💥 — Sai daqui, o seu noivo fica comigo — disse a irmã com calma…

Polina colocou uma travessa de uvas no centro da mesa redonda e se endireitou.

A sala estava apertada de tanta gente e silenciosa demais para uma noite de sábado.

— Tenho uma novidade — disse ela.

— O Artiom me pediu em casamento.

— Eu aceitei.

Vlada foi a primeira a se levantar e abraçou a irmã com tanta força que quase derrubou o vaso.

Larissa levou a mão aos lábios e assentiu, enquanto o avô Arkádi, sentado na poltrona junto à parede, virou lentamente a cabeça na direção da voz.

— Vovô, você ouviu? — gritou Polina.

— Eu vou me casar!

— Estou ouvindo, estou ouvindo — respondeu ele.

— Sou cego, não surdo.

— Venha aqui, dê-me a testa.

Ela se aproximou, inclinou-se, e ele beijou sua testa com os lábios secos.

Ele morava com elas havia um ano, porque já não conseguia viver no interior: a casa era grande, a varanda era alta e sua visão havia piorado.

— Larissa — disse o avô, voltando-se para a filha.

— Venha aqui um instante.

— Precisamos conversar.

Os dois conversaram em um quarto, com a porta fechada, durante cerca de quarenta minutos.

Polina ouvia apenas fragmentos da conversa e a voz do avô — firme, como sempre, quando já havia tomado uma decisão.

— Vou passar a casa para a Polina — anunciou Arkádi quando todos voltaram.

— Por meio de uma escritura de doação.

— Enquanto ainda estou lúcido e consigo assinar.

— Vovô, o que você está fazendo? — Polina sentou-se no chão ao lado da poltrona dele.

— Eu não preciso dela.

— Precisa, sim.

— Você não vai morar lá, não sou ingênuo.

— O vizinho está há três anos rondando as janelas, perguntando se não quero vender a propriedade.

— Vamos vendê-la.

— O dinheiro será para você comprar um apartamento.

Vlada virou-se para a janela e começou a ajeitar o guardanapo sobre a cômoda com cuidado exagerado.

— E eu, então, não ganho nada? — murmurou ela.

— Você também vai receber alguma coisa — respondeu Larissa imediatamente.

— Quando se casar, não ficará sem nada.

— Não fique contando o que está nas mãos dos outros, são mãos da família.

Vlada ficou emburrada, mas não por muito tempo.

O vizinho não economizou dinheiro, comprou a casa por um bom preço e, dois meses depois, Polina estava no meio de um apartamento vazio de três quartos, com as chaves apertadas no punho.

— Vovô, aqui tem eco — dizia ela ao telefone.

— Eu grito e ele responde.

— Então é um apartamento vivo — ria Arkádi.

— Diga-me uma coisa: você vai colocar o papel de parede sozinha ou vai obrigar o seu marido?

As amigas apareciam, caminhavam pelos cômodos, tocavam nos parapeitos das janelas e a invejavam abertamente, mas de maneira carinhosa.

Todas as noites, Polina abraçava o avô e dizia “obrigada”, enquanto ele fazia um gesto de desdém e exigia que ela lhe dissesse de que cor eram os azulejos.

Um mês antes do casamento, Artiom chegou à noite e sentou-se no sofá como se alguma coisa fosse quebrar debaixo dele.

Polina olhou para ele e sentou-se à sua frente.

— Você está se remexendo como um aluno diante do quadro — disse ela.

— Fale.

— Eu não vou brigar, prometo.

— Polina, eu não sei como…

— Comece pelo começo.

— Normalmente ajuda.

— Eu me apaixonei — soltou ele, num suspiro.

— Pela Vlada.

Ela ficou imóvel, apenas girando uma vez o anel no dedo.

— Pela minha irmã — esclareceu Polina.

— Um mês antes do casamento.

— Excelente momento, Artiom.

— Você devia começar a soltar fogos de artifício.

— Não zombe de mim! — ele se exaltou.

— Você acha que isso é fácil para mim?

— Eu passo as noites…

— Com esse negócio de “noites”, você começou errado.

— Continue.

— Vocês dormiram juntos?

Ele ficou em silêncio por cerca de três segundos.

Foi o suficiente.

— Sim — disse ele.

— Uma vez.

— Está bem, não foi só uma vez.

— Então até a matemática saiu prejudicada.

Polina levantou-se.

— E o vestido, aliás, eu já mandei ajustar.

E então ele disse algo que mudou completamente o peso daquela conversa:

— Escuta, a culpa também é sua!

— A sua irmã é linda!

— Por que você me apresentou a ela?

— Você ficava ao lado dela, comparando-se com ela, e eu também sou humano!

— Então a culpa é minha por ter uma irmã bonita.

Polina assentiu lentamente.

— Maravilhoso.

— Então, se você for atropelada por um carro, a culpa será do asfalto por estar ali.

— Não distorça as coisas!

— Eu não estou distorcendo nada.

— Só estou traduzindo o que você disse para a linguagem humana.

Ela tirou o anel, pegou a mão dele, colocou o metal em sua palma e fechou seus dedos.

— Segure.

— Use no pescoço como uma medalha por bravura.

— Polina…

— Seus sapatos estão no corredor.

— A porta é à esquerda.

— Você a conhece, foi você quem a escolheu.

Ele se levantou, vermelho e despenteado, e parou à porta para olhar para trás.

— Perdoe-me.

— Acho que não haverá casamento.

— Que descoberta brilhante.

— Quer dizer… com você provavelmente já não vai dar certo — murmurou ele.

Havia tanta coisa desnecessária naquele “já” que Polina fechou a porta atrás dele antes que ele terminasse.

Uma hora depois, Larissa chegou.

Ela não perguntou o que havia acontecido.

Já sabia.

— Vlada me contou — começou a mãe da porta.

— Ele pediu ela em casamento.

Polina encostou as costas na parede.

— Pediu em casamento — repetiu ela.

— A ela.

— Antes mesmo de terminar comigo.

— O quê, ele comprava no atacado, com desconto?

— Polina, não fique com raiva da sua irmã.

— O coração não se pode controlar.

— Mãe, “não se pode controlar o coração” é coisa de amor.

— Mas o calendário dá para controlar.

— Primeiro ele prometeu a ela, depois me contou.

— Isso não é o coração.

— É canalhice com horário marcado.

Larissa sentou-se em um banquinho no corredor e abraçou os próprios cotovelos.

— Eu entendo como isso parece.

— Ridículo.

— E nojento.

— Mas o que eu devo fazer?

— Mandá-lo embora?

— Vlada vai atrás dele, e pronto.

— E nós ficaremos com raiva sobre raiva.

— E quem vai ganhar no final?

— Ninguém — disse Polina.

— Nessas coisas não existem vencedores.

— Existem apenas aqueles que percebem mais rápido.

Ela se aproximou e, de repente, abraçou a mãe como fazia na infância, com a testa apoiada em seu ombro.

Ficou assim por muito tempo, respirando com dificuldade.

— Eu o amava — disse em voz baixa.

— Eu realmente o amava.

— Eu sei, minha filha.

— E agora fico me perguntando: será que eu gostaria de ligar minha vida à dele?

Polina afastou-se e enxugou o rosto com a palma da mão.

— Não.

— Eu não gostaria.

— Um homem capaz de trair alguém de maneira tão baixa não se tornará fiel apenas porque troca de noiva.

— Ele simplesmente trairá outra mulher.

— Eu vou ficar com você — disse Larissa.

— Vou ficar um pouco.

— Não precisa.

— Vá.

— Eu preciso ficar em silêncio, e se você estiver aqui, vou falar.

Em casa, Vlada encontrou a mãe no corredor e nem a deixou tirar o casaco.

— E então?

— Como foi?

— Ela gritou?

— Ela é forte — disse Larissa, olhando para o lado.

— Entende tudo.

— Ela não vai atrapalhar a sua felicidade.

— Viu?! — Vlada bateu palmas.

— Eu disse que ela aceitaria normalmente!

— Então não mudamos a data.

— O restaurante está pago, os carros estão reservados e o cerimonialista está confirmado.

— Para que mexer em alguma coisa?

O avô Arkádi, sentado na poltrona, virou a cabeça.

— Quem está andando aí? — perguntou.

— Vovô, sou eu e o Artiom — respondeu Vlada.

— Não deixe o Artiom se aproximar.

— Que ele fique na porta.

— Vovô, já chega!

— Chega — concordou ele.

— Já chega de ouvir, dentro da minha casa, os passos de um homem que há um mês prometeu uma coisa a uma mulher e agora promete outra a outra.

— Tire-o daqui.

Alguns dias depois, alguém tocou a campainha da casa de Polina.

Ela abriu.

Na porta estava Vlada com uma caixa de bolo, e atrás dela, Artiom, fazendo o possível para parecer animado.

— Viemos fazer as pazes — disse Vlada.

— Deixe-nos entrar, irmã.

Polina afastou-se e deixou os dois entrarem.

A caixa foi colocada sobre a mesa da sala grande, e Vlada cortou o bolo sozinha, colocando dois pedaços em pratinhos.

— Polina, me perdoe — disse ela.

— Aconteceu.

— Eu não queria.

— Não queria — repetiu Polina, assentindo.

— Você simplesmente estava andando e acabou pisando no meu noivo por acidente.

— Acontece.

— Às vezes é escorregadio.

Artiom pigarreou e, de repente, começou a falar enquanto olhava para os cômodos, como se estivesse calculando a metragem:

— Vlada, veja.

— Aqui será o escritório.

— O quarto fica mais ao fundo, será mais silencioso.

— E o terceiro quarto será o quarto do bebê.

— As janelas são ótimas.

Polina riu e sentou-se no braço da poltrona.

— Esperem.

— Os recém-casados pretendem morar aqui?

— Sim — respondeu Vlada calmamente, levantando os olhos para ela.

— Saia daqui, seu noivo fica comigo.

— Seu noivado acabou, e o casamento é meu.

— Portanto, o apartamento é nosso.

Não houve silêncio algum.

Polina levantou-se, pegou o restante do bolo diretamente com a mão e, num movimento rápido e preciso, enfiou-o no rosto de Artiom.

O creme escorreu pelo queixo e pela camisa, e um pedaço de bolo caiu com um estalo no parquet.

— O que você está fazendo?! — gritou ele, sacudindo a cabeça às cegas.

— Você está doente!

— Eu estou saudável — disse Polina.

— Doente é aquele que veio com um bolo para tomar o apartamento e chamou isso de paz.

— Polina! — Vlada levantou-se de um salto, com a voz falhando.

— Você entende o que está fazendo?!

— Você está envergonhando a família!

— O avô vendeu a casa pela nossa família, não só por você!

— O avô vendeu a casa e me deu o dinheiro.

— Por meio de uma escritura de doação.

— Para a proprietária.

— Sou eu, caso você precise de uma placa na porta.

— Você é gananciosa! — Vlada já estava quase gritando.

— Você está sozinha em três quartos, e nós vamos morar onde?!

— Aluguem um lugar.

— Artiom é homem, afinal, então deve ter dinheiro — disse Polina, fazendo um gesto com a mão.

— Ele estava me falando sobre o escritório aqui.

— Agora que fale sobre o aluguel.

— Com esse talento para negociar, ele ainda vai conseguir sussurrar um palácio para si mesmo.

— Isso é injusto! — rugiu Artiom, limpando o rosto com a manga.

— Você está sozinha, não precisa de tanto espaço!

— Eu preciso — disse Polina, com a voz ficando calma e baixa.

— O avô me deu estas paredes para a minha família.

— Para a minha felicidade.

— Ela ainda virá.

— Só se atrasou porque estava na fila atrás da sua consciência.

— E ela anda muito devagar.

— Você está nos colocando na rua?!

— No corredor do prédio.

— A rua é mais adiante, vocês conseguem chegar sozinhos.

Ela deu um passo à frente, agarrou Artiom pela gola, puxou-o para baixo e começou a arrastá-lo.

Ele resistia, escorregava nas migalhas, agarrava-se ao batente da porta e gritava que ela era louca.

Polina levou-o até a porta, abriu-a completamente e empurrou-o para o corredor.

Vlada recuou, olhou para a irmã e saiu correndo por conta própria, apertando a bolsa contra o peito.

Atrás dela, os sapatos de Artiom voaram para o corredor — primeiro um, depois o outro.

— O casamento de vocês continua de pé! — gritou Polina pela porta que se fechava.

— Só avisem o fotógrafo: o noivo estará coberto de creme.

Ela trancou a porta e ligou para a mãe.

— Mãe.

— Eu não vou entregar o apartamento.

— E não vou ao casamento.

— Não é ressentimento.

— É higiene.

No corredor, Artiom estava parado, com os dedos abertos e pegajosos, sem saber o que fazer com eles.

Vlada olhou para ele de baixo para cima e, de repente, sussurrou:

— Mas como assim…

— Eu estou grávida.

Ele virou-se muito lentamente para ela.

— O quê?

— Grávida.

— De dois meses.

— Quando você descobriu? — perguntou ele com dificuldade.

— Que diferença faz?

— Artiom, você está me ouvindo?

— O que vamos fazer?

— Não temos apartamento.

— Não podemos ir para a casa da minha mãe — o avô não vai me deixar entrar lá com você.

— Ele vai acabar com você!

— Alugar um lugar significa colocar todo o nosso dinheiro no bolso de outra pessoa!

— Você sequer pensou nisso?!

— Eu achei que tudo estava claro — murmurou ele.

— Que as irmãs simplesmente… trocariam de lugar.

— Achei que tudo aconteceria naturalmente.

— Naturalmente?! — Vlada agarrou a manga suja dele e soltou-a.

— Responda!

— O que vamos fazer?!

Artiom ficou em silêncio.

Ele olhava para os próprios sapatos, jogados diante da porta de outra pessoa, e calculava mentalmente números que não fechavam de jeito nenhum.

Em outro apartamento, o avô Arkádi estava sentado na poltrona e ouvia Larissa desligar o telefone.

— Polina colocou-o para fora — disse a mãe.

— Junto com Vlada.

— Direto para o corredor.

Arkádi ficou em silêncio por um momento e então esfregou lentamente uma palma da mão contra a outra.

— Ela não cedeu — disse ele, satisfeito.

— É do meu sangue.

— Então será feliz.

— Não vai escapar disso.

Ele estendeu a mão, tateou até encontrar o telefone, aproximou-o bem do rosto e discou o número de memória.

— Polina?

— É o vovô.

— O que foi que você aprontou aí, hein?

— Conte tudo em detalhes.

— Com todos os detalhes.

— E principalmente sobre o bolo.

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