💢— Estás vestida como o Arlequim, devias vestir-te de forma mais discreta — disse o marido, olhando com desprezo para o traje da mulher. 🎭

Naquela noite, na casa de Egor, estava tudo barulhento e descontraído, como só acontece entre pessoas que não precisam de provar nada a ninguém.

No grande ecrã passavam fotografias das férias dos outros, alguém discutia sobre trilhos de montanha, alguém ria sem motivo.

Daniil estava sentado no canto do sofá e segurava o telemóvel de forma que todos pudessem ver.

— Vejam isto — disse ele, virando o ecrã. — É a Nika.

— Durante três horas, fez interpretação simultânea entre duas línguas e não se enganou uma única vez.

— As pessoas na sala choraram, palavra de honra.

— Que linda — assobiou Egor. — Dan, tu percebes sequer a sorte que tens?

— Percebo — respondeu Daniil, recostando-se, satisfeito consigo mesmo. — Percebo todas as manhãs.

Vlada pegou no telemóvel, ampliou a fotografia com os dedos e ficou a observá-la durante algum tempo.

— Fato cinzento, camisa branca, cabelo preso num coque — enumerou ela. — Dan, por que é que ela está tão formal?

— Ela é jovem.

— Etiqueta — encolheu os ombros Daniil. — Ali não há lugar para folhos.

— Cada botão contribui para a reputação.

— Para a reputação de quem — dela ou tua? — perguntou Vlada, semicerrando os olhos.

— Para a nossa, — respondeu ele, rindo. — Afinal, somos uma empresa familiar.

Chegou a casa de excelente humor, com um saco de fruta e o plano de abraçar a mulher logo no corredor.

Mas não conseguiu abraçá-la: Nika veio ao seu encontro com um vestido que ele nunca tinha visto antes.

Era vermelho, com pequenos folhos nos ombros, uma saia larga e, sobre a saia, flores amarelas e verdes, como se alguém tivesse virado um canteiro inteiro e nem se tivesse dado ao trabalho de o arrumar.

Daniil ficou imóvel.

Depois, sem dizer uma palavra, tirou o casaco e pousou o saco no chão.

O rosto dele parecia o de alguém que acabara de ouvir uma nota desafinada na sua música favorita.

— Então? — Nika abriu os braços e deu uma volta. — Avalia.

— Eu estava à espera disto de propósito.

— Está normal — disse ele.

— “Normal” é a temperatura da água de uma piscina, não uma opinião sobre um vestido — bufou ela. — Tenta outra vez.

— Uma palavra viva.

— Nika, estou cansado.

— Um vestido como outro qualquer.

— Tu estás… muito chamativa com ele.

— Perfeito.

— Passei a vida inteira a sonhar ser invisível num elevador.

Ele foi para o quarto, enquanto ela ficou ali parada, ouvindo a porta fechar-se atrás dele com um cuidado excessivo.

Meia hora depois, ele voltou mais calmo, com o telemóvel na mão.

— A propósito, boas notícias.

— O Egor comprou o apartamento.

— Na sexta-feira vamos reunir-nos no restaurante, num círculo restrito.

— Ótimo — sorriu Nika. — Vou com este vestido.

— É mesmo festivo.

— Veremos — respondeu Daniil.

No sábado, Nika foi a casa de Tamara Petrovna para lhe levar medicamentos e, como sempre, admirar aquela ordem que dava vontade de endireitar as costas.

No corredor, os sapatos estavam rigorosamente alinhados.

Na prateleira havia três molduras, com exatamente uma largura de palma entre cada uma.

Até as flores no parapeito da janela tinham sido escolhidas da mesma altura, como se alguém lhes tivesse explicado tudo antecipadamente.

A sogra abriu a porta e ficou sem palavras por um segundo.

— Nika… — recuou, olhando para o vestido vermelho com folhos. — Vieste assim?

— Assim.

— E até andei de metro assim.

— E ninguém me multou, imagine só.

— É que tu sempre foste… — a mulher fez um gesto com a mão — como saída de uma montra.

— Cinzento, preto, branco.

— Habituei-me a ti como a um livro austero.

— O livro cansou-se — disse Nika, pousando o saco sobre a mesa. — O livro quis imagens.

Tamara Petrovna começou subitamente a rir baixinho e tocou no folho do ombro dela.

— Mas até te fica bem.

— Fica-te mesmo bem, ouviste?

— O teu rosto fica completamente diferente assim.

— Vivo.

— O teu filho acha que sou “chamativa”.

— O meu filho — apertou os lábios a sogra — às vezes diz coisas que devia primeiro mastigar um pouco.

À noite, Daniil entrou no quarto onde Nika arrumava os cabides e falou com aquela voz calma por trás da qual normalmente escondia uma ordem.

— Olha, sobre sexta-feira.

— Vem, por favor, de fato.

— Cinzento ou azul.

— Na festa de inauguração? — Nika virou-se. — O quê, o Egor vai começar a alugar o apartamento para conferências?

— Vão estar lá pessoas que te conhecem de uma determinada maneira.

— Não estragues essa imagem.

— Dan, eu não sou uma imagem.

— Sou uma pessoa que tem clavículas, gosto e direito a flores.

— Eu estou a pedir-te — disse ele, com ênfase. — Uma noite.

— Custa-te assim tanto?

— Não me custa, acho é engraçado — respondeu Nika, fechando o armário. — Estás a pedir-me para ir a uma festa de fato.

— É como ir a um casamento com uma calculadora.

Na sexta-feira, ele ligou às seis.

— Nika, vou atrasar-me.

— Vai tu, eu apareço no segundo brinde.

— Está bem.

— Acabei de chegar e ainda tenho palavras de outras pessoas a martelar-me na cabeça.

— Chegas a tempo.

— E, Nika… cinzento.

— Anotado — disse ela, desligando.

Conseguiu preparar-se em vinte minutos.

Lavou o rosto, soltou o cabelo e vestiu o que encontrou primeiro e que imediatamente a deixou feliz: uma blusa cor de alperce com pequenos folhos e detalhes verdes, umas calças de pernas largas, como se tivessem sido pintadas pelo pôr do sol, e uma mala amarela a tiracolo.

Olhou-se ao espelho.

Sorriu — de verdade, sem qualquer formalidade.

No restaurante, já tinham erguido o primeiro copo.

Egor estava junto à mesa, feliz e ligeiramente despenteado, e contava como iria transformar a arrecadação numa biblioteca.

— Dan, e a Nika? — perguntou Vlada.

— Está a caminho — Daniil olhou para a porta. — Ficou presa no trabalho.

Nika entrou dez minutos depois, e a sala pareceu ganhar mais luz.

Mala amarela, blusa cor de alperce, folhos nos ombros, saltos altos.

Ela caminhava e sorria, e todos se viraram, porque é isso que acontece quando uma pessoa se sente bem.

— Egor, parabéns! — abraçou o anfitrião. — Que neste apartamento o cheiro a obras apareça sempre apenas quando vocês quiserem.

— Nika! — Vlada agarrou-lhe a mão. — Que coisa linda é essa?

— Onde encontraste isso?

— Tenho inveja de ti da maneira mais sincera possível.

— Eu conto-te.

— Há toda uma história e três provadores.

Daniil sorria.

Sorria de forma tranquila e elegante, enquanto servia mais vinho ao vizinho da direita.

Mas, debaixo da mesa, apertava o guardanapo com tanta força que este ficou parecido com uma folha de papel amarrotada.

Foram para casa em silêncio durante vinte minutos.

Ele desligou a música.

— Eu pedi-te — começou ele, assim que a porta de entrada se fechou.

— Uma única coisa.

— Uma!

— E eu trouxe-te duas: bom humor e um presente para o Egor — disse Nika, tirando os saltos. — Admite que ultrapassei o plano.

— Entraste e toda a gente se virou!

— Normalmente, isso chama-se “causar impacto”.

— Na tua versão, chama-se “catástrofe”.

— Dan, não confundiste as palavras no teu dicionário?

— Eu tive vergonha! — gritou ele. — Vergonha, percebes?

— Parecias uma barraca de feira!

— E tu parecias uma pessoa que tem vergonha da própria mulher.

— E sabes o que é ainda mais interessante?

— As pessoas gostam das barracas.

— Aproximam-se delas.

— Não te atrevas a ensinar-me! — Daniil puxou o nó da gola.

— Estás bem da cabeça?

— És uma mulher adulta e puseste folhos como uma estudante numa festa de finalistas!

— Ah, sim, e tu puseste-me um código de vestuário como se fosse uma coleira com um laço — respondeu Nika calmamente.

— Só que há algo que não bate certo: não foste tu que compraste a coleira, eu não sou um cão e não respondo ao comando “busca”.

O telemóvel tocou e ele foi para o quarto com ele, mas falava alto, esquecendo-se de que as paredes não eram insonorizadas.

— …sim, imagina, com aquela coisa de papagaio…

— Não, eu fiquei calado…

— Tive vergonha por causa dela…

— Que moda? Ela está a ficar maluca…

Nika não estava a escutar às escondidas.

Recolheu a loiça da mesa e, no silêncio, ouviu fragmentos: “papagaio”, “vergonha”, “está a ficar maluca”.

Depois, ouviu uma curta voz feminina e perplexa através do telefone:

— Danya, tu ouves-te a ti próprio?

Abriu o armário e ficou algum tempo diante dele.

Fato cinzento, fato azul, casaco preto, três camisas brancas, mais um cinzento.

Era tudo.

Uma fila organizada e disciplinada.

Oito anos naquela fila.

— Está bem — disse ela em voz alta. — Então vamos ampliar o catálogo.

Alguns dias depois, Daniil conduzia pela avenida e, num semáforo, viu a mulher.

Nika estava junto a uma montra com Vlada, ria e gesticulava.

Vestia uma T-shirt com um grande estampado floral e um ombro descoberto, e nas orelhas tinha algo comprido e tilintante.

Ele travou junto ao passeio, saiu do carro batendo a porta e aproximou-se dela.

— Estás vestida como Arlequim, devias vestir-te de forma mais discreta — disse ele, olhando com desprezo para o ombro, o estampado e os brincos.

— Olá, querido — Nika nem sequer estremeceu.

— Vlada, apresenta-te ao responsável máximo pelo mau humor.

— Estou a falar a sério! — Daniil ergueu o queixo.

— Tenho vergonha de ti diante das pessoas.

— Tens o ombro descoberto!

— Esses trapos!

— Entra no carro, vamos para casa.

— Não vou.

— Eu e a Vlada temos planos e dois cafés.

— Nika!

— Daniil — inclinou ligeiramente a cabeça. — Estás agora no meio da rua a explicar em voz alta que tens vergonha da tua própria mulher.

— Adivinha qual de nós os dois deveria realmente ter vergonha.

— Eu sou teu marido!

— És meu marido, não o meu estilista, guarda-costas e censor ao mesmo tempo.

— São demasiadas funções para um único salário.

Vlada tapou a boca com a mão.

Daniil ficou ali por alguns instantes, virou-se e foi embora.

Na primeira esquina, ligou a Egor.

— Egor, ouve…

— Não, está tudo bem.

— É só que ela ficou completamente obcecada com aquelas roupas.

— Antes era uma pessoa normal, e agora anda por aí como se nunca tivesse regressado do carnaval…

— Sim, estou a tentar explicar-lhe de forma razoável…

— Não, não percebes.

— Isto humilha-me.

À noite, estava sentado no sofá a percorrer o feed.

Nika com um casaco laranja junto a uma montra de flores.

Nika com um vestido verde, a rir, com a cabeça inclinada para trás.

Nika com um impermeável amarelo numa passadeira, e por baixo da fotografia havia quarenta e oito comentários, todos de admiração.

Ele olhava para as fotografias e sentia a raiva crescer cada vez mais dentro dele.

Colorida, espalhafatosa, toda produzida, gritante.

Abriu o armário, tirou tudo o que encontrou de colorido, pegou numa tesoura e trabalhou em silêncio, cuidadosamente, como alguém que está a pôr ordem.

Depois colocou tudo num saco grande e deixou-o junto à entrada.

Nika voltou às dez.

Viu o saco, baixou-se e tirou de lá a blusa cor de alperce com folhos — cortada do ombro até à bainha.

Por baixo estavam as calças da cor do pôr do sol, o vestido vermelho, o casaco laranja, o verde e o amarelo.

Tudo.

Ela não gritou.

Pegou no telemóvel e marcou um número.

— Tamara Petrovna, boa noite.

— Desculpe ligar tão tarde.

— Tenho uma pergunta prática para lhe fazer: se amanhã eu for aí e cortar com uma tesoura o seu casaco, as suas calças e aquele vestido bege, não se importaria?

— O seu filho está calado, portanto parece que é assim que se faz agora na nossa família…

— O quê?! — Daniil saiu disparado para o corredor.

— Dá-me isso!

Arrancou-lhe o telemóvel da mão e desligou a chamada.

— Tu estás louca?

— Para quê envolvê-la nisto?

— Para ouvires como isso soa do outro lado — respondeu Nika, dobrando a blusa cortada.

— Se cortas as tuas próprias coisas, é o teu drama pessoal.

— Se cortas as minhas, já é uma história.

Ela entrou no quarto e abriu o armário.

Fato cinzento.

Azul.

Casaco preto.

Três camisas brancas.

Uma fila perfeita, direita e aborrecida.

E mais nada.

— Duzentos e oitenta mil — disse ela.

— Não contei por alto, eu sei.

— Casaco, vestidos, blusas, calças, mala.

— Duzentos e oitenta mil.

Daniil riu-se.

— E então?

— Queres que te compense?

— Não te vou devolver nada.

— Veste-te modestamente, como antes.

— Ficas mais protegida e o dinheiro fica na família.

— Está bem — disse Nika.

Ele olhou atentamente para ela e não encontrou nem lágrimas nem histeria.

Apenas um rosto muito calmo.

— Está bem?

— Está bem — repetiu ela.

— A propósito, amanhã vou viajar durante três dias.

— Pediram-me para ir e eu aceitei.

— Vai — permitiu ele, magnânimo.

— Talvez te ponhas em ordem.

Ele foi dormir satisfeito.

A mulher estava sob controlo, a ordem tinha sido restaurada, o dinheiro permanecia na família e os folhos estavam no caixote do lixo.

Na segunda-feira à noite, a chave não rodou na fechadura.

Daniil tirou-a, olhou para ela, voltou a colocá-la e puxou.

A fechadura não se mexeu, como se fosse nova — porque era mesmo nova.

Ligou para a mulher.

Ela atendeu à segunda chamada, e a voz dela estava animada.

— Daniil, olá.

— Eu sabia que ias ligar por volta das sete.

— Que circo é este?

— Mudaste a fechadura?

— Mudei.

— Ao mesmo tempo, retirei-te da lista dos maridos.

— A lista era curta, mas limpei-a.

— Agora, para mim, nem sequer és um companheiro, mas apenas um homem cujas coisas ainda não tive tempo de retirar.

— Nika, este é o meu apartamento!

— Este é o meu apartamento — corrigiu ela suavemente.

— Vivias nele como a pessoa que eu amava.

— Esse direito terminou exatamente no momento em que pegaste na tesoura.

— Não tens o direito…

— Eu vou aí e…

— A notificação do divórcio já te foi enviada.

— Verifica o teu e-mail.

— E, Dania — fez uma pausa — também me lembro dos duzentos e oitenta mil.

— Afinal, sou uma mulher com boa memória.

Bips.

Ele ficou cerca de três minutos no patamar, olhando para a porta.

Quis chamar um serralheiro para arrombar a fechadura, mas não se atreveu.

O serralheiro pediria os documentos.

Os documentos não eram dele.

Foi para casa de Egor.

Vlada abriu a porta com uma blusa cor-de-rosa com folhos nos ombros, e Egor começou a rir atrás dela.

— Olha, Dan, a tua Nika lançou uma nova tendência!

— A Vlada renovou metade do guarda-roupa.

— Sinceramente, fiquei dez anos mais jovem.

— A propósito, onde está a Nika?

— Está fora — respondeu Daniil.

— Durante três dias.

Ficou sentado durante quarenta minutos, não contou nada, recusou uma segunda fatia de bolo e foi embora.

Tamara Petrovna abriu a porta e olhou para o filho como se olha para um vaso partido.

— Entra, idiota.

— Já sabes.

— A Nika ligou.

— Calmamente, ponto por ponto — a mulher sentou-se, juntando as mãos.

— Dania, cortaste as roupas da tua mulher.

— Um homem adulto.

— Com uma tesoura.

— Ela andava vestida como uma cigana!

— Eu tinha vergonha!

— Ele tinha vergonha — disse Tamara Petrovna, levantando-se.

— Tirou um álbum antigo do armário e bateu com ele sobre a mesa.

— Olha.

— Sou eu.

— Tinha o cabelo roxo e lavava-o numa bacia.

— Aqui estão os calções pelos quais quase me expulsaram de casa.

— E aqui estão as meias-calças, rasgadas de propósito nos joelhos, porque naquela época isso era o auge da moda.

— E sabes o que o teu pai fazia?

— Levava a minha mala e dizia que eu era a mulher mais colorida de toda a rua.

— Eram outros tempos.

— Era outra educação — cortou ela.

— Vai.

— O sofá fica na sala de passagem.

— A roupa de cama está na gaveta de baixo.

Ele ficou deitado no sofá estreito, ouvindo alguma coisa que estava avariada há muito tempo a fazer tic-tac dentro da parede, e não conseguia dormir.

O telemóvel apitou.

Egor tinha enviado uma fotografia: Vlada e Nika, ambas a rir, ambas como dois grandes canteiros de flores vivos — cor-de-rosa, cor de alperce, verde e amarelo.

A fotografia tinha sido tirada antes da viagem dela.

A legenda dizia: «Aqui estão elas, as nossas flores».

Daniil olhava para a fotografia e sentia duas coisas ao mesmo tempo, e ambas eram insuportáveis.

A primeira era um ressentimento pesado e nauseante, como se o tivessem expulsado da própria vida sem lhe pedir autorização.

A segunda era pior.

Lembrou-se da primeira vez em que Nika tirou o casaco cinzento, pendurou-o num cabide, vestiu o vestido vermelho com folhos e rodopiou no corredor.

O rosto dela tinha uma expressão que ele não via havia oito anos.

Ela estava feliz.

E ele pegou na tesoura.

Na caixa de entrada estava a notificação do divórcio — curta, seca e perfeitamente redigida, como tudo o que ela fazia.

Ele abriu-a pela quarta vez e voltou a fechá-la.

Sentia dor e repulsa ao mesmo tempo, e percebeu que aquilo que lhe causava repulsa era ele próprio.

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