A ordem de demissão de Kira foi emitida 16 minutos antes do acidente…

Kira não entregou a folha.

Ela a pressionou contra os joelhos e, pela primeira vez durante todo o dia, sentiu que tinha nas mãos não apenas a prova da sua demissão, mas também a razão pela qual tudo havia começado.

Luka não disse mais nada.

Viktor também não exigiu que o documento fosse devolvido.

O carro seguia por ruas comuns da cidade, enquanto Kira continuava olhando para a última linha da mensagem.

23:31.

Hora em que o documento foi emitido.

Faltavam dezesseis minutos para o acidente no elevador.

Ela verificou o sobrenome mais uma vez.

Era o dela.

O número do turno coincidia.

O crachá de trabalho também era o dela.

— Quem tinha acesso ao sistema às 23:31? — perguntou ela.

Viktor virou a cabeça.

— Fiz a mesma pergunta.

— E o que responderam?

— Nada que me convencesse.

Kira apertou a folha.

O que a assustava já não era o fato de estar sentada ao lado do homem de quem ainda tinha medo no dia anterior.

Agora havia algo ainda mais assustador: alguém havia decidido de antemão que ela não deveria estar no prédio.

E então o elevador parou.

Depois disso, tudo deveria parecer consequência do acidente.

Viktor ficou em silêncio por alguns segundos e então disse:

— Ontem à noite, deveria acontecer uma reunião na torre de escritórios, e apenas algumas pessoas sabiam disso.

— E o que eu tenho a ver com isso?

— Ainda não sei.

— Então por que vocês me tiraram de casa?

— Porque agora sei que a pessoa que assinou a ordem não queria simplesmente demitir você.

Kira olhou para ele.

— Então o que ela queria?

Viktor não respondeu imediatamente.

— Que você não estivesse no prédio em um horário específico.

Essa resposta mudou tudo.

Kira se lembrou do turno da noite.

Dos corredores comuns.

Dos escritórios fechados.

Dos sacos de lixo perto da sala de reuniões.

Da sala que ela havia limpado por mais tempo do que o normal porque alguém tinha deixado caixas de documentos ali.

Naquele momento, ela não prestou atenção.

Agora, porém, lembrou-se de um detalhe.

Antes de entrar no elevador, ela tinha visto um homem de jaqueta escura sair por uma porta lateral.

Ele carregava uma pasta preta e fina.

Kira não o conhecia, mas lembrava que ele havia olhado para trás, na direção do corredor, duas vezes.

Ela contou isso a Viktor.

Ele imediatamente pediu a Luka que parasse o carro.

— Vocês o conhecem? — perguntou Kira.

— Talvez.

— Isso não é uma resposta.

— E não deveria ser.

Não antes de eu verificar.

Luka se virou no banco da frente.

— Nós já verificamos as câmeras.

Viktor lançou-lhe um olhar duro.

— Eu pedi para você ficar calado.

Luka se calou.

Kira ergueu os olhos lentamente.

— Câmeras?

— No corredor em frente ao elevador — disse Luka.

— E o que aparece nelas?

Ele não teve tempo de responder.

Viktor pegou o telefone dele e abriu uma gravação curta.

Na tela aparecia a mesma área perto do elevador.

Kira viu a si mesma.

23:28.

Ela caminhava pelo corredor com um balde e um saco de lixo.

Alguns segundos depois, o homem com a pasta preta apareceu na imagem.

Ele passou por ela.

Depois parou.

Virou-se.

E ficou olhando enquanto ela se afastava.

Kira se inclinou para mais perto.

— Pare.

Luka pausou o vídeo.

— Aqui.

Kira apontou para a mão dele.

Na pasta havia uma pequena etiqueta com um número.

Ela não conseguia ler o número inteiro, mas se lembrava dos dois primeiros dígitos.

— Eu vi essa pasta.

Viktor olhou para ela.

— Onde?

— Perto da sala de reuniões.

— O que você fez com ela?

— Nada.

Ela estava em cima da mesa.

— Você a abriu?

— Não.

Ele ficou em silêncio por um momento.

— Então por que se livraram de você?

Kira olhou para a tela.

— Talvez alguém achasse que eu iria abri-la.

Dessa vez, Viktor não contestou.

O carro voltou a andar.

Eles chegaram a um prédio de escritórios comum.

Sem seguranças na entrada.

Sem pessoas de uniforme.

Apenas portas de vidro, um saguão e alguns escritórios.

Kira não saiu do carro.

— Não vou com vocês até entender o que está acontecendo.

Viktor abriu a porta do seu lado.

— Então fique aqui.

Ele saiu.

Kira ficou surpresa.

Ela esperava uma ordem.

Mas ela não veio.

Alguns minutos depois, Luka voltou e colocou outra folha sobre o banco.

— Esta é uma cópia do registro de acesso.

Kira a pegou.

No registro estavam os horários de entrada nas áreas restritas aos funcionários.

23:12.

23:19.

23:26.

23:31.

23:39.

Kira conhecia apenas um desses horários.

23:31 — a ordem de afastamento dela.

Ela passou o dedo pela linha das 23:26.

Ao lado havia o número de uma entrada de serviço.

— O que é isso?

— Acesso ao corredor técnico — respondeu Luka.

— Quem entrou?

Luka não respondeu.

Kira olhou para ele.

— Você sabe.

— Sei.

— Então diga.

Ele baixou os olhos para o registro.

— Eu.

Kira ficou imóvel.

— Você estava lá cinco minutos antes da ordem?

— Sim.

— Por quê?

— Recebi uma instrução.

— De quem?

Luka permaneceu em silêncio.

E então Kira entendeu por que ele havia falado demais no carro.

Ele sabia que a ordem era um erro antes mesmo de Viktor ver o documento.

Mas por quê?

A porta do escritório se abriu.

Viktor voltou.

Nas mãos, ele carregava a mesma pasta preta que Kira havia visto nas câmeras.

— Eu a encontrei.

Kira olhou para a pasta.

— Onde?

— Na sala que você limpou.

— Ela estava lá ontem?

— Sim.

Viktor colocou a pasta no banco entre os dois, mas não a abriu.

— Alguém a tirou de lá depois que você saiu.

— E depois devolveu?

— Parece que sim.

Kira sentiu as peças começarem a se encaixar em sua cabeça.

A ordem às 23:31.

O elevador às 23:47.

Os seguranças já estavam esperando perto das portas.

A pasta preta.

As câmeras.

Seu crachá, que por algum motivo havia ido parar nas mãos de Viktor.

— Alguém queria fazer o acidente parecer uma coincidência — disse ela.

— Talvez.

— E queriam colocar a culpa em mim.

— É o que parece.

Kira olhou novamente para ele.

— Você também suspeitou de mim?

Viktor não respondeu imediatamente.

— No começo, pensei que você simplesmente tivesse aparecido no lugar errado.

— E agora?

— Agora acho que alguém colocou você naquele lugar de propósito.

Essa frase foi mais assustadora do que as ameaças no elevador.

Kira se lembrou de como ele havia tocado seu cabelo, de como ela havia afastado a mão dele e dito que o poder não lhe dava o direito de tocá-la.

Naquele momento, ela só pensava em como sair do elevador.

Agora estava sentada ao lado dele e entendia que sua vida já havia mudado.

Mas uma coisa permanecia igual.

Ela não permitiria que ele decidisse por ela.

— Vou para casa — disse Kira.

Viktor olhou para ela.

— Depois do que aconteceu?

— Sim.

— Ainda pode haver pessoas perto da sua casa.

— Então eu mesma decidirei o que fazer.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois assentiu.

— Tudo bem.

Kira saiu do carro.

Luka abriu a porta do prédio para ela.

Ela parou.

— E mais uma coisa.

Viktor esperou.

— Eu não sou sua funcionária.

— Eu sei.

— E não sou sua subordinada.

— Eu sei.

— Então não me dê mais ordens.

Viktor assentiu.

Dessa vez, sem sorrir.

Kira entrou.

Alguns minutos depois, ela já estava sentada à mesa em frente a Viktor, mas agora a porta permanecia aberta.

Dois documentos estavam sobre a mesa.

A ordem de afastamento dela.

E o registro de acesso.

Kira comparou os horários.

23:26 — entrada de serviço.

23:31 — a ordem.

23:47 — ela entrou no elevador.

Viktor se inclinou sobre o registro.

— Tem mais uma coisa aqui.

Ele apontou para a última linha.

23:39.

Ao lado havia um número de acesso que Kira não conhecia.

— Quem é? — perguntou ela.

— É exatamente isso que vamos descobrir agora.

Luka pegou o telefone.

— O número pertence a um crachá interno.

— De quem? — perguntou Viktor.

Luka olhou para a tela.

A expressão em seu rosto mudou.

— Seu.

Kira olhou para Viktor.

— Mas você estava em outra parte do prédio.

— Sim.

— Então alguém estava usando o seu crachá.

Viktor pegou o telefone.

— Ou alguém queria muito que pensássemos isso.

Kira sentiu novamente a mesma tensão que havia sentido no elevador.

Só que agora não havia portas trancadas entre eles.

Ela pegou a folha com a ordem.

E de repente percebeu outro detalhe.

Abaixo da assinatura havia uma data.

Mas a assinatura não havia sido feita com tinta preta como o texto principal.

Era azul.

Kira se inclinou para mais perto.

— Não é esse o tipo de caneta usada para assinar documentos assim no seu escritório?

Viktor olhou para ela.

— Como você sabe?

— Eu limpava a sala de reuniões todos os dias.

Havia canetas assim lá.

Luka se aproximou.

— Ela está certa.

Viktor ergueu os olhos.

— Por que você disse que foi um erro?

Luka percebeu que não tinha mais como recuar.

— Porque me disseram para preparar o afastamento dela antes mesmo do acidente.

Kira olhava para ele.

— Quem disse?

Luka não respondeu.

Viktor repetiu a pergunta.

— Quem?

O segurança soltou o ar lentamente.

— A pessoa que tem acesso ao seu escritório.

A tensão voltou a tomar conta da sala.

Mas dessa vez Kira não recuou.

Ela colocou o documento sobre a mesa.

— Quero ouvir o nome.

Luka olhou para Viktor.

Depois para Kira.

— Seu vice.

Viktor não respondeu.

Apenas pegou o documento e o virou.

No verso havia uma pequena marca de tinta azul.

E ao lado, um número de sala.

O número da mesma sala de reuniões que Kira havia limpado antes de entrar no elevador.

Agora estava claro por que a demissão dela havia sido preparada antes do acidente.

Queriam se livrar dela não por causa do que aconteceu no elevador.

Queriam se livrar dela antes que pudesse contar o que havia visto perto da sala de reuniões.

Mas a principal pergunta permanecia.

O que exatamente havia na pasta preta?

Viktor a abriu.

Dentro havia documentos.

Kira se inclinou sobre a mesa.

Na primeira página havia uma lista de sobrenomes.

Ela viu o seu.

E abaixo dele, outro.

O sobrenome da pessoa que havia ordenado o bloqueio do crachá dela.

Viktor virou a página.

Ali havia um esquema de acesso ao prédio nos últimos dias.

E uma data estava circulada com caneta.

Hoje.

Kira percebeu que o acidente no elevador era apenas uma parte do que deveria acontecer.

Sua demissão não era o fim.

Era uma maneira de obrigá-la a desaparecer do prédio antes de um determinado momento.

E quando esse plano falhou, um carro apareceu perto da casa dela.

Agora Kira tinha uma escolha.

Voltar para casa e fingir que nada havia acontecido.

Ou ficar e ajudar a descobrir por que seu nome já estava na lista antes mesmo do acidente.

Ela olhou para a folha que ainda segurava nas mãos.

Viktor não tentou tirá-la dela.

Pelo contrário, empurrou outra cópia em sua direção.

— Fique com ela.

Kira olhou para ele surpresa.

— Por quê?

— Porque, se alguém tentou apagar esse rastro, é melhor que ele não esteja apenas comigo.

Ela pegou a cópia.

Dessa vez, por vontade própria.

E a colocou ao lado do primeiro documento.

Pela primeira vez nas últimas vinte e quatro horas, Kira sentiu que a situação já não a controlava por completo.

Ela ainda não sabia em quem confiar.

Não sabia o que havia na pasta.

Não sabia por que alguém havia ordenado antecipadamente que ela fosse afastada do trabalho.

Mas agora ela tinha tempo.

Tinha o documento.

Tinha o registro de acesso.

E tinha o nome da pessoa que poderia explicar tudo.

Viktor fechou a pasta.

— Amanhã vamos falar com ele.

Kira levantou os olhos.

— Não.

Viktor parou.

— Eu vou com vocês.

Ela pegou os dois documentos da mesa.

— Mas quem vai falar sou eu.

Dessa vez, ele não contestou.

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