🔺— Ora, ele te traiu, mas a culpa é tua, volta para o teu marido, — exigiu a mãe, enfiando-lhe a filha bebé nos braços…

A manhã na enfermaria da maternidade começou com papa, amamentação e uma batida cautelosa à porta.

O médico sorriu ao espreitar para as três jovens mães e deu a Polina a notícia mais tranquilizadora que ela tinha ouvido nos últimos dias.

— Está tudo ótimo, — disse ele.

— Estamos a preparar os documentos da alta.

— Pode telefonar ao seu marido para que venha buscá-la.

— Ele está a trabalhar fora, — respondeu Polina suavemente.

— Achava que chegaria a tempo, mas a nossa Irina teve pressa.

— Acontece, — assentiu o médico.

— Nesse caso, decida quem virá buscá-la.

As suas companheiras de enfermaria, Anna e Olya, já falavam animadamente ao telefone, arrumavam as roupinhas dos bebés e fechavam as malas.

Polina olhava para a filha, para os seus punhinhos cerrados, enquanto um plano alegre se formava na sua cabeça.

Riu-se baixinho dos próprios pensamentos e decidiu que iria sozinha.

— Meninas, eu vou sozinha, — anunciou.

— Ponho a mesa, chamo os familiares e, quando Artur regressar do trabalho, encontrará a casa cheia.

— Polinochka, mas como vais sozinha? — lamentou-se a auxiliar Ulyana, entrando apressadamente na enfermaria.

— Telefona à tua mãe para que ela venha buscar-te.

— Ulyana Sergeyevna, está tudo bem, — sorriu Polina.

— Eu não estou sozinha, o meu marido está apenas numa viagem de trabalho.

— E ficar aqui à espera de toda a gente não é para mim.

— Ah, esta juventude, — suspirou a auxiliar.

— Na vida acontece de tudo, não fiques zangada comigo, digo isto por bem.

— Eu não estou zangada, — disse Polina, apertando o embrulho contra o peito.

— É melhor ajudar-me a embrulhar bem a pequena.

Ulyana envolveu a menina como se fosse uma joia preciosa e entregou-a aos braços da mãe.

As coisas que a mãe de Polina trouxera no dia anterior já estavam dentro da mala.

O táxi esperava lá em baixo, e o motorista olhou para a jovem mulher com a mesma compaixão da auxiliar.

— Dê-me a mala, — disse ele.

— E tente dormir o máximo possível à noite, esse conselho vale ouro.

— Obrigada, — riu Polina.

— Vou lembrar-me.

Ele levou as coisas dela até à porta do apartamento.

Polina tirou as chaves, rodou-as na fechadura e empurrou a porta devagar para não acordar Irina.

Na casa de banho ouvia-se água a correr.

Polina ficou contente: isso significava que Artur já tinha regressado, por isso a surpresa seria dupla.

Caminhou em bicos de pés até ao quarto e ficou paralisada.

A cama estava desfeita, e por cima dela havia roupas femininas que não eram suas.

Polina pousou cuidadosamente o embrulho no sofá e dirigiu-se à sala.

Parou como se o chão debaixo dos seus pés se tivesse tornado estranho.

À sua frente estava Artur, e ao lado dele, a rir-se, apertava-se contra ele a sua irmã Zhanna.

Ambos tinham acabado de sair da casa de banho, nenhum deles esperava visitas e os dois estavam completamente nus.

Zhanna soltou um grito, murmurou algo incompreensível e correu de volta.

— Tu… o que estás a fazer aqui? — conseguiu dizer o marido enquanto vestia a roupa interior.

— Eu? — Polina riu-se nervosamente.

— Sou uma mãe que acabou de dar à luz.

— Vim para casa com a tua filha, idiota como sou, porque queria fazer-te uma surpresa.

— Com a minha filha? — Artur avançou em direção ao quarto.

— Nem te atrevas! — Polina bloqueou-lhe o caminho e pegou no embrulho.

— Não te aproximes da criança.

— Nem tu, nem essa.

— Polina, simplesmente aconteceu assim, — balbuciou Zhanna da cozinha.

— Não fizemos de propósito…

— Não fizeram de propósito? — Polina mal conseguia respirar de tanta raiva.

— Estás grávida.

— Estás grávida dele.

— Durante quanto tempo mentiste olhando-me diretamente nos olhos?

Irina começou a choramingar, e aquele som fino trouxe Polina de volta à realidade.

Ela apertou a filha contra si, recuou em direção à saída, encontrou às cegas o saco com os documentos e saiu.

As escadas, o pátio e o telefonema aconteceram como se tudo se fizesse sozinho.

— Um táxi, por favor, — disse ela ao telefone com voz calma.

— O mais rápido possível.

Meia hora depois, batia à porta da mãe.

Vera Stepanovna abriu e ergueu as sobrancelhas com surpresa.

— Já te deram alta?

— Porque não telefonaste?

— Nós queríamos ir buscar-vos amanhã.

— Não posso voltar para lá, — sussurrou Polina.

— Ela está lá.

— Eles estão lá.

— Ah, — respondeu calmamente a mãe, pegando na neta e levando-a para a sala para a desembrulhar.

— Então ele estava com ela.

— Tu sabias?

— Claro que sabia, — respondeu Vera Stepanovna, encolhendo os ombros.

— Zhanna está com ele há muito tempo.

— E não finjas que és uma santa.

— Quem te apresentou ao Artur?

— A tua irmã.

— Mas tu roubaste-o dela e arrastaste-o para o altar.

Polina ficou imóvel, como se tivesse criado raízes.

Meia hora antes, descobrira a traição, e agora a própria mãe estava do lado dos traidores.

— Tu ouves o que estás a dizer? — perguntou Polina baixinho.

— Não faças uma cena, — cortou a mãe.

— A criança é linda, é toda parecida com o pai.

— E tu tens de voltar para casa, para o teu marido.

— Parecida com o pai, — repetiu Polina.

— Não comigo.

— Com o pai.

O padrasto, Ilya Viktorovich, saiu do quarto ao lado, calmo como um apresentador de um programa noturno.

— Pronto, filha, agora já sabes tudo.

— Tu também sabias?

— Sim, — respondeu ele sem sequer pestanejar.

Polina sentiu náuseas.

Foi até à casa de banho, ficou algum tempo com a filha nos braços, controlou a respiração e voltou.

— Não tires a manta, — disse à mãe.

— Vou embora.

— Essa é a decisão certa, — alegrou-se Vera Stepanovna enquanto embrulhava a menina.

— Casa é casa.

Polina calçou-se em silêncio, pegou no embrulho, no saco e saiu.

A porta fechou-se suavemente atrás dela, sem uma única palavra de despedida.

Na escada, Irina começou a chorar de novo.

Polina sentou-se no parapeito da janela, desabotoou a blusa, amamentou a filha e, ao mesmo tempo, pensou em todas as pessoas para quem poderia ir.

Não podia ir para casa da amiga Lyuba, pois ela tinha a sua própria família.

Foi então que se lembrou do pai.

Pavel Nikolayevich via-a apenas uma vez por ano, no aniversário dela, levava presentes e depois ia-se embora.

Quando Polina tinha quatro anos, ele abandonara a família, e a mãe casara-se imediatamente com Ilya Viktorovich.

Polina marcou o número com dedos trémulos.

— Pai, — a voz dela falhou.

— Eu…

— Vem, — disse ele simplesmente.

E imediatamente tudo pareceu mais fácil.

Uma hora depois, o táxi levou-a até ao outro lado da cidade.

Pavel Nikolayevich abriu a porta, viu o embrulho e abriu um largo sorriso.

— É tua? — perguntou ele, abraçando cuidadosamente a filha e beijando-a na face.

— Minha, — assentiu Polina.

— A tua neta.

— Tira o casaco e entra na sala.

— Dá-ma, eu seguro-a enquanto tu recuperas o fôlego.

— Estás aqui sozinho?

— Sozinho como um velho solteirão, — sorriu ele, embalando a menina.

— Então, como lhe chamaste?

— Irina?

— Bonito.

Polina desembrulhou a bebé, e o pai apertou a neta contra si, acariciando-lhe a cabeça.

Aquela mão simples pousada sobre a pequena cabeça fez com que todo o horror recuasse por um instante.

— Posso ficar a viver contigo? — perguntou ela baixinho.

— Uma semana, depois alugo um apartamento.

— Que apartamento? — franziu ele a testa.

— Para onde vais sozinha com uma criança?

— O quarto está livre, por isso ficas aqui.

— Ponto final.

Ao anoitecer, o telefone de Polina estava a ferver.

Artur ligava, e a mãe telefonava de dezenas de números diferentes.

— Volta imediatamente! — gritava Vera Stepanovna.

— Uma criança deve crescer com o pai!

— A criança tem mãe, — respondia Polina calmamente antes de bloquear o número.

Um minuto depois, ligavam de outro.

E depois de mais outro.

Ela bloqueava-os um a um sem levantar a voz.

Entretanto, o pai correu à farmácia, trouxe fraldas e depois apareceu com dois sacos cheios de roupas de bebé.

— Não percebo muito disto, — disse ele, embaraçado.

— Mas na loja disseram-me que aqui estava tudo o que era necessário.

— Obrigada, papá, — disse Polina, abraçando-o.

— Fica sentada, eu faço o jantar.

— Nestes anos todos aprendi a alimentar-me sozinho, não vou morrer à fome.

— Mas porque estás sozinho?

— Casei-me uma segunda vez.

— Não resultou, — respondeu ele brevemente.

Durante o jantar, Polina contou-lhe finalmente tudo.

Parava, recuperava o fôlego e falava da surpresa, do quarto, da mãe e do padrasto.

Pavel Nikolayevich ouviu-a em silêncio e resumiu:

— Um verdadeiro ninho de víboras.

— Fizeste bem em sair de lá.

— É preciso fugir das cobras imediatamente, não tentar negociar com elas.

Passou uma semana, depois outra.

A mãe ligava cada vez menos, mas nem ela nem Artur pediram desculpa uma única vez.

Um dia, Polina regressou da clínica e ficou espantada: o pai estava a montar um berço, e ao lado encontrava-se um carrinho de bebé já pronto.

— Papá, és maravilhoso, — disse ela, beijando-o na face.

— O que não se faz por uma neta? — sorriu ele.

Nessa noite, depois de deitar Irina, Polina foi até à cozinha e fez a pergunta que há muito lhe andava na cabeça.

— Pai, porque deixaste a mãe naquela altura?

Ele aproximou-se da janela, ficou algum tempo em silêncio e curvou os ombros.

— Tu não és minha filha, — disse ele.

— Descobri por acaso quando tinhas cerca de três anos.

— Perdoa-me por te ter abandonado.

— Não consegui continuar a viver daquela forma.

Polina aproximou-se e tocou-lhe nas costas.

Tantas traições em apenas algumas semanas, e agora até este homem se revelava um estranho.

Mesmo assim, fora precisamente ele quem lhe oferecera apoio.

— Eu compreendo, — sussurrou ela, beijando-o nas costas.

— Pai.

— Só não vás embora, — disse ele.

— Fica aqui.

— Mas eu sou uma estranha para ti.

— Não, — respondeu ele com firmeza.

— Ficas, e acabou.

Polina não tinha o hábito de adiar as coisas.

Aquilo que não lhe dava paz, resolvia imediatamente, com as próprias mãos.

— Pai, quero fazer um teste de ADN, — disse ela um dia.

— Não tenho nada contra, — respondeu Pavel Nikolayevich calmamente.

No dia seguinte, entregaram as amostras, e uma semana depois receberam um envelope.

O resultado foi positivo: ele era o seu pai biológico.

— Isso quer dizer que a mãe te mentiu naquela altura, — disse Polina baixinho.

— E tu acreditaste nela durante todos estes anos.

— Parece que sim, — respondeu ele, virando-se.

— Mas agora ninguém voltará a separar-nos.

Polina resolveu a questão com o ex-marido com a mesma rapidez.

Apresentou o pedido de divórcio, foi quatro vezes ao tribunal e, à quarta audiência, o casamento foi dissolvido, pois Artur nunca apareceu.

Polina entregou a uma agência imobiliária o apartamento que comprara sozinha antes do casamento.

— O meu ex-marido vive lá, mas não está oficialmente registado, — disse ela ao telefone.

— Peço que resolvam a situação, não pretendo arrastar isto.

— Vamos resolver, — responderam-lhe.

— Amanhã tratamos disso.

E o telefone voltou a aquecer.

Ligava a mãe, ligava Artur e parecia que até a irmã tentava contactá-la.

— O que fizeste com a nossa casa?! — gritava Artur ao telefone.

— Não tens consciência?

— Nós estamos aqui com uma criança, caso não saibas!

— Atiraste-nos para a rua como… como gatinhos!

— O apartamento é meu, — respondeu Polina calmamente.

— Comprei-o à custa das minhas noites sem dormir.

— Dizem que a ganância cega, e tu ficaste tão cego que nem percebeste a quem pertencia a propriedade onde te deitavas.

— Tu… vais arrepender-te, ouviste?

— Ainda vais voltar a correr para mim! — a voz dele transformou-se num grito agudo.

— Adeus, Artur, — respondeu ela antes de desligar.

No dia seguinte, a agência alugou o apartamento a uma família respeitável por um bom valor.

Os funcionários da mudança empacotaram as coisas de Polina em caixas e entregaram-nas na nova morada.

Agora ela tinha o seu próprio dinheiro e já não precisava da ajuda financeira do pai.

Polina continuou a chamar Pavel Nikolayevich de pai.

Ele dava banho a Irina, passeava com o carrinho e, certa vez, um amigo dele brincou na rua:

— Então, Pasha, tiveste uma filha na velhice?

— O quê, achas que ela não se parece comigo? — respondeu ele a rir.

Polina olhou para ele de outra maneira.

Ele não era um mentiroso nem apenas um homem envelhecido, mas alguém carinhoso, fiável e bonito de uma forma especial, calma e reconfortante.

À noite, enquanto ele preparava borsch, ela abraçou-o pelas costas e nem percebeu por que razão o beijou entre as omoplatas.

— O que foi isso? — sorriu ele, pousando a mão sobre a dela.

— Nada, — respondeu ela.

— Sinto-me simplesmente bem contigo.

A história não terminou com uma reconciliação com a antiga família.

Polina nunca mais falou com a mãe, o padrasto, o ex-marido ou a irmã.

Irina crescia, corria por todo o lado e balbuciava, chamando avô a Pavel Nikolayevich.

— Sabes, pai, — disse Polina certo dia, — as coisas mais sólidas da vida não se constroem com laços de sangue, mas com quem ficou quando tudo se tornou difícil.

— Muito sábio, — assentiu ele.

— Foste tu que inventaste?

— Li isso algures, — riu-se ela.

— Mas só contigo consegui compreender verdadeiramente.

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