— A festa está cancelada. Vamos à casa da minha mãe colher batatas, declarou o marido, mas a esposa tinha seus próprios planos…

— Como assim cancelada?!

Irina ficou paralisada com o telefone na mão, sem acreditar no que ouvia.

Na tela ainda brilhava a mensagem da administração do hotel de campo: “Esperamos vocês para a celebração dos vinte anos de casamento”.

Ela havia se preparado por tanto tempo para aquele dia, pensando em cada detalhe.

E, à mesa, o marido terminava calmamente o jantar, sem sequer levantar os olhos do prato.

— Mamãe já disse a todos que vamos colher batatas.

As pessoas contam com a nossa ajuda, disse ele com um tom como se falasse de algo óbvio.

Irina colocou lentamente o telefone sobre a mesa, sentindo uma onda de mágoa crescer dentro dela.

Vinte anos de casamento.

Durante um ano inteiro, ela sonhara com uma verdadeira festa.

Pela primeira vez, decidira organizar algo especial para os dois.

E o aniversário de casamento dela novamente perdeu para as batatas.

Irina sentou-se em frente ao marido, tentando controlar o tremor na voz:

— Serguei, você ao menos entende que eu planejei essa festa por vários meses?

— Que festa?

Ele finalmente levantou os olhos do prato.

— O nosso aniversário.

Vinte anos de casamento, caso você tenha esquecido.

Eles se conheceram ainda no instituto, no terceiro ano.

Naquela época, Serguei parecia para ela o homem mais atencioso e carinhoso.

Juntos, alugavam um apartamento de um quarto na periferia e economizavam em tudo para juntar dinheiro para o casamento.

Depois, pagaram a hipoteca e criaram a filha Katia.

— Irina, por que você está agindo como uma criança?

Serguei afastou o prato.

— Mamãe está sozinha, tem setenta anos.

Quem vai ajudá-la, se não formos nós?

Nos primeiros anos de casamento, Irina tentou sinceramente agradar à sogra, Vera Nikolaievna.

Todos os fins de semana ia à dacha para arrancar ervas daninhas, plantar e colher.

Preparava almoços para toda a família quando se reuniam nas festas familiares.

— Você se lembra do nosso décimo aniversário?

perguntou Irina em voz baixa.

— Nós íamos para São Petersburgo, as passagens já estavam compradas.

E então sua mãe ligou dizendo que precisava urgentemente trocar o telhado do galpão.

— E daí?

O telhado estava mesmo vazando!

— E no nosso décimo quinto aniversário?

O restaurante estava reservado, os convidados tinham sido chamados.

Mas nós fomos fermentar repolho porque “a colheita ia se perder”.

Aos poucos, o padrão ficou evidente.

Cada acontecimento importante da família deles sempre dava lugar aos desejos da sogra.

As férias eram adiadas, os fins de semana cancelados, até os aniversários eram passados na horta.

Naquele ano, Irina decidiu agir de outra forma.

Em segredo, guardou dinheiro e reservou um belo hotel de campo com restaurante e spa.

Convidou a filha de outra cidade, amigos próximos e até conseguiu encontrar as testemunhas do casamento deles.

— Sérioja, eu queria fazer uma surpresa para você…

A voz dela tremeu.

— Surpresas são boas, mas mamãe já combinou tudo com os vizinhos.

Eles vão ajudá-la, e depois nós vamos ajudá-los.

Eu já dei a nossa confirmação em nosso nome.

Irina respirou fundo, tentando manter a calma:

— Serguei, escute-me com atenção.

Eu reservei o hotel “Roscha”.

Paguei os quartos para nós e para os convidados.

Encomendei um banquete no restaurante.

— Então cancele tudo isso, disse ele, dando de ombros enquanto servia chá para si mesmo.

— Eu guardei dinheiro durante três meses!

Do meu próprio salário, aliás.

Convidei Katia, ela tirou férias especialmente para isso.

— Dá para avisar as pessoas, disse Serguei, começando a se irritar.

— Katia vai entender.

Mas as batatas não vão esperar.

Vão apodrecer na terra.

Irina olhava para o marido e não o reconhecia.

Onde estava aquele rapaz romântico que um dia a carregava nos braços?

Aquele que prometia que eles seriam o casal mais feliz?

— Você ao menos perguntou a minha opinião?

A voz dela ficou gelada.

— O que há para perguntar?

Mamãe precisa de ajuda, então nós ajudamos.

Sempre foi assim.

À noite, quando Serguei foi assistir à televisão, Irina tirou do armário alto o álbum de casamento.

Empoeirado, há muito tempo sem ser aberto.

Nas fotografias, os jovens Serguei e Irina olhavam um para o outro com olhos apaixonados.

A noiva de vestido branco, o noivo de terno elegante.

Os rostos felizes dos convidados.

Dança até de manhã.

Ela folheava as páginas e, de repente, compreendeu com dolorosa clareza: durante vinte anos, ela se adaptara aos desejos dos outros.

A sogra havia se acostumado há muito tempo a mandar, tratando a nora como uma empregada gratuita.

E o marido se acostumara ao fato de que a esposa sempre cederia, ficaria calada e concordaria.

Irina fechou o álbum.

Suas bochechas ardiam de mágoa e raiva.

Pela primeira vez em todos aqueles anos, ela decidiu não recuar.

De manhã, Irina acordou com uma decisão firme.

Enquanto Serguei estava no banho, ela discou o número da amiga Lena:

— Lena, a festa vai acontecer.

No sábado, como planejamos.

— E o Sérioja?

Ele não tinha falado da dacha?

— Sérioja vai decidir sozinho onde quer estar.

Depois, ela ligou para o hotel e confirmou definitivamente a reserva.

Enviou mensagens a todos os convidados, dizendo que os esperava na comemoração.

Quando Serguei soube disso durante o jantar, seu rosto se alongou de surpresa:

— Você está falando sério?

E a mamãe?

— Sua mãe tem vizinhos que prometeram ajudar.

— Irina, pare de bancar a boba!

Você não vai para lá sozinha, vai?

— Por que sozinha?

Ela cortava a salada calmamente.

— Katia virá, os amigos estarão lá.

Um salão cheio de convidados.

— E eu?

— Você ia colher batatas.

Suas palavras, não as minhas.

Uma hora depois, o telefone tocou.

Na tela apareceu: “Vera Nikolaievna”.

Irina colocou no viva-voz.

— Irina!

Que circo é esse que você está armando?

A voz da sogra tremia de indignação.

— Olá, Vera Nikolaievna.

— Sérioja disse que você se recusa a vir!

Eu já avisei todos os vizinhos!

Este ano as batatas deram tanto que chegam para três famílias!

— Excelente.

Então os vizinhos ficarão com mais.

— Você entende quanta força eu coloquei nesse terreno?

Para quem eu me esforcei?

Foi por vocês!

Irina ficou em silêncio por um instante e depois respondeu com voz calma:

— Vera Nikolaievna, vinte anos de casamento acontecem uma vez na vida.

Batatas aparecem todos os anos.

— Como você se atreve!

Ingrata!

Eu a aceitei na família, e você…

Irina desligou.

Chegou o dia do aniversário.

O sábado estava ensolarado e quente, como se a própria natureza tivesse decidido apoiar Irina.

De manhã, Serguei arrumou suas coisas em silêncio.

Ele bateu a porta com força de propósito ao entrar no carro.

— Quando cair em si, venha, disse ele pela janela.

— Mamãe espera até o almoço.

Irina ficou junto à janela, observando o marido ir embora.

Por dentro, sentia-se vazia e calma.

Ela tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa.

Chegou ao hotel “Conto da Floresta” por volta do meio-dia.

Na entrada, a filha Katia já a esperava, tendo chegado de Moscou no trem noturno.

— Mamãe!

A moça se lançou em seus braços.

— Você está maravilhosa!

E onde está o papai?

— Papai escolheu as batatas, disse Irina com um sorriso.

— Mas nós duas escolhemos a festa.

No salão de banquetes, estavam reunidas as pessoas mais próximas.

A amiga Lena com o marido, o irmão de Irina com a família e alguns colegas.

Até Natacha e Igor, as testemunhas do casamento, vieram da cidade vizinha.

— Irina, você fez muito bem em não cancelar!

Natacha ergueu a taça.

— A você!

À sua coragem!

Eles relembraram os anos de estudante, o primeiro apartamento de Irina e Serguei, histórias engraçadas com a pequena Katia.

Assistiram ao vídeo do casamento — jovens, felizes, cheios de esperança.

— Mamãe, você se arrepende?

perguntou Katia durante o passeio pelo parque do hotel.

— Não, minha filha.

Pela primeira vez em muitos anos, não me sinto como uma criada, mas como uma pessoa.

Enquanto isso, na dacha de Vera Nikolaievna, as coisas não iam nada bem.

O irmão de Serguei ligou de manhã: o filho havia ficado doente.

A irmã se recusou a ir sem o marido.

Os vizinhos, ao saberem que havia poucos ajudantes, exigiram pagamento.

— Está vendo o que sua esposa fez!

Vera Nikolaievna não parava de resmungar.

— Ela estragou tudo!

Acabou com o clima!

Serguei cavava em silêncio, ouvindo as reclamações intermináveis da mãe.

E, pela primeira vez, pensou: será que as batatas eram mesmo mais importantes que o aniversário?

Por que Irina sempre precisava sacrificar seus planos?

Durante vinte anos, ela cedeu, e ele considerou isso normal.

Tarde da noite, cansado e sujo, Serguei acabou indo ao hotel.

O jantar festivo já havia terminado, mas o grupo ainda estava sentado no terraço de verão.

Irina, em um vestido elegante, ria enquanto conversava com as amigas.

Ao lado, Katia contava algo animadamente.

Ao ver o marido, Irina ficou tensa, preparando-se para uma discussão.

Mas Serguei se aproximou devagar, de cabeça baixa.

— Podemos conversar?

perguntou ele baixinho.

Eles se afastaram até o coreto no fundo do parque.

As lanternas iluminavam suavemente o caminho.

— Irina, perdoe-me, disse Serguei com a voz trêmula.

— Só hoje entendi que idiota eu fui todos esses anos.

— O que aconteceu?

Irina ficou surpresa.

— Passei o dia inteiro cavando aquelas malditas batatas e pensando.

Mamãe falava mal de você, e de repente eu vi tudo pelos seus olhos.

Durante vinte anos, você cedeu.

Todas as vezes escolheu nossa família, mesmo quando era injusto.

Ele segurou as mãos dela nas suas, pela primeira vez em muito tempo.

— Eu escolhi a comodidade, o hábito.

Era mais fácil concordar com mamãe do que defender você.

Eu nem percebi quando nossa vida começou a obedecer aos planos dos outros.

Irina olhou para o marido e viu arrependimento sincero em seus olhos.

— Perdoe-me por estragar sua festa.

Perdoe-me por todos esses anos.

— Você não a estragou, disse Irina com um sorriso fraco.

— Pelo contrário.

Só agora entendi que eu não precisava apenas de uma festa.

Eu precisava do reconhecimento de que meus desejos também importam.

Eles se abraçaram.

E Irina sentiu que seu marido realmente havia entendido tudo.

Na primavera seguinte, Vera Nikolaievna, por hábito, começou a fazer grandes planos.

Ampliar a estufa, consertar a cerca, preparar novos canteiros.

— Sérioja, vocês virão nos feriados de maio.

Há muito trabalho, disse ela ao telefone, como sempre, não perguntando, mas afirmando.

— Mãe, vamos ajudar em um dos dias livres, se pudermos.

Mas temos nossos próprios planos para os feriados.

— Que planos?!

indignou-se Vera Nikolaievna.

— Planos da nossa família.

Irina e eu decidiremos sozinhos como passar os fins de semana.

A sogra ficou ofendida e não ligou por uma semana.

Depois se conformou — teve de contratar ajudantes.

E um ano depois, em mais um aniversário de casamento, Irina e Serguei finalmente foram para o mar.

Uma semana inteira sem canteiros, sem batatas, sem sentimento de culpa.

Eles passeavam pelo calçadão, jantavam em pequenos restaurantes e simplesmente conversavam.

— Sabe, disse Irina, olhando para o pôr do sol, o principal presente dos nossos vinte anos de casamento não foi aquela festa no hotel.

— Então o que foi?

Serguei abraçou a esposa.

— O fato de você finalmente ter começado a me ouvir.

E isso vale mais do que qualquer festa.

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