— Você guardou os recibos?

Devolva tudo o que comprou!

Eu prometi seu bônus à minha mãe!

— exigiu o marido.

As botas estavam no meio do hall de entrada: marrom-escuras, com um salto discreto, ainda cheirando a couro novo.

Anton estava parado à porta da cozinha, com o telefone na mão, olhando para a compra como se aquilo não fosse um par de sapatos, mas uma granada sem pino.

— Você guardou os recibos?

Devolva tudo o que comprou!

Eu prometi seu bônus à minha mãe!

— exigiu ele, e sua voz era a de alguém que havia conseguido falar antes de pensar.

Ira ergueu os olhos.

Ela poderia ter ficado calada.

Ela sabia ficar calada: três anos de casamento tinham lhe ensinado isso.

Sabia suavizar as coisas, transformar em piada, ir para outro cômodo e lá ficar com raiva em silêncio, contra o travesseiro.

Mas naquele dia ela não pretendia aguentar.

Talvez fosse por causa daquelas botas.

Talvez porque as botas velhas, que ela já tentava remendar sem sucesso havia dois anos no sapateiro, naquele dia tinham finalmente encharcado de vez no caminho desde o ponto de ônibus.

Talvez porque ela havia adiado aquela compra por três meses, convencendo-se de que esperaria, suportaria, que ainda não era a hora.

E agora parecia que nem agora podia.

— Repete, — disse ela baixinho.

Anton não percebeu a mudança na voz dela.

Ou percebeu, mas decidiu que a pressão era mais importante que a cautela.

— Eu estou dizendo que minha mãe está doente.

Ela precisa de remédios, de massagem na semana que vem, de refazer exames.

Eu já disse a ela que o dinheiro ia aparecer.

Você podia pelo menos ter me perguntado antes!

— Perguntado a você?

— Claro!

É orçamento familiar, precisamos discutir essas coisas!

— Orçamento familiar, — ela assentiu, e havia algo naquele gesto que finalmente fez Anton se calar.

— Anton, quando foi a última vez que você discutiu comigo quanto transfere para sua mãe todos os meses?

— Isso é diferente.

— Por que é diferente?

— Porque ela está doente!

— Ela está doente há três anos.

Ira falava quase calmamente.

— Há três anos ela está doente.

Há três anos você dá dinheiro a ela todos os meses.

Quanto, você não me diz.

Em que ela gasta, você não sabe.

Quando eu pergunto, você diz que sou insensível.

E agora você está aqui exigindo que eu devolva as botas que comprei com meu próprio dinheiro, porque você prometeu alguma coisa a uma mulher que, para mim, é praticamente uma estranha.

— Ela não é uma estranha, ela é minha mãe!

— Eu lembro quem ela é.

Ira sentou-se no pequeno banco perto do espelho e começou a tirar as botas velhas.

— Eu lembro muito bem quem ela é.

O silêncio caiu no hall.

Anton observava a esposa colocar cuidadosamente os sapatos velhos no canto e pegar os novos nas mãos.

A compra que ele exigia que ela devolvesse.

— Você está falando sério?

— perguntou ele.

— Completamente.

Ela calçou a bota esquerda.

Depois a direita.

Levantou-se e caminhou pelo corredor: o salto batia com firmeza, com segurança, como dona da própria casa.

— Vamos à casa da sua mãe, — disse Ira.

Durante todo o caminho no carro, eles ficaram em silêncio.

Anton abriu a boca várias vezes para dizer alguma coisa, mas sempre a fechava de novo.

Ira olhava pela janela.

Do outro lado do vidro deslizavam as luzes da cidade de novembro, o asfalto molhado refletia os postes, e os pedestres mergulhavam sob guarda-chuvas.

Ela pensava no que ele diria à mãe.

Ou melhor, no que ela mandaria ele dizer.

Porque ela tinha um plano.

Ele não havia surgido naquele dia.

Tinha se formado havia muito tempo, pouco a pouco, a partir de pequenas observações, de conversas que ela ouvira por acaso, de números que não fechavam, de queixas que se repetiam com uma regularidade surpreendente e sempre exatamente quando aparecia algum dinheiro extra em casa.

Valentina Sergueievna morava em um apartamento de dois quartos no quinto andar.

O elevador funcionava.

Ira sabia disso com certeza, porque certa vez ela mesma havia ajudado a sogra a carregar sacolas pesadas enquanto ela explicava que o elevador estava quebrado.

O elevador estava funcionando perfeitamente.

Valentina Sergueievna simplesmente preferia que outras pessoas carregassem as sacolas.

A porta se abriu rapidamente.

A sogra estava de roupão, mas penteada e maquiada: Ira já havia notado havia tempos que ela estava sempre pronta para visitas, mesmo quando se queixava de mal conseguir andar.

— Antoshenka!

— Valentina Sergueievna se iluminou, depois viu Ira e apagou um pouco.

— Você também veio.

— Boa noite, Valentina Sergueievna, — disse Ira em voz baixa.

O apartamento cheirava a bom café e doces recém-assados.

Sobre a mesinha de centro havia uma revista aberta.

Na tela da televisão, alguma série estava pausada.

Ira observou tudo aquilo com muita atenção e não disse nada.

Eles se sentaram.

Anton estava nervoso.

A mãe já havia farejado que havia algo errado e olhava ora para o filho, ora para a nora com a expressão de uma pessoa que se prepara para se defender, mas ainda não sabe de onde virá o golpe.

— Mãe, — começou Anton, e Ira ouviu na voz dele o esforço que fazia para falar como haviam combinado no carro, — eu queria te dizer uma coisa importante.

Eu pensei e decidi: eu mesmo vou à farmácia, eu mesmo compro os alimentos e levo para você.

Assim é melhor.

Assim você não precisa se preocupar com nada, não precisa ir a lugar nenhum, eu levo tudo.

Valentina Sergueievna escutava.

Durante aquele monólogo, seu rosto mudou várias vezes.

Primeiro, surpresa.

Depois algo parecido com confusão.

Depois, e foi nesse momento que Ira assentiu quase imperceptivelmente para si mesma, raiva.

— O que significa “você mesmo vai”?

— perguntou a sogra, em voz baixa e muito clara.

— Bem, mãe, é mais cômodo.

Você não precisa ir a lugar nenhum, eu compro tudo o que for necessário…

— Você não confia em mim?!

A voz de repente ficou mais alta.

Mais cortante.

Valentina Sergueievna se endireitou na poltrona de tal maneira que não restou nenhum vestígio de cansaço ou doença.

— O que eu sou, uma menininha que não pode receber dinheiro na mão?

Quem colocou isso na sua cabeça?

— ela se virou para Ira, e o olhar era tal que, em outra ocasião, Ira talvez tivesse desviado os olhos.

— Foi ela que inventou isso, não foi?

Foi ela que te colocou contra mim para você parar de dar dinheiro à sua mãe?

Para eu viver por lista, como num orfanato?

— Mãe…

— Anton ficou perdido.

— Eu sou uma mulher doente!

Eu preciso escolher sozinha o que preciso!

E você quer me controlar!

Isso é humilhante!

Foi ela que te ensinou isso, eu sei, eu conheço essa daí!

Foi então que Ira falou.

Ela não levantou a voz.

Falava com calma e sem pressa, e talvez justamente isso tenha atingido a sogra com mais força.

— Valentina Sergueievna, eu escutei a senhora por três anos.

Durante três anos ouvi que a senhora está doente, mas, ao mesmo tempo, parece muito bem e consegue acompanhar todas as séries.

Durante três anos ouvi que a senhora precisa de dinheiro para remédios, mas ninguém sabe exatamente quais remédios.

Durante três anos, toda vez que aparecia dinheiro em nossa casa, a senhora tinha uma nova crise.

Hoje Anton quer ajudar a senhora de outro modo: com alimentos, remédios, cuidado real.

E, se a senhora é uma pessoa honesta que realmente precisa de ajuda, deveria ter ficado feliz.

Porque isso é ajuda.

Mas a senhora está com raiva.

Por quê?

Silêncio.

Valentina Sergueievna abriu a boca.

Ficou calada.

— Você… você não tem o direito de falar comigo assim…

— Eu falo com a senhora como se fala com uma pessoa que se respeita e a quem se diz a verdade, — respondeu Ira.

— É melhor do que aquilo que a senhora fez conosco durante três anos.

Valentina Sergueievna não encontrou mais palavras convincentes.

Passou às lágrimas, mas isso também não produziu o efeito de antes.

Anton estava sentado muito ereto e olhava para a mãe com a expressão de alguém que, lentamente e com dificuldade, começa a entender alguma coisa.

Eles foram embora vinte minutos depois.

No carro, o silêncio voltou.

Mas aquele silêncio não pesava; era necessário para que tudo o que tinha sido ouvido se acomodasse.

— Você viu?

— perguntou Ira quando entraram na estrada.

— Vi, — disse Anton.

— Ela não ficou com raiva porque eu a ofendi.

Ela ficou com raiva porque eu acertei.

— Vi, — repetiu ele.

Ficou calado.

Depois disse:

— Sou um idiota.

— Você é um filho amoroso, — disse Ira.

— Não é a mesma coisa.

Mas às vezes uma coisa não impede a outra.

Ele olhou de lado para ela.

Depois olhou para as botas.

— São bonitas, — disse ele.

— Eu sei, — respondeu ela.

Ele mesmo avisou à mãe que não daria mais dinheiro.

Fez isso por telefone, de forma curta e firme.

Valentina Sergueievna desligou na cara dele.

Depois ligou de novo e disse tudo aquilo que não tinha conseguido dizer na frente de Ira.

Anton ouviu sem interromper e disse:

— Mãe, eu te amo.

Mas não vou fazer o que você quer só porque você quer.

Ira ouviu aquela conversa da cozinha.

Ela lavava a louça e pensava que certas coisas a pessoa precisa entender sozinha, e não se pode apressar isso.

Só se pode esperar.

E ficar ao lado.

Eles pararam de se comunicar com Valentina Sergueievna.

Ela parou de ligar.

Isso foi difícil para Anton: Ira via isso pelo modo como ele às vezes olhava para o telefone.

Pelo modo como se calava quando a conversa chegava a mães em geral.

Ela não tocava no assunto.

Apenas permanecia ao lado dele.

Cerca de um mês depois, o telefone tocou.

Anton atendeu.

Ira ficou à porta e viu o rosto dele mudar.

Primeiro, tensão.

Depois algo parecido com cansaço.

— Mãe, espera.

Espera.

Eu estou te ouvindo.

Pausa.

— Não, eu não fiquei magoado.

Eu só te disse a verdade, e você não aceitou.

Outra pausa, longa.

— Mãe.

Eu disse não.

Nós já conversamos sobre isso.

Ele guardou o telefone.

Olhou para Ira.

— Ela começou de novo com acusações, — disse ele.

— Eu sei, — respondeu Ira.

— Você disse que seria assim.

— Eu sei.

Ele soltou o ar.

Sentou-se à mesa.

Esfregou o rosto com as mãos.

— Isso vai acabar algum dia?

Ira se aproximou e sentou-se ao lado dele.

Pegou sua mão.

— Não sei.

Mas você está lidando bem.

Mais um mês depois, Valentina Sergueievna ligou de novo.

Desta vez, a voz dela estava diferente.

Não tão insistente.

Mais cansada.

— Antosha.

Eu… bem, talvez eu estivesse errada.

Um pouco.

Você entende, é difícil para mim…

— Entendo, mãe.

— Então.

Já que entende… talvez, ainda assim…

— Vou comprar alimentos e remédios para você.

Diga do que precisa.

Uma pausa curta.

— Bem, em dinheiro seria mais conveniente…

— Alimentos e remédios, mãe.

De outro jeito, não.

Ela concordou.

Sem agradecer, resmungando, com comentários de que ele comprava o tipo errado de manteiga e que não deveria ter deixado de comprar isto e aquilo.

Anton ouvia com calma, assentia e anotava.

Ira via tudo isso e ficava calada.

Porque algumas vitórias parecem feias por fora, mas algo muito importante acontece por dentro.

No fim de novembro, Anton trouxe para casa uma caixa de doces.

Simplesmente assim, sem motivo.

— O que é isso?

— perguntou Ira.

— Queria dizer que você estava certa, — disse ele.

— É só que demorei muito para aceitar isso.

Ira abriu a caixa.

Dentro havia éclairs: seus favoritos.

— Demorou, — concordou ela.

— Mas acabei aceitando.

Ela ergueu os olhos para ele.

Ele a olhava sério, como se olha para uma pessoa a quem se quer dizer algo importante, mas as palavras ainda estão sendo escolhidas.

— Você ficou magoada?

— perguntou ele por fim.

— Com tudo aquilo que aconteceu?

Ira pensou.

Pensou honestamente antes de responder.

— Fiquei com raiva, — disse ela.

— Muita.

Especialmente naquele dia, no hall, quando você exigiu que eu devolvesse as botas.

— Me perdoa.

— Já perdoei.

Mas você precisa entender uma coisa, Anton.

Ela colocou o éclair de volta na caixa e olhou diretamente para o marido.

— Eu não vou explicar para você toda vez o que está acontecendo.

Expliquei uma vez, e isso basta.

Você precisa enxergar sozinho.

Não porque eu quero assim, mas porque esta é a sua vida.

— Entendi, — disse ele.

— Ótimo.

Ela pegou o éclair de novo.

— São bons?

— Comprei no lugar onde você sempre compra.

Essa era a resposta certa.

Ira apreciou isso.

Lá fora, nevava.

A primeira neve de verdade daquele ano, densa e autêntica, pousava no parapeito da janela em gorros brancos e tornava tudo ao redor um pouco mais silencioso e um pouco mais suave.

Ira olhou para a rua e pensou que o inverno é uma boa época para algo terminar e algo novo começar.

As botas estavam no hall de entrada.

Marrom-escuras, já não eram novas, mas ainda eram muito bonitas.

Compartilhe com os amigos