Lukas preparava-se para sair de casa quando ouviu uma voz infantil vinda da sala.
— Tu és mesmo o nosso pai?
Parou no último degrau da escada.
Junto à porta estavam quatro meninos praticamente iguais, de camisas brancas, laços azuis e rostos demasiado sérios.
Um apertava um carrinho vermelho na mão, outro abraçava um ursinho gasto.
Atrás deles estava uma mulher pálida, com a mão na alça da mala.
Clara.

Cinco anos antes, aquela mulher desaparecera da sua vida, deixando apenas uma carta.
«Não me procures.
Escolhi outra vida.»
Lukas aproximou-se lentamente.
— Clara?…
— Eu não teria vindo — interrompeu-o ela.
— Mas eles já não acreditavam que o pai trabalhava muito longe.
O menino com o ursinho deu um passo em frente.
— A mãe dizia que tu não sabias de nós.
É verdade?
Lukas ajoelhou-se.
Quatro pares de olhos olhavam para ele.
Os seus olhos.
A mesma cor escura, a mesma pequena covinha no queixo que, nas fotografias da sua infância, sempre fazia a mãe rir.
— Podem dizer-me os vossos nomes? — conseguiu perguntar a custo.
— Eu sou o Leonardo.
— Eu sou o Noé.
— Eu sou o Elias.
O menino que parecia mais pequeno levantou o ursinho.
— Eu sou o Óscar.
E este é o Ben.
Ele também queria vir.
Lukas tentou sorrir, mas o rosto não lhe obedeceu.
— Que idade têm?
— Quatro anos.
Fazem cinco no próximo mês.
Ele levantou os olhos.
— Porque não me disseste?
Clara apertou os lábios.
— Disse.
Fez-se silêncio na sala.
Ouviu-se o som de saltos no andar de cima.
A mãe de Lukas, Helena, descia a escada com o telemóvel na mão.
Ao ver os visitantes, parou.
Pela primeira vez, Clara desviou os olhos de Lukas.
— Bom dia.
Desta vez vim pessoalmente.
A expressão de Helena mudou apenas por um instante.
Depois sorriu.
— Não faças cenas à frente das crianças.
— Mãe — disse Lukas.
— Conheces estas crianças?
— Claro que não.
Mas percebe-se bem ao que vieram.
Óscar agarrou com força a mão do irmão.
Lukas reparou.
Chamou Marta, que trabalhava naquela casa havia muitos anos, e pediu-lhe que levasse os meninos para a cozinha e lhes desse o pequeno-almoço.
— A mãe também vem? — perguntou Leonardo, preocupado.
— Vou ficar aqui — respondeu Clara.
— Deixamos a porta aberta.
Quando as crianças se afastaram, ela tirou da mala um telemóvel antigo e algumas folhas dobradas.
— Descobri que estava grávida duas semanas depois de partires.
Telefonei-te.
Quase todos os dias.
Lukas abanou a cabeça.
— Não recebi nenhuma chamada.
— Depois a tua mãe atendeu.
Disse que já sabias de tudo e que não querias ouvir-me.
— Isso é mentira — afirmou Helena, friamente.
Clara desdobrou uma das folhas.
— Este é o comprovativo do pagamento da clínica onde me levou.
Lembra-se do que me disse no corredor?
«Não vais prender o meu filho a ti com quatro crianças.»
Lukas voltou-se para a mãe.
Helena já não sorria.
— Tentei proteger-te.
Ias casar com a Sofia.
A empresa estava a atravessar uma fase difícil.
Imaginas o que teria acontecido…
— Eu não estava noivo — disse Lukas.
— E, depois da Clara, não tinha intenção de casar com ninguém.
Clara fechou os olhos.
Durante cinco anos, imaginara aquela revelação.
Pensara que sentiria alívio quando finalmente ouvisse a verdade.

Em vez disso, as pernas fraquejaram-lhe.
Helena mostrara-lhe uma fotografia de um suposto noivado.
Lukas e Sofia, de mãos dadas, num salão decorado com flores.
— Aquilo foi um evento de beneficência — disse Lukas, olhando para o ecrã do telemóvel.
— Na outra metade da fotografia está o marido dela.
Aproximou-se da janela e depois voltou.
— E a carta?
Escreveste que tinhas escolhido outra vida.
— Eu não escrevi essa carta.
Helena sentou-se no cadeirão.
Aquele movimento disse mais do que qualquer confissão.
Lukas ficou a olhar para ela durante muito tempo.
— Deixaste-me acreditar durante cinco anos que ela me tinha abandonado.
— Salvei-te de um erro.
Da cozinha chegou o riso das crianças.
Lukas apontou para a porta aberta.
— Deles?
Helena não respondeu.
Clara juntou as folhas.
As mãos tremiam-lhe tanto que o telemóvel quase lhe caiu.
— Não vim por dinheiro.
Os meninos fizeram desenhos no infantário para o Dia do Pai.
Os quatro desenharam-te.
Já não consegui dizer-lhes que estavas longe.
Lukas olhou para a mala simples e para os sapatos gastos dela.
— Como conseguiste sozinha?
— No início, a minha irmã ajudava-me.
Depois comecei a fazer trabalhos de costura à noite.
Quando um adoecia, a minha vizinha tomava conta dos outros três.
Calou-se por um momento.
— O Óscar nasceu prematuro.
Nos primeiros meses, dormia com ele ao colo porque tinha medo de que deixasse de respirar.
Foi nessa altura que mais te odiei.
Lukas sentou-se à frente dela.
— Quem me dera que tivesses ligado de outro número.
— Liguei.
Também fui ao teu escritório.
Disseram-me que, se voltasse a aparecer, os seguranças me punham na rua.
Ele já não perguntou quem dera aquela ordem.
Nesse momento, Noé apareceu à porta com duas bolachas na mão.
— Mãe, também trouxe para ti.
O menino aproximou-se, colocou uma na palma da mão da mãe e estendeu a outra a Lukas.
— Também trouxe para ti.
Mas temos de dividir tudo por igual, porque o Elias contou.
Lukas aceitou a bolacha.
Pela primeira vez na vida, não sabia como fazer uma promessa que fosse suficientemente grande.
— Posso tomar o pequeno-almoço convosco?
Noé olhou para a mãe.
Só respondeu depois de ela acenar com a cabeça.
— Podes.
Mas a cadeira ao lado do Óscar é o lugar do Ben.
Helena levantou-se.
— Lukas, ainda não acabámos.
— Por hoje, acabámos.
Ele não levantou a voz.
Pediu à mãe que saísse e que deixasse os documentos em cima da mesa.
Naquele dia, Clara não ficou na mansão.
À oferta de quartos e de um carro, respondeu da mesma forma.
— Eles ainda não te conhecem.
Não vou mudar a vida inteira deles numa manhã.
Lukas concordou.
Durante a semana seguinte, foi todas as noites ao pequeno apartamento deles.
Aprendeu qual dos meninos não gostava de leite, qual tinha medo do escuro e qual insistia que todas as meias tinham obrigatoriamente de fazer par.
No início, Clara raramente sorria.
Ele não a apressava.
Uma noite, Óscar adormeceu ao seu colo, com o ursinho apertado contra o peito.
Lukas tinha medo de se mexer.
Clara aproximou-se para levar o menino para a cama.
— Deixa-o ficar mais um bocadinho — sussurrou ele.

Ela sentou-se ao seu lado.
— Ainda não sei se consigo voltar a confiar em ti.
— Eu sei.
— Não devemos fingir pelas crianças que está tudo bem.
— Não vamos fingir.
Na cozinha, ouvia-se o tiquetaque do relógio.
Do outro quarto chegou a voz sonolenta de um dos irmãos.
— Mãããe, o pai já foi embora?
Lukas olhou para Clara.
Desta vez, ela não desviou o olhar.
— Não — respondeu.
— Está aqui.
E Lukas ficou, sentado sem se mexer, até que a mãozinha do menino largou, por si só, a sua camisa.







