Isso aconteceu numa noite de sábado.
Numa noite quente de outubro.

Eu tinha acabado de preparar syrniki.
Serioja adora, principalmente com a geleia de cereja que minha mãe faz todo verão.
Estávamos sentados na cozinha.
Serioja contava alguma história engraçada sobre um colega de trabalho.
Eu ria.
A chaleira apitava.
As tulipas no parapeito da janela, que Serioja havia trazido naquela manhã sem motivo algum, exalavam um perfume de primavera em pleno outono.
Então a campainha tocou.
Fiquei surpresa.
Não esperávamos ninguém.
Kira, minha filha, estava passando o fim de semana na casa da avó.
Os filhos de Serioja estavam com a ex-mulher dele.
Aliás, aquele era o sábado livre dele, e por isso ele estava na minha casa.
Aproximei-me da porta.
Olhei pelo olho mágico.
E congelei.
Andrei estava no corredor.
Meu ex-marido.
Com uma mala grande de rodinhas.
Com uma caixa de bolo “Praga” em uma das mãos.
Com um buquê de crisântemos na outra.
E sorrindo.
Era o sorriso confiante de um homem que acreditava ter “feito uma surpresa para sua mulher”.
Não abri a porta.
Fiquei parada.
Olhando pelo olho mágico.
Andrei tocou a campainha de novo.
Mais alto.
Depois bateu na porta.
— Taninha! Abre! Eu sei que você está em casa, seu carro está lá embaixo!
Virei-me.
Serioja estava na cozinha e não tinha ouvido o que estavam gritando do outro lado da porta.
Então eu lhe disse, com calma:
— Serioja, tem um convidado estranho aqui na porta. Pode vir ver, por favor?
Serioja ergueu as sobrancelhas.
Colocou a xícara sobre a mesa.
Levantou-se.
Foi até o corredor.
Olhou para mim, e eu fiz um gesto em direção à porta.
Então ele abriu.
Eu teria pagado para conseguir fotografar a expressão de Andrei.
No início, ele sorria.
Um sorriso largo, com o buquê nas mãos.
Depois o sorriso foi desaparecendo lentamente.
As sobrancelhas se ergueram.
A boca se abriu ligeiramente.
Ele olhava para Serioja.
Serioja, alto e tranquilo, usando um suéter cinza de ficar em casa e com uma toalha sobre o ombro, porque estava lavando a louça quando eu o interrompi, olhava para Andrei.
— Boa noite, — disse Serioja calmamente. — Quem o senhor procura?
— Eu… procuro a Tania. Sou o marido dela.
— Ex-marido, — corrigi, por trás do ombro de Serioja. — Ex-marido, Andrei. É preciso dizer a palavra “ex”, senão ela acaba desaparecendo.
— Tania! Quem é esse homem?! Quem é ele?!
Serioja sorriu levemente, apenas com os cantos dos lábios.
— Meu nome é Serioja. E o senhor, desculpe?
— Eu sou o marido da Tania!
— O senhor é o ex-marido da Tania, — repetiu Serioja. — Eu sou o atual companheiro da Tania. Como posso ajudá-lo?
— Como assim “atual”?! Tania! O que está acontecendo?!
Saí de trás de Serioja.
Calmamente.
Com os braços cruzados.
— Andrei, o que você está fazendo aqui?
— Taninha, eu… eu vim. Vim para você. Fiquei pensando e acho que nos apressamos com o divórcio. Estou pronto para perdoar tudo. E começar de novo.
— Perdoar a mim? Perdoar o quê exatamente?
— Bem… o fato de você não ter tentado me impedir. O fato de ter pedido o divórcio imediatamente, sem conversar. O fato de não ter lutado pelo nosso casamento.
Eu olhava para ele.
Com a mala.
Com o bolo.
Com os crisântemos, que, aliás, sempre me lembraram funerais, embora Andrei nunca tivesse conseguido guardar esse detalhe durante nossos oito anos de casamento.
E comecei a rir.
Serioja também riu.
Baixinho.
Discretamente.
Andrei ficou vermelho de raiva.
— O que tem de tão engraçado?!
— Andrei, você veio aqui com uma mala para perdoar A MIM por eu não ter impedido VOCÊ depois que VOCÊ me deixou por Kristina? Foi isso mesmo que eu entendi?
— Taninha, eu errei! Eu entendi! Eu terminei com Kristina! Ela não era quem eu pensava!
— Fico muito feliz que Kristina “não fosse a pessoa certa”. Então eu, pelo visto, sou “a pessoa certa”? E, curiosamente, você percebeu isso exatamente quando ficou sem ter onde morar, não foi?
Andrei hesitou.
— Taninha, não distorça as coisas…
— Andrei, onde você está morando agora?
— Eu… bem… temporariamente na casa da minha mãe.
— Entendi. Sua mãe mora num apartamento de um quarto em Kuzminki, certo? Imagino que não esteja muito confortável lá. Principalmente depois do meu apartamento de três quartos em Mitino, onde você viveu durante oito anos.
— Eu também pagava por aquele apartamento!
— Andrei, eu comprei aquele apartamento dois anos antes de conhecer você. Minha mãe me ajudou. Você morou nele de graça durante oito anos. Pagava as contas, e nem sempre. Depois do divórcio, você foi embora por vontade própria, pegou suas coisas e eu o acompanhei até a porta. Isso foi há seis meses. Você se lembra?
— Eu me lembro. Mas achei que…
— O que você achou?
— Que você ficaria me esperando. Que nós faríamos as pazes.
Uma pequena explicação.
Meu nome é Tania.
Tenho trinta e nove anos.
Trabalho como profissional de marketing em uma grande empresa.
Meu salário é de cento e cinquenta mil rublos.
Tenho uma filha, Kira, de treze anos.
Ela é do meu primeiro casamento.
Andrei não é o pai dela.
O pai dela mora em Krasnodar, eles se dão bem e a pensão chega regularmente.
Eu e Andrei vivemos juntos durante oito anos.
Não tivemos filhos.
Ele dizia que não queria “por enquanto”, e eu pensava que já tinha Kira e não insistia.
Foi um erro, aliás.
Pelo visto, o “por enquanto” de Andrei teria durado para sempre.
Seis meses antes, vi por acaso as mensagens de Andrei com uma tal de Kristina.
Ela tinha vinte e oito anos, era designer e eles haviam se conhecido numa conferência.
A troca de mensagens já durava três meses.
Havia fotos íntimas, planos de uma vida juntos e conversas sobre “quando você vai finalmente contar para sua esposa?”.
Não fiz escândalo.
Fotografei tudo em silêncio.
Fechei o telefone.
Coloquei-o de volta no lugar.
Na manhã seguinte, enquanto ele dormia, arrumei as coisas dele.
Coloquei tudo em três malas e cinco bolsas.
Com calma.
Com cuidado.
Deixei tudo no corredor.
Quando ele acordou, servi café para ele.
Coloquei a xícara à sua frente.
E disse:
— Andrei, bom dia. Aqui está o café. As malas estão perto da porta. Eu sei sobre Kristina. Até esta noite, você deve ir embora. Deixe as chaves sobre o móvel. Vamos nos divorciar sem escândalos. Não temos filhos em comum, não temos bens em comum e não haverá disputa. Tudo de bom para você.
Primeiro, ele negou tudo.
Depois tentou se justificar.
Depois implorou.
Depois me ameaçou.
Eu fiquei em silêncio.
Bebia meu café.
Quando ele terminou, eu disse:
— Andrei, não vou discutir isso com você. Já tomei minha decisão. As malas estão perto da porta. Você tem até as oito da noite. Caso contrário, chamarei a polícia.
Ele foi embora.
Naturalmente, mudou-se para a casa de Kristina.
Soube por conhecidos que ele viveu com ela durante dois meses.
Depois ela o expulsou.
Então ele foi morar com a mãe em Kuzminki.
O divórcio foi concluído rapidamente por meio do tribunal de pequenas causas.
Sem exigências.
Sem escândalo.
No dia do divórcio, eu estava usando um vestido bonito, com as unhas feitas e um sorriso no rosto.
Saí do tribunal e fui a um café comemorar.
Três meses depois do divórcio, conheci Serioja.
Serioja tinha quarenta e um anos.
Era arquiteto.
Havia se divorciado três anos antes, de maneira amigável, depois de dez anos de casamento.
Tinha dois filhos, um menino e uma menina de oito e seis anos.
Eles moravam com a mãe, e Serioja ficava com eles em fins de semana alternados.
Nós nos conhecemos numa livraria.
Estávamos diante da mesma prateleira e os dois estendemos a mão para pegar o livro de Erich Fromm, “A Arte de Amar”.
Rimos.
Começamos a conversar.
Ele me convidou para tomar um café.
Eu aceitei.
Serioja se revelou o homem que eu sempre quis que Andrei fosse.
Calmo.
Atencioso.
Nada barulhento.
Organizado e responsável.
Na casa dele, tudo estava sempre em perfeita ordem, e agora na minha também, porque ele simplesmente limpava tudo em silêncio, sem precisar que eu pedisse, e aos poucos me ensinou a fazer o mesmo.
Cozinhava melhor do que eu.
Não bebia álcool de jeito nenhum.
O pai dele havia sido alcoólatra durante a infância, então Serioja tinha como princípio não beber.
Com as crianças, era carinhoso e firme ao mesmo tempo.
Com Kira, deu-se bem desde a primeira noite.
Ela o chamava de “tio Serioja”, respeitava-o e pedia conselhos sobre os estudos.
Depois de dois meses, ele começou a passar os fins de semana na minha casa.
Depois de três meses, também passava algumas noites durante a semana, quando não estava com os filhos.
Depois de quatro meses, começamos a falar sobre morar juntos.
Talvez no apartamento dele, que era maior do que o meu.
Ou talvez alugássemos o meu, reformássemos o dele e vivêssemos lá.
Não tínhamos pressa.
Estávamos pensando.
E foi justamente nesse momento que Andrei apareceu à porta.
Com uma mala.
Com um bolo “Praga”.
Com crisântemos.
E com a convicção de que eu havia ficado esperando por ele.
Serioja olhava para Andrei.
Com calma.
Sem agressividade.
— Então, o senhor é Andrei, certo? — perguntou Serioja. — Andrei, vejo que há muita coisa mal compreendida aqui. Deixe-me explicar.
— Quem é você para me explicar alguma coisa?!
— Sou o companheiro da Tania, com quem ela já está há vários meses. Sou o homem com quem ela pretende construir uma vida. Sei sobre o senhor porque Tania me contou. Sei que o senhor a enganou, que mantinha outro relacionamento, que foi embora há seis meses e que o divórcio foi oficializado. Está correto?
Andrei ficou em silêncio.
— Andrei, o senhor apareceu sem telefonar, sem convite e com uma mala, num apartamento onde já não mora, diante de uma mulher que já não é sua esposa. E espera que alguém esteja aguardando sua chegada.
— Eu ainda nem tinha telefonado para ela!
— Por quê? — perguntou Serioja calmamente.
— Como assim “por quê”?
— Por que não telefonou? Por que não escreveu? Por que não avisou: “Tania, eu gostaria de conversar com você, posso passar aí?”. Por que veio direto com uma mala, como se a decisão já estivesse tomada?
Andrei não soube o que responder.
Eu disse:
— Porque ele sabia, Serioja. Sabia perfeitamente que, se telefonasse, eu diria “não”. Então decidiu me colocar diante do fato consumado. A mala no corredor. O bolo sobre a mesa. “Taninha, eu voltei, vamos fazer as pazes”. E, de acordo com os planos dele, eu deveria me emocionar, chorar, abraçá-lo e aceitá-lo de volta.
— Taninha, não foi assim…
— Foi exatamente assim, Andrei. Exatamente. Esse é o seu jeito. Você sempre fez isso. Lembra-se de quando me “colocou diante do fato consumado” ao dizer que viajaríamos para a Turquia dali a dois dias porque “você já havia comprado as passagens sem discutir comigo”? Eu não podia viajar, porque tinha um projeto importante para entregar no trabalho. E você disse: “Tania, você não pode cancelar o trabalho por minha causa? Você não me ama?”. Lembra?
— Aquilo era diferente…
— É a mesma coisa, Andrei. Você se acostumou com o fato de eu sempre me adaptar. De eu ser a “Tania conveniente”. De eu fechar os olhos, engolir tudo, perdoar e aceitar. E agora veio aqui esperando encontrar a mesma Tania. Mas essa Tania ficou para trás há seis meses, junto com suas malas no corredor. E, por algum motivo, você decidiu que, ao voltar, ainda a encontraria no mesmo lugar.
— Taninha, eu amo você…
— Andrei, diga a verdade. Você tem dinheiro para alugar um apartamento?
— O quê?
— Dinheiro para o aluguel. Quanto você ganha?
— Setenta mil rublos…
— Setenta mil rublos, Andrei. E você mora com sua mãe num apartamento de um quarto. Você veio até mim com uma mala porque não tem onde morar. Essa é a razão principal. Não é amor. Não é porque você “percebeu o erro”. Não é porque “Kristina não era a pessoa certa”. É porque VOCÊ NÃO TEM ONDE MORAR. E decidiu voltar para a conveniente Tania, no apartamento de três quartos dela em Mitino.
Andrei ficou em silêncio.
Ficou vermelho.
Os crisântemos tremiam na mão dele.
Serioja disse calmamente:
— Andrei, acho que será melhor para todos se o senhor se virar e for embora. Agora. Será melhor para a sua dignidade. Tania ficará mais tranquila. E eu não precisarei continuar explicando coisas óbvias. Concorda?
— Eu… eu não vou embora até a própria Tania me dizer isso!
Aproximei-me.
Bem perto.
Olhei nos olhos dele.
— Andrei, vá embora. Agora. Nunca mais apareça aqui. Não telefone. Não escreva. Se tentar, farei uma denúncia por perseguição e assédio. Estou falando sério. Tenho um conhecido na polícia. Você sabe disso.
— Taninha…
— Andrei, vá embora.
Ele ficou parado por alguns instantes.
Com a mala.
Com o bolo.
Com os crisântemos.
Depois se virou lentamente.
Empurrou a mala em direção ao elevador.
Deixou os crisântemos caírem pelo caminho.
Deixou o bolo perto da porta do elevador.
Não fez isso de propósito.
As mãos simplesmente tremiam.
O elevador chegou.
Ele entrou.
As portas se fecharam.
Serioja saiu calmamente para o corredor.
Pegou os crisântemos.
Pegou o bolo.
Fechou nossa porta.
Colocou os crisântemos num vaso.
Então disse:
— Taninha, essas flores são de funeral. Amanhã vou levá-las ao cemitério para a minha avó. Daqui a uma semana completam-se quarenta dias da morte dela. Ela ficará feliz.
Comecei a rir.
Depois comecei a chorar.
Depois ri de novo.
Serioja me abraçou.
Disse:
— Taninha, isso é normal. Pode chorar. Não foi uma cena pequena. Foi um pedaço da sua vida antiga que apareceu à sua porta. E você o mandou embora. Você fez muito bem.
— Serioja, eu não estou chorando. Estou rindo. É só uma risada nervosa.
— Risada nervosa também é feita de lágrimas. Minha avó dizia isso.
Voltamos para a cozinha.
Terminamos de comer os syrniki.
Bebemos chá.
E seguimos com a vida.
Duas horas depois, Andrei me escreveu.
“Tania, perdoe-me. Fui um idiota. Não deveria ter aparecido assim. Dê-me mais uma chance para conversarmos de maneira normal, como pessoas civilizadas. Sem mala. Apenas um café.”
Li a mensagem.
Mostrei a Serioja.
Serioja disse:
— Taninha, a decisão é sua. Não cabe a mim mandar em você.
Pensei por um minuto.
Então respondi:
“Andrei, já disse tudo. Você não terá outra chance, nem com mala, nem para tomar café, nem para conversar. Nós somos um capítulo encerrado. Eu tenho uma vida nova. Desejo tudo de bom para você. Adeus.”
Depois o bloqueei.
Em todos os lugares.
Nos aplicativos de mensagens, nas redes sociais e no telefone.
Andrei tentou novamente dois dias depois.
Telefonou de outro número.
Recusei a chamada.
E bloqueei aquele número também.
Uma semana depois, escreveu para minha mãe, depois de encontrá-la nas redes sociais.
Minha mãe respondeu por conta própria, sem me consultar, com uma mensagem curta:
“Andrei, Tania está, na prática, casada. E não com você. Não incomode minha filha. Caso contrário, irei pessoalmente à sua casa e falarei com sua mãe. Pelo que me lembro, ela é uma mulher muito nervosa. Ela saberá como resolver isso com você. Boa sorte.”
Minha mãe é fogo puro.
Tem sessenta e sete anos.
Foi engenheira-chefe numa fábrica.
Com ela não se brinca.
Andrei sabia disso.
Sempre teve um pouco de medo da minha mãe.
Depois disso, Andrei não apareceu mais.
Oito meses se passaram.
Serioja mudou-se para a minha casa.
Decidimos morar, por enquanto, no meu apartamento de três quartos, porque era mais conveniente para Kira e a escola ficava perto.
Serioja alugou o apartamento de um quarto dele.
A renda era usada para pagar a pensão dos filhos dele e também entrava no nosso orçamento comum.
Em maio, oficializamos nossa união.
De maneira simples.
Sem festa de casamento.
Fomos apenas ao cartório.
Eu usava um vestido azul.
Tínhamos duas testemunhas, minha mãe e a irmã dele.
Depois jantamos num restaurante.
Kira estava conosco.
Os filhos de Serioja vieram no dia seguinte, e fomos todos juntos ao zoológico.
Eles me chamavam de “tia Tania”.
Eram boas crianças.
Eu me apeguei a eles.
Agora estamos pensando em ter um filho juntos.
Serioja quer muito.
Ele diz que, com a primeira esposa, tudo rapidamente virou uma questão de obrigação e rotina, sem romance.
Desta vez, ele gostaria de ter um filho não por obrigação, mas simplesmente porque ama.
Eu também quero.
Mas tenho trinta e nove anos, e já estou no limite.
No mês que vem, iremos ao médico.
O que tiver de acontecer, acontecerá.
Sabem o que percebi durante esses oito meses?
Que ex-maridos que “voltam de repente” nunca voltam por amor.
Eles voltam por desespero.
Porque a nova mulher os expulsou.
Porque estão cansados de morar com a mãe num apartamento de um quarto.
Porque não têm dinheiro para uma vida normal.
Porque a solidão acabou se revelando não como liberdade, mas como vazio.
E eles voltam esperando que a “Tania conveniente” ainda esteja no mesmo lugar.
Com o apartamento dela.
Com o salário dela.
Com as sopas dela.
Com o perdão dela.
E, normalmente, Tania ainda está lá.
Porque Tania é realmente conveniente.
Porque está acostumada a perdoar.
Porque tem mais medo da solidão do que da dor.
Porque pensa: “Talvez ele tenha realmente entendido”.
Então ela deixa o homem entrar.
E tudo recomeça.
O mesmo ciclo.
Por mais cinco, dez ou quinze anos.
Eu, porém, não o deixei entrar.
Não porque eu fosse “forte” ou “fria”.
Mas porque, quando ele apareceu, eu já tinha uma VIDA NOVA.
E nessa vida nova não havia lugar para Andrei.
Lugar nenhum.
Nem mesmo no capacho diante da porta.
Se eu o tivesse mandado embora e depois ficasse sozinha num apartamento vazio, talvez, depois de um ou dois meses, eu cedesse.
Talvez escrevesse para ele: “Andrei, vamos conversar”.
E cairia na armadilha.
Mas eu tinha Serioja.
Tinha meus syrniki.
Tinha chá.
Tinha a voz tranquila dele.
Tinha o perfume das tulipas no parapeito da janela.
E Andrei, com sua mala, diante de tudo aquilo, parecia ridículo.
Patético.
Fora de lugar.
Como uma velha jaqueta gasta que você encontra por acaso no armário depois de já ter comprado um casaco novo.
Aquela jaqueta já havia sido importante para você.
Você a usara durante oito invernos.
Você a amara.
Mas ela estava desgastada.
Os botões haviam caído.
O forro estava gasto.
Então você a transformou em pano de limpeza.
Sem arrependimento.
Porque agora tinha um casaco novo.
Quente.
Inteiro.
Seu.
P.S. Um mês depois daquela cena, soube por conhecidos que Andrei estava saindo com uma tal de Lena.
Ela tinha trinta e cinco anos e trabalhava no mesmo escritório que ele.
Tinha dois filhos do primeiro casamento.
Morava de aluguel num apartamento de um quarto.
Andrei mudou-se para a casa dela.
Acho que Lena está vivendo agora a minha antiga vida.
Com meu ex-marido.
Com as exigências dele.
Com o jeito dele de “colocar a pessoa diante do fato consumado”.
Com as Kristinas paralelas dele, que certamente aparecerão dentro de alguns anos.
Não é problema meu.
Nem sequer sinto pena dela.
Somos todos adultos.
Todos fazemos nossas próprias escolhas.
P.P.S. Eu e Serioja não comemos o bolo “Praga” que Andrei havia trazido.
Serioja o levou para uma vizinha, dona Liuba.
Ela tinha oitenta e três anos e vivia sozinha.
Ficou muito feliz.
Disse:
— Ai, Seriojinha, como você é atencioso! Muito obrigada!
Está vendo, Andrei?
Até o seu bolo encontrou a pessoa certa.
Não você.
Não eu.
Mas dona Liuba.
Ela ficou verdadeiramente feliz com ele.
Às vezes, as coisas encontram o lugar certo.
E as pessoas também encontram o lugar certo.
O seu é na casa da sua mãe em Kuzminki.
Ou na casa de Lena, até que ela o expulse.
O meu é na minha cozinha, com Serioja e os syrniki.
Cada um no seu lugar.
É assim que deve ser.







