E eu já estava casada há três anos com o vizinho dela do andar de cima.
— Então.

— Quer dizer que combinamos.
— Amanhã, às oito da manhã, você estará na casa do Vitenka.
— As fraldas eu já encomendei, vão entregar na quarta-feira.
Minha sogra — mais exatamente, minha ex-sogra, Tamara Ivanovna — estava parada no meu hall de entrada, usando seu roupão florido, aquele com que ela ia até a casa da vizinha do outro lado da rua, dá para imaginar?
E dizia aquilo num tom como se eu tivesse prometido fazer pelmeni para ela no dia seguinte.
Eu pisquei.
Uma vez.
Depois outra.
— Tamara Ivanovna.
— Eu não entendi.
— Fraldas de quem?
— Do Vitia, eu acabei de dizer.
— Olia, você parece que caiu da lua.
— O Vitia ficou de cama.
— Derrame.
— O lado esquerdo ficou paralisado.
— Precisamos de uma cuidadora.
— Precisamos? — perguntei.
— E quem mais precisaria? — ela ajustou a bolsa no ombro.
— Você é a esposa dele.
— Ex-esposa, — corrigi.
— Divorciamos há quatro anos.
— Só para lembrar.
— Ex-esposas não existem, — cortou Tamara Ivanovna.
— Vocês viveram juntos dez anos.
— Ele fez de você gente.
— Este apartamento, quem comprou?
— O Vitia.
— E agora você torce o nariz?
Foi esse “fez de você gente” que acabou comigo.
Quem fez de mim gente foi o diploma de odontologia.
E doze anos de trabalho numa clínica particular, onde primeiro eu corria como assistente por uma miséria, e depois cheguei a ter meu próprio consultório.
Já o Vitia… o Vitia me “fez” chegar direitinho à depressão, a menos oito quilos e ao consultório de uma psicoterapeuta.
Obrigada, claro.
O apartamento, aliás, eu comprei sozinha.
Depois do divórcio.
Com o meu dinheiro.
Nessa época, o Vitia estava justamente bebendo os últimos miolos com a nova paixão: Angela, da concessionária.
E tudo começou meia hora antes.
Eu tinha acabado de chegar do trabalho.
Tirei os sapatos, coloquei a chaleira no fogo, sentei num banquinho — e então a campainha tocou.
Com tanta insistência que parecia incêndio.
Abro — Tamara Ivanovna.
Sem ligar, sem avisar.
Entrou direto no hall — zás.
E já da porta:
— Olia, estamos com uma desgraça.
“Estamos”.
Esse “estamos” vindo da boca dela eu não ouvia havia uns quatro anos.
A última vez que ela me disse “estamos” foi quando o Vitia quebrou três caixas de conservas na garagem dela, e “nós” tínhamos que fazer novas.
— Que desgraça?
— O Vitia está no hospital.
— Derrame.
— Daqui a uma semana dão alta, os médicos dizem que ele vai precisar de cuidados.
— Cuidados completos.
— E eu já não sou jovem, tenho setenta e dois anos, eu mesma tenho pressão alta.
— Sinto muito, — eu disse sinceramente.
Eu realmente sentia pena do Vitia.
Ex-marido, sim, mas eu não sou nenhum monstro.
— E onde está a Angela?
Tamara Ivanovna apertou os lábios de tal jeito que eles viraram o traseiro de uma galinha.
— Essa Angela de vocês fugiu.
— Assim que soube do derrame, juntou as tralhas e foi embora.
— Para a casa da mãe, em Tambov.
— Disse: “Ainda sou jovem, não preciso carregar inválido nas costas”.
— Entendo a Angela, — assenti.
— O quê?! — a sogra explodiu.
— Digo que entendo a posição dela.
— Ela não é esposa dele, nem parente.
— Faz o que quiser.
— E você! — Tamara Ivanovna apontou o dedo para mim.
— Você é esposa dele!
— Dez anos!
— Ex-es-po-sa, — repeti, separando as sílabas.
— Já faz quatro anos.
Foi aí que ela soltou aquela frase:
— Você deu dez anos da sua vida a ele — agora vá esvaziar o penico dele.
Sabe o que eu fiz naquele momento?
Eu ri.
Não de propósito, saiu sozinho.
Só imaginei a cena: eu, depois de um turno de doze horas, indo até a casa do Vitia.
Lá, Tamara Ivanovna me receberia com instruções: “A fralda se troca a cada três horas, o mingau tem que ser ralo, as pernas devem ser esfregadas com óleo canforado”.
E, no meio disso: “Olia, aproveita e passa um pano no chão aqui, eu já não consigo me abaixar”.
— Tamara Ivanovna, — parei de rir.
— Deixe-me contar uma história.
— A senhora lembra quando meu pai ficou de cama em dois mil e vinte e um?
— Depois da Covid?
— Lembra?
Ela franziu a testa.
Fingiu que não lembrava.
— Não lembra.
— Então eu vou lembrar.
— Naquela época, liguei para a senhora e para o Vitia.
— Disse que meu pai tinha recebido alta do hospital e que eu precisava ir até a aldeia dele por uma semana.
— O que a senhora me respondeu?
Silêncio.
— A senhora me respondeu: “Olia, o Vitia tira férias daqui a um mês, nós vamos para a Turquia, você não pode ir embora agora, quem vai preparar as coisas do Vitia?”.
— Isso foi a primeira coisa.
— E quando meu pai morreu dois meses depois, e eu pedi ao Vitia que fosse comigo ao funeral, o que ele disse?
— Olia, mas o que isso tem a ver…
— Ele disse: “Não quero me arrastar até aquele fim de mundo, vá sozinha”.
— E foi pescar com o Serioga.
— Lembra?
Tamara Ivanovna bufou.
— Aquilo era diferente.
— Seu pai era seu pai.
— Mas o Vitia é homem, ele precisava descansar.
E aí — um segundinho, vou parar de sorrir.
Aí alguma coisa dentro de mim estalou em silêncio.
Sabe quando uma lâmpada queima: um pequeno estalo, e tudo fica escuro.
Durante dez anos, naquela família, eu fui a equipe de serviço.
Durante dez anos: “Olia, cozinha”, “Olia, lava”, “Olia, corre até a mamãe e leva os remédios dela”.
A sogra morava no prédio ao lado, mas quem mandavam buscar remédios era eu.
Atravessando a cidade inteira.
Depois do trabalho.
Com duas baldeações.
E quando eu toquei no assunto de termos um filho, o Vitia disse: “Primeiro vamos juntar dinheiro para um apartamento maior”.
Juntamos durante sete anos.
Juntamos.
Compramos.
Adivinhe no nome de quem?
Isso mesmo.
No nome do Vitia.
“Mas somos uma família, que diferença faz?”.
Divorciamos seis meses depois.
Ele levou Angela diretamente para aquele apartamento.
Eu me mudei para um quitinete alugado, juntei dinheiro por três anos para comprar o meu — e comecei a viver.
Pela primeira vez.
Como gente.
— Tamara Ivanovna.
— Eu não sou esposa do Vitia.
— Eu não sou ninguém para ele.
— Pelos documentos, sou uma estranha.
— Pela vida, mais ainda.
— Você é sem coração! — ela quase engasgou.
— Vou dizer a mesma coisa à Angela, para ela saber que tipo de mulheres vocês são!
— Diga.
— Ela está em Tambov, não vai ficar com medo.
— E eu vou para onde?!
— Minha aposentadoria é de vinte e dois mil rublos!
— Uma cuidadora custa setenta mil!
— O Vitia tem um apartamento.
— O apartamento de vocês, que nos documentos está no nome do Vitia.
— Aluguem um quarto.
— Ou vendam, mude-se para a casa dele e cuide dele.
— É o apartamento dele!
— Eu não vou mexer nele!
— Então contrate uma cuidadora com a aposentadoria por invalidez dele.
— Ele vai receber.
— Está zombando de mim?!
— Não.
— Estou raciocinando logicamente.
Então ela encheu os pulmões e partiu para a segunda rodada:
— E eu achava que você era bondosa.
— Eu dizia ao Vitia: “Você fez mal em largar a Olka, ela era de ouro”.
— Mas olha só como você é…
O sarcasmo dentro de mim acordou antes que eu conseguisse segurá-lo.
— Tamara Ivanovna, pode repetir?
— O que o Vitia dizia quando me largou?
— O quê?
— Como o Vitia me caracterizava quando foi embora com a Angela?
— Lembre-me.
Ela hesitou.
— Bem… ele dizia alguma coisa…
— “Sardinha seca”.
— “Peixe seco”.
— “Com você nem há assunto para conversar”.
— Isso a senhora me disse no dia do divórcio — eram citações suas, aliás.
— Eu chorava na sua cozinha, e a senhora me serviu chá e disse: “Olia, entenda, você é uma sardinha seca, e a Angela é uma mulher suculenta, claro que ele foi embora com ela”.
— Lembra?
Tamara Ivanovna ficou roxa de raiva.
— Eu não disse isso!
— Disse.
— Tenho boa memória para insultos.
— Deformação profissional: passo oito horas por dia olhando dentro da boca das pessoas, lembro de tudo.
E então — a campainha tocou.
De novo.
Abro — na porta está Seriôja.
Meu marido.
Com uma sacola do “Piatiorotchka” e um buquê de crisântemos, porque ele me traz crisântemos toda sexta-feira, é a nossa tradição.
— Oi, meu bem, comprei as batatas como você pediu.
— Ah, temos visita?
Tamara Ivanovna olhou para Seriôja.
Depois para mim.
Depois de novo para Seriôja.
Depois para as chaves na mão dele — ele tinha seu próprio molho, morávamos juntos havia três anos.
— Esse… quem é? — ela conseguiu dizer.
— É meu marido, — eu disse calmamente.
— Serguei.
— Somos casados no civil há dois anos.
Seriôja estendeu a mão para ela:
— Muito prazer.
— E a senhora é…?
— Esta é Tamara Ivanovna, — eu disse.
— A mãe do Vitia.
— Lembra, eu te contei?
Seriôja se iluminou.
— Aaaah!
— Claro, claro!
— Tamara Ivanovna!
— Eu sou seu vizinho, aliás.
— Do prédio em frente, quinto andar.
— Foi lá que encontrei a Olia: nós nos conhecemos há três anos no elevador, quando eu a ajudei a carregar as caixas para dentro.
— Lembra?
— Ela estava se mudando para o apartamento oito.
— E a senhora estava sentada justamente no pátio, eu passei e cumprimentei.
— A senhora ainda me disse: “Bom dia, jovem”.
Tamara Ivanovna ficou calada.
Por muito tempo.
Depois disse secamente:
— Não lembro.
— Não tem problema, — Seriôja sorria de um jeito desarmante.
— O importante é que agora todos nos conhecemos.
— A senhora aceita chá?
— Não aceito.
Ela se virou e foi até a porta.
Já com a mão na maçaneta, virou-se:
— Então vocês estão abandonando o Vitia para morrer?
— Tamara Ivanovna, — eu disse suavemente.
— O Vitia não está morrendo.
— Ele teve um derrame de gravidade média, a reabilitação dura três ou quatro meses, depois ele vai se recuperar parcialmente.
— Conversei com o médico uma hora atrás: liguei para o hospital assim que a senhora falou do derrame.
— Esclareci o prognóstico.
— Então não exagere.
— E mais uma coisa.
Aproximei-me.
— Se o Vitia não tem dinheiro para uma cuidadora, ligue para a assistência social.
— Existe um programa de serviço de acompanhamento domiciliar.
— Gratuito, quatro horas por dia.
— Além disso, há a enfermeira distrital pelo plano público.
— Isso basta na maioria dos casos.
— Eu me informei: meu pai, lembra, estava acamado.
— Eu conheço o sistema.
Ela piscou.
— E por que não disse isso logo?
— Porque a senhora não perguntou.
— A senhora chegou já dando ordens.
A porta bateu.
Virei-me para Seriôja.
Ele olhava para mim com tanta ternura que senti o nariz arder.
— Como você está? — perguntou ele.
— Estou bem, — eu disse.
E entendi que não estava mentindo.
— Vamos fritar as batatas?
— Vamos fritar.
Fomos para a cozinha.
Seriôja ligou o rádio, eu peguei a frigideira.
Nossa gata, Muska, esfregou-se nas nossas pernas.
E sabe o que eu pensei?
Pensei que durante dez anos eu fui a “Olia-faz-isso”.
E há três anos eu sou simplesmente Olia.
E isso, ao que parece, basta para ser feliz.
Não são necessários apartamentos maiores, carros mais caros, sogras mais quietas.
Só é preciso que, numa sexta-feira, alguém te receba com crisântemos e pergunte: “Como você está?”.
Eu realmente sinto pena do Vitia.
Ele não era mau — era fraco.
E pessoas fracas são as mais perigosas, porque estão sempre sendo levadas pela correnteza.
A corrente o levou até Angela.
Depois o arrastou para um derrame.
Agora vai jogá-lo de volta para a mãe.
Tamara Ivanovna vai gritar, gritar, e depois ela mesma vai cozinhar o mingau para ele.
Que escolha terá?
Eu, por outro lado, já cozinhei o meu mingau.
E como em paz.
Com meu marido.
No meu apartamento.
Na minha cozinha.
E sem nenhuma ex-sogra de roupão florido.







