Arina ficou imóvel à porta do quarto, observando Dmitri, o seu marido, ajustar a gravata diante do espelho.
— Dima, não viste os meus brincos de safira?

Aqueles de ouro branco que a minha mãe me deu quando fiz trinta anos.
Dmitri continuou a mexer na gravata sem sequer se virar.
— Não, não faço ideia de onde possam estar.
Desapareceram?
Arina aproximou-se da penteadeira e abriu a caixa de joias.
As sobrancelhas da mulher ergueram-se.
Na caixa, havia espaços vazios onde antes estavam uma pulseira de prata com pingentes, uma corrente de ouro e várias outras peças muito queridas para ela.
— Estranho.
Parece que não foram só os brincos que desapareceram — a voz de Arina tremeu.
Dmitri finalmente se virou e lançou um olhar indiferente para a caixa aberta.
— Talvez tenhas sido tu a guardá-los noutro lugar?
Ou talvez os tenhas usado e depois te tenhas esquecido de onde os deixaste?
O tom dele parecia demasiado indiferente, até mesmo para um marido que estava sempre com pressa para ir trabalhar.
— Talvez — respondeu Arina, fechando a caixa.
Mas, por dentro, sentiu tudo se apertar.
As joias não podiam simplesmente desaparecer.
Dmitri deu-lhe rapidamente um beijo na bochecha.
— Tenho de ir, estou atrasado.
À noite procuramos juntos, está bem?
Arina assentiu mecanicamente, mas, como era de esperar, eles nunca procuraram juntos.
Dmitri voltou tarde e foi imediatamente dormir, murmurando qualquer coisa sobre um dia difícil.
Durante as semanas seguintes, Arina limitou-se a observar.
Não fez escândalo nem exigiu explicações.
Afinal, não tinha provas.
Mas os seus olhos tinham visto o que tinham visto.
Durante um jantar de família em casa da sogra, Arina reparou num relógio novo no pulso de Kirill, o irmão do marido.
Era caro, com um mostrador grande e uma pulseira de couro.
Kirill nunca tinha sido conhecido pelo gosto pelo trabalho nem por uma sorte especial em assuntos financeiros.
— Belo relógio — comentou Arina como quem não queria nada, quando ficou sozinha com Kirill na cozinha.
— É novo?
— Este?
Kirill levantou o braço para mostrar o relógio e sorriu.
— Sim, comprei-o há pouco tempo.
— Há muito que querias um assim?
Não parece nada barato.
Kirill encolheu os ombros.
— Tive sorte com os investimentos.
Investi bem numa coisa.
— Em quê, se não for segredo?
Arina tentou fazer com que a sua voz soasse natural, como a de uma simples parente interessada.
— Ah… em criptomoedas — respondeu Kirill, visivelmente atrapalhado.
— Bitcoins, sabes, esse tipo de coisa.
— Ah, bitcoins — disse Arina lentamente.
— Interessante.
O Dima também falou deles há pouco tempo.
— Sim, sim, decidimos experimentar juntos — acrescentou Kirill depressa demais.
Um mês depois, Kirill apareceu no aniversário da mãe com um smartphone novinho em folha, do modelo mais recente.
Uma semana depois, gabou-se de ter pago a entrada de um carro.
E tudo isso com o salário de um gestor de nível médio numa empresa que, como Arina sabia, atravessava tempos difíceis.
As suspeitas dela aumentavam a cada dia.
E, quando percebeu que a broche da avó também tinha desaparecido de casa, tudo ferveu dentro dela.
Naquela mesma noite, quando Dmitri chegou a casa, Arina recebeu-o como de costume, com o jantar e um sorriso.
Só os olhos dela estavam mais frios do que gelo.
Um plano já começava a formar-se na sua cabeça.
Ele e o irmão tinham errado ao pensar que ela aceitaria tão facilmente o roubo.
O plano de vingança tornava-se cada vez mais claro na mente de Arina.
Exato, bem pensado e sem emoções desnecessárias — era assim que ela estava habituada a resolver problemas.
A traição do marido e do irmão dele exigia uma resposta adequada.
Uma semana depois, Svetlana Andreievna, a sogra de Arina, anunciou um jantar de família por ocasião do seu aniversário de casamento.
— Dima, por favor, avisa a tua mãe de que posso ficar presa no trabalho — disse Arina ao pequeno-almoço, mexendo o café.
— Temos de entregar o relatório trimestral, sabes bem o stress que isso dá.
— Talvez então seja melhor não ires?
Houve um lampejo de esperança na voz de Dmitri.
— A mãe vai compreender.
— Não, não, eu vou de certeza — sorriu Arina.
— Só vou chegar um pouco atrasada.
Dmitri assentiu, evitando olhar a mulher nos olhos.
Ultimamente, tentava cruzar-se com ela o mínimo possível, como se tivesse medo de uma conversa que poderia começar a qualquer momento.
À noite, Arina chegou à casa da sogra exatamente trinta minutos depois da hora marcada.
Fez de propósito um penteado novo que realçava a elegância do pescoço e aplicou uma maquilhagem mais forte do que o habitual.
Mas o mais importante eram, naturalmente, as joias — os mesmos brincos de safira “desaparecidos”, a broche, o colar e a pulseira.
Tudo aquilo que tão misteriosamente tinha desaparecido da sua caixa.
Depois de tocar à campainha, Arina respirou fundo.
Dmitri abriu a porta.
— Desculpa o atraso — disse Arina, entrando no hall.
Depois de tirar o casaco, virou-se para o marido.
Dmitri ficou imóvel.
O olhar dele fixou-se imediatamente nas safiras que brilhavam nas orelhas da esposa e depois deslizou para o colar e a pulseira.
— Aconteceu alguma coisa?
Arina perguntou inocentemente.
— Estás a olhar para mim de forma tão estranha.
— N-não, está tudo bem — murmurou Dmitri, enquanto o rosto dele adquiria um tom acinzentado.
— É só que… hoje estás muito bonita.
— Oh, obrigada — sorriu Arina.
— Vamos juntar-nos aos outros?
Na sala de estar já estavam Svetlana Andreievna, Kirill com a mulher, Nadejda, e alguns velhos amigos da família.
Todos se sentaram à volta da mesa festivamente posta.
— Arina, querida, já estávamos a começar a preocupar-nos — disse a sogra ao recebê-la.
— Trabalho, Svetlana Andreievna, a senhora sabe como é — respondeu Arina, beijando a sogra na bochecha.
Ao vê-la, Kirill ficou imóvel com o garfo na mão.
Os olhos dele arregalaram-se quando reparou nas joias da cunhada.
Arina encontrou o olhar dele e sorriu ligeiramente.
Manchas vermelhas apareceram nas bochechas de Kirill.
— O que tens, Kirill?
Perguntou Nadejda, percebendo o comportamento estranho do marido.
— Nada, apenas me lembrei de que me esqueci de enviar um documento importante — murmurou ele.
Durante toda a noite, os irmãos permaneceram como se estivessem sentados sobre agulhas.
Dmitri lançava constantemente olhares nervosos para a esposa, enquanto Kirill tentava nem sequer olhar na direção dela.
Arina, por outro lado, brilhava.
Contava histórias engraçadas do trabalho e ria das piadas dos amigos, como se nada estivesse a acontecer.
Quando Svetlana Andreievna trouxe a sobremesa — um bolo caseiro de amoras — Arina pousou o garfo e disse em voz alta:
— Nem imaginam a história incrível que me aconteceu há alguns dias!
Todos se viraram para ela.
Dmitri ficou tenso.
— Encontrei as minhas joias, aquelas que tinham desaparecido da caixa — continuou Arina, passando os dedos pelo colar de safiras.
— E encontrei-as numa casa de penhores!
O silêncio à mesa tornou-se quase palpável.
Kirill empalideceu e Dmitri ficou imóvel com o copo na mão.
— Numa casa de penhores?
Perguntou Svetlana Andreievna.
— Como é que foram lá parar?
— É exatamente isso que eu também me pergunto — respondeu Arina com um sorriso irónico, olhando diretamente para o marido.
— Alguém tirou as minhas coisas do nosso apartamento e penhorou-as.
Conseguem imaginar tamanha ousadia?
Nem sequer pouparam a broche da minha avó, a última lembrança que eu tinha dela.
— Talvez tenhas sido tu a entregá-las a alguém… ou talvez te tenhas esquecido?
Sugeriu Nadejda com cautela.
— Não, Nadia, eu não me esqueci — respondeu Arina, abanando a cabeça.
— Mas sabem o que é mais interessante?
O dono da casa de penhores lembrou-se de quem levou as peças.
Imaginem a minha surpresa quando descobri que tinham sido o meu próprio marido e o irmão dele.
Dmitri empalideceu ainda mais e pousou o copo.
— Arina, eu posso explicar…
— Claro que podes — interrompeu-o Arina.
— Mas dificilmente isso mudará alguma coisa.
E não sou a única pessoa a quem deves explicações.
Ela virou-se para a sogra.
— Svetlana Andreievna, quero dizer-lhe que os seus filhos montaram um pequeno negócio pelas minhas costas.
Dmitri tirava as minhas coisas de casa e Kirill vendia-as ou penhorava-as.
A julgar pelo relógio e pelo telefone novos de Kirill, o negócio estava a correr-lhes bastante bem.
— Isso não é verdade!
Gritou Kirill.
— Dima, isso é verdade?
Perguntou Svetlana Andreievna com a voz trémula.
Dmitri baixou os olhos.
— Íamos devolver tudo…
Só precisávamos de dinheiro para desenvolver o negócio — murmurou ele.
— Que negócio?
Exclamou Svetlana Andreievna.
— Nenhum — interveio Arina.
— Não existe negócio nenhum.
Existem apenas dois homens adultos que decidiram roubar a esposa e a cunhada.
— Arina, vamos falar sobre isso em casa — implorou Dmitri.
— Oh, não, Dmitri — disse Arina, endireitando-se.
— Em casa já não vamos conversar.
Porque vou pedir o divórcio.
— O quê?!
Dmitri levantou-se de repente.
— Senta-te — disse Arina com uma voz calma e fria como gelo.
— Ainda não terminei.
Como o apartamento onde vivemos me pertence, vais ter de arrumar as tuas coisas e sair.
E é melhor que o faças rapidamente.
— Arina, tu não podes… — começou Dmitri.
— Posso, sim — cortou ela.
— E mais uma coisa, Svetlana Andreievna — continuou Arina, virando-se para a sogra — tenho de lembrar-lhe de que o apartamento onde a senhora vive com Kirill e Nadia também me pertence.
Lembra-se de que vos permiti viver lá gratuitamente?
A sogra assentiu fracamente.
— Também terão de sair — concluiu Arina.
— Para onde vamos?
Sussurrou Svetlana Andreievna.
— Isso já não é problema meu — respondeu Arina, encolhendo os ombros.
— Talvez Kirill vos proponha viver com o dinheiro da venda das minhas joias.
— Arina, por favor — disse Dmitri, tentando pegar-lhe na mão, mas ela afastou-se.
— Dou-vos uma semana para arrumarem as coisas — disse ela.
— Depois vou mudar as fechaduras.
— Não podes fazer-nos isto!
Protestou Kirill.
— Nós somos a tua família!
— Eram — respondeu Arina friamente.
— Uma família não rouba os seus próprios membros.
Ela levantou-se da mesa e dirigiu-se para o hall.
Dmitri correu atrás dela.
— Arina, perdoa-me, foi uma estupidez!
Juro que vamos devolver tudo!
— É tarde demais, Dmitri — respondeu Arina, vestindo o casaco.
— Não deviam ter cortado o galho em que estavam sentados.
Agora colham os frutos das vossas ações.
Ela abriu a porta e virou-se uma última vez.
— A propósito, resgatei todas as joias da casa de penhores.
E sabem de uma coisa?
Elas valem muito mais do que aquilo que vos pagaram.
Até nisso mostraram falta de visão.
Arina não esperou por uma resposta.
Ao sair para o ar da noite, respirou fundo.
Sentia-se vazia por dentro, mas tranquila.
Não tinha arrependimentos, apenas a certeza clara de ter feito o que era certo.
Algumas coisas simplesmente não podem ser perdoadas.
Uma semana depois, tal como prometera, Arina mudou as fechaduras dos dois apartamentos.
Dmitri ainda telefonou várias vezes, mas ela não atendeu.
A sogra enviou uma longa mensagem com desculpas e súplicas, mas Arina também a deixou sem resposta.
Às vezes, agir com firmeza é a única maneira de começar a vida de novo.
Sem traição e sem mentiras.
Arina sabia que tinha feito a escolha certa.







