Vera estava sentada na beirada da cama, olhando para o marido.
Dois anos de casamento, e todos os meses era sempre a mesma coisa.

Esperança, espera, desilusão — mas a gravidez nunca acontecia.
— Artiom, talvez devêssemos mesmo ir juntos ao médico? — a voz dela soava suave, quase suplicante.
— Para quê?
Comigo está tudo bem.
Tenho um atestado.
— Que atestado?
Você nem sequer fez exames.
— E eu sou obrigado a fazê-los na sua frente? — ele ironizou.
— Minha irmã marcou uma consulta com um bom especialista ainda antes do casamento.
Os resultados estão na gaveta, caso esteja interessada.
Ele fez um gesto despreocupado na direção da gaveta da cômoda.
Vera conhecia aqueles papéis.
Já os tinha visto umas cem vezes.
Carimbos bem colocados, assinaturas e números dentro dos valores normais.
— Então por que não conseguimos?
Já se passaram dois anos.
— Pergunte à sua irmã.
Ela também não consegue, não é?
Quantas tentativas foram — três?
Quatro?
Vera estremeceu.
Ksenia era um assunto doloroso.
Sua irmã mais velha sonhava em ter um filho durante toda a vida adulta.
Quatro tratamentos malsucedidos.
Lágrimas, injeções e esperanças.
— O que Ksenia tem a ver com isso?
— Pelo visto, é algo de família.
Minha irmã já diz há muito tempo que você precisa fazer exames sérios.
Não numa clínica comum do bairro, mas num lugar de verdade.
— Eu já fiz exames.
Está tudo bem.
— Está vendo?
Tudo supostamente está bem, mas não há resultado.
Então não está tudo bem.
Ele dizia aquilo com tanta calma e segurança.
— Minha irmã conhece uma excelente médica.
Galina Viktorovna.
Elas são amigas desde a infância.
Vá até ela e peça para fazer todos os exames como deve ser.
Vera permaneceu em silêncio.
Janna era a irmã mais velha de Artiom e tinha doze anos a mais do que ele.
Ela sempre sabia mais.
Sempre decidia.
Sempre controlava tudo.
— Vou pensar.
— Pensar no quê?
Nós queremos um filho, certo?
Então faça alguma coisa.
Ele sorriu com aquele mesmo sorriso que antigamente fazia Vera derreter.
Agora, aquele sorriso parecia diferente.
O consultório de Galina Viktorovna ficava numa clínica particular do outro lado da cidade.
Vera levou quase uma hora para chegar.
— Entre e tire a roupa, — disse a médica, sem perder tempo com gentilezas.
Exame, ultrassom, coleta de material e sangue.
Vera obedeceu a todas as instruções.
— Hum, hum, — murmurou Galina Viktorovna, folheando os resultados.
— Há uma pequena inflamação.
E os hormônios também estão um pouco instáveis.
Vou prescrever um tratamento.
— Mas o que exatamente está errado?
— Várias coisas.
São detalhes pequenos, mas juntos formam um quadro.
Soro, vitaminas e fisioterapia.
Três meses, e depois veremos.
— Três meses?
— No mínimo.
Saúde não é brincadeira.
Vera saiu do consultório com um maço de encaminhamentos e receitas.
Sentia o coração pesado, mas tentava pensar de forma positiva.
A médica era experiente e tinha sido recomendada pela cunhada, então as coisas deveriam melhorar.
À noite, a irmã de Artiom ligou.
— E então, você foi?
— Fui.
— O que Galina disse?
— Prescreveu um tratamento.
Por três meses.
— Está vendo! — havia satisfação na voz da cunhada.
— Eu disse que o problema estava em você.
Ainda bem que começaram a tratar disso a tempo.
Vera não respondeu.
O que poderia dizer?
— E sua irmã?
Continua sofrendo?
— Ksenia… sim, está sendo difícil para ela.
— Não é de surpreender.
Com essa hereditariedade.
Dizem que sua mãe também não engravidou logo de início.
— Como você sabe…
— Artiom contou.
Vocês conversam sobre tudo, não é?
Então ouça o que estou dizendo como alguém mais velha: leve o tratamento a sério.
Meu irmão precisa de uma esposa normal, não de uma inválida.
Vera desligou o telefone e ficou muito tempo olhando para a parede.
“Inválida.”
A palavra ficou presa dentro dela, afiada e dolorosa.
*
Dois meses se passaram.
Soro em dias alternados, punhados de comprimidos e exames toda semana.
Vera comparecia regularmente às consultas com Galina Viktorovna e seguia todas as prescrições.
— Há progresso, — dizia a médica.
— Mas é lento.
Vamos prolongar o tratamento.
— Por quanto tempo?
— Mais dois meses.
E sabe de uma coisa?
Eu recomendaria um sanatório.
Há um muito bom, especializado.
Janna conhece.
Claro que Janna conhecia.
Janna sempre sabia de tudo.
— É caro?
— A saúde vale mais.
Vera assentiu.
Já tinha se acostumado a concordar com tudo.
À noite, durante o jantar, Artiom comentou com descaso:
— Ouvi dizer que você precisa ir para um sanatório.
— Galina Viktorovna recomendou.
— Então vá.
Nós daremos um jeito no dinheiro.
— Você vai comigo?
— Para quê? — ele perguntou, sinceramente surpreso.
— Tenho coisas para fazer.
Além disso, quem precisa de tratamento é você, não eu.
Vera quis protestar, mas ficou calada.
— A propósito, no sábado vamos à casa de Janna.
Ela vai reunir os parentes para uma espécie de almoço em família.
Esteja pronta.
— Está bem.
— E vista-se de forma decente.
Da última vez, parecia uma estudante.
Vera se levantou em silêncio e começou a tirar as coisas da mesa.
Algo se apertava dentro dela, mas, como sempre, ela reprimiu aquele sentimento.
—
O almoço de sábado na casa de Janna transformou-se numa tortura.
Cerca de dez pessoas estavam sentadas à mesa — parentes de Artiom e alguns conhecidos em comum.
Vera sentia-se como uma peça exposta numa vitrine.
— Então, Verinha, — perguntou Janna, com um sorriso doce e falso.
— Como está indo o tratamento?
— Devagar.
— Devagar também é bom.
O importante é não desistir.
Embora, com o histórico da sua família…
— Que histórico? — perguntou Liudmila, a mãe de Vera, ficando tensa.
— Ora essa.
Ksenia também tem problemas.
Quatro tentativas e nenhuma deu certo.
Isso deve ser hereditário.
— A situação de Ksenia é completamente diferente.
— Vamos, Liudmila Nikolaievna.
Todo mundo sabe que fruta não cai longe do pé.
Não fique ofendida, eu só quero o bem de vocês.
Vera permaneceu sentada com o rosto imóvel.
Sua mãe empalideceu.
— Janna, podemos mudar de assunto?
— Por que mudar?
Aqui somos todos da família.
Todo mundo entende.
Desde que Artiom era criança, eu dizia a ele para escolher uma esposa com inteligência.
A linhagem é importante.
Mas ele se apaixonou, então fazer o quê?
— Eu não sou uma égua defeituosa.
Todos ficaram em silêncio.
A própria Vera se surpreendeu por ter dito aquilo em voz alta.
— Como disse? — Janna ergueu uma sobrancelha.
— Eu não sou defeituosa.
E Ksenia também não é.
Somos seres humanos, não animais de reprodução.
— Oh, como somos sensíveis! — a cunhada caiu na risada.
— Artiom, sua esposa ficou ofendida com a verdade.
— Vera, não comece, — disse Artiom, continuando a mastigar.
— Eu não estou começando nada.
Só estou pedindo para não discutirem minha saúde diante de estranhos.
— Que estranhos?
Isto é família!
— Sua família, Artiom.
Não a minha.
— Isso já é demais, — disse Janna, balançando a cabeça.
— Quando uma mulher se casa, ela aceita a família do marido.
Com todas as qualidades e defeitos.
Ou você achou que simplesmente a aceitamos sem motivo?
Sem dote, sem contatos e com uma irmã defeituosa…
— Não se atreva a falar assim de Ksenia!
Vera levantou-se tão depressa que a cadeira foi empurrada para trás.
— Sente-se, — disse Artiom, olhando finalmente para ela.
— Sente-se e acalme-se.
Minha irmã não quis dizer nada de ruim.
— Nada de ruim?
Ela acabou de chamar minha irmã de defeituosa!
— E o que há de errado nisso? — a cunhada abriu os braços.
— Quatro fertilizações in vitro fracassadas são estatísticas, querida.
São fatos.
Não fui eu que os inventei.
Vera olhou para a mãe.
Liudmila estava pálida, com os lábios tremendo.
— Nós vamos embora.
— Vera, não dramatize.
— Mãe, prepare-se.
Nós vamos embora.
Liudmila levantou-se em silêncio.
Elas saíram sob os cochichos dos convidados e a risada alta de Janna.
*
No carro, Vera permaneceu calada.
Sua mãe também.
— Minha filha…
— Não precisa, mãe.
Eu sei o que você vai dizer.
— O quê?
— Que preciso aguentar.
Que família exige esforço.
Que todos os maridos são assim.
— Não.
Eu queria dizer para você deixá-lo.
Vera freou bruscamente.
— O quê?
— Deixe-o.
Antes que seja tarde demais.
Antes que eles destruam você por completo.
— Mas, mãe, você sempre disse que era preciso preservar a família…
— Eu dizia.
Mas depende da família.
Desta vez, eu estava errada.
Olho para você e vejo que já não é a mesma Vera de dois anos atrás.
Você se culpa por algo que não é culpa sua.
Pede desculpas simplesmente por existir.
— Isso não é verdade.
— É verdade, minha filha.
É exatamente isso.
Vera ligou o carro e voltou à estrada.
As palavras da mãe ficaram presas dentro dela.
Incômodas e cortantes.
E se ela estivesse certa?
Não.
Ela não podia desistir.
Mais uma chance.
Mais uma tentativa.
—
No dia seguinte, Vera foi fazer outra sessão de soro.
No corredor, uma enfermeira a chamou.
— A senhora é Vera, certo?
É paciente de Galina Viktorovna?
— Sim.
— Podemos conversar um instante?
Elas se afastaram para um canto.
A enfermeira olhou ao redor e abaixou a voz.
— Vou me demitir depois de amanhã.
Por isso vou lhe contar.
Vá a outra clínica.
Qualquer uma.
Deixe que especialistas independentes a examinem.
— O que quer dizer?
— Exatamente isso.
Não posso explicar mais, mas… acredite em mim.
Vá.
A senhora é saudável e só está perdendo tempo.
— Como a senhora sabe…
— Sou enfermeira.
Vejo os resultados.
Todos veem.
Só ficam calados.
— Por quê?
— Porque Galina Viktorovna é amiga de Janna.
E ela recebe muito bem para produzir… certos resultados.
Vera abriu a boca, mas a enfermeira já tinha ido embora depressa, sem olhar para trás.
Naquele dia, Vera não recebeu o soro.
Disse que não estava se sentindo bem.
Foi para casa e ficou sentada até a noite, olhando para um ponto fixo.
Saudável.
Ela era saudável.
Dois meses de tratamento para doenças inexistentes.
Comprimidos, injeções e humilhações.
Por quê?
—
Três dias depois, Vera estava sentada no consultório de uma clínica completamente diferente.
Do outro lado da cidade, sem recomendações e sem conhecidos.
— Os resultados estão prontos, — disse a jovem médica, folheando os papéis.
— Posso parabenizá-la.
A senhora está completamente saudável.
— Completamente?
— Do ponto de vista ginecológico, não há nenhuma alteração.
Seus hormônios estão normais, não há patologias estruturais e suas trompas estão perfeitamente desobstruídas.
— E a inflamação?
— Que inflamação?
— Disseram que eu tinha uma inflamação crônica e um desequilíbrio hormonal…
— Quem disse isso? — perguntou a médica, franzindo a testa.
— Mostre-me os resultados dos exames anteriores.
Vera tirou a pasta com os relatórios de Galina Viktorovna.
A médica analisou os documentos durante muito tempo e depois ergueu os olhos.
— Não vou comentar o trabalho de uma colega.
Vou dizer apenas uma coisa.
Se um casal tenta ter filhos há dois anos e a mulher está completamente saudável, é preciso examinar o homem.
— Meu marido já fez exames.
Com ele está tudo bem.
— Onde ele fez os exames?
Quando?
A senhora pode trazer os resultados?
Vera lembrou-se dos papéis guardados na gaveta da cômoda.
Dos carimbos perfeitos e das belas assinaturas.
— Vou tentar.
— Tente.
E sabe de uma coisa?
Se ele se recusar, isso também será uma resposta.
*
À noite, Vera esperou Artiom adormecer e tirou seus “atestados”.
Examinou-os com mais atenção.
Havia um carimbo.
Também havia uma assinatura.
Mas a data… era estranha.
Tinha mais de três anos.
Era de antes do casamento.
Vera abriu o notebook e digitou o nome da clínica.
O resultado da busca foi inesperado.
A clínica tinha fechado quatro anos antes.
Um ano antes da data indicada nos documentos.
Suas mãos ficaram geladas.
Ela verificou novamente.
E mais uma vez.
O resultado não mudava.
A clínica não existia quando o atestado supostamente foi emitido.
Uma falsificação.
Uma fraude.
Uma mentira.
Vera guardou silenciosamente os papéis de volta e deitou-se ao lado do marido.
Por quê?
Para que servia toda aquela encenação?
Se ele sabia que o problema estava nele, por que a humilhou durante dois anos?
Por que Janna fazia aqueles discursos sobre mulheres “defeituosas”?
Por que Galina Viktorovna inventava diagnósticos falsos?
Ao amanhecer, Vera encontrou apenas uma resposta.
Os dois sabiam.
Desde o começo.
E tinham feito dela a culpada de propósito.
Mas por quê?
*
— Você está brincando?
Ksenia olhava para a irmã com os olhos arregalados.
— Não.
O atestado é falso.
A clínica não existia quando ele foi emitido.
— Vera, isso é… isso é…
— Eu sei.
— O que você vai fazer?
— Ainda não decidi.
— Deixe-o.
Hoje mesmo.
— Vou deixá-lo.
Mas não hoje.
— Por quê?
Vera olhou para a irmã.
— Porque eles me chamaram de defeituosa durante dois anos.
Durante dois anos, humilharam você, mamãe e toda a nossa família.
Durante dois anos, tomei remédios para doenças inexistentes e chorei à noite.
Quero que eles respondam por isso.
Publicamente.
— Como?
— O aniversário de Artiom será daqui a três semanas.
Ele sempre convida toda a família.
Janna estará lá, o marido dela e os conhecidos deles.
Quero que todos descubram a verdade.
— Vera, isso é arriscado.
— Eu sei.
Mas não posso simplesmente ir embora.
Não posso permitir que continuem dizendo a todos que sou uma fracassada.
Eles precisam responder pelo que fizeram.
Ksenia ficou em silêncio por muito tempo.
— Está bem.
Do que você precisa?
— De ajuda.
E de um teste de gravidez positivo.
— Um teste?
— Positivo.
— Onde vou conseguir isso?
Eu não estou…
— Vendem na internet.
Para brincadeiras.
Preciso de um.
Ksenia assentiu devagar.
— Você quer fingir que está grávida?
— Exatamente.
Quero ver a reação deles.
Se ele é infértil e sabe disso, não vai ficar feliz.
Vai se assustar.
E vai se entregar sozinho.
— Vera, isso é…
— Genial? — ela perguntou com um sorriso irônico.
— Eu sei.
Também sei que é arriscado.
Mas não serei mais uma vítima.
—
O aniversário de Artiom caiu num sábado.
Os convidados começaram a chegar por volta das três da tarde.
Vera chegou um pouco mais tarde.
“Tinha se atrasado no salão”, como explicou por telefone.
Na verdade, estava tentando organizar os pensamentos.
Janna a recebeu na entrada.
— Está atrasada, querida.
Os convidados já chegaram.
— Havia trânsito.
— Claro, trânsito.
Sempre há trânsito.
Vera sorriu.
Três semanas de fingimento tinham lhe custado muitos nervos.
Três semanas de sorrisos, obediência e silêncio.
Ela até passou quatro dias no sanatório para criar um álibi.
Voltou “revigorada”.
Agora estava pronta.
Cerca de quinze pessoas estavam reunidas à mesa.
Parentes, conhecidos e colegas de Artiom.
Sua mãe também veio.
Vera tinha pedido e explicado por quê.
Ksenia esperava num carro ali perto, caso Vera precisasse de apoio.
Depois dos brindes e aperitivos, Vera se levantou.
— Posso dizer algumas palavras?
— Claro, querida, — respondeu Artiom, acenando de forma benevolente.
— Quero lhe dar um presente.
Um presente especial.
— Oh, interessante!
Vera tirou da bolsa uma caixinha amarrada com uma fita.
Dentro dela havia um teste com duas linhas.
— Feliz aniversário, futuro papai.
Silêncio.
Artiom olhava fixamente para o teste.
Seu rosto estava branco como giz.
— O que… o que é isso?
— Um teste de gravidez.
Deu positivo.
Você está feliz?
Ele não respondeu.
Olhava para as duas linhas como se tivesse visto um fantasma.
— Artiom? — Janna se aproximou.
— O que há aí?
Ela olhou dentro da caixa e ficou imóvel.
— Isso é impossível, — disse com a voz baixa e sufocada.
— Por que é impossível? — perguntou Vera, sorrindo.
— Estamos tentando há dois anos.
— Isso é impossível! — gritou de repente a cunhada.
— É impossível engravidar dele!
Ele é…
Ela parou.
Tarde demais.
Os convidados trocaram olhares.
Liudmila apertou os lábios.
— Ele é o quê, Janna? — perguntou Vera com calma, quase com doçura.
— Termine a frase.
— Cale a boca! — Artiom levantou-se de um salto.
— Você me traiu!
Confesse, sua desgraçada, com quem você dormiu?
— Com quem eu dormi?
Com ninguém, Artiom.
Nem sequer estou grávida.
— O quê?
— Foi uma encenação.
O teste foi comprado.
Eu só precisava ver a reação de vocês.
E ouvir o que sua irmã diria.
O silêncio ficou pesado e ensurdecedor.
— E você mesma se entregou, — continuou Vera.
— “É impossível engravidar dele.”
Isso significa que você sabia.
E ele também sabia.
Desde o começo.
— Isso é absurdo! — Janna sacudiu a cabeça com força.
— Você inventou tudo!
— Sério?
E o atestado?
Aquele belo atestado de uma clínica que fechou um ano antes da data indicada?
Artiom ficou ainda mais pálido, se isso era possível.
— Você mexeu nas minhas coisas?
— Eu verifiquei os documentos que você mesmo me mostrou.
Dois anos, Artiom.
Durante dois anos, você me obrigou a tratar doenças que eu não tinha.
Durante dois anos, sua irmã me chamou de defeituosa.
Humilhou minha família.
Cuspiu no meu rosto fingindo preocupação.
— Vera, você não entende… — ele disse, tentando se aproximar.
— Não toque em mim! — ela gritou, recuando.
— Eu entendo perfeitamente.
Vocês dois sabiam que você era infértil.
E decidiram colocar a culpa em mim.
Por quê?
Para que eu me sentisse culpada?
Para que fosse obediente?
Grata a você, o homem maravilhoso que suportava uma esposa supostamente defeituosa?
— Vera…
— Cale a boca!
Durante dois anos, você me viu engolir comprimidos para doenças inexistentes.
Viu-me chorar depois de cada menstruação.
Viu sua irmã pisotear minha dignidade.
E não me contou a verdade uma única vez — nem uma única vez!
Os convidados permaneciam imóveis e calados.
Ninguém ousava nem tossir.
— Sabem o que é mais engraçado? — perguntou Vera com um sorriso amargo.
— Eu realmente amava você.
Estava pronta para suportar qualquer coisa pela nossa família.
Mas você… vocês dois… nem sequer são seres humanos.
São parasitas.
São desprezíveis!
— Como se atreve! — guinchou Janna.
— Na nossa casa!
— Na casa de vocês?
Ótimo.
Então estou saindo da casa de vocês.
Para sempre.
Vera virou-se para os convidados.
— Desculpem por estragar a festa.
Embora… talvez seja melhor assim.
Agora vocês sabem com quem estão lidando.
Com mentirosos!
Ela pegou a bolsa e caminhou para a saída.
— Pare! — gritou Artiom, alcançando-a perto da porta.
— Você é uma velha que ninguém quer e que nem consegue ter filhos!
Vera se virou.
— Que lógica interessante.
Quando você achava que o problema estava em mim, estava disposto a viver com uma esposa “defeituosa”.
Mas agora que ficou claro que o problema está em você, eu de repente virei uma mulher que ninguém quer?
— Isso… isso…
— Não, Artiom.
É exatamente a mesma coisa.
Você estava disposto a me humilhar enquanto achava que eu era mais fraca.
Assim que viu minha força, começou a gritar.
Ela abriu a porta.
— Você receberá os documentos do divórcio pelo correio.
Adeus.
*
Ksenia a esperava do lado de fora.
Abraçou a irmã sem dizer nada.
— Como você está?
— Estranho.
Sinto-me leve e com dor ao mesmo tempo.
— Vamos para casa.
Vera assentiu.
Entrou no carro e recostou-se no banco.
—
Um ano se passou.
O divórcio foi concluído.
Artiom não tentou resistir.
A cunhada ligou algumas vezes e tentou ameaçá-la, mas depois ficou em silêncio.
Diziam que a reputação da família tinha sido arruinada.
Um dos convidados contou a história a conhecidos, que contaram a outros, e logo todo o círculo social deles conhecia a verdade.
As mulheres que antes olhavam para Artiom com inveja viraram-lhe as costas imediatamente.
Vera não sentiu nenhuma satisfação maldosa.
Apenas seguiu em frente.
Seis meses depois do divórcio, conheceu Maksim por acaso, numa exposição em uma galeria.
Ele pareceu-lhe engraçado e um pouco desajeitado.
Falava sobre as pinturas com tanto entusiasmo que parecia tê-las pintado pessoalmente.
— Você sempre fala com tanta emoção? — ela perguntou.
— Só quando o assunto é interessante.
E quando a mulher com quem estou falando é bonita.
— Isso foi um elogio?
— Foi um fato.
Eles conversaram durante três horas.
Depois, mais três num café.
E depois ainda mais.
Maksim era diferente.
Completamente diferente.
Não tentava mudar Vera, não procurava defeitos nela e não a comparava com ideal algum.
— Você é incrível, — ele dizia.
— Nem sei como explicar.
Simplesmente incrível.
— Meu ex-marido me chamava de defeituosa.
— Seu ex-marido é um idiota.
Podemos registrar isso oficialmente.
Vera ria.
*
O casamento foi simples.
Apenas as pessoas mais próximas estavam presentes.
Sua mãe chorou de felicidade.
Ksenia estava sentada ao lado do marido, Igor, e os dois seguravam as mãos um do outro.
Dois meses depois do casamento, Vera percebeu que sua menstruação estava atrasada.
O teste — um verdadeiro, não aquele comprado para a encenação — mostrou duas linhas.
— Maksim…
Ele olhou para o teste.
Depois olhou para ela.
Depois voltou a olhar para o teste.
— Isso…
— Sim.
— Nós vamos…
— Sim.
Ele a pegou nos braços e começou a girar pela sala, rindo como uma criança.
— Vou ser pai!
Está ouvindo?
Pai!
— Estou ouvindo, estou ouvindo.
Coloque-me no chão, estou ficando tonta!
— Desculpe, desculpe… — ele a colocou cuidadosamente no sofá.
— Você não pode ficar nervosa.
De agora em diante, não pode fazer absolutamente nada.
Fique sentada, vou buscar chá.
Ou suco?
Ou leite?
O que é mais saudável?
— Maksim.
— Sim?
— Acalme-se.
— Não consigo! — ele respondeu, radiante.
— Este é o melhor dia da minha vida!
Vera olhava para o marido e pensava que era assim que tudo deveria acontecer.
Era assim que a verdadeira alegria se parecia.
Sem cálculo, sem medo e sem mentira.
Apenas felicidade.
—
Um mês depois, Ksenia ligou.
— Irmãzinha, sente-se.
— Já estou sentada.
— Sente-se direito.
— Ksenia, fale logo!
— Estou grávida.
Vera ficou imóvel.
— Você está… mesmo grávida?
— De gêmeos.
Um menino e uma menina.
— Ksenia!
— Eu sei, eu sei…
Eu mesma mal consigo acreditar.
A quinta tentativa deu certo.
O médico disse que está tudo perfeito.
Vera chorava.
As duas irmãs choravam juntas, através do telefone, da distância e de todos aqueles anos de sofrimento.
— Vamos ser mães, — sussurrou Vera.
— Vamos.
Finalmente.
*
No início do outono, Vera caminhava pelo parque.
Sua barriga já estava arredondada, e ela a apoiava instintivamente com uma das mãos.
Maksim caminhava ao lado dela sem soltar sua outra mão.
— Você está feliz? — ele perguntou.
— Muito feliz.
— Arrepende-se de alguma coisa?
— Não, — respondeu Vera, balançando a cabeça.
— Nem sequer me arrependo daqueles dois anos.
Sem eles, eu não teria me tornado a mulher que sou hoje.
E nunca teria conhecido você.
— É uma filosofia interessante.
— É uma filosofia da vida.
Eles pararam perto do lago.
Os patos nadavam na água sem prestar atenção às pessoas.
— O que aconteceu com eles? — perguntou Maksim.
— Com seu ex-marido e a família dele?
— Não sei.
E não quero saber.
— Não tem curiosidade nenhuma?
— Nenhuma, — respondeu Vera, sorrindo.
— Eles ficaram lá, no passado.
Junto com suas mentiras e sua maldade.
Eu estou aqui.
Com você.
Com nosso bebê.
Ela colocou a mão sobre a barriga.
Maksim a abraçou, e os dois ficaram assim por muito tempo — em silêncio, tranquilos e felizes.
*
Às vezes, o passado voltava a se manifestar.
Conhecidos em comum lhe contavam rumores.
Artiom nunca mais se casou.
Janna brigou com metade da família.
As pessoas passaram a evitar a casa deles.
Vera ouvia e depois deixava aquilo ir embora.
Não era problema dela.
Não era a vida dela.
Sua vida estava ali.
Num apartamento acolhedor, nos braços de um marido amoroso e à espera do milagre que crescia sob seu coração.
Ela já os tinha perdoado há muito tempo.
Não por eles, mas por si mesma.
O ódio envenena uma pessoa por dentro, e Vera não queria mais viver envenenada.
— Em que está pensando? — perguntou Maksim certa noite.
— Em como a vida é estranhamente organizada.
Dois anos atrás, eu achava que estava quebrada.
Que ninguém precisava de mim.
Que nunca seria mãe.
— E agora?
— Agora sei que não era o meu corpo que estava quebrado.
Era aquela vida que estava quebrada.
E ainda bem que ela terminou.
Maksim a beijou.
— Eu amo você.
— Eu sei.
— E amo nosso bebê.
— Isso eu também sei.
— E pretendo amar vocês dois por muito, muito tempo.
Vera fechou os olhos e sorriu.
Finalmente, estava em casa.







