A manhã na enfermaria da maternidade começou com papa, amamentação e uma batida cautelosa à porta.
O médico sorriu ao espreitar para as três jovens mães e deu a Polina a notícia mais tranquilizadora que ela tinha ouvido nos últimos dias.

— Está tudo ótimo, — disse ele.
— Estamos a preparar os documentos da alta.
— Pode telefonar ao seu marido para que venha buscá-la.
— Ele está a trabalhar fora, — respondeu Polina suavemente.
— Achava que chegaria a tempo, mas a nossa Irina teve pressa.
— Acontece, — assentiu o médico.
— Nesse caso, decida quem virá buscá-la.
As suas companheiras de enfermaria, Anna e Olya, já falavam animadamente ao telefone, arrumavam as roupinhas dos bebés e fechavam as malas.
Polina olhava para a filha, para os seus punhinhos cerrados, enquanto um plano alegre se formava na sua cabeça.
Riu-se baixinho dos próprios pensamentos e decidiu que iria sozinha.
— Meninas, eu vou sozinha, — anunciou.
— Ponho a mesa, chamo os familiares e, quando Artur regressar do trabalho, encontrará a casa cheia.
— Polinochka, mas como vais sozinha? — lamentou-se a auxiliar Ulyana, entrando apressadamente na enfermaria.
— Telefona à tua mãe para que ela venha buscar-te.
— Ulyana Sergeyevna, está tudo bem, — sorriu Polina.
— Eu não estou sozinha, o meu marido está apenas numa viagem de trabalho.
— E ficar aqui à espera de toda a gente não é para mim.
— Ah, esta juventude, — suspirou a auxiliar.
— Na vida acontece de tudo, não fiques zangada comigo, digo isto por bem.
— Eu não estou zangada, — disse Polina, apertando o embrulho contra o peito.
— É melhor ajudar-me a embrulhar bem a pequena.
Ulyana envolveu a menina como se fosse uma joia preciosa e entregou-a aos braços da mãe.
As coisas que a mãe de Polina trouxera no dia anterior já estavam dentro da mala.
O táxi esperava lá em baixo, e o motorista olhou para a jovem mulher com a mesma compaixão da auxiliar.
— Dê-me a mala, — disse ele.
— E tente dormir o máximo possível à noite, esse conselho vale ouro.
— Obrigada, — riu Polina.
— Vou lembrar-me.
Ele levou as coisas dela até à porta do apartamento.
Polina tirou as chaves, rodou-as na fechadura e empurrou a porta devagar para não acordar Irina.
Na casa de banho ouvia-se água a correr.
Polina ficou contente: isso significava que Artur já tinha regressado, por isso a surpresa seria dupla.
Caminhou em bicos de pés até ao quarto e ficou paralisada.
A cama estava desfeita, e por cima dela havia roupas femininas que não eram suas.
Polina pousou cuidadosamente o embrulho no sofá e dirigiu-se à sala.
Parou como se o chão debaixo dos seus pés se tivesse tornado estranho.
À sua frente estava Artur, e ao lado dele, a rir-se, apertava-se contra ele a sua irmã Zhanna.
Ambos tinham acabado de sair da casa de banho, nenhum deles esperava visitas e os dois estavam completamente nus.
Zhanna soltou um grito, murmurou algo incompreensível e correu de volta.
— Tu… o que estás a fazer aqui? — conseguiu dizer o marido enquanto vestia a roupa interior.
— Eu? — Polina riu-se nervosamente.
— Sou uma mãe que acabou de dar à luz.
— Vim para casa com a tua filha, idiota como sou, porque queria fazer-te uma surpresa.
— Com a minha filha? — Artur avançou em direção ao quarto.
— Nem te atrevas! — Polina bloqueou-lhe o caminho e pegou no embrulho.
— Não te aproximes da criança.
— Nem tu, nem essa.
— Polina, simplesmente aconteceu assim, — balbuciou Zhanna da cozinha.
— Não fizemos de propósito…
— Não fizeram de propósito? — Polina mal conseguia respirar de tanta raiva.
— Estás grávida.
— Estás grávida dele.
— Durante quanto tempo mentiste olhando-me diretamente nos olhos?
Irina começou a choramingar, e aquele som fino trouxe Polina de volta à realidade.
Ela apertou a filha contra si, recuou em direção à saída, encontrou às cegas o saco com os documentos e saiu.
As escadas, o pátio e o telefonema aconteceram como se tudo se fizesse sozinho.
— Um táxi, por favor, — disse ela ao telefone com voz calma.
— O mais rápido possível.
Meia hora depois, batia à porta da mãe.
Vera Stepanovna abriu e ergueu as sobrancelhas com surpresa.
— Já te deram alta?
— Porque não telefonaste?
— Nós queríamos ir buscar-vos amanhã.
— Não posso voltar para lá, — sussurrou Polina.
— Ela está lá.
— Eles estão lá.
— Ah, — respondeu calmamente a mãe, pegando na neta e levando-a para a sala para a desembrulhar.
— Então ele estava com ela.
— Tu sabias?
— Claro que sabia, — respondeu Vera Stepanovna, encolhendo os ombros.
— Zhanna está com ele há muito tempo.
— E não finjas que és uma santa.
— Quem te apresentou ao Artur?
— A tua irmã.
— Mas tu roubaste-o dela e arrastaste-o para o altar.
Polina ficou imóvel, como se tivesse criado raízes.
Meia hora antes, descobrira a traição, e agora a própria mãe estava do lado dos traidores.
— Tu ouves o que estás a dizer? — perguntou Polina baixinho.
— Não faças uma cena, — cortou a mãe.
— A criança é linda, é toda parecida com o pai.
— E tu tens de voltar para casa, para o teu marido.
— Parecida com o pai, — repetiu Polina.
— Não comigo.
— Com o pai.
O padrasto, Ilya Viktorovich, saiu do quarto ao lado, calmo como um apresentador de um programa noturno.
— Pronto, filha, agora já sabes tudo.
— Tu também sabias?
— Sim, — respondeu ele sem sequer pestanejar.
Polina sentiu náuseas.
Foi até à casa de banho, ficou algum tempo com a filha nos braços, controlou a respiração e voltou.
— Não tires a manta, — disse à mãe.
— Vou embora.
— Essa é a decisão certa, — alegrou-se Vera Stepanovna enquanto embrulhava a menina.
— Casa é casa.
Polina calçou-se em silêncio, pegou no embrulho, no saco e saiu.
A porta fechou-se suavemente atrás dela, sem uma única palavra de despedida.
Na escada, Irina começou a chorar de novo.
Polina sentou-se no parapeito da janela, desabotoou a blusa, amamentou a filha e, ao mesmo tempo, pensou em todas as pessoas para quem poderia ir.
Não podia ir para casa da amiga Lyuba, pois ela tinha a sua própria família.
Foi então que se lembrou do pai.
Pavel Nikolayevich via-a apenas uma vez por ano, no aniversário dela, levava presentes e depois ia-se embora.
Quando Polina tinha quatro anos, ele abandonara a família, e a mãe casara-se imediatamente com Ilya Viktorovich.
Polina marcou o número com dedos trémulos.
— Pai, — a voz dela falhou.
— Eu…
— Vem, — disse ele simplesmente.
E imediatamente tudo pareceu mais fácil.
Uma hora depois, o táxi levou-a até ao outro lado da cidade.
Pavel Nikolayevich abriu a porta, viu o embrulho e abriu um largo sorriso.
— É tua? — perguntou ele, abraçando cuidadosamente a filha e beijando-a na face.
— Minha, — assentiu Polina.
— A tua neta.
— Tira o casaco e entra na sala.
— Dá-ma, eu seguro-a enquanto tu recuperas o fôlego.
— Estás aqui sozinho?
— Sozinho como um velho solteirão, — sorriu ele, embalando a menina.
— Então, como lhe chamaste?
— Irina?
— Bonito.
Polina desembrulhou a bebé, e o pai apertou a neta contra si, acariciando-lhe a cabeça.
Aquela mão simples pousada sobre a pequena cabeça fez com que todo o horror recuasse por um instante.
— Posso ficar a viver contigo? — perguntou ela baixinho.
— Uma semana, depois alugo um apartamento.
— Que apartamento? — franziu ele a testa.
— Para onde vais sozinha com uma criança?
— O quarto está livre, por isso ficas aqui.
— Ponto final.
Ao anoitecer, o telefone de Polina estava a ferver.
Artur ligava, e a mãe telefonava de dezenas de números diferentes.
— Volta imediatamente! — gritava Vera Stepanovna.
— Uma criança deve crescer com o pai!
— A criança tem mãe, — respondia Polina calmamente antes de bloquear o número.
Um minuto depois, ligavam de outro.
E depois de mais outro.
Ela bloqueava-os um a um sem levantar a voz.
Entretanto, o pai correu à farmácia, trouxe fraldas e depois apareceu com dois sacos cheios de roupas de bebé.
— Não percebo muito disto, — disse ele, embaraçado.
— Mas na loja disseram-me que aqui estava tudo o que era necessário.
— Obrigada, papá, — disse Polina, abraçando-o.
— Fica sentada, eu faço o jantar.
— Nestes anos todos aprendi a alimentar-me sozinho, não vou morrer à fome.
— Mas porque estás sozinho?
— Casei-me uma segunda vez.
— Não resultou, — respondeu ele brevemente.
Durante o jantar, Polina contou-lhe finalmente tudo.
Parava, recuperava o fôlego e falava da surpresa, do quarto, da mãe e do padrasto.
Pavel Nikolayevich ouviu-a em silêncio e resumiu:
— Um verdadeiro ninho de víboras.
— Fizeste bem em sair de lá.
— É preciso fugir das cobras imediatamente, não tentar negociar com elas.
Passou uma semana, depois outra.
A mãe ligava cada vez menos, mas nem ela nem Artur pediram desculpa uma única vez.
Um dia, Polina regressou da clínica e ficou espantada: o pai estava a montar um berço, e ao lado encontrava-se um carrinho de bebé já pronto.
— Papá, és maravilhoso, — disse ela, beijando-o na face.
— O que não se faz por uma neta? — sorriu ele.
Nessa noite, depois de deitar Irina, Polina foi até à cozinha e fez a pergunta que há muito lhe andava na cabeça.
— Pai, porque deixaste a mãe naquela altura?
Ele aproximou-se da janela, ficou algum tempo em silêncio e curvou os ombros.
— Tu não és minha filha, — disse ele.
— Descobri por acaso quando tinhas cerca de três anos.
— Perdoa-me por te ter abandonado.
— Não consegui continuar a viver daquela forma.
Polina aproximou-se e tocou-lhe nas costas.
Tantas traições em apenas algumas semanas, e agora até este homem se revelava um estranho.
Mesmo assim, fora precisamente ele quem lhe oferecera apoio.
— Eu compreendo, — sussurrou ela, beijando-o nas costas.
— Pai.
— Só não vás embora, — disse ele.
— Fica aqui.
— Mas eu sou uma estranha para ti.
— Não, — respondeu ele com firmeza.
— Ficas, e acabou.
Polina não tinha o hábito de adiar as coisas.
Aquilo que não lhe dava paz, resolvia imediatamente, com as próprias mãos.
— Pai, quero fazer um teste de ADN, — disse ela um dia.
— Não tenho nada contra, — respondeu Pavel Nikolayevich calmamente.
No dia seguinte, entregaram as amostras, e uma semana depois receberam um envelope.
O resultado foi positivo: ele era o seu pai biológico.
— Isso quer dizer que a mãe te mentiu naquela altura, — disse Polina baixinho.
— E tu acreditaste nela durante todos estes anos.
— Parece que sim, — respondeu ele, virando-se.
— Mas agora ninguém voltará a separar-nos.
Polina resolveu a questão com o ex-marido com a mesma rapidez.
Apresentou o pedido de divórcio, foi quatro vezes ao tribunal e, à quarta audiência, o casamento foi dissolvido, pois Artur nunca apareceu.
Polina entregou a uma agência imobiliária o apartamento que comprara sozinha antes do casamento.
— O meu ex-marido vive lá, mas não está oficialmente registado, — disse ela ao telefone.
— Peço que resolvam a situação, não pretendo arrastar isto.
— Vamos resolver, — responderam-lhe.
— Amanhã tratamos disso.
E o telefone voltou a aquecer.
Ligava a mãe, ligava Artur e parecia que até a irmã tentava contactá-la.
— O que fizeste com a nossa casa?! — gritava Artur ao telefone.
— Não tens consciência?
— Nós estamos aqui com uma criança, caso não saibas!
— Atiraste-nos para a rua como… como gatinhos!
— O apartamento é meu, — respondeu Polina calmamente.
— Comprei-o à custa das minhas noites sem dormir.
— Dizem que a ganância cega, e tu ficaste tão cego que nem percebeste a quem pertencia a propriedade onde te deitavas.
— Tu… vais arrepender-te, ouviste?
— Ainda vais voltar a correr para mim! — a voz dele transformou-se num grito agudo.
— Adeus, Artur, — respondeu ela antes de desligar.
No dia seguinte, a agência alugou o apartamento a uma família respeitável por um bom valor.
Os funcionários da mudança empacotaram as coisas de Polina em caixas e entregaram-nas na nova morada.
Agora ela tinha o seu próprio dinheiro e já não precisava da ajuda financeira do pai.
Polina continuou a chamar Pavel Nikolayevich de pai.
Ele dava banho a Irina, passeava com o carrinho e, certa vez, um amigo dele brincou na rua:
— Então, Pasha, tiveste uma filha na velhice?
— O quê, achas que ela não se parece comigo? — respondeu ele a rir.
Polina olhou para ele de outra maneira.
Ele não era um mentiroso nem apenas um homem envelhecido, mas alguém carinhoso, fiável e bonito de uma forma especial, calma e reconfortante.
À noite, enquanto ele preparava borsch, ela abraçou-o pelas costas e nem percebeu por que razão o beijou entre as omoplatas.
— O que foi isso? — sorriu ele, pousando a mão sobre a dela.
— Nada, — respondeu ela.
— Sinto-me simplesmente bem contigo.
A história não terminou com uma reconciliação com a antiga família.
Polina nunca mais falou com a mãe, o padrasto, o ex-marido ou a irmã.
Irina crescia, corria por todo o lado e balbuciava, chamando avô a Pavel Nikolayevich.
— Sabes, pai, — disse Polina certo dia, — as coisas mais sólidas da vida não se constroem com laços de sangue, mas com quem ficou quando tudo se tornou difícil.
— Muito sábio, — assentiu ele.
— Foste tu que inventaste?
— Li isso algures, — riu-se ela.
— Mas só contigo consegui compreender verdadeiramente.







