Marina voltou de uma viagem de trabalho um dia antes.
A porta não estava trancada, o apartamento cheirava ao seu molho favorito, e sobre a mesa havia dois lugares postos.

Mas o segundo não era para ela.
Marina viu as velas ainda do corredor.
Duas.
Fin as, em castiçais que eles haviam comprado em Suzdal quatro anos antes e que nunca mais tinham usado desde então.
Ela colocou a bolsa no chão.
Devagar, para que as rodinhas não batessem no piso.
Não tirou o casaco.
Da cozinha vinha um cheiro ao mesmo tempo adocicado e picante.
Molho balsâmico.
Aquele mesmo que ela havia encontrado certa vez em um antigo blog de culinária e preparado em todos os aniversários de casamento deles.
Igor decorou a receita na terceira tentativa e, na quinta, passou a fazê-la melhor do que ela.
Só que o aniversário de casamento era em março.
E lá fora era novembro.
A viagem de trabalho deveria terminar na sexta-feira.
Marina havia voado para Novosibirsk na segunda-feira: três dias para auditar a filial, depois a sexta-feira para finalizar o relatório.
Tudo organizado, como ela gostava.
Mas a auditoria terminou mais rápido, os documentos foram assinados na quarta-feira ao meio-dia, e ela trocou a passagem.
Não ligou.
Não escreveu.
Simplesmente trocou.
Por quê?
Ela mesma não sabia ao certo.
Talvez quisesse ver Timka correndo para ela do quarto, atirando-se em seus braços e agarrando suas pernas.
Ele tinha cinco anos e, todas as vezes que ela voltava, recebia-a como se ela estivesse retornando da guerra, e não de outra cidade.
Ou talvez fosse outra coisa.
Algo em que ela não queria pensar durante o voo.
Nos últimos dois meses, Igor havia ficado de algum jeito… polido demais.
Não no sentido da aparência, embora finalmente tivesse se barbeado e tirado aquela ridícula barbicha que vinha deixando crescer desde o verão.
Polido nas conversas.
Calmo.
Como se cada resposta passasse por um filtro interno antes de sair.
— Como estão as coisas no trabalho?
— Normais.
— O Timka comeu?
— Sim, está tudo bem.
— O que você tem?
— O que eu tenho? Nada. Estou normal.
Normal.
Foi essa palavra que ficou presa na cabeça dela.
Igor nunca havia sido normal.
Em dez anos de casamento, ele conseguira ser irritante, engraçado, impossível, carinhoso, idiota, genial e novamente irritante.
Mas normal, não.
Um Igor normal a assustava mais do que um Igor zangado.
Ela ficou parada no corredor, apoiada na parede.
Seus dedos encontraram a borda do espelho que eles haviam pendurado torto e nunca endireitado.
No reflexo, ela via metade da cozinha: o canto da mesa, a toalha branca, o cotovelo dele.
Ele se movia tranquilamente, sem pressa, como alguém que sabia exatamente quanto tempo tinha.
Dois pratos.
Taças.
Guardanapos dobrados em triângulo, como em um restaurante.
Marina pressionou a palma da mão contra o estômago.
Não por dor.
Por algo que ainda não havia se tornado dor, mas estava perto disso.
Timka não estava em casa.
Quarta-feira, sete e meia da noite.
Normalmente, a essa hora, ele já estaria de pijama, e os dois estariam assistindo a um desenho sobre um robô que vivia perdendo a cabeça.
Literalmente.
— Igor.
Ele se assustou.
O guardanapo caiu de seus dedos e pousou no chão como um triângulo branco.
— Marin?
Ele se virou.
O rosto mudou mais rápido do que ele conseguia controlar: susto, alegria, novamente susto, e algo terceiro para o qual ela não encontrou nome.
— Você não voltava na sexta?
— Terminamos mais cedo.
Ela não saiu do lugar.
Ficou no corredor, de casaco, olhando para a mesa.
Dois pratos.
Duas taças.
— Onde está o Timka?
— Na casa da minha mãe.
Eu o levei às quatro.
— Por quê?
— Bem… eu queria uma noite livre.
Ficar sozinho.
Silêncio.
Ela ouviu a água pingando da torneira.
Ele prometera trocar a vedação ainda em outubro.
— Sozinho, então.
Marina desviou o olhar dos pratos para as taças, das taças para as velas, das velas para as mãos dele.
Ele apertava a borda da bancada com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
— Você pôs a mesa para duas pessoas para ficar sozinho?
Igor sentou-se em um banquinho.
Não na cadeira à mesa, mas no banquinho junto à parede, aquele mesmo onde Timka costumava sentar quando “ajudava” a cozinhar.
Baixo, de madeira, com uma mancha de ketchup que nunca saía.
— Eu posso explicar.
— Pode.
Mas eu ainda não pedi.
Ela entrou na cozinha.
Devagar, como se o ar tivesse ficado mais denso.
Pegou uma taça e olhou-a contra a luz.
Estava limpa, sem marcas de dedos.
Ele a havia polido.
— Bonito — disse ela.
Igor esfregou a ponta do nariz.
Ela conhecia aquele hábito de cor: ele fazia isso quando o cérebro trabalhava mais rápido do que a língua.
— Não é o que você está pensando.
Marina colocou a taça de volta no lugar.
Exatamente no círculo deixado na toalha.
— E o que eu estou pensando?
— Você acha que estou esperando alguém.
— Dois lugares, velas, molho balsâmico.
A criança na casa da avó.
Quarta-feira.
O que você queria que eu pensasse?
Ele abriu a boca.
Fechou.
Levantou-se, foi até a geladeira e tirou um recipiente.
Azul, de plástico, com uma rachadura na tampa.
— Aqui.
Dentro havia um bolo.
Torto, com uma inscrição feita de cobertura de chocolate.
As letras estavam borradas, um dos “n” era maior que o outro, e o ponto final havia virado uma mancha.
“Feliz aniversário, Marinn.”
Com dois “n”.
Assim como ele havia escrito para ela na primeira mensagem, dez anos atrás, quando ainda não sabia que o nome dela tinha apenas um.
Marina olhou para o bolo.
Para as letras tortas.
Para a mancha no lugar do ponto.
— Meu aniversário é daqui a duas semanas.
— Eu sei.
— Então por quê?
Igor encostou-se na geladeira.
Os ímãs de viagens antigas haviam se deslocado um pouco: Crimeia, Kazan, Suzdal.
— Porque daqui a duas semanas será como sempre.
Timka, seus pais, meus pais.
Bolo da confeitaria.
Você vai sorrir a noite inteira e depois dizer que está cansada.
E eu sei que você não está cansada, mas simplesmente… enfim.
— O que “enfim”?
— Que você está entediada no seu próprio aniversário.
Já faz uns três anos que está entediada.
Ela quis contestar.
Abriu a boca e não encontrou palavras, porque ele estava certo.
Durante três anos seguidos, depois da festa, ela ia para a cama sentindo algo parecido com alívio: pronto, sobrevivemos, agora podemos respirar.
O aniversário havia deixado de ser uma alegria e se transformado em uma obrigação, um evento com lista de convidados e encomenda de balões.
— Eu queria fazer um aniversário diferente para você — continuou ele.
— De verdade.
Sem ninguém.
Só nós dois.
Marina sentou-se na cadeira.
A toalha estava engomada.
Ela passou o dedo sobre ela e sentiu como estava rígida, estranha.
— Você engomou a toalha.
— Pesquisei na internet.
Dizem que se dissolve o amido em água fria e depois…
— Eu sei como fazer.
Minha avó engomava.
Ele assentiu.
Esfregou o nariz novamente.
— Planejei tudo durante duas semanas.
Pratiquei o molho três vezes.
O Timka comeu todas as vezes e disse: “Papai, está gostoso”, mas eu percebi que ele não gostava.
Ele não gosta de balsâmico.
— Nenhuma criança gosta de balsâmico.
— Pois é.
Mas você gosta.
Ela estava sentada à mesa que havia sido preparada para ela.
As velas queimavam tranquilamente.
Marina olhava para a chama e tentava entender o que estava acontecendo dentro dela.
Algo estava se soltando, como um punho que havia permanecido fechado por tempo demais.
Os últimos dois meses.
Aquela “polidez” dele.
As respostas calmas, dormir cedo, o celular virado para baixo.
— Foi por isso que você ficou estranho?
— Eu fiquei estranho?
— Você parou de discutir.
Isso não é normal.
Ele sorriu de canto.
Rapidamente, apenas com um lado da boca.
— Eu tinha medo de deixar escapar.
Você é como uma investigadora, Marin.
Uma palavra a mais e você descobre tudo.
— E por isso simplesmente ficou calado.
— Não fiquei calado.
Eu filtrava.
Ela se lembrou daquela palavra.
Filtro.
Ela também a usava quando pensava nele.
Um filtro interno pelo qual ele passava cada resposta.
— Eu achei que você tivesse outra pessoa.
Silêncio.
A torneira pingou.
Uma vez.
— Eu sei — disse ele.
— Sabe?
— Você passou a olhar para mim de outro jeito.
Quando eu voltava mais tarde do que o normal, quando o telefone tocava.
Você não perguntava, mas olhava assim… como se estivesse se preparando.
Marina apertou a borda da toalha.
O amido estalou.
— Eu não estava me preparando.
Eu já tinha dado o veredito.
Ele não respondeu.
Apenas ficou parado junto à geladeira, olhando para ela.
Sem sorriso, sem mágoa, sem medo.
Pela primeira vez em muito tempo, ela não conseguia ler seu rosto.
Marina se levantou.
Foi até o fogão.
Tirou a tampa da panela.
O molho borbulhava baixinho, e o vapor subia como uma respiração.
Balsâmico, mel, alecrim.
Ela inclinou a cabeça sobre a panela e fechou os olhos.
O cheiro estava certo.
Aquele mesmo deles, do primeiro ano, quando comiam aquele molho diretamente com pão, sentados no chão do apartamento novo, porque a mesa ainda não havia sido entregue.
— Você passou todo esse tempo planejando a festa.
— Sim.
— E eu passei todo esse tempo planejando uma conversa.
— Que conversa?
— Essa.
Uma conversa difícil.
Ele soltou o ar lentamente.
Ela ouviu através do vapor, do borbulhar e do pingar da torneira.
— Tão difícil assim?
— Tão difícil.
Marina abriu a gaveta dos talheres.
Pegou uma colher, colocou um pouco de molho e provou.
Quente, ácido, com um pouco mais de mel do que deveria.
— Você colocou mel demais.
— Eu sei.
Na última vez também.
Minha mão é pesada.
— Sua mão não é pesada.
Você simplesmente sempre quer tudo mais doce.
Eles estavam sozinhos na cozinha.
Entre eles havia uma mesa posta para dois, um bolo com dois “n” e o silêncio.
Não era vazio.
Era denso, como aquela toalha.
Marina olhou para as velas.
Uma delas havia derretido um pouco, e a cera escorria pelo castiçal.
O castiçal de Suzdal, de cerâmica, com uma pequena rachadura que ela havia coberto com esmalte de unhas três anos antes.
Bege.
Feio, mas resistente.
— Igor.
— Hum?
— Eu voltei mais cedo porque queria pegar você no flagra.
Não simplesmente encontrar você.
Pegar você no flagra.
Ele assentiu.
— E pegou.
— Peguei um homem que ensaiou o molho três vezes.
Ela não sorriu.
Mas algo mudou em seu rosto.
Como se os músculos que haviam mantido uma expressão de alerta durante dois meses tivessem relaxado um pouco.
— Eu fui injusta.
— Não.
Você estava atenta.
São coisas diferentes.
— Eu te condenei sem interrogatório.
— Você é investigadora.
É deformação profissional.
— Eu sou auditora.
— Bom, qual é a diferença?
Ela bufou.
Não chegou a rir, mas bufou.
E ele percebeu.
E ficou tão feliz que não conseguiu esconder.
O sorriso surgiu imediatamente, largo, incontrolável, o mesmo que ela não via havia dois meses.
Marina tirou o casaco.
Pend urou-o no gancho que estava frouxo havia cinco anos e que ele prometia consertar todas as vezes, apertava e, uma semana depois, o gancho voltava a ficar frouxo.
— Tenho uma pergunta.
— Pode perguntar.
— Se eu tivesse voltado na sexta-feira, como deveria.
O que você teria feito?
— Na sexta-feira eu teria levado o Timka para a casa da minha mãe, preparado a mesa e ligado para você.
Diria: “Venha, estou com saudades”.
E quando você chegasse, estaria tudo isso aqui.
Ele fez um gesto apontando para a cozinha.
Velas, toalha, taças, bolo torto.
— Você não ficaria tão surpresa, claro.
Mas eu explicaria.
— O que você explicaria?
— Que você merece não o aniversário que tem.
Mas outro.
Marina encostou-se ao batente da porta.
O batente estava frio.
Ela sentiu o frio através da camisa, através da pele.
O frio percorreu sua coluna e parou em algum lugar entre as omoplatas.
— Que outro?
— Um em que você não precise sorrir se não quiser.
Onde não haja lista de convidados nem balões.
Onde sejamos apenas nós dois sentados, comendo, e você possa dizer que está cansada, e isso seja verdade.
Ela vasculhou a memória dos últimos três aniversários.
Vinte e três convidados dois anos atrás, porque sua mãe insistiu em chamar a tia Galya com o marido, e a tia Galya não ia sem Oksana, e Oksana levou uma amiga, e Marina passou a noite inteira sem conseguir lembrar o nome daquela amiga.
No ano passado, o bolo da confeitaria tinha abacaxi.
Ela não gostava de abacaxi.
Mas quem encomendou o bolo foi a sogra, e Marina comeu um pedaço, disse “está gostoso” e foi lavar a louça.
Nenhum daqueles dias tinha sido para ela.
— Você realmente se importa? — perguntou ela.
— Marin.
— Não, falando sério.
Dez anos.
As pessoas se acostumam.
Param de perceber.
— Eu não parei.
— Como sabe?
— Porque percebi que você parou de terminar o bolo.
Começou a deixar pedaços há dois anos.
No início achei que estivesse de dieta.
Depois entendi: você simplesmente não gostava.
E tinha vergonha de dizer.
Ela ficou em silêncio.
A torneira pingou.
— E você decidiu que um bolo caseiro torto com dois “n” era melhor.
— Decidi que pelo menos era mais honesto.
Marina aproximou-se da mesa.
Passou o dedo pela borda do prato.
Os pratos não eram do jogo de jantar especial, mas pratos comuns, brancos, da Ikea, com uma pequena lasca em um deles.
Ela os usava todos os dias.
— Por que não usou o jogo especial?
— Porque você não gosta dele.
Uma vez você disse que ele parecia de outra pessoa.
Eu me lembrei.
Ela se sentou.
Ele se sentou à sua frente.
Entre eles estava a toalha que ele havia engomado seguindo uma instrução da internet, o bolo com a mancha no lugar do ponto e as velas nos castiçais de Suzdal, cobertos com esmalte bege.
— Preciso te contar uma coisa — disse Marina.
— Tudo bem.
— Eu não voltei mais cedo por acaso.
Eu queria descobrir.
— Descobriu?
— Não o que eu esperava.
Ele serviu vinho para ela.
Ela percebeu que era aquela mesma garrafa da Crimeia, com o rótulo de uvas, que haviam comprado no calçadão de Yalta e levado na mala, embrulhada em meias.
— Você guardou a garrafa.
— Três anos.
Atrás da máquina de lavar.
— Atrás da máquina de lavar?
— Lá é fresco.
E você nunca vai lá.
Ela pegou a taça.
O vinho cheirava a algo quente, levemente empoeirado, como um livro antigo.
Ela tomou um gole.
Estava bom.
Ou talvez apenas parecesse bom porque aquela taça trazia consigo o calçadão, o calor, a mão dele sobre seu ombro e Timka, que tinha dois anos e dormia no carrinho enquanto eles compravam aquele vinho.
— Eu realmente quase… — ela não terminou.
— Eu entendo.
— Não.
Você não entende.
No avião, pensei em como faria para arrumar as coisas.
As coisas dele em uma caixa, as minhas em outra.
As do Timka separadas.
Até calculei quantas caixas seriam necessárias.
— Quantas?
— Sete.
Quatro grandes, três pequenas.
Ele não desviou o olhar.
Ficou sentado, segurando a taça e ouvindo.
Em algum lugar no andar de cima, o filho do vizinho corria pelo chão, abafado e ritmado, como um metrônomo.
— Sete caixas por dez anos — disse ele.
— Não temos tantas coisas.
Os móveis são seus.
— Os móveis são nossos.
— Você sabe o que quero dizer.
Ele colocou a taça sobre a mesa.
Com cuidado, exatamente no centro do guardanapo.
— Marin, você está me dizendo que queria ir embora?
— Estou dizendo que estava pronta.
— E agora?
Ela olhou para o bolo.
“Marinn”, com dois “n” e uma mancha.
A cobertura estava ligeiramente rachada de lado.
Era evidente que ele o havia tirado da geladeira de maneira desajeitada.
— Agora estou sentada à mesa que você preparou.
Comendo o molho que tem mel demais.
Bebendo o vinho que estava atrás da máquina de lavar.
E estou bem.
— Bem como “dá para suportar” ou bem como “bem”?
— Bem como “faz muito tempo que não me sento assim”.
Eles comeram em silêncio.
Ele havia preparado massa com aquele molho, e sim, havia mel demais, mas ela não disse nada.
As velas iam diminuindo.
A cera escorria sobre o esmalte bege, e a rachadura no castiçal ficava mais visível.
Marina pensava em como era estranho.
Durante dois meses, ela havia construído uma versão dos fatos.
Lógica, organizada: ele mudou, está escondendo alguma coisa, encontrou outra pessoa.
Cada noite silenciosa, cada resposta calma se encaixava perfeitamente naquela construção, como um tijolo em uma parede.
Mas a parede não era real.
Ele estava escondendo uma festa.
Preparava o molho, engomava a toalha, escondia o vinho atrás da máquina de lavar e tinha medo de deixar escapar alguma coisa.
Porque sabia que ela perguntaria, investigaria, descobriria tudo.
E queria que, pelo menos uma vez, houvesse uma surpresa.
— Sabe o que é mais idiota? — disse ela.
— O quê?
— Eu comprei uma mala.
Pequena, com rodinhas.
Azul.
Supostamente para viagens de trabalho.
Mas, na verdade, pensei: se for preciso, ela já estará pronta.
Ele pousou o garfo.
— Uma mala.
— Sim.
Está no armário do escritório.
— Azul.
— Azul.
Ele esfregou a ponta do nariz.
Por muito tempo, cuidadosamente, como se tentasse apagar alguma coisa da pele.
— E para mim você escondeu atrás da máquina de lavar ou em outro lugar?
— No escritório.
No armário, atrás das pastas dos relatórios.
— Bonito.
Cada um com seu esconderijo.
Timka ligou às nove.
Era o telefone da avó, no viva-voz, e a voz de Timka era fina e um pouco magoada.
— Mãe, quando você vai voltar?
— Eu já estou em casa, Tim.
— Mas por que papai disse que você voltaria na sexta?
— Papai se enganou.
— Os papais sempre se enganam — declarou Timka com autoridade.
Igor revirou os olhos.
Marina cobriu a boca com a mão para que o filho não ouvisse sua risada.
— Durma, meu amor.
Amanhã eu vou te buscar.
— E o desenho?
— Amanhã, dois desenhos.
— Três.
— Dois e meio.
— Tá bom.
Ele desligou.
A voz da avó ainda soou ao fundo por mais um segundo, dizendo algo como “dei comida, dei banho, está tudo bem”, e a ligação caiu.
Marina colocou o telefone sobre a mesa.
Com a tela para cima.
Ela percebeu isso e sorriu.
Nas últimas semanas, ela o colocava com a tela para baixo.
Assim como ele.
Eles lavaram a louça juntos.
Ele lavava, ela secava.
Um hábito do primeiro ano.
Naquela época não tinham lava-louças e ficavam todas as noites diante da pia até comprarem uma máquina.
Depois da máquina, pararam.
Havia uns dois anos que não lavavam a louça juntos.
A água estava quente.
O vapor se acumulava na janela, e o vidro ficou embaçado.
Marina passou o dedo por ele.
Ficou uma faixa através da qual se via o pátio: um poste de luz, um banco, um carro com os faróis acesos.
— Igor.
— Hum?
— Eu vou devolver a mala.
— Qual?
— A azul.
A do escritório.
— Devolver onde?
— Na loja.
Vou levar de volta.
Ele não respondeu imediatamente.
Terminou de lavar o prato, aquele mesmo com a lasca.
Colocou-o no escorredor e se virou.
— Não devolva.
— Por quê?
— Ela vai ser útil.
Para viagens.
De verdade.
Ela olhou para ele.
O rosto estava molhado por causa do vapor, as mangas estavam arregaçadas e havia uma marca de queimadura no pulso, que ele tinha sofrido uma semana antes, quando ensaiou o molho pela terceira vez.
— Você se queimou.
— Foi.
— E não me contou.
— Você perguntaria com o quê.
E eu não conseguiria mentir.
— Poderia dizer “no fogão”.
— Eu minto mal.
Você sabe.
Ela sabia.
Em dez anos, ele havia mentido para ela exatamente duas vezes.
Nas duas vezes, sobre presentes de Ano-Novo.
Nas duas vezes, ela descobriu em meio dia.
Eles se sentaram no sofá.
Não ligaram a televisão.
Do outro lado da parede, o relógio fazia tic-tac, o mesmo relógio que a mãe dele havia dado a eles na mudança e que Marina odiava secretamente por fazer um barulho alto.
Mas agora o tic-tac parecia normal.
Até necessário.
— Quero que você saiba uma coisa — disse ele.
— O quê?
— Que eu vejo você.
Não a Marina do trabalho, nem a Marina que existe para os seus pais.
A verdadeira.
Aquela que fica cansada, mas não diz.
Aquela que odeia bolo de abacaxi e o relógio da sua mãe, mas fica em silêncio.
Ela enterrou o rosto na almofada do sofá.
A almofada cheirava a sabão em pó e um pouco a Timka.
— Você sabia sobre o relógio?
— Desde o primeiro dia.
— E não contou para minha mãe?
— Contei.
Ela ficou ofendida e trouxe outro.
— Esse era o segundo?
— Você não percebeu.
O primeiro tinha cuco.
Marina levantou a cabeça.
— Com cuco?
— Eu o interceptei no corredor.
Levei de volta.
Troquei por este.
Sem cuco, pelo menos.
Ela imaginou um relógio de cuco na parede da sala e cobriu o rosto com as mãos.
Noite.
As velas haviam queimado até o fim.
Sobre a mesa restavam círculos de cera nos castiçais e a garrafa vazia da Crimeia.
O bolo estava na geladeira, a inscrição “Marinn” um pouco borrada, mas ainda legível.
Ela estava deitada no escuro, ouvindo-o respirar ao seu lado.
Regularmente, profundamente.
Ele adormeceu imediatamente, como sempre.
E ela, como sempre, não.
Na cabeça dela giravam: sete caixas, a mala azul, as pastas com relatórios.
Como havia planejado tudo cuidadosamente.
Como havia calculado tudo com precisão.
Auditora até a medula, até mesmo no divórcio.
Enquanto isso, ele contava colheres de mel.
Marina virou-se de lado.
A mão dele estava sobre o cobertor, e no pulso escurecia a mesma queimadura.
Ela colocou a própria mão ao lado da dele.
Não sobre a dele.
Ao lado.
Do outro lado da parede, o relógio continuava fazendo tic-tac.
Sem cuco.
E isso já era alguma coisa.
A torneira do banheiro pingou uma vez.
Ela fechou os olhos.
A toalha na cozinha esfriava, e o amido perdia a rigidez.
Pela manhã, ela seria comum.
Macia.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas tinha acontecido.
Duas taças, duas velas, molho com mel demais e um bolo com um erro no nome.
Marina sorriu no escuro.
Ninguém viu, e isso estava certo.
Alguns sorrisos não são para espectadores.
De manhã, ela acordou com o cheiro de café.
Igor estava na cozinha, usando as mesmas calças do dia anterior e uma camiseta que ela havia pedido que ele jogasse fora ainda no verão.
— Bom dia.
— Bom dia.
Sobre a mesa havia uma toalha limpa.
Comum, sem amido.
Um prato.
A caneca dele já estava na pia, lavada.
— Eu vou buscar o Timka? — perguntou ele.
— Deixa que eu vou.
Estou com saudades.
— Ele vai acabar com você.
Vai contar como a avó deu doces para ele antes de dormir.
— Ela deu de novo?
— Ela sempre dá.
Marina serviu café.
Uma caneca branca comum, com uma lasca, da qual bebia todas as manhãs havia seis anos.
O café estava amargo e quente.
Ela tomou um gole e queimou a língua.
— Sabe de uma coisa.
— O quê?
— Acho que realmente não vou devolver a mala.
— Para as viagens.
— Para as viagens.
Ela terminou o café.
Lavou a caneca.
Colocou-a no escorredor ao lado da dele.
Dois recipientes sobre a grade, lado a lado.
Iguais, brancos, com lascas em lugares diferentes.
No corredor, a bolsa de viagem ainda estava parada.
Marina passou por ela e não a desfez.
Haveria tempo.
Ela não estava indo embora.
Tinha voltado.







