Trinta e sete minutos depois, a festa acabou.
— Coloquem os pratos mais à direita, quem é que arruma assim? — a voz alta de Lídia Vassílievna ecoava pelo salão vazio do restaurante Prestige.
— Dasha, finalmente você chegou.
— Por que ficou parada na porta?
— Eu trouxe o bolo, Lídia Vassílievna.
— Paguei cinco mil e quatrocentos rublos pela entrega refrigerada, — eu disse, colocando a caixa pesada na mesinha da ponta e ajeitando a pulseira do relógio.
O vidro estava levemente arranhado no meio, bem acima do número doze.
— Ah, não comece logo sacudindo recibos, estamos fazendo isso por Piotr Mikháilovitch, o homem faz sessenta anos, — minha sogra nem se virou para mim, continuando a ajeitar o guardanapo de renda sob as taças.
— Vá ver melhor como as mesas foram arrumadas.
Aproximei-me da mesa principal em formato de T, onde deveriam se sentar os parentes mais próximos.
A toalha branca rangia de tanto amido.
No centro havia caros porta-cartões de prata com os nomes dos convidados.
Passei os olhos pelos lugares.
Piotr Mikháilovitch ficaria na cabeceira.
À direita dele, Lídia Vassílievna.
À esquerda, meu marido Serguei.
E ao lado de Serguei…
Num cartão grosso, escrito com bela caligrafia, estava o nome: “Yúlia”.
— Lídia Vassílievna, — eu disse, apontando para o cartão.
— Por que o meu cartão está na entrada, numa mesinha redonda perto das caixas de som?
— Tem que ser assim, Dashenka, — minha sogra finalmente se virou, com o rosto brilhando de falsa cordialidade.
— Você é uma mulher agitada, contadora, acostumada a controlar tudo.
— Tem que verificar o prato quente, trazer o bolo, chamar o garçom.
— Vai ser mais conveniente para você correr dali da entrada.
— Não dá para ficar incomodando o Seryozha o tempo todo.
— Então ao lado do meu marido vai se sentar Yúlia? — tirei o cartão das garras prateadas do suporte e o virei para minha sogra.
— Que Yúlia é essa, Lídia Vassílievna?
— Uma colega de trabalho?
— Ela é uma convidada importante, — minha sogra arrancou o cartão da minha mão e o colocou de volta no lugar com firmeza, bem ao lado dos talheres de Serguei.
— Mas por que você fica fazendo perguntas?
— Vá verificar os guardanapos nas mesas do fundo.
— Os convidados vão começar a chegar logo, e você está sempre com essa cara de quem recebeu trezentos rublos a menos.
A porta do salão de banquetes rangeu.
Serguei entrou.
Ele usava o blazer cinza novo que havíamos comprado na Ozon no fim de semana anterior por oito mil rublos.
Mas não veio sozinho.
Atrás dele estava uma jovem mulher com um casaco bege de caxemira.
Tornozelos finos, cílios alongados, longos cabelos loiros.
— Oi, Dash, — Serguei desviou o olhar imediatamente, fingindo estar muito interessado no lustre.
— Você já está aqui?
— Ajudou a mamãe?
— Estou aqui, Seryozha.
— Ajudei, — eu disse, aproximando-me, sentindo uma corda invisível se esticar dentro de mim.
— Explique quem é essa pessoa que você trouxe para um aniversário de família, onde só haveria parentes e amigos próximos.
— É a Yúlia, — Serguei tossiu, ajeitando a gola.
— Ela… bem, enfim, trabalha comigo.
— Mamãe disse que era obrigatório convidá-la.
— Ela me ajudou muito com o último relatório trimestral.
— Com o relatório? — olhei diretamente nos olhos da moça.
— Ajudou tanto que Lídia Vassílievna reescreveu meu lugar na mesa principal para ela?
— Dasha, não comece com esse tom, — minha sogra surgiu imediatamente entre nós, protegendo Yúlia com o ombro largo.
— Yulechka é filha de uma grande amiga minha de Samara.
— Ela está completamente sozinha na nossa cidade, uma moça decente de uma família decente.
— Nós só demonstramos hospitalidade.
— Ela está aqui por direito, eu mesma a convidei pessoalmente.
— Boa noite, — disse Yúlia baixinho, com uma voz meio melodiosa, apertando a pequena bolsa contra si.
— Seryozha disse que a senhora é muito rígida, Dária.
— Eu não queria causar incômodo.
— Se for preciso, posso ir embora.
— Ir embora para onde? — exclamou Lídia Vassílievna, agitando as mãos.
— Veja só o que inventou!
— Seryozha, acompanhe Yulechka ao guarda-volumes, ajude-a a tirar o casaco.
— E você, Dasha, pare de estragar a festa das pessoas logo na entrada.
— Vá para a sua mesa.
Olhei para meu relógio de pulso com o vidro levemente arranhado.
Os ponteiros marcavam exatamente dezoito horas.
Faltavam quinze minutos para o início do banquete.
**As contas pelos sorrisos dos outros**
— Dasha, vá ao depósito, precisamos contar as caixas de bebida, — chamou minha sogra dez minutos depois, quando as vozes dos primeiros convidados já podiam ser ouvidas no saguão.
— Os garçons certamente vão levar algumas garrafas se você não colocar seus olhos de contadora lá.
Entrei em silêncio no cômodo estreito atrás do palco, onde estavam as caixas de vodca e vinho.
Serguei já estava lá, retirando garrafas e colocando-as sobre a mesa.
— Vocês sabiam que ela viria? — fechei a porta atrás de mim, cortando o barulho do salão.
— Seryozha, estou perguntando a você.
— Você e sua mãe planejaram isso com antecedência?
— Dash, que diferença faz se sabíamos ou não? — Serguei fez as garrafas tilintarem irritado.
— Mamãe achou necessário convidar uma pessoa.
— Yúlia está passando por um período muito difícil, está com problemas de moradia, saiu de casa depois de deixar o marido.
— Ela precisa de apoio.
— Apoio do meu marido no aniversário do seu pai? — dei um passo à frente, obrigando-o a se virar.
— Duas semanas atrás você me jurou que as mensagens dela no seu telefone eram apenas correspondência de trabalho.
— Você disse que eu estava inventando tudo.
— Que eu era louca.
— Foi um erro, nós trocamos algumas mensagens, e agora, quer me fuzilar por isso? — Lídia Vassílievna entrou bruscamente no depósito e apoiou as costas na porta.
— A culpa é sua, Dasha.
— Olhe para você.
— Há três anos você anda como um robô.
— Trabalho, casa, casa, trabalho.
— Quando foi a última vez que sorriu para Serguei?
— Você só o atormenta por cada centavo.
— Já o sufocou com suas fiscalizações domésticas.
— Eu conto dinheiro porque alguém nesta família precisa contar! — minha voz falhou, mas me obriguei a falar mais baixo.
— Quem pagou a decoração deste salão?
— Quem deu quarenta e cinco mil rublos ao decorador com seus bicos, para que Piotr Mikháilovitch não passasse vergonha diante dos colegas?
— Foi o Serguei?
— Ah, começou! — minha sogra fez uma careta de nojo e agitou as mãos.
— Já apresentou a conta!
— Família não é a sua contabilidade, Dashenka.
— Um homem precisa de inspiração, compreensão, suavidade.
— De você só recebe frieza e cobranças.
— Seryozhenka caiu em depressão por causa das suas reclamações, não queria ir trabalhar.
— E Yulechka o tirou disso, devolveu-lhe as asas.
— Asas por quarenta e cinco mil rublos pagos depois? — virei-me para Serguei, que cutucava com o dedo o rótulo de uma garrafa de vinho.
— Foi por isso que ontem você retirou trinta mil rublos da nossa conta poupança no Sberbank?
— Para as asas?
— Estávamos guardando esse dinheiro para o meu tratamento dentário, Serguei!
— Eu tinha o direito de pegar esse dinheiro, — resmungou meu marido em voz baixa, mas com irritação.
— Esse dinheiro também é meu.
— Eu trabalho tanto quanto você.
— Tenho ou não tenho direito a despesas pessoais?
— Despesas pessoais em Samara? — avancei até quase encostar nele.
— Ou no apartamento alugado dela ali na esquina?
— Está vendo, Seryozha, ela está falando de dinheiro de novo, — suspirou Lídia Vassílievna, entreabrindo a porta do depósito.
No corredor, Yúlia já estava ali, mudando o peso de um pé para o outro em seus sapatos novos.
— Nenhuma compreensão dos sentimentos elevados.
— Só vida doméstica vulgar.
— Desculpem, atrapalhei? — Yúlia espiou para dentro do cômodo, fazendo olhos assustados.
— Seryozh, seu tio Nikolai Petrovitch chegou de Tver.
— Está perguntando onde está o aniversariante.
— E Lídia Vassílievna, os convidados estão chamando a senhora.
— Vamos, Yulenka, vamos, querida, — minha sogra segurou a moça carinhosamente pelo cotovelo.
— Seryozha, pegue o vinho e saia.
— E você, Dasha, sente-se aqui e se acalme.
— Deus nos livre de você sair diante das pessoas com essa cara.
— Vai estragar toda a atmosfera.
Elas saíram.
Serguei nem olhou para trás.
Fiquei em pé entre caixas de vodca barata, que eu também havia pago com meu cartão, porque a sogra tinha “uma pensão pequena, só vinte e dois mil”, e Serguei “está com dificuldades na firma agora”.
Eu sabia que seria assim.
Sabia há muito tempo.
Já duas semanas antes, quando vi no telefone dele aquela mensagem curta: “Obrigada pela noite, você é meu salvador”.
Mas fiquei calada.
Escolhi não ver, porque tinha vergonha diante da minha irmã, dos colegas, de mim mesma.
Como assim todos têm famílias perfeitas, e eu, aos quarenta e dois anos, ficaria sozinha com o financiamento do carro do marido nas costas?
E então fui escolher as flores para o aniversário do meu sogro.
Paguei sozinha nove mil e quinhentos rublos pela decoração floral.
Para que tudo ficasse bonito.
Para que ninguém pensasse nada.
A porta se entreabriu novamente.
Entrou Piotr Mikháilovitch, o aniversariante.
Ele usava um terno velho, mas bem passado.
Seu rosto estava cansado, pálido.
No ano anterior, ele havia sofrido um AVC grave, e nós passamos três meses em hospitais.
Mais precisamente, eu passei com ele, porque Lídia Vassílievna naquela época foi para um sanatório, pois “não suportava aquele cheiro de hospital, isso lhe dava enxaqueca imediatamente”.
— Dashutka, o que está fazendo aqui? — o velho se sentou na borda de uma caixa.
— Lida está correndo por lá, acomodando os convidados.
— E eu vi você na ponta da mesa, perto da porta.
— Que novidade é essa?
— Foi assim que Lídia Vassílievna determinou, Piotr Mikháilovitch, — tentei manter minha voz o mais estável possível.
— Disse que seria mais conveniente para mim acompanhar os pratos quentes.
— Controle contábil e essas coisas.
— Que bobagem ela está dizendo? — meu sogro franziu a testa, o lábio tremendo levemente, consequência da doença.
— Seu lugar é ao lado do Seryoga.
— Vocês são um casal, afinal.
— Dez anos juntos.
— Agora vou lá trocar esses cartões.
— Não precisa, Piotr Mikháilovitch, — toquei suavemente seu ombro.
— Não faça escândalo diante dos convidados.
— O senhor não pode se agitar, sua pressão vai subir de novo.
— Vá para o salão, todos estão esperando.
— E aquela… loira de bege, quem é afinal? — o velho estreitou os olhos.
— Lida me enrolou dizendo que é filha de uma amiga.
— E Seryoga pula ao redor dela como um cachorrinho.
— Dasha, o que está acontecendo?
— É Yúlia, Piotr Mikháilovitch.
— Uma colega.
— Vamos para o salão, senão Lídia Vassílievna vai ficar irritada.
**Zeros a mais no extrato**
A música trovejava no salão.
Os convidados, umas trinta pessoas, já estavam sentados em seus lugares.
Ouviam-se o tilintar dos garfos, risadas e exclamações altas dos parentes.
Eu estava sentada na ponta, perto de uma enorme caixa de som preta, que vibrava de forma desagradável bem nas minhas costas.
Ao meu lado estava sentado um primo distante de Serguei com a esposa, vindos do interior e ocupados exclusivamente em devorar frios de carne.
E do outro lado do salão, na mesa principal, estava meu marido.
Ao lado dele, Yúlia reinava.
Lídia Vassílievna colocava sem parar os melhores pedaços no prato dela, ria alto e acariciava a mão da moça.
Serguei sorria com aquele sorriso aberto e meio bobo com que não sorria para mim havia uns três anos.
Peguei o telefone.
Minhas mãos não tremiam.
Havia uma clareza estranha e gelada na minha cabeça.
Entrei no aplicativo Sberbank Online.
No dia anterior, eu tinha me enrolado com as tarefas, vi a notificação do saque de trinta mil, mas não conferi o extrato completo do nosso cartão de crédito conjunto, cujo limite era de trezentos mil rublos e sobre o qual ainda pagávamos juros.
Abri o histórico de operações.
Os números não batiam com meus cálculos.
Refiz as contas mais uma vez.
Tudo batia, mas de modo absolutamente desfavorável para mim.
Além dos trinta mil rublos sacados em dinheiro no dia anterior, havia outra linha destacada.
Sexta-feira, quatorze horas e trinta minutos.
Joalheria Ametist.
Quarenta e cinco mil rublos.
E mais uma linha, sábado de manhã: hotel de campo Romashka, suíte para dois, cinquenta e dois mil rublos.
Levantei os olhos da tela.
No pescoço de Yúlia, logo acima do decote do vestido simples e modesto, brilhava uma corrente fina de ouro com um pequeno pingente em forma de gota.
O pingente era novo, sem arranhões.
Refletia muito bem a luz dos lustres do restaurante.
Serguei se aproximou da minha mesa, cambaleando um pouco.
Nas mãos segurava uma jarra vazia de suco.
— Dash, por que você está aí enfiada no telefone? — perguntou baixo, inclinando-se para mim.
— Está sentada com essa cara como se estivesse de luto.
— Mamãe está descontente.
— Tia Liuba foi perguntar a ela por que Dasha está sentada separada, se aconteceu alguma coisa.
— Comporte-se normalmente, por favor.
— Você pode ao menos fingir estar feliz pelo papai?
— Seryozha, — virei a tela do telefone para ele.
— Olhe, por favor.
— Que despesas são essas na joalheria?
— Quarenta e cinco mil rublos.
— E a suíte no Romashka por cinquenta e dois mil.
— Isso também foi despesa do relatório trimestral?
Serguei olhou rapidamente para a tela, e seu rosto mudou na mesma hora.
Ele olhou furtivamente para a mesa principal, onde Lídia Vassílievna conversava alegremente sobre alguma coisa com Yúlia.
— Você está me vigiando de novo? — sibilou ele, agarrando meu pulso.
— Até quando vai controlar cada passo meu?
— Sim, eu comprei um presente para Yúlia.
— E sim, nós fomos para fora da cidade.
— Porque com ela eu me sinto homem, não réu num interrogatório!
— Ela me respeita, entende?
— Ela não conta cada centavo que eu gasto!
— Ela não conta centavos, Serguei, porque são os MEUS centavos, — retirei a mão dele do meu pulso e olhei para o relógio.
Eram dezoito horas e trinta minutos.
Exatamente meia hora havia se passado desde que entramos naquele salão.
— É dinheiro da minha conta poupança, que você retirou sem pedir.
— É o limite do nosso cartão comum, que eu terei de fechar, porque seu salário oficial vai para o financiamento do carro.
— Ah, começou, — Serguei girou a jarra nas mãos com raiva.
— Seu dinheiro, meu dinheiro…
— Somos casados, Dasha!
— Por lei, tudo é comum entre nós.
— Tenho ou não tenho o direito de agradar uma mulher?
— Há três anos você me consome com esse orçamento.
— Eu não conseguia respirar naquele apartamento!
— O apartamento, aliás, pertence à minha mãe, — lembrei com voz calma.
— Você nem está registrado lá.
— Seu registro é no apartamento de Lídia Vassílievna, no prédio antigo soviético.
— Vamos, Serguei, por que ficou aí parado? — minha sogra deslizou até nós, atraída pelos nossos sussurros raivosos.
Seus olhos brilharam de maldade.
— Dasha, você está de novo fazendo cena para o menino?
— Bem no aniversário?
— Que egoísta você é.
— Em vez de se alegrar pela família, pelo pai dele.
— Yulechka está sentada ali, uma santa, não disse uma palavra ruim sobre ninguém.
— De você só vem veneno.
— Lídia Vassílievna, — olhei diretamente para o rosto dela.
— Seu filho gastou quase cem mil rublos do nosso cartão comum com a amante dele neste fim de semana.
— A senhora sabia disso?
— Dasha, você mesma vê, ninguém pode ser amado à força, — minha sogra se inclinou de repente e disse isso com uma suavidade surpreendente, quase com pena, mas havia tanta superioridade triunfante naquela pena que eu estremeci.
— Há três anos vocês dois só se atormentam.
— São estranhos na mesma casa.
— Ele não ama mais você, não ama!
— E agora, vamos destruir a vida do rapaz por causa das suas ambições?
— Ele tem trinta e oito anos, quer filhos, uma família normal, viva, não o seu balanço seco.
— Yulechka é a felicidade dele.
— E eu, como mãe, tenho obrigação de apoiá-lo.
— Não consigo ver meu filho murchar ao seu lado.
— Então aceite e não estrague a noite.
— Sente-se quieta, depois vocês se divorciam tranquilamente.
Ela se endireitou, ajeitou o penteado e bateu alto o garfo contra a taça.
— Atenção, queridos convidados!
— Um minutinho de atenção! — sua voz se espalhou pelo salão, abafando a música.
— Agora teremos o brinde principal!
**Trinta e sete minutos de contagem regressiva**
A música foi desligada.
No salão pairou aquele silêncio pesado e expectante que surge antes de uma tempestade.
Todos os convidados se viraram para a mesa principal.
Serguei já havia voltado ao lugar e estava sentado ao lado de Yúlia, com as costas endireitadas de modo vitorioso.
Yúlia baixou os olhos modestamente, tocando de leve com os dedos a gota de ouro no pescoço.
Olhei para meu relógio.
Eram dezoito horas e trinta e sete minutos.
Exatamente trinta e sete minutos antes, eu havia entrado naquele salão.
A festa para a qual eu me preparara por dois meses durou exatamente isso para mim.
— Meus queridos, próximos, familiares! — Lídia Vassílievna estava de pé com a taça erguida, o rosto brilhando de orgulho exibido.
— Hoje é um grande dia, o sexagésimo aniversário do nosso querido Piotr Mikháilovitch.
— Percorremos um longo caminho.
— Mas a vida não fica parada.
— E hoje quero erguer esta taça não apenas à saúde do aniversariante, mas também a uma nova página na vida da nossa família!
Os convidados se mexeram, alguém assentiu aprovando.
— Todos vocês conhecem nosso Seryozhenka, — continuou minha sogra, varrendo o salão com um olhar majestoso.
— Ele é um rapaz sensível, honesto, trabalhador.
— E nos últimos anos foi muito difícil para ele.
— Vocês entendem do que estou falando.
— Quando em casa não há calor, quando se é recebido apenas com cobranças e contas… um homem se apaga.
— Mas Deus é misericordioso!
— Na vida de Serguei apareceu um verdadeiro anjo da guarda.
— Uma luzinha que devolveu a ele o sorriso e a fé em si mesmo.
— Ela está sentada aqui ao lado dele, nossa querida Yulechka!
— Vamos erguer as taças para que, a partir de agora, em nossa família reinem apenas amor, juventude e felicidade verdadeira e sincera!
— Ao novo casal!
— A Yulechka e Seryozha!
No salão aconteceu algo que minha sogra certamente não esperava.
Ninguém ergueu a taça.
Os parentes começaram a trocar olhares assustados.
Minha tia distante Liuba abaixou lentamente o copinho sobre a mesa.
Tio Nikolai Petrovitch de Tver franziu tanto a testa que suas sobrancelhas grossas se encontraram sobre o nariz.
Todos me conheciam.
Todos se lembravam de como, no ano anterior, eu levava Piotr Mikháilovitch à reabilitação no meu carro todos os fins de semana, enquanto Serguei “procurava a si mesmo” pescando.
Levantei-me lentamente do meu lugar perto da entrada.
Minha cadeira rangeu baixinho no linóleo.
— Lídia Vassílievna, — minha voz soou surpreendentemente baixa, sem gritos, mas no salão congelado todos a ouviram.
— A senhora tem razão.
— Ninguém pode ser amado à força.
— Durante três anos, a senhora contou a todos os parentes que eu era uma péssima esposa, porque exigia que seu filho trabalhasse, em vez de viver às minhas custas.
— E hoje, oficialmente, diante de todos, a senhora reescreveu meu lugar à mesa da família para a amante do meu marido.
— Dasha, pare com essa farsa! — minha sogra largou instantaneamente a máscara de benevolência, e seu rosto ficou manchado de vermelho.
— Você enlouqueceu?
— Decidiu fazer uma histeria no aniversário do pai dele?
— Uma moça sentou ao lado dele, e daí?
— Por que transformar isso em drama?
— Você sempre exagera tudo, faz tempestade em copo d’água!
— Volte para o seu lugar!
— Eu não vou para o meu lugar, Lídia Vassílievna.
— Eu estou indo embora, — eu disse, dando alguns passos em direção à mesa principal.
— Mas antes quero dizer uma coisa.
— Serguei, coloque agora mesmo as chaves do apartamento da minha mãe sobre a mesa.
— Você não voltará para lá.
— O financiamento do seu carro, no qual eu sou fiadora, amanhã entrará em fase judicial, porque estou retirando meu consentimento para a reestruturação.
— Dash, o que você está fazendo, na frente das pessoas… — Serguei saltou de pé, o rosto pálido como um prato do restaurante.
— Por que está fazendo isso?
— Nós podíamos conversar com calma em casa!
— Por que me envergonhar diante do tio Kolya?
— Envergonhar? — dei um sorriso amargo, olhando para seus lábios trêmulos.
— Você foi para uma suíte de cinquenta e dois mil rublos com o meu cartão, Serguei.
— Isso não é vergonha?
— Yulechka, a corrente é bonita.
— Ametist, quarenta e cinco mil rublos.
— Use com saúde, só que agora quem vai pagar por ela são você e Lídia Vassílievna.
— Boa sorte.
— Dasha, cale essa boca! — gritou minha sogra, perdendo todo o controle.
— Fora daqui!
— Está ouvindo?
— Vá embora!
— Vamos viver muito bem sem você!
— Yulechka vem de uma família decente, ela não vai abandonar Seryozhenka, e você vai se arrepender amargamente!
— Petya, diga alguma coisa a ela!
— Por que está calado?
— Sua ex-mulher enlouqueceu!
E então Piotr Mikháilovitch se levantou lentamente do seu lugar.
O aniversariante.
Sessenta anos.
Ele bateu o punho pesado sobre a mesa com tanta força que as taças de champanhe tilintaram e caíram no chão.
O vinho tinto da taça virada de Serguei começou a escorrer lentamente pela toalha branquíssima, encharcando o cartão com o nome “Yúlia”.
— Silêncio, todos, — disse o velho com voz surda, mas assustadora.
O lábio dele tremia, mas o olhar era direto e pesado.
— Petya, você não pode se agitar… — guinchou minha sogra, recuando.
— Cala a boca, Lida, — rugiu meu sogro.
— Cala a boca e nunca mais abra.
— E você, Seryoga, sente-se no seu lugar, moleque.
O salão literalmente congelou.
Dava para ouvir, na cozinha do restaurante, o cozinheiro deixando cair alguma louça.
— Piotr Mikháilovitch… — começou Yúlia, apertando as mãos contra o peito.
— E você, fique calada, — o velho nem olhou para ela.
Ele se virou para o filho.
— Dez anos a Dashka sofreu com você, seu idiota.
— Quando eu estava deitado depois do AVC, onde você estava, filhinho?
— Em Samara, cuidando dos seus rolos?
— E Dashka esvaziava minha comadre e fazia massagem para minhas mãos voltarem a funcionar.
— Foi ela quem alugou este salão, foi ela quem comprou este terno para eu parecer uma pessoa digna diante dos outros!
— E vocês… vocês duas são umas canalhas.
— Lida, quem você trouxe para dentro da casa?
— Quem você decidiu colocar no lugar da mãe dos meus netos?
— Petya, mas nós queríamos o melhor… Seryozhenka sofria… — minha sogra começou a tremer, e sua segurança exibida derreteu em um segundo.
— Ele sofria? — Piotr Mikháilovitch atirou o guardanapo engomado diretamente no prato quente.
— Acabou.
— A festa terminou.
— Nikolai, pegue os seus.
— Liuba, vamos embora.
— Pai, o que está fazendo?
— É o seu aniversário! — gritou Serguei, tentando pegar o pai pela manga.
— Eu não tenho aniversário, — o velho caminhou pesadamente ao redor da mesa, indo em minha direção.
— E também não tenho mais filho.
— Dashutka, vamos embora daqui.
— Que eles mesmos paguem este banquete, já que têm dinheiro para suítes.
— Nikolai, ajude com as caixas, vamos levar o bolo.
Tio Nikolai Petrovitch de Tver se levantou em silêncio, afastou a cadeira e foi até a mesa, pegando a grande caixa com o bolo pelo qual eu havia pago cinco mil e quatrocentos rublos.
Depois dele, os outros parentes começaram a se levantar.
Em silêncio, sem olhar para Lídia Vassílievna e Serguei, pegavam suas bolsas e iam para a saída.
A festa acabou exatamente trinta e sete minutos depois de começar.
**A estrada vazia para casa**
Lá fora havia uma noite fresca de junho.
Depois do ar abafado do salão do restaurante, o ar parecia surpreendentemente limpo.
Piotr Mikháilovitch estava sentado num banco perto da entrada, respirando com dificuldade.
Tio Kolya lhe estendeu uma garrafa de água mineral.
— Dashutka, como você está? — perguntou meu sogro baixinho, erguendo os olhos para mim.
— Perdoe-nos.
— Perdoe-nos por termos criado um degenerado desses para você.
— Eu não sabia… Lida me cantava que entre vocês estava tudo bem, só que você ficava até tarde no trabalho.
— Está tudo bem, Piotr Mikháilovitch, — sentei-me ao lado dele e olhei pela última vez para meu relógio de pulso com o vidro levemente arranhado.
Eram dezoito horas e quarenta e sete minutos.
— O senhor não tem culpa.
— Obrigada por me defender.
— O senhor tem para onde ir?
— Vou para Tver com o Kolya hoje mesmo, — o velho fez um gesto na direção do velho Lada do tio Kolya.
— Naquele apartamento antigo da Lida eu não ponho mais os pés.
— Que eles vivam lá com a Yulechka e o Seryozhenka deles, usando a minha pensão.
— Kolya, liga essa geringonça.
Eles foram embora.
O carro desapareceu lentamente atrás da curva, deixando para trás um leve cheiro de gasolina.
Fiquei sozinha no ponto de ônibus.
Peguei o telefone.
A tela brilhava no crepúsculo.
No chat em grupo “Lebedev. Família” havia trinta mensagens não lidas e vários áudios furiosos de Lídia Vassílievna.
Não os escutei.
Apenas apertei o botão “Sair do grupo” e bloqueei três números: o da sogra, o de Serguei e o de Yúlia.
Chegou o ônibus suburbano número cento e quatro.
Estava quase vazio, com uma luz amarela fraca no interior.
Entrei, paguei a passagem com o cartão Mir, quarenta e cinco rublos, e sentei junto à janela.
Dentro de mim não havia raiva, nem lágrimas, nem vontade de vingança.
Havia apenas um silêncio enorme e incomum, e um leve vazio.
Olhei para minhas mãos pousadas sobre os joelhos.
Os dedos não apertavam mais a pulseira do relógio.
Eu já não girava a aliança no dedo.
O ônibus partiu, ganhando velocidade suavemente pela estrada escura.
Eu não sabia o que aconteceria amanhã.
Não sabia como dividiria o carro, como explicaria tudo à minha mãe, com que dinheiro cobriria o limite do cartão de crédito.








