas mulheres.
Esperava claramente gritos, lágrimas e pratos partidos.
O silêncio e a educação assustavam-no muito mais.
— Alisa, talvez não seja preciso fazer isto — conseguiu ele dizer.
— Deixa-me…
— Falemos depois, a sós.
— Não — respondeu ela, pousando o bule.
— A sós, vais mentir.
— Mas diante de testemunhas, não.
— As testemunhas são uma coisa excelente.
— Disciplinam as pessoas e fazem-nas filtrar os pensamentos.
A campainha tocou.
Nina entrou de lábios apertados, sentou-se em frente a Karina e examinou-a da cabeça aos pés.
— Então és tu — disse entre dentes.
— E a senhora deve ser aquela mãe que permite tudo — respondeu Karina calmamente.
— Muito conveniente.
— O filho debaixo da asa da mãe, com autorização para tudo.
— Não te atrevas a falar comigo nesse tom — indignou-se Nina.
— Meninas — disse Alisa, levantando a mão.
— Não discutam antes da hora.
— Não foi para isso que vos reuni.
— Reuni-vos para descobrirmos quem deve o quê a quem.
— Vamos por partes.
Todos ficaram em silêncio.
Alisa sentou-se à cabeceira da mesa e entrelaçou as mãos.
— Karina, começamos por ti.
— Pensavas que tinhas encontrado um homem livre, injustiçado por uma esposa má.
— Foi isso que ele te contou?
— Ele dizia que vocês já eram estranhos um para o outro há muito tempo — respondeu Karina, erguendo ligeiramente o queixo.
— Que tudo entre vocês tinha acabado.
— E o apartamento onde vocês se encontravam — continuou Alisa — a quem pensavas que pertencia?
— A ele.
— Metade pertence-lhe.
— A outra metade pertence-me.
— Portanto, estavas sentada na minha casa, a beber o meu café, enquanto eu trabalhava.
— Obrigada por, pelo menos, lavares a loiça depois.
Karina ficou constrangida e lançou um olhar rápido a Artiom.
— Disseste-me que o apartamento era teu.
— Eu… — começou ele.
— Cala-te — interrompeu a mãe.
— Não te metas, eu resolvo isto.
— Alisa, transformaste tudo num circo.
— Ninguém te deve nada.
— Se queres divorciar-te, divorcia-te, mas discretamente e sem envergonhar a família.
— Aí está — disse Alisa, voltando-se para ela.
— A palavra mais interessante.
— “Dever.”
— Nina, há dois anos pediu-me emprestada uma grande quantia.
— Lembra-se?
— “É para o tratamento, minha filha, eu devolvo, tu és da família.”
— Devolveu?
— Nem um único rublo.
— Mas agora eu não sou ninguém para si.
A sogra empalideceu.
— Isso é uma história completamente diferente.
— É exatamente a mesma história — respondeu Alisa, com uma voz cada vez mais firme.
— A história de como é conveniente considerar-me da família quando precisam de dinheiro e uma estranha quando é necessário proteger o seu filho.
— Durante muito tempo fechei os olhos a isso.
— Agora abri-os.
— Quem pensas que és? — a sogra levantou a voz.
— Estás aí sentada a julgar toda a gente!
— Achas que alguém vai precisar de ti sem ele?
— Já não preciso de ser necessária para alguém — respondeu Alisa, olhando-a diretamente nos olhos.
— Basta-me ser necessária para mim própria.
— E sabe uma coisa?
— Dou-me perfeitamente bem.
Artiom aproximou-se da mesa, e a raiva irrompeu na sua voz.
— Chega!
— Acaba com esta palhaçada.
— Estás a humilhar-me diante das pessoas.
— Planeaste tudo isto de propósito para me destruir!
— Não — respondeu Alisa sem levantar a voz.
— Tu destruíste-te sozinho.
— Eu apenas acendi a luz e mostrei aquilo em que pisaste.
Artiom ficou no meio da sala, e quase nada restava da sua confiança.
Procurou apoio ora no rosto da mãe, ora no de Karina, mas ambas já olhavam noutra direção.
— Alisa, ouve-me — disse ele, suavizando o tom e falando quase com ternura.
— Podemos corrigir tudo.
— Foi um erro, um momento de fraqueza.
— Vou mandá-la embora, esqueceremos tudo e começaremos de novo.
— Tu amas-me.
— Amava-te — corrigiu Alisa.
— No passado.
— E sabes, nem sequer me dói dizer isso.
— Já sofri tudo antes, enquanto tu pensavas que eu não reparava em nada.
— Não vais fazer isto — disse ele de repente, em voz baixa.
— Para onde vais sem mim?
— Para um lugar onde ninguém me trate como uma idiota — respondeu ela.
Ela tirou uma pasta fina de uma gaveta e colocou-a sobre a mesa.
Não era uma pasta com segredos nem uma ameaça, apenas documentos.
— Aqui está tudo preparado.
— A divisão do que é nosso em comum.
— Fiz tudo de forma justa, metade para cada um.
— Não sou gananciosa, ao contrário de todos vocês.
— Quando tiveste tempo para fazer isso? — perguntou Artiom, confuso.
— Enquanto vocês sussurravam, eu imprimia — respondeu Alisa, empurrando uma caneta na direção dele.
— Não sou daquelas que passam meses a lamentar-se na cozinha à espera que tudo se resolva sozinho.
— Quando tomo uma decisão, executo-a.
— Hoje.
— Não amanhã nem “um dia”.
A sogra levantou-se de repente.
— Não tens o direito…
— Quer dizer, espera!
— E o dinheiro?
— Aquela quantia…
— Eu devolvo, chegaremos a um acordo!
— Vai devolver — respondeu Alisa, assentindo.
— Sou generosa, mas não ao ponto de oferecer dinheiro.
— Tenho um reconhecimento de dívida de vários milhões, assinado por si e autenticado por um notário.
— Estou disposta a descontar esse valor da parte do apartamento que pertence ao seu filho.
— Fale com ele.
— Acho que aceitará.
— Caso contrário, irei a tribunal, o seu apartamento será penhorado e, de qualquer forma, recuperarei o que é meu.
Karina levantou-se e pegou na mala.
Percebeu antes dos outros que, naquela mesa, não havia vencedores, com exceção de uma única mulher.
— Acho que vou embora — disse ela.
— Artiom, és um mentiroso excecional.
— Também me contaste uma quantidade inacreditável de mentiras.
— Karina, espera! — ele correu atrás dela.
— Aonde vais?
— Para casa.
— Para a minha verdadeira casa — respondeu ela com um sorriso irónico junto à porta.
— A que me pertence por inteiro, e não apenas pela metade.
A porta fechou-se.
Artiom voltou-se para a mãe, mas ela já desviava o olhar e apertava a mala contra o peito, como se tentasse descobrir uma maneira de escapar à dívida.
— Estás a ver? — disse Alisa suavemente.
— Todos vão embora.
— Ficaste apenas tu, sozinho diante da mesa posta pela mulher que traíste.
— A vida é estranhamente organizada.
— Alisa — sussurrou ele.
— Não vás embora assim.
— Dá-me uma oportunidade.
— Eu dei-ta — respondeu ela, vestindo o casaco e apertando calmamente os botões.
— Hoje, há duas horas, quando te disse para te sentares e falares honestamente.
— Escolheste mentir até ao fim.
— A oportunidade era uma só.
— Não são distribuídas em pacotes.
Ela pegou numa pequena mala que, afinal, estivera no corredor desde o início.
Artiom olhou para aquela mala como se só então começasse a perceber que tudo já tinha sido decidido há muito tempo.
— E para onde vais agora? — conseguiu ele perguntar.
— Para minha casa — respondeu Alisa.
— Afinal, tenho um lugar que é meu.
— Aluguei um pequeno apartamento há muito tempo e não te disse nada.
— Sabia que este dia chegaria.
— Apenas esperei que decidisses quem querias ser nesta história.
— Agora peço-te que te sentes com a tua mãe e discutam o problema da dívida dela.
— É melhor resolver isso pacificamente.
— Espero a tua resposta amanhã.
— Se não houver resposta, vou a tribunal.
Ela saiu para o patamar.
Veronika esperava por ela em baixo, e Alisa, enquanto descia as escadas, sorriu por um instante, não com malícia, mas com leveza, como alguém que acabara de tirar dos ombros o peso de outra pessoa.
— Então, como foi? — perguntou Veronika.
— Estou livre — respondeu Alisa.
— Afinal, esta palavra não pesa nada.
— É estranho eu ter tido tanto medo dela durante tanto tempo.
Lá em cima, diante da mesa com os quatro lugares já frios, ficaram duas pessoas.
Um homem que tinha perdido todos de uma só vez e uma mulher que lhe ensinara durante toda a vida que homens como ele acabavam sempre perdoados.
Agora já não havia ninguém para perdoar.
E nenhum dos dois tinha mais nada para dizer.
Alisa apertou o casaco até ao último botão, ajeitou a gola e atravessou o limiar da casa que deixara de ser a sua prisão.
À sua frente, tudo parecia vazio e leve.
Exatamente como ela queria.







