Ksenia tinha herdado da avó o apartamento de três quartos na Avenida Lomonosov — muito antes de Aleksandr aparecer na sua vida.
Ela própria pintara as paredes, trocara as janelas com o seu próprio dinheiro e, dois anos antes, mandara refazer o parquet da sala, fazendo um empréstimo apenas em seu nome.

Quando Aleksandr se mudou para casa dela depois do casamento, a questão de saber a quem pertencia o apartamento nunca sequer foi levantada — viviam tranquilamente, sem dividir tudo entre «meu» e «teu».
A tranquilidade acabava sempre que Veronika Pavlovna aparecia para uma visita.
— A Zoia ligou ontem — começava a sogra mal atravessava a porta.
— Diz que o pequeno voltou a não dormir durante a noite, ela e o marido estão completamente sobrecarregados.
É isto que significa uma família verdadeira — todos os problemas são divididos a meio, todas as preocupações são enfrentadas em conjunto.
Ksenia acenava com a cabeça enquanto servia o chá e permanecia em silêncio.
Veronika Pavlovna sabia introduzir uma comparação de tal forma que ela ficava suspensa no ar como mais um convidado sentado à mesa.
— E vocês, quando é que vão ter um herdeiro?
O Sasha já não é nenhum rapazinho, está mais do que na hora.
— Mãe, já chega — Aleksandr franziu o sobrolho e esfregou a ponte do nariz.
— A Ksiusha decide sozinha quando e o que quer.
— Eu só estou a perguntar por bem.
Mas raramente soava realmente como uma pergunta feita por bem.
Depois dessas visitas, Ksenia ficava durante muito tempo junto à janela da cozinha, observando as pessoas a passearem os cães no pátio, incapaz de acalmar a irritação que, por alguma razão, parecia concentrar-se não nos pensamentos, mas nas mãos — dava-lhe vontade de mudar coisas de lugar, lavar tudo de novo, pôr ordem onde a ordem já existia.
— Não ligues — dizia Aleksandr à noite, abraçando a mulher por trás na cozinha.
— Ela é assim com toda a gente.
Também infernizou a Zoia até ela ter um filho.
— Não fico magoada por mim — Ksenia abanava a cabeça.
— O que me magoa é que tu a justificas sempre.
— Eu não a justifico.
Só estou a explicar que é um hábito dela.
Ksenia não prolongava a discussão.
Na verdade, raramente entrava em grandes conflitos — considerava que a relação da sogra com o filho e a filha não era da sua conta, podiam relacionar-se como quisessem, desde que não se intrometessem demasiado na vida dela.
Aleksandr via a mãe e a irmã com frequência, por vezes sem a mulher, e Ksenia não se opunha — pelo contrário, ficava contente por o marido valorizar a família.
Assim se passaram três anos.
Por fora, a vida parecia estável e tranquila: ambos trabalhavam, iam de férias uma vez por ano e planeavam uma renovação que ora adiavam, ora voltavam a discutir.
Mas, por dentro, acumulava-se um sedimento desagradável, como a borra turva que fica no fundo de uma chávena de chá e que não se vê até se mexer com uma colher.
Tinham marcado as férias para o fim do verão — Turquia, dez dias, uma viagem que adiavam havia muito tempo.
Uma semana antes do voo surgiu a questão: quem ficaria de olho no apartamento caso rebentasse um cano ou acontecesse qualquer outro problema?
— Talvez deixemos as chaves com a mãe? — sugeriu Aleksandr enquanto colocava camisas na mala.
— Só para uma emergência extrema.
Nunca se sabe — os vizinhos podem provocar uma inundação e nós não estaremos cá.
Ksenia ficou imóvel com uma toalha nas mãos.
— Não sei, Sasha.
Só de pensar nisso fico inquieta.
— Mas inquieta com quê?
Ela não vai morar aqui, vai apenas ficar com as chaves para o caso de ser preciso.
Se acontecer alguma coisa, vem cá, vê o que se passa e pronto.
— E se não acontecer nada?
— Ksiusha, pensa bem — as chaves por si só não vão fazer nada.
A mãe é uma pessoa responsável.
Ksenia hesitou por mais dois dias.
Aleksandr voltou ao assunto várias vezes, sem ser demasiado insistente, mas com persistência — mencionava-o ao pequeno-almoço, voltava a recordar à noite.
No fim, ela cedeu, embora algo dentro dela resistisse até ao último momento.
— Está bem — disse ela na véspera da partida.
— Mas apenas em caso de extrema necessidade.
Ninguém entra aqui sem nós sabermos, percebeste?
Isto não está aberto a discussão.
— Claro.
Vou dizer isso à mãe.
— Diz-lhe diretamente, sem indiretas.
Para mim é importante que fique tudo muito claro.
— Vou dizer — Aleksandr assentiu enquanto fechava o fecho da mala.
— Não te preocupes tanto, a sério.
As férias decorreram sem incidentes.
Mar, sol, alguns telefonemas esporádicos de Veronika Pavlovna — perguntava como estavam a aproveitar as férias e dizia-lhes para não se preocuparem com nada, que estava tudo bem.
Aleksandr ouvia a mãe ao telefone, respondia brevemente e não notou uma única vez nada de suspeito na voz dela.
Não lhes apetecia regressar a casa, mas os dez dias passaram depressa, e logo um táxi os levava do aeroporto, as rodas das malas batiam no asfalto e no bolso de Aleksandr estavam as suas próprias chaves do apartamento.
Abriram a porta como de costume.
A luz da cozinha estava acesa.
Veronika Pavlovna estava sentada à mesa com uma chávena de chá e, ao lado dela, sentado num banco alto e a balançar as pernas, o filho de Zoia comia bolachas — um menino de cerca de cinco anos, de pijama com dinossauros.
Ksenia parou no corredor sem sequer tirar os ténis.
— Veronika Pavlovna? — a voz saiu calma, mas a mala que segurava pareceu-lhe subitamente pesada demais.
— Oh, já chegaram!
Não vos esperávamos tão cedo — a sogra levantou-se e pousou a chávena como uma dona da casa a receber convidados atrasados na própria residência.
Ksenia deixou a mala junto à porta e foi em silêncio até ao quarto, sem perguntar nada — queria ver com os próprios olhos antes de tirar conclusões.
Na cama, coberta com uma manta, dormia Zoia — estendida como se estivesse em casa, com um braço pendurado para fora do colchão.
O quarto cheirava a um perfume estranho.
Ksenia ficou alguns segundos à porta sem dizer uma palavra, depois virou-se e regressou à cozinha.
Aleksandr, que acabara de pousar as malas, cruzou o olhar com a mulher e percebeu que alguma coisa estava errada, embora ainda não soubesse o quê.
— Mãe, o que é que se está a passar? — perguntou enquanto tirava o casaco.
— Filho, não se preocupem — Veronika Pavlovna voltou a sentar-se, calma, como se a situação fosse perfeitamente normal.
— A Zoiechka vai ficar aqui convosco por algum tempo.
Ksenia ficou à entrada da cozinha com os braços cruzados, e a paciência que se acumulara durante três anos acabou definitivamente naquele instante.
— Mas desde quando é que a sua filha dorme no meu quarto? — perguntou a nora à sogra.
A voz soou cortante e ecoou nos azulejos da cozinha.
A criança parou de mastigar a bolacha e ficou a olhar para os adultos com os olhos muito abertos.
— Ksiusha, fala mais baixo, vais assustar a criança — tentou acalmá-la Veronika Pavlovna.
— Não me interessa quem vai ficar assustado.
Estou a perguntar por que razão, no meu apartamento, no meu quarto, está a dormir uma pessoa que eu não convidei.
— O Ilia deixou-a — disse a sogra com um suspiro, como se anunciasse uma tragédia de proporções mundiais.
— O marido foi-se embora, imagina.
Para onde é que ela há de ir agora com uma criança?
A família deve ajudar-se, é o que eu penso.
— E a senhora decidiu que essa ajuda devia ser dada à custa do meu apartamento.
— E à custa de quem mais?
Eu tenho um apartamento com uma divisão, mal há espaço para nos mexermos.
Tu e o Sasha têm três quartos, espaço não falta.
Zoia entrou na cozinha a bocejar, enrolada na manta.
Tinha o cabelo despenteado e o rosto sonolento — sentia-se claramente em casa, e não como uma convidada apanhada de surpresa.
— Ksiusha, a sério, eu não tenho para onde ir — Zoia sentou-se numa cadeira ao lado do filho.
— Tu também não porias uma mulher com uma criança na rua, eu conheço-te.
— Ninguém me perguntou nada — Ksenia virou-se para a cunhada.
— Isso é a primeira coisa.
Em segundo lugar, eu não te estou a pôr na rua, estou a dizer que tomaram uma decisão sem mim dentro da minha própria casa.
— Oh, que diferença faz? — Veronika Pavlovna fez um gesto desdenhoso com a mão.
— Este apartamento já é dos dois há muito tempo, o Sasha vive aqui há anos, para onde quer que se olhe estão as coisas dele, a vida dele.
Para quê começar agora a separar o que é meu e o que é teu?
Ksenia sentiu o sangue subir-lhe ao rosto e os dedos fecharem-se involuntariamente em punhos.
Olhou para o marido, esperando pelo menos alguma reação — uma objeção, apoio, qualquer coisa.
— Sasha — disse ela em voz baixa — diz alguma coisa.
Aleksandr estava junto ao frigorífico, mudando o peso de uma perna para a outra e evitando olhar a mulher nos olhos.
— A mãe tem alguma razão — conseguiu dizer por fim.
— Nós somos uma família.
A Zoia fica aqui dois ou três meses até se recompor, o que é que isso tem de tão grave?
Foi precisamente nesse momento que Ksenia sentiu a dor mais profunda — não pela presença da cunhada no quarto, nem pela insolência da sogra, mas pela aceitação silenciosa do marido de que outra pessoa tinha o direito de dispor dos bens dela.
— Estás mesmo a falar a sério? — Ksenia franziu o sobrolho e inclinou a cabeça, como se tentasse perceber se tinha ouvido bem.
— Ksiusha, não comeces — Aleksandr levantou a voz.
— Agora não é hora de pensar em propriedade quando alguém está com problemas.
— Alguém está com problemas — no meu apartamento, no meu quarto, sem a minha autorização — Ksenia pronunciou cada palavra devagar.
— A propriedade não é um capricho, Sasha, este apartamento é meu e fui eu que o renovei com o meu dinheiro quando tu ainda estavas a decidir se querias casar comigo ou não.
— Estás a distorcer tudo de propósito — interveio Veronika Pavlovna, levantando-se da cadeira.
— És mesmo insensível, só pensas em dinheiro.
Uma mulher com uma criança está em dificuldades e tu vens falar do parquet.
— Estás simplesmente com inveja — acrescentou Zoia, abraçando o filho.
— Eu pelo menos tenho um filho, e tu ainda não conseguiste decidir-te.
Talvez seja por isso que estás tão zangada.
De repente, a cozinha encheu-se de vozes — Veronika Pavlovna falava sobre falta de coração, Zoia justificava-se, a criança começou a choramingar assustada com os gritos, enquanto Aleksandr permanecia no meio de todos repetindo a mesma coisa:
— Já chega, parem, vamos falar com calma.
— Com calma? — Ksenia bateu com a palma da mão na mesa, fazendo a chávena tilintar e quase tombar.
— Calma teria sido se alguém me tivesse ligado e pedido autorização.
Em vez disso, regresso das férias e encontro pessoas estranhas no meu quarto.
— Tu não percebes o que é ficar sozinha com uma criança — começou novamente Zoia.
— Eu percebo apenas uma coisa — tomaram uma decisão sem mim dentro da minha casa — interrompeu Ksenia.
— E quero que o quarto fique livre ainda hoje.
— E para onde é que vamos? — Veronika Pavlovna abriu os braços.
— Vais pôr-nos na rua, é isso?
Já não tens consciência nenhuma?
— Tenho consciência e também tenho limites — Ksenia percorreu a cozinha com o olhar: a sogra junto ao fogão, a cunhada com o filho à mesa e o marido imóvel junto ao frigorífico.
— E esses limites foram ultrapassados sem me perguntarem.
— Ksiusha, peço-te apenas que aguentes alguns meses — Aleksandr aproximou-se e tentou pegar-lhe na mão, mas ela afastou-se.
— Não é para sempre.
A Zoia vai arranjar trabalho, alugar uma casa e tudo se resolverá.
— E se não se resolver?
Já decidiste que o meu apartamento é um hotel para toda a tua família, desde que lhes seja conveniente?
— Ninguém disse isso.
— É exatamente isso que está a acontecer, Sasha.
Olha à tua volta — a tua mãe está sentada à minha mesa como se fosse a dona da casa, a tua irmã dorme na minha cama e tu pedes-me para aguentar.
Alguém me perguntou sequer uma vez o que eu quero?
Aleksandr permaneceu em silêncio, de olhos baixos, e aquele silêncio disse mais do que quaisquer palavras.
— Portanto, para ti isto é normal — Ksenia assentiu para si mesma, como se confirmasse uma ideia que amadurecia havia muito tempo.
— Então ouve-me com atenção.
Se achas que a tua mãe agiu corretamente, vive com ela e com a tua irmã onde quiseres.
No apartamento dela, na estação, onde te apetecer.
Mas não no meu apartamento.
— Não podes fazer isto comigo — Aleksandr levantou a voz, mas nela já se ouvia mais confusão do que segurança.
— Esta também é a minha casa.
— A tua casa será onde escolheres viver daqui para a frente.
Mas este apartamento é meu, está registado em meu nome e é uma herança da minha avó.
E eu já não vou partilhá-lo nem com a tua mãe nem com a tua irmã sem o meu consentimento.
Veronika Pavlovna soltou um suspiro indignado e levou a mão ao peito, como se tivesse acabado de ouvir um insulto terrível.
— Que descaramento.
Aleksandr ficou no meio da cozinha, olhando da mãe para a mulher, claramente sem perceber como a situação tinha chegado tão longe numa única noite.
Ele contava com um compromisso, com alguns meses de desconforto, mas em vez disso viu-se diante de uma escolha que não esperava de todo.
— Ksiusha, vamos acalmar-nos e falar amanhã de manhã — tentou ele suavizar o tom.
— Estamos todos cansados, todos nervosos.
— Não preciso de esperar até amanhã de manhã para saber o que penso agora — respondeu Ksenia.
— Decide, Sasha.
Hoje.
Um silêncio pesado caiu sobre a cozinha.
A criança, que até então choramingava, calou-se e enterrou o rosto no ombro da mãe.
Veronika Pavlovna apertou os lábios, mostrando com toda a sua expressão o quanto se sentia ofendida, enquanto Zoia puxava nervosamente a ponta da manta.
— Está bem — disse finalmente Aleksandr, e naquela palavra não havia determinação, mas apenas cansaço por ter de fazer uma escolha.
— Vamos para casa da mãe.
Vou arrumar as minhas coisas.
Ksenia assentiu sem dizer mais nada e saiu da cozinha em direção à varanda, onde havia uma velha cadeira de vime.
Sentou-se nela, olhando para a escuridão do pátio e ouvindo atrás de si o som dos sacos, o tilintar das chávenas e as portas dos armários a bater — Aleksandr arrumava as coisas à pressa, como se esperasse que a mulher mudasse de ideias a qualquer momento e o impedisse de sair.
Ela não o impediu.
Uma hora depois, um táxi estava parado à porta do prédio, enquanto Veronika Pavlovna tentava com dificuldade sentar o neto no carro e Zoia carregava uma mala com coisas arrumadas à pressa.
Aleksandr ficou parado à porta, hesitando antes de dar o último passo.
— Ksiusha, tu percebes que isto é temporário, não percebes?
Vou voltar daqui a uns dias, quando toda a gente se acalmar.
— Não sei o que há para perceber, Sasha — Ksenia olhava calmamente para o marido, sem lágrimas, sem gritos, como se dentro dela tudo já estivesse definitivamente decidido.
— Tu escolheste.
Eu percebi a tua escolha.
— Estás mesmo disposta a destruir tudo por causa de uma coisa tão insignificante?
— Para mim não é insignificante — Ksenia abanou a cabeça.
— Não se trata do quarto nem da Zoia.
Trata-se de teres ficado ali parado e em silêncio enquanto a tua mãe dispunha dos meus bens como se tivesse esse direito.
E depois pediste-me para aguentar.
Aleksandr baixou a cabeça, agarrou a maçaneta da porta e hesitou mais um segundo, como se esperasse que a mulher dissesse outra coisa, o impedisse de sair ou propusesse um compromisso.
Ksenia permaneceu em silêncio.
— Está bem — disse ele em voz baixa e saiu.
A porta fechou-se com o clique habitual da fechadura, mas, por alguma razão, aquele som pareceu a Ksenia mais alto do que devia.
Os dois dias seguintes foram preenchidos por telefonemas.
Aleksandr mandava mensagens, ligava, explicava que a mãe tinha ido longe demais, que Zoia encontraria em breve um apartamento para alugar e que ele estava pronto para voltar imediatamente se a mulher o perdoasse.
Ksenia respondia de forma breve e sem emoção e, no terceiro dia, deixou de responder por completo — em vez disso, marcou uma consulta com um advogado.
— Quero pedir o divórcio — disse ela ao especialista, sentada num pequeno gabinete com vista para o pátio vizinho.
— E quero perceber como tratar de tudo de forma rápida e correta.
— Qual é o motivo da separação? — perguntou o advogado enquanto folheava o formulário.
Ksenia ficou em silêncio por um momento, escolhendo as palavras.
— O meu marido decidiu que a família dele podia dispor dos meus bens sem o meu consentimento.
E quando teve de escolher entre mim e a mãe, escolheu a mãe.
O advogado assentiu sem fazer comentários e começou a preencher os documentos.
Ksenia olhou pela janela para os pombos que andavam junto a um banco e, de repente, percebeu que não sentia dor, mas um estranho alívio — como se tivesse carregado durante muito tempo uma mochila pesada e finalmente a tivesse tirado dos ombros.
Uma semana depois, Aleksandr voltou para buscar o resto das suas coisas.
Parecia cansado, por barbear e claramente mal dormido — a vida no pequeno apartamento da mãe, juntamente com a irmã e o sobrinho, revelara-se muito menos confortável do que imaginara.
— Ksiusha, talvez ainda não seja tarde demais para cancelar tudo? — perguntou ele enquanto colocava camisas num saco de desporto.
— Falei com a mãe, ela admite que foi longe demais.
A Zoia está à procura de um apartamento para alugar.
— É tarde demais, Sasha — respondeu Ksenia, parada à entrada do mesmo quarto onde a irmã dele dormira uma semana antes.
— Não se trata de onde a Zoia vai viver.
Trata-se de confiança.
E eu perdi a confiança em ti no momento em que ficaste calado.
— Podias pelo menos ter tentado compreender a minha posição.
— Eu compreendo a tua posição — Ksenia assentiu.
— Escolheste a família em que cresceste.
É um direito teu.
Mas eu também tenho o direito de não continuar a viver com uma pessoa que não considera necessário perguntar-me a minha opinião quando se trata da minha própria casa.
Aleksandr fechou o saco e percorreu o apartamento com o olhar — a cozinha familiar, a sala com o parquet renovado, a varanda com a cadeira de vime — como se estivesse a despedir-se não apenas da mulher, mas também de toda uma parte da sua própria vida que ficava ali.
— É pena que tenha acabado assim — disse ele à porta.
— Também tenho pena — respondeu Ksenia com sinceridade.
— Mas já é tarde para lamentações.
A porta fechou-se pela segunda vez e, dessa vez, o clique da fechadura pareceu perfeitamente normal a Ksenia — apenas um som, como devia ser.
Ela voltou à cozinha, serviu-se de chá, sentou-se junto à janela e ficou durante muito tempo a observar as pessoas a passearem os cães no pátio, as crianças a andarem de trotinete e a vida normal a seguir o seu curso como se nada de especial tivesse acontecido.
O divórcio foi concluído dois meses depois, sem discussões desnecessárias sobre a divisão dos bens — o apartamento sempre pertencera exclusivamente a Ksenia, por isso não havia nada para dividir.
Aleksandr voltou a viver definitivamente com a mãe, enviando apenas de vez em quando mensagens curtas e frias.
Ksenia, por sua vez, voltou a pintar as paredes do quarto — escolheu um tom cinzento tranquilo em vez do antigo bege — e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que o apartamento voltava a pertencer apenas a ela.







