— Já que você não quer registrar meu irmão como residente, vou pedir a divisão dos bens! — gritou Vadim, batendo teatralmente com a palma da mão sobre a mesa da cozinha.
Com o impacto, um antigo saleiro de porcelana tilintou delicadamente — uma relíquia de família que Irina herdara da avó.

A própria Irina nem sequer se assustou.
Continuou cortando metodicamente as beterrabas cozidas em cubos para a salada vinagrete, com a precisão de uma máquina.
Na cozinha havia um cheiro agradável de óleo de girassol e legumes assados, Mark Bernes cantarolava baixinho no rádio, e toda aquela aconchegante atmosfera de sábado não combinava em nada com as nuvens de tempestade que vinham se acumulando sobre a vida familiar deles havia três meses.
— Pode pedir — respondeu Irina calmamente, sem tirar os olhos da tábua de cortar.
— As custas judiciais aumentaram, leve isso em conta ao planejar o orçamento.
E também terá de pagar um advogado.
Você tem dinheiro sobrando, Vadim?
Vadim revirou os olhos e levou teatralmente a mão ao coração, exatamente como o personagem de Evgeny Evstigneev na comédia «Por Motivos Familiares».
— Você… você é simplesmente um robô frio e calculista, Ira! — declarou ele com dramatismo genuíno, andando de um lado para o outro pela cozinha pequena, mas reformada com tanto carinho.
— Estamos casados há doze anos!
Meu irmão Igor se encontra em uma situação extremamente difícil.
Ele precisa desse maldito registro permanente para conseguir emprego em uma empresa respeitável e obter um empréstimo decente.
E você resolveu se fazer de difícil!
É apenas um carimbo no passaporte, um pedaço de papel!
Mas, para você, metros quadrados valem mais do que relações humanas!
Irina finalmente pousou a faca, enxugou as mãos em uma toalha bordada com galos e olhou atentamente para o marido.
Vadim tinha quarenta e quatro anos, mas parecia um estudante velho e amarrotado: cabelos cacheados com os primeiros fios grisalhos, sua camiseta de moletom favorita toda deformada e a expressão eternamente ofendida de alguém que acreditava ter sido subestimado por este mundo cruel.
— Vadim, seu “pobre” irmão Igor, de trinta anos, trocou de emprego quatro vezes nos últimos três anos, e em todos os lugares pediram que ele saísse por causa de, para dizer de forma delicada, falta de honestidade financeira — disse Irina em voz baixa, porém firme.
— Se eu o registrar neste apartamento, só poderei cancelar o registro sem o consentimento dele por meio de um processo judicial.
E, conhecendo Igor, ele trará imediatamente as coisas dele para cá, depois, quem sabe, se casará e registrará o próprio filho aqui.
E transformaremos nossa vida em um inferno de apartamento comunitário.
Sou contra.
— Ah, é assim? — Vadim estreitou os olhos, nos quais brilhou uma determinação ameaçadora que antes não lhe era característica.
— Então vamos dividir tudo.
Nosso apartamento foi comprado durante o casamento.
Por lei, exatamente metade pertence a mim.
Vou receber o valor da minha parte em dinheiro, e depois você pode fazer aqui o que quiser.
Vou me registrar na casa da minha mãe e ajudarei Igor com o dinheiro da venda.
É você quem está destruindo nossa família com sua ganância mesquinha!
Ele se virou e saiu orgulhosamente da cozinha, arrastando ruidosamente os chinelos.
Irina permaneceu em pé junto à mesa.
Suas mãos tremiam levemente, mas por dentro sentia um estranho entorpecimento gelado.
Ela tinha quarenta e um anos.
Trabalhava como vice-chefe de contabilidade em uma grande rede de comércio varejista.
Todos os seus dias eram compostos de números, conferências, relatórios e prazos rigorosos.
Ela estava acostumada a resolver problemas, não apenas os seus, mas também os de toda a numerosa família de Vadim.
Ao longo dos doze anos de vida em comum, quase sem perceber, Irina havia se transformado em um animal de carga que carregava nas costas toda a rotina doméstica, as finanças e o planejamento estratégico do casal.
Quando se casaram, não tinham nada além do velho Lada “nove” de Vadim e ambições gigantescas.
Nos primeiros anos, viveram em apartamentos alugados e contavam cada centavo.
Irina fazia trabalhos extras e cuidava à noite da contabilidade de pequenos empresários, enquanto Vadim procurava a si mesmo no “negócio criativo”.
Ora abria uma agência de organização de festas, ora um estúdio de web design, ora uma loja de histórias em quadrinhos.
Todas essas iniciativas tinham algo em comum: exigiam um capital inicial, fornecido por Irina, e fechavam seis meses depois com prejuízos que também eram cobertos por Irina.
Eles compraram aquele apartamento de dois quartos na Avenida Mira seis anos antes.
Ou melhor, Irina o comprou.
Sua querida avó falecera e deixara para Irina como herança um pequeno, porém sólido, estúdio na periferia.
Irina o vendeu, e aquele dinheiro — quase oitenta por cento do valor do novo apartamento — foi usado como entrada.
O restante foi financiado por meio de uma hipoteca.
Como Vadim não tinha oficialmente emprego algum naquele momento, pois estava em mais uma “crise criativa”, o banco aprovou o crédito apenas com base no salário de Irina.
Durante todos aqueles seis anos, pontualmente no dia quinze de cada mês, Irina transferiu quarenta e cinco mil rublos ao banco.
Nesse meio-tempo, Vadim havia começado a trabalhar como “consultor imobiliário independente” na agência de um amigo.
Sua renda era tão ilusória quanto a neblina de março: em um mês podia trazer trinta mil rublos e, nos três seguintes, não trazer nada, justificando-se com uma “estagnação no mercado” e com a “difícil situação econômica”.
Contribuía com migalhas para as despesas da casa, mas sinceramente acreditava que sustentava completamente a família, pois era ele quem comprava uma vez por semana leite de fazenda e pão caro sem glúten.
Na segunda-feira à noite, a sogra de Irina, Elena Valerievna, apareceu na cozinha.
Ela chegou sem avisar, mas trazendo a artilharia pesada: um pote de três litros de seus famosos tomates fermentados e uma torta de repolho.
Elena Valerievna, ex-professora de língua e literatura russa, sabia falar de tal maneira que qualquer observação sua soava como uma citação de Belinsky e qualquer acusação parecia cuidado com o próximo.
— Irochka, querida — começou Elena Valerievna, cortando cuidadosamente a torta com uma faca velha que ela mesma acabara de criticar por estar cega.
— Vim falar com você como mãe.
Vadim está irreconhecível, emagreceu e está abatido.
É mesmo possível transformar a casa em uma tragédia de Shakespeare por causa de simples formalidades domésticas?
Cansada, Irina serviu chá para a sogra.
O dia no trabalho havia sido uma loucura: a Receita Federal enviara uma solicitação relacionada a uma fiscalização antiga, e sua cabeça estava explodindo.
— Elena Valerievna, isso não é uma formalidade — suspirou Irina, sentando-se diante dela.
— Igor é um homem adulto.
Ele tem trinta anos.
Por que não pode resolver sozinho o problema do registro?
Poderia, por exemplo, alugar uma moradia com contrato oficial e obter um registro temporário.
— Ah, Irochka, você conhece Igor, ele é uma pessoa sensível e vulnerável — a sogra abriu os braços, fazendo seus braceletes de prata tilintarem tristemente.
— É preciso orientá-lo e apoiá-lo.
Vadim, como irmão mais velho, sente-se responsável.
Lembre-se do nosso querido filme antigo «A Grande Mudança».
Como Lednev se preocupava com o seu Ganzha?
E eles nem sequer eram irmãos!
Aqui se trata do mesmo sangue.
Vadim ficou tão orgulhoso quando vocês compraram este apartamento.
Ele sempre dizia: “Mãe, agora temos nosso próprio lar”.
E de repente você declara ao seu marido que o irmão dele não é ninguém aqui.
Isso é um golpe no orgulho masculino, Ira!
Um homem precisa sentir que é o dono, senão definha.
— Dono de quê, Elena Valerievna? — perguntou Irina em voz baixa, enquanto notas perigosas apareciam em seu tom.
— Do apartamento pelo qual ele não pagou uma única prestação da hipoteca em seis anos?
Do apartamento em que tudo, do piso laminado tcheco aos móveis da cozinha, foi comprado com meus bônus?
Elena Valerievna apertou os lábios, e seu rosto intelectual imediatamente se transformou em uma máscara de dignidade ofendida.
— Sabe, Irochka — disse ela em tom gelado, afastando a xícara de chá.
— Não se deve ser tão… materialista.
Dinheiro é algo que se ganha.
Hoje existe, amanhã desaparece.
Mas a família é sagrada.
Vadim tem pleno direito legal sobre este imóvel.
Ele me mostrou os documentos: vocês o adquiriram durante o casamento.
E, se decidir levar tudo ao divórcio por causa do seu egoísmo, a lei estará do lado dele.
Pense nisso.
Seu orgulho vale um casamento destruído?
Quando a sogra foi embora, Irina permaneceu sentada no escuro por muito tempo.
Sentia-se terrivelmente magoada.
Durante todos aqueles anos, ficara calada quando Vadim comprava varas de pesca caras que usava uma vez por ano, e também quando “emprestava” a Igor grandes quantias tiradas do envelope comum para reformar um negócio inexistente.
Ela suportava porque acreditava que casamento significava compromisso.
Queria que houvesse paz em casa e que não existissem aquelas terríveis e desgastantes brigas na cozinha que presenciara entre os pais durante a infância.
Por causa daquela paz ilusória, engolia as ofensas, pagava as contas e sorria cansada quando o marido falava sobre sua “grande missão”.
O ponto de virada chegou na quarta-feira.
Aquele dia virou toda a sua vida de cabeça para baixo, como uma forte rajada de vento que vira a página de um livro aberto.
Irina voltou para casa mais cedo do que o habitual, por volta das quatro da tarde.
No trabalho, os servidores haviam sido desligados por causa de uma falha na subestação elétrica, e os funcionários foram mandados para casa.
No corredor de entrada reinava um silêncio incomum.
Vadim, que nos dias úteis costumava “trabalhar com documentos” em seu notebook, aparentemente estava em casa.
Da sala vinha sua voz abafada.
Irina estava prestes a gritar que havia chegado, mas as palavras que ouviu fizeram com que ela paralisasse no meio de uma respiração, com uma bota meio tirada na mão.
Vadim falava ao telefone com o viva-voz ligado.
Seu tablet estava sobre o sofá, de onde vinha a voz rouca e satisfeita de seu irmão Igor.
— …Qual é, Igorek, não fique com medo — dizia Vadim com segurança.
— Mamãe foi falar com ela ontem e fez a preparação de artilharia.
Ira vai ficar nervosa por um tempo e depois assinará.
Para onde ela iria?
Ela tem pavor de escândalos e de divórcio.
Para ela, o status de mulher casada é uma obsessão.
Eu a ameacei com a divisão dos bens, e ela ficou pálida na hora.
Ela acha que o apartamento é só dela porque o dinheiro da herança foi usado.
Mas, juridicamente, tudo foi adquirido durante o casamento!
Meu advogado, Sanyok, disse que podemos facilmente arrancar metade.
O tribunal não vai investigar de quem era o dinheiro, já que passou por uma conta conjunta.
— Escuta, Vados, e se ela realmente pedir o divórcio? — perguntou Igor, inseguro.
— O mais importante é conseguirmos me registrar e, com esse registro, obter um grande empréstimo no “Alfa-Credit”, dando a parte do imóvel como garantia.
Se ela se rebelar antes da hora, tudo acaba.
— Ela não vai se rebelar — zombou Vadim, e Irina quase sentiu na própria pele o sorriso satisfeito e arrogante dele.
— Comigo ela é mansa como seda.
Vai chorar durante uma noite, preparar seu famoso borsch e depois irá comigo ao centro de serviços públicos como uma menina obediente.
Vou dizer que é pelo nosso futuro filho, que “certamente teremos no ano que vem”.
Ela sempre morde essa isca.
A propósito, você transferiu o dinheiro daquele negócio para minha conta secreta?
— Sim, os cento e vinte mil estão todos no seu cartão — respondeu Igor.
— Sua Ira ainda acha que você está novamente vivendo como artista independente e sem dinheiro?
— Claro — riu Vadim.
— Deixe que ela continue achando que sou um artista pobre.
Ela até gosta de se sentir uma salvadora.
Que continue pagando as contas e a hipoteca, afinal ela ganha como uma ministra.
E nós dois vamos usar esse dinheiro para ir à sauna no fim de semana e comemorar o futuro negócio.
Irina permaneceu imóvel no corredor escuro.
A bota caiu de sua mão e rolou pelo tapete com um ruído baixo.
Foi como se alguém tivesse apagado a luz dentro dela.
Depois, acendeu outra: forte, impiedosa e cirúrgica.
Todos os medos desapareceram, assim como o hábito de anos de evitar conflitos e o absurdo sentimento de culpa imposto por sua educação.
Ela não era apenas uma mulher que não era amada: estava sendo usada com precisão fria e cínica.
O marido, por quem ela havia renunciado até aos prazeres mais simples e que sempre defendera diante das amigas, revelou-se um parasita doméstico comum, sugando seu sangue e seu dinheiro junto com o irmão idiota.
Irina calçou cuidadosamente a bota, tentando não fazer barulho, saiu do apartamento e fechou a porta devagar atrás de si.
Desceu até o pátio, entrou no carro e por alguns minutos apenas ficou olhando para o volante.
Seus olhos estavam secos.
Não queria chorar: queria agir.
Abriu o porta-luvas e tirou de lá o cartão de visita que sua amiga Svetlana lhe dera três anos antes.
No cartão estava escrito: «Oleg Nikolaevich Kotov.
Advogado especializado em direito de família e divisão de bens».
Ela discou o número.
— Oleg Nikolaevich?
Olá.
Meu nome é Irina.
Preciso da sua ajuda.
Com urgência.
A situação é clássica: meu marido ameaça pedir a divisão de um apartamento adquirido durante o casamento, mas comprado com meu dinheiro pessoal, anterior ao casamento, proveniente da venda de uma herança.
Sim, tenho todos os extratos bancários e contratos.
E também… suspeito que meu marido possua contas secretas para as quais transfere os rendimentos.
— Venha ao meu escritório daqui a uma hora, Irina — respondeu uma voz masculina calma e segura.
— Vamos examinar seus documentos.
Se o dinheiro da herança foi transferido diretamente, por meio bancário, para a compra do novo apartamento, seu marido terá péssimas notícias.
Faremos com que a “metade” dele se transforme em uma abóbora.
Nos dois dias seguintes, Irina levou uma vida dupla.
Em casa, comportava-se como sempre: cuidava silenciosamente dos afazeres domésticos, jantava com Vadim, ouvia suas reflexões sobre como era “difícil encontrar parceiros comerciais honestos hoje em dia” e até assentia quando ele voltava a falar da necessidade de ajudar Igor.
Vadim interpretava o silêncio dela como rendição e desfilava pelo apartamento como um pavão, antecipando a vitória iminente.
Na realidade, Irina conduzia uma operação especial.
No trabalho, recuperou todos os seus arquivos bancários pessoais dos últimos seis anos.
Encontrou o contrato de venda do estúdio da avó e o extrato da própria conta, no qual estava claramente demonstrado que o dinheiro do comprador entrara no dia trinta de maio e que, no dia dois de junho, exatamente a mesma quantia, até o último centavo, fora transferida à construtora como entrada pelo apartamento na Avenida Mira.
Não houvera qualquer “mistura de fluxos financeiros”, como o incompetente amigo advogado de Vadim lhe garantira.
O dinheiro possuía uma origem anterior ao casamento clara e cristalina.
Além disso, por meio de seus contatos, o advogado Oleg Nikolaevich fez uma solicitação oficial e, até sexta-feira, Irina já tinha em mãos um extrato oficial da conta secreta de Vadim em um banco comercial.
Descobriu-se que, nos últimos dois anos, o “artista pobre” havia acumulado ali quase oitocentos mil rublos — pagamentos por diversas operações e consultorias não declaradas, que ele cuidadosamente escondia da esposa enquanto ela sustentava a hipoteca.
O confronto final foi marcado para sábado, exatamente uma semana após a primeira discussão.
O tempo estava horrível, com neve molhada caindo.
Vadim estava de ótimo humor desde a manhã.
Até se dignou a preparar café e levar uma xícara para Irina na cama — um gesto raríssimo que, vindo dele, representava o grau máximo de manipulação.
— Irus, então, vamos hoje ao centro de serviços públicos? — perguntou ele carinhosamente, sentando-se na beira da cama e tentando acariciar o ombro dela.
— Igor já está lá, esperando por nós com os documentos.
Vamos resolver isso e começará uma nova fase em nossa vida.
Sinto que nossa relação está alcançando outro nível.
Irina afastou a xícara, sentou-se e olhou para ele.
Em seu olhar não havia raiva nem ressentimento.
Havia apenas a curiosidade fria e analítica com que um entomologista observa um inseto raro.
— Não vamos ao centro de serviços públicos, Vadim — disse ela calmamente, levantando-se da cama.
— Mas uma nova fase da sua vida realmente vai começar.
Agora mesmo.
Vista-se e vá para a cozinha.
Está na hora de conversarmos.
Dez minutos depois, estavam sentados à mesma mesa.
Irina colocou diante do marido uma pasta azul resistente com divisórias plásticas.
Vadim, percebendo que algo estava errado, tentou recorrer à sua ironia habitual.
— Ah, de novo relatórios contábeis?
Ira, não se pode transformar toda a vida em uma planilha de débito e crédito!
Como dizia o grande Myagkov em «Romance de Escritório»: “Você não é uma pedra de gelo, é uma mulher!”.
— Cale-se, Vadim — disse Irina em voz baixa, porém com tamanha firmeza que Vadim se interrompeu imediatamente e até abriu a boca de surpresa.
Nunca ouvira aquele tom vindo de sua esposa gentil e submissa.
Irina abriu a pasta e empurrou o primeiro documento para ele.
— Este é o contrato de compra e venda do meu estúdio, que eu possuía antes do casamento.
E esta é a ordem de pagamento pela qual toda a quantia foi transferida à construtora do nosso apartamento.
Meu advogado já preparou a petição inicial.
Como o apartamento foi comprado com meus recursos pessoais, provenientes de um bem privatizado e recebido por herança, ele não constitui patrimônio comum do casal.
Sua parte aqui, Vadim, de acordo com a jurisprudência desses casos, é de zero vírgula zero por cento.
Vadim empalideceu.
Agarrou o documento, e seus dedos começaram a tremer.
— Isso… isso é absurdo! — gritou, gaguejando.
— Somos casados!
O apartamento é nosso!
Você não tem esse direito!
Meu advogado disse…
— Seu advogado Sanyok é tão idiota quanto seu irmão Igor — respondeu Irina em tom uniforme.
— Agora veja a segunda folha.
Vadim virou a página com a mão trêmula.
Diante dele estava a impressão de sua conta bancária secreta, com o histórico detalhado dos depósitos e um saldo final de setecentos e oitenta e quatro mil rublos.
— Isto, Vadim, é que constitui patrimônio comum adquirido durante o casamento — sorriu Irina, e aquele sorriso fez Vadim encolher os ombros.
— Dinheiro que você ganhou durante o casamento, mas escondeu da família.
Por lei, metade dessa quantia pertence a mim.
E meu advogado já apresentou um pedido de bloqueio dessa conta no processo de divórcio.
— Ira… Irochka… — a voz de Vadim se quebrou em um falsete lamentável.
Ele percebeu que seu castelo de cartas desabara, enterrando todos os seus grandes planos.
— Você entendeu tudo errado…
Esse dinheiro era para nosso negócio conjunto!
Eu queria fazer uma surpresa para você!
Para nosso aniversário de casamento!
— A surpresa você me fez na quarta-feira passada, quando discutia com seu irmão pelo viva-voz sobre como eu era uma “idiota obediente” e sobre como vocês arrancariam metade do meu apartamento para conseguir um empréstimo e ir à sauna — interrompeu Irina.
— Cheguei mais cedo e ouvi toda a conversa, da primeira à última palavra.
Vadim ficou paralisado.
Seu rosto passou por várias tonalidades, do branco cadavérico ao vermelho púrpura.
Percebeu que negar não fazia mais sentido.
Naquele momento, o nome “Igor” apareceu na tela do telefone.
Vadim rejeitou a ligação de forma nervosa.
— Ira, me perdoe… — de repente, ajoelhou-se diante dela e tentou agarrar suas mãos, enquanto lágrimas sinceras de medo e autopiedade surgiam em seus olhos.
— Foi o diabo que me tentou!
Igor me pressionou, está cheio de dívidas e estão cobrando dele!
Eu não sabia o que fazer!
Eu amo você, Irochka!
Estamos juntos há doze anos!
Passamos por tanta coisa!
Lembra quando fomos à Crimeia com nosso velho “nove” e um pneu estourou no meio da estepe?
Éramos felizes!
Não se pode destruir tudo por causa de um único erro!
Irina soltou as mãos com delicadeza, mas com firmeza, levantou-se da cadeira e foi até a janela.
Do lado de fora, flocos de neve molhada giravam, escondendo a Avenida Mira em uma névoa cinzenta.
— Sabe, Vadim — disse ela em voz baixa, sem se virar.
— Georgy Vitsin, em «A Prisioneira do Cáucaso», dizia: “Viva nosso tribunal, o tribunal mais humano do mundo!”.
E será o tribunal que decidirá quem deve o quê a quem.
Você tem exatamente duas horas para juntar seus pertences pessoais e se mudar para a casa da sua mãe.
A mesma mãe que tanto se preocupava com seu orgulho masculino.
Já preparei as malas, estão no corredor.
Daqui a duas horas, um técnico virá trocar as fechaduras da porta de entrada.
Se você ficar, chamarei a polícia e mostrarei os documentos comprovando que você não está registrado aqui e não é proprietário.
— Você… você é um monstro! — gritou Vadim, levantando-se rapidamente.
Nele despertou a raiva do fracassado que acabara de perder sua fonte gratuita de sustento.
— Você ainda vai voltar rastejando para mim!
Quem vai querer você aos quarenta anos, sua seca ambulante?!
Conte seus trocados sozinha!
— Vá embora, Vadim — respondeu Irina, sem levantar a voz.
As duas horas seguintes se transformaram em um caos doméstico.
Vadim jogava ruidosamente nas malas suas camisas, jeans, varas de pesca e inúmeros frascos de perfumes caros comprados com o dinheiro de Irina.
Do corredor vinham suas maldições e soluços.
Nesse período, Elena Valerievna ligou três vezes, mas Irina simplesmente bloqueou o número dela.
Exatamente às duas da tarde, a porta se fechou atrás de Vadim e de suas duas enormes malas.
Às duas e quinze, chegou um técnico silencioso de macacão azul e, em vinte minutos, substituiu as fechaduras antigas por novas, equipadas com um sistema complexo de proteção contra arrombamento.
Quando o técnico foi embora, Irina trancou a porta com todas as três voltas da chave.
No apartamento reinou um silêncio incrível, puro e cristalino.
Ela foi até a cozinha, serviu-se de chá e percebeu que, pela primeira vez em muitos anos, não estava com dor de cabeça.
Quatro meses se passaram.
Chegou uma primavera quente.
A vida de Irina mudou tanto que, às vezes, ao acordar de manhã, ela quase não reconhecia a si mesma.
O processo de divórcio transcorreu de maneira surpreendentemente rápida e tranquila.
Quando o advogado Oleg Nikolaevich apresentou ao tribunal provas irrefutáveis da origem dos recursos usados na compra do apartamento, o espírito de luta de Vadim e de seu “advogado Sanyok” desapareceu imediatamente.
O apartamento permaneceu como propriedade exclusiva de Irina.
Além disso, o tribunal obrigou Vadim a pagar a Irina metade dos recursos escondidos em sua conta — quase quatrocentos mil rublos.
Sem precisar mais sustentar um homem adulto e mimado e seus infinitos “projetos empresariais”, a situação financeira de Irina melhorou rapidamente.
Descobriu que seu alto salário era mais do que suficiente para uma vida confortável e tranquila.
Com o dinheiro recebido na divisão das contas, Irina quitou antecipadamente uma parte considerável da hipoteca, reduzindo a prestação mensal para vinte mil rublos, uma quantia nada pesada.
Renovou o guarda-roupa, substituindo os ternos rígidos de contadora por vestidos leves e femininos, matriculou-se em uma piscina e começou a estudar espanhol, algo com que sonhava desde a época da faculdade.
Durante os feriados de maio, pela primeira vez na vida, viajou sozinha de férias para uma pequena e tranquila cidade litorânea, onde simplesmente caminhava à beira-mar, respirava o ar salgado e lia livros sentada em cafés aconchegantes ao ar livre.
Sua autoestima, esmagada por anos de casamento, finalmente abriu as asas.
Os homens do escritório começaram a observá-la com interesse evidente, notando como seu andar havia se tornado leve e confiante.
Para Vadim e Igor, porém, as coisas não estavam nem um pouco tão boas.
O plano do empréstimo fracassou: sem um fiador oficial e sem renda estável, o banco recusou o pedido de Igor, apesar de ele estar registrado na casa da mãe.
Os dois irmãos agora moravam juntos no velho apartamento de dois quartos de Elena Valerievna, em um edifício da época de Khrushchev.
Recentemente, Irina encontrou por acaso a ex-sogra perto de um shopping center.
Elena Valerievna parecia envelhecida e cansada, usava ainda o mesmo casaco velho, e em seus olhos já não havia o antigo tom literário e solene.
— Irochka… — chamou ela com hesitação.
— Como você mudou, está radiante…
Lá em casa, porém, é um desastre.
Os meninos brigam sem parar, Vadim perdeu o emprego e passa o dia inteiro no computador, e Igor está levando coisas de casa…
Vadim está tão arrependido, Irochka.
Lembra-se de você todos os dias e diz que foi um tolo, que não valorizou a própria felicidade.
Talvez… vocês pudessem se encontrar?
Conversar?
Afinal, o amor antigo não enferruja, e as pessoas devem perdoar umas às outras…
Irina olhou para ela.
Sentia uma pena sincera, humana, daquela mulher idosa que criara com as próprias mãos dois parasitas mimados, mas dentro dela nada se moveu.
Não restava qualquer sentimento de culpa nem sinal da antiga submissão.
— Desculpe, Elena Valerievna, estou com pressa — respondeu Irina com delicadeza e um sorriso.
— Cada um tem sua própria vida e suas próprias lições.
Eu aprendi a minha com nota máxima.
Diga a Vadim que já está na hora de crescer.
Ele está prestes a completar quarenta e cinco anos.
Ela se virou e caminhou até seu carro, limpo e brilhando sob o sol da primavera.
Atrás dela, ouviu o suspiro pesado da ex-sogra, mas Irina já não prestava atenção.
Sentou-se ao volante, ligou sua estação de rádio favorita e foi para casa — para seu próprio apartamento, quente e livre, na Avenida Mira, onde as cortinas estavam penduradas exatamente como ela gostava e onde ninguém mais tinha o direito de impor suas regras.







