đŸ”ș— Eu sĂł devo alguma coisa Ă  minha mĂŁe, mas a vocĂȘ nĂŁo devo nada — disparou o marido. Ele nĂŁo deveria ter dito isso na frente das crianças


— Stas, vocĂȘ poderia pelo menos tirar o seu prato da mesa, nĂŁo? — disse Veronika com suavidade, quase com carinho, enquanto servia o jantar Ă s crianças.

— Suas mãos não servem apenas de enfeite.

— Eu tiro, eu tiro — respondeu ele, fazendo um gesto de desdĂ©m sem desviar os olhos do telefone.

— VocĂȘ parece um disco riscado, pelo amor de Deus.

— Eu não sou um disco riscado.

— Só estou pedindo.

— E com educação, aliás.

Ela sorriu levemente com o canto dos lĂĄbios.

— Dizem que a educação não custa nada, mas pode comprar tudo.

— LĂĄ vem vocĂȘ bancar a esperta de novo — resmungou Stas.

Timur, de doze anos, pousou o garfo e olhou para o pai por baixo das sobrancelhas.

Sonia balançava as pernas debaixo da mesa e cantarolava baixinho.

Aquela era uma noite comum, calorosa e familiar, e até então nada parecia anunciar uma tragédia.

— Escute, estive pensando em uma coisa — continuou Veronika, sentando-se diante dele.

— Nós ajudamos sua mãe todos os meses.

— E isso está certo, não estou discutindo.

— Mas tambĂ©m seria bom comprar os remĂ©dios do meu pai, porque a pressĂŁo dele anda oscilando.

— Pronto, começou — disse Stas, finalmente levantando os olhos.

— Dinheiro, dinheiro, dinheiro.

— NĂŁo Ă© uma questĂŁo de “dinheiro, dinheiro, dinheiro”.

— É o seu sogro, que, aliĂĄs, levava vocĂȘ para pescar todos os verĂ”es.

— E daí?

— Eu pedi para ele fazer isso?

— Stas.

Ela suspirou, ainda mantendo a paciĂȘncia.

— Eu não estou brigando.

— Só quero que seja justo.

— Igual para os dois lados.

— Nós somos uma equipe.

— A equipe Ă© uma sĂł, mas o capitĂŁo aqui sou eu — debochou ele.

Veronika ficou em silĂȘncio por um momento, alisando a toalha da mesa com a palma da mĂŁo.

Ela estava acostumada com a aspereza dele e aprendera a apagar seus acessos de raiva como se apaga uma faĂ­sca antes que ela se transforme em incĂȘndio.

— Está bem, vamos fazer de outra forma — disse ela calmamente.

— Eu ganhei um bom dinheiro este mĂȘs.

— Parte dele vai para o meu pai.

— É o meu dinheiro, entĂŁo isso nĂŁo diz respeito a vocĂȘ.

— Está bem?

— Não está bem — cortou Stas.

— Em uma famĂ­lia, tudo Ă© de todos.

— Ah, agora tudo Ă© de todos?

Ela riu baixinho.

— É impressionante como a contabilidade muda depressa quando isso lhe convĂ©m.

— O que vocĂȘ estĂĄ insinuando? — perguntou ele, elevando a voz.

— Não estou insinuando nada, estou falando diretamente.

— Quando sua mĂŁe precisa de alguma coisa, isso Ă© “sagrado”.

— Quando meu pai precisa, vira “dinheiro, dinheiro, dinheiro”.

— VocĂȘ se escuta?

— O que eu escuto Ă© vocĂȘ me tirando do sĂ©rio! — gritou Stas, batendo a palma da mĂŁo na mesa.

— Já estou farto dessas suas contas.

Sonia parou de cantarolar e ficou quieta.

Sem que ninguém percebesse, Timur levou a mão para debaixo da mesa, encontrou o telefone no bolso e ligou a cùmera.

Ele nĂŁo sabia por quĂȘ.

Apenas sentia que aquilo precisava ficar registrado.

— Stas, as crianças estão aqui — disse Veronika, baixando a voz.

— Não vamos fazer isso na frente delas.

— E por que não?

— Deixe que saibam como as coisas funcionam! — respondeu ele, recostando-se na cadeira e disparando com uma espĂ©cie de orgulho cruel:

— Eu sĂł devo alguma coisa Ă  minha mĂŁe, mas a vocĂȘ nĂŁo devo nada!

As palavras ficaram suspensas no ar, pesadas como pedras.

Veronika não gritou nem levou a mão ao coração.

Apenas olhou para o marido enquanto a Ășltima esperança de ser compreendida se apagava em seus olhos.

— Nada, então — repetiu ela com serenidade.

— Doze anos e, no fim, “nada”.

— Mas o que eu disse de errado? — perguntou Stas.

Ele mesmo jĂĄ havia percebido que passara dos limites, mas nĂŁo sabia recuar.

— Minha mãe me deu à luz e me criou.

— E vocĂȘ


— VocĂȘ Ă© minha esposa.

— Esposas vĂȘm e vĂŁo.

— Pai, o que estĂĄ acontecendo com vocĂȘ? — perguntou Timur, e a mĂŁo que segurava o telefone tremeu levemente.

— Não se pode falar assim.

— Não se meta, moleque! — berrou o pai.

— Os adultos estão conversando.

— Isso nĂŁo Ă© uma conversa — disse Veronika em voz baixa.

— É um diagnóstico.

— Que diagnóstico?!

— Ganñncia, Stas.

— E medo.

— Uma pessoa gananciosa sempre tem medo de que lhe tirem alguma coisa.

— AtĂ© mesmo aquilo que ela nunca teve.

Ela se levantou e recolheu os pratos.

— Sonia, termine de comer, querida.

— Timur, ajude sua irmã.

Stas bufou e voltou a mergulhar no telefone, considerando a conversa encerrada.

Ele nem percebeu o filho mais velho sair silenciosamente para o corredor, nem os dedos do menino correrem depressa pela tela.

Um minuto depois, o vídeo curto jå circulava pela internet, indo parar exatamente onde era muito esperado, embora ninguém ainda soubesse disso.

Uma hora depois, o avĂŽ viu o vĂ­deo, aquele mesmo homem que amava os netos mais do que a prĂłpria vida.

A casa de campo de Viktor Pavlovich ficava no alto de uma colina, cercada por velhas macieiras.

Ele estava sentado na varanda, segurando o telefone com o braço estendido e assistindo à gravação pela terceira vez.

Seu rosto permanecia imĂłvel.

— “A vocĂȘ, nĂŁo devo nada” — repetiu em voz alta as palavras do genro.

— Vejam só.

— Que grande filósofo apareceu.

Naquela noite, ele mesmo ligou para a filha.

Sua voz estava tranquila, mas Veronika percebeu imediatamente algo novo nela, algo duro como pedra.

— VocĂȘ viu o vĂ­deo? — perguntou o pai.

— Que vídeo? — perguntou ela, sem entender.

— O que o nosso Timur gravou.

— Ele me enviou.

— Estou aqui sentado, admirando o seu querido marido.

— Pai


Veronika levou a mĂŁo Ă  testa.

— Eu nĂŁo queria que vocĂȘ visse isso.

— E fez mal em não querer — respondeu Viktor Pavlovich.

— Durante anos, meu genro dizia que eu era como um pai para ele.

— Pesca, sauna, presentes nas festas.

— E agora descubro que ele “só deve alguma coisa à própria mãe”.

— Bem, obrigado pela sinceridade.

— Ainda que tardia.

— Por favor, não se preocupe comigo.

— NĂŁo estou preocupado com vocĂȘ, minha filha.

— Estou preocupado com meus netos.

— Eles crescem vendo um homem humilhar a mãe deles dentro de casa.

— E começam a pensar que isso Ă© normal.

Ele permaneceu em silĂȘncio por alguns instantes.

— E vocĂȘ, o que decidiu?

— Já decidi — respondeu Veronika com firmeza.

— Não vou mais tolerar isso.

— Só ainda não sei como fazer.

— O “como” agora Ă© problema meu — disse o pai.

— Venha para cá amanhã.

— Traga as crianças.

— Nós vamos conversar como gente civilizada.

— Aonde vocĂȘ pensa que vai? — perguntou Stas, parado na porta com os braços cruzados.

— Para a casa do seu paizinho?

— Para a casa dele — confirmou Veronika calmamente enquanto fechava o casaco de Sonia.

— Ele estĂĄ com saudade dos netos e quer vĂȘ-los.

— E eu, pelo visto, não fui convidado? — debochou o marido.

— Uma reunião de família sem o chefe da família?

— O chefe da família anunciou ontem que não me deve “nada” — respondeu ela, ajeitando o gorro da filha.

— Então ele pode descansar das responsabilidades.

— Ele merece.

— VocĂȘ vai me lembrar disso atĂ© o fim da vida?

— Não, Stas.

— AtĂ© o fim da vida Ă© tempo demais.

— Meus planos são mais curtos.

— Que planos? — perguntou ele, desconfiado.

— VocĂȘ vai descobrir em breve — respondeu ela com um sorriso tĂŁo leve que o deixou inquieto.

— PaciĂȘncia, meu amigo.

— Dizem que paciĂȘncia e trabalho vencem tudo.

— E eu tenho bastante dos dois.

Stas quis responder algo maldoso, mas nĂŁo encontrou palavras.

Veronika pegou as crianças pelas mãos e saiu, fechando a porta sem bater e sem fazer escùndalo.

E foi justamente aquele silĂȘncio que o assustou.

Na casa de Viktor Pavlovich, havia cheiro de maçãs e madeira.

As crianças correram para o jardim, enquanto pai e filha se sentaram à grande mesa da cozinha.

— EntĂŁo Ă© assim — começou ele, servindo o chĂĄ.

— A quem pertence o apartamento onde vocĂȘs moram?

— Era da vovó, da sua mãe — respondeu Veronika.

— Eu o recebi por herança, conforme o testamento.

— Stas sempre dizia que era “nosso”.

— Ah, ele dizia isso — respondeu Viktor Pavlovich, sorrindo sob o bigode.

— Ele tem uma matemática muito conveniente.

— O que Ă© dos outros Ă© de todos, e o que Ă© de todos Ă© dele.

— Onde estão os documentos?

— Comigo.

— Na pasta de papĂ©is.

— Agora estamos falando sĂ©rio — disse o pai, assentindo.

— Sabe, minha filha, existe uma boa regra.

— NĂŁo puxe o gato pelo rabo se jĂĄ decidiu que o rabo Ă© inĂștil.

— Se ele disse que não lhe deve “nada”, liberte o homem da dívida.

— E liberte-se dele tambĂ©m.

— É exatamente nisso que estou pensando — confessou Veronika.

— Só estou um pouco assustada.

— As crianças, o hábito, doze anos.

— O hĂĄbito Ă© uma coisa traiçoeira — observou Viktor Pavlovich.

— Há quem viva a vida inteira por hábito e depois se pergunte por que tudo parece tão vazio.

— VocĂȘ nĂŁo Ă© assim.

— VocĂȘ puxou a mim.

— Teimosa.

— Obrigada, pai.

— Não agradeça.

— Apenas escute.

— Vou ajudá-la no que puder.

— Mas a decisão deve ser sua e precisa ser rápida.

— Quanto mais se demora para arrancar um dente doente, mais dói.

Dois dias depois, Veronika ligou para a amiga Zhanna.

Ela correu até o pequeno café da esquina onde as duas gostavam de se sentar na época da faculdade.

— Vamos, conte tudo — disse Zhanna, deixando-se cair na cadeira à frente dela.

— Pelo telefone, vocĂȘ parecia um general antes de uma ofensiva.

— Estou deixando Stas — anunciou Veronika sem introdução.

— Certo.

Zhanna afastou a xĂ­cara.

— Finalmente.

— Achei que vocĂȘ nunca fosse dizer isso.

— Eu tambĂ©m achava — respondeu Veronika com um sorriso amargo.

— Mas então ele declarou na frente das crianças que não me devia “nada”.

— E sabe de uma coisa?

— Sou grata a ele.

— Ele abriu meus olhos melhor do que qualquer sábio.

— E agora?

— O apartamento Ă© meu, segundo o testamento.

— Isso jĂĄ Ă© metade do caminho.

— Eu tenho trabalho.

— Meu pai está por perto.

— O que mais preciso esperar?

— E Stas?

— Ele sabe?

— Vai saber no momento certo — respondeu Veronika, mexendo o cafĂ© com a colher.

— Entende, Zhanna, durante muito tempo eu pensei que amar fosse suportar alguĂ©m.

— Mas descobri que amor Ă© quando ninguĂ©m precisa suportar vocĂȘ.

— Nossa, anote isso em algum lugar — assobiou a amiga.

— VocĂȘ ficou tĂŁo sĂĄbia que chega a dar medo.

— Não fiquei sábia.

— Apenas cansei.

— Conhece o ditado de que, para quem está com fome, o pão parece valer mais do que dinheiro?

— Eu estive faminta por respeito.

— Durante doze anos.

— E basta uma Ășnica palavra honesta para a gente se sentir saciada, mesmo que ela seja cruel.

— E não sente pena de destruir tudo?

— Destruir o quĂȘ? — perguntou Veronika, dando de ombros.

— Uma casa em que me tratavam como empregada?

— Aquilo não era um lar.

— Era, como se costuma dizer, um hotel com serviço ruim.

Enquanto isso, Stas começou a desconfiar de que algo estava errado.

À noite, ligou para a esposa com uma voz estranhamente melosa.

— Vera, por que vocĂȘ estĂĄ demorando tanto na casa do seu pai?

— A casa estĂĄ completamente vazia sem vocĂȘs.

— Está com saudade? — perguntou ela ironicamente.

— E como não estaria?

— Não há nem quem lave minhas meias — brincou ele, mas se calou imediatamente ao perceber que novamente havia dito a coisa errada.

— Está vendo? — respondeu Veronika com suavidade.

— VocĂȘ mesmo explicou tudo.

— Não há quem lave suas meias.

— VocĂȘ nĂŁo disse: “Minha esposa estĂĄ fazendo falta.”

— VocĂȘ fica se agarrando Ă s palavras!

— Não estou me agarrando a nada.

— Estou ouvindo.

— Com muita atenção — disse ela.

— VocĂȘ falou muitas palavras bonitas sobre amor.

— Mas a verdade apareceu em uma Ășnica frase sobre dĂ­vidas.

— As palavras mentem, Stas, mas a entonação nunca mente.

— LĂĄ vem vocĂȘ citar seus livros outra vez — respondeu ele, irritado.

— Quando vai voltar para casa?

— Em breve tudo estará resolvido — respondeu ela calmamente.

— Boa noite, Stas.

Ela desligou, deixando-o sozinho com a ansiedade crescente.

— Vera, vocĂȘ exagerou — afirmou Stas quando ela finalmente voltou ao apartamento para buscar algumas coisas.

— Eu disse aquilo de cabeça quente.

— Vamos destruir uma vida inteira por causa disso?

— VocĂȘ disse — respondeu Veronika, colocando os livros das crianças em uma bolsa.

— Na frente delas.

— E com tanto prazer que parecia estar recebendo uma medalha.

— Está bem, me desculpe — forçou ele, e a palavra pareceu custar-lhe um enorme esforço.

— Satisfeita?

— Eu pedi desculpas.

— Um pouco tarde demais, meu amigo — respondeu ela, fechando a bolsa.

— Sabe, um pedido de desculpas Ă© como um guarda-chuva.

— É Ăștil quando chega a tempo.

— Depois da tempestade, já não serve para nada.

— VocĂȘ estĂĄ zombando de mim?! — explodiu Stas.

— Eu me humilho diante dela e ela fica fazendo piada!

— Eu não estou brincando — respondeu ela, com a voz mais firme.

— Eu só não choro mais.

— As lágrimas aparecem quando ainda se espera alguma coisa.

— Mas eu já entendi tudo.

— O que vocĂȘ entendeu? — perguntou ele, dando um passo em sua direção.

— Que um homem que calcula em voz alta a quem deve algo e a quem nĂŁo deve nada nĂŁo Ă© um marido.

— É uma calculadora de bigode — respondeu Veronika friamente.

— E sabe de uma coisa?

— Prefiro uma calculadora comum.

— Pelo menos ela não mente sobre amor.

Stas sentiu o chão desaparecer sob seus pés e fez o que pessoas fracas fazem quando ficam encurraladas.

Começou a ameaçå-la.

— VocĂȘ nĂŁo vai a lugar nenhum — sibilou.

— Tem duas crianças para cuidar.

— Quem vai querer vocĂȘ?

— Ainda vai voltar correndo.

— Nossa, que interessante — respondeu Veronika, quase divertida.

— Primeiro, vocĂȘ nĂŁo me deve “nada”.

— Depois, de repente, eu não posso ir a lugar nenhum.

— Decida-se, capitão.

— Estamos afundando ou navegando?

— O apartamento Ă© dos dois! — gritou ele.

— Eu vivi aqui por doze anos!

— Viveu — concordou ela.

— Como hóspede.

— E o apartamento, meu amigo, Ă© meu.

— Eu o herdei da minha avó por testamento.

— Quer ver os documentos?

— Meus papĂ©is estĂŁo todos em ordem.

— Ao contrĂĄrio da sua consciĂȘncia.

— Isso não pode ser verdade! — exclamou Stas, empalidecendo.

— VocĂȘ estĂĄ blefando!

— Verifique — respondeu Veronika, dando de ombros.

— Por que eu mentiria?

— Eu nĂŁo sou vocĂȘ.

— Não confundo minhas próprias dívidas.

— Isso


— Isso Ă© uma crueldade! — gritou ele.

— VocĂȘ quer me jogar na rua!

— Não na rua.

— Para a casa da sua mãe — corrigiu ela com calma.

— Afinal, vocĂȘ deve “tudo” a ela.

— Então poderá pagar pessoalmente a sua dívida.

— Morando com ela.

— Tenho certeza de que ficará muito feliz.

— VocĂȘ nĂŁo entende o que estĂĄ fazendo! — gritou Stas, andando de um lado para o outro pela sala.

— As crianças vão ficar sem pai!

— As crianças vĂŁo ficar com alguĂ©m que as respeita — respondeu Veronika sem elevar a voz.

— E vocĂȘ poderĂĄ vĂȘ-las.

— Eu não sou um monstro.

— Apenas coloquei a casa em ordem.

— O que Ă© inĂștil vai para fora.

— InĂștil?!

— Eu sou inĂștil?! — perguntou ele, sufocado de indignação.

— Como se chama alguĂ©m que, durante doze anos, se considerou o capitĂŁo de um navio que nem sequer lhe pertencia? — perguntou ela com um sorriso.

— Passageiro clandestino, Stas.

— VocĂȘ era um passageiro clandestino.

— E viajava com todo o conforto.

— Eu sustentava vocĂȘ! — gritou ele.

— Sustentava? — perguntou Veronika, erguendo uma sobrancelha.

— Stas, vamos falar com sinceridade.

— VocĂȘ ajudava sua mĂŁe.

— Esse Ă© o primeiro ponto.

— Eu cuidava da casa e das crianças.

— Esse Ă© o segundo.

— Some e divida, e verá um resultado interessante.

— VocĂȘ vai gostar.

— Principalmente do nĂșmero final.

Ele abriu a boca para protestar, mas nĂŁo encontrou o que dizer.

Toda a antiga confiança dele se desfez como um castelo de areia esmagado por um pé.

O desfecho aconteceu em um pequeno e claro apartamento no terceiro andar, o mesmo que Veronika havia herdado da avĂł.

— Mãe, onde o papai vai morar agora? — perguntou Sonia, apertando um brinquedo contra o peito.

— Na casa da vovó — respondeu Veronika com suavidade.

— Foi ele quem escolheu isso, querida.

— Vamos visitá-lo? — perguntou Timur.

— Claro — respondeu ela, assentindo.

— Se ele convidar vocĂȘs com carinho.

— AliĂĄs, vocĂȘ fez bem em gravar aquele vĂ­deo.

— Embora eu tambĂ©m precise repreendĂȘ-lo um pouco, porque nĂŁo Ă© certo filmar alguĂ©m escondido.

— Eu não sabia por que estava fazendo aquilo — confessou o menino.

— Apenas senti que precisava.

— Para que depois ninguĂ©m dissesse que nada tinha acontecido.

— VocĂȘ Ă© muito inteligente — disse ela, bagunçando os cabelos dele.

— Igualzinho ao seu avî.

Viktor Pavlovich chegou naquela mesma noite com mantimentos, ferramentas e seu sorriso habitual sob o bigode.

— Bem, receba a ajuda para a mudança — disse ele, colocando uma cesta de maçãs sobre a mesa.

— Vou prender essa prateleira e montar o armário.

— E, se encontrar meu genro, transmitirei meus mais calorosos cumprimentos.

— Ele jĂĄ nĂŁo Ă© mais seu genro, pai — respondeu Veronika, sorrindo.

— Nesse caso, mais cumprimentos ainda — riu o velho.

— Sabe o que vou lhe dizer, minha filha?

— VocĂȘ fez bem em nĂŁo esperar.

— O problema nĂŁo Ă© uma pessoa tropeçar.

— O problema começa quando se constrói uma vida inteira ao redor desse tropeço.

— VocĂȘ nĂŁo fez isso.

— Tomou sua decisão de uma vez.

— Eu estava com medo — confessou ela.

— Coragem nĂŁo Ă© nĂŁo sentir medo — observou o pai, tirando uma chave de fenda da caixa.

— Coragem Ă© sentir medo e mesmo assim fazer o que precisa ser feito.

— E foi exatamente isso que vocĂȘ fez.

— E se eu tivesse perdoado?

— Perdoar Ă© possĂ­vel — respondeu Viktor Pavlovich, assentindo.

— O perdĂŁo Ă© uma questĂŁo do coração.

— Mas voltar para alguĂ©m que nĂŁo lhe dĂĄ nenhum valor jĂĄ nĂŁo Ă© uma questĂŁo do coração.

— É uma questão de memória.

— Uma memĂłria curta e ingĂȘnua.

— Mas vocĂȘ herdou a memĂłria do seu pai.

— Ela Ă© forte.

Stas ligou tarde da noite, quando as crianças jå dormiam.

Sua voz tremia, fosse de raiva ou de confusĂŁo.

— Vera, pare com esse teatro.

— Eu


— Vou refletir sobre o meu comportamento.

— É tarde demais para refletir, meu amigo — respondeu ela, cansada.

— O trem jĂĄ partiu, e vocĂȘ ficou na plataforma com uma passagem vĂĄlida para ontem.

— AtĂ© quando vocĂȘ vai falar desses trens?! — explodiu ele.

— Aqui não há nem quem faça borscht para mim!

— Minha mãe fica me atormentando da manhã à noite!

— Está vendo? — respondeu Veronika com suavidade.

— Mais uma vez, vocĂȘ fala de borscht e de serviço.

— Nenhuma palavra sobre as crianças.

— Nenhuma palavra sobre mim.

— Stas, mesmo agora vocĂȘ nĂŁo se escuta.

— O que eu deveria dizer?! — perguntou ele, desnorteado.

— Nada — respondeu ela calmamente.

— Foi vocĂȘ mesmo quem decidiu isso.

— Lembra?

— “A vocĂȘ, nĂŁo devo nada.”

— Então cumpra sua palavra.

— Pelo menos nisso, seja homem.

Houve silĂȘncio do outro lado da linha.

Stas nĂŁo encontrou resposta, porque nĂŁo havia resposta.

Aquele que passara a vida contando as dĂ­vidas dos outros ficou sozinho diante das prĂłprias, e descobriu que elas eram muito mais difĂ­ceis de calcular.

— Timur, Sonia, venham tomar cafĂ© da manhĂŁ! — chamou Veronika na manhĂŁ seguinte, arrumando os pratos na nova cozinha.

— MĂŁe, vocĂȘ estĂĄ triste? — perguntou Sonia, subindo na cadeira.

— Não, querida — respondeu ela, acariciando o rosto da filha.

— Sabe, existe tristeza e existe alívio, que no começo se parece com tristeza.

— O que eu sinto Ă© a segunda coisa.

— O que Ă© alĂ­vio? — perguntou a menina, sem entender.

— É quando vocĂȘ carrega uma mochila pesada durante muito tempo — explicou Veronika com um sorriso.

— Depois a tira e se surpreende ao perceber como o cĂ©u Ă© alto.

— A mochila do papai era pesada? — perguntou Timur.

— A mochila do papai pertencia a outra pessoa — respondeu ela.

— Eu a carreguei durante doze anos pensando que era minha.

— Mas ele não me devia “nada”.

— Pois bem, agora eu tambĂ©m nĂŁo devo nada a ele.

— Assim Ă© mais justo.

As crianças trocaram olhares e começaram a rir.

Elas nĂŁo entendiam tudo completamente, mas sentiam que o ar da casa havia ficado mais leve.

Aquele riso infantil, leve e puro, era a melhor resposta para todos os que um dia acreditaram que o amor pudesse ser medido em dĂ­vidas.

Viktor Pavlovich passou para deixar alguns mantimentos e encontrou aquela cena tranquila.

— Ora, parece que há uma verdadeira reunião acontecendo aqui — disse ele, sorrindo.

— O que estamos discutindo, senhoras e senhores?

— Estamos falando sobre como o cĂ©u Ă© alto, vovĂŽ — anunciou Timur.

— É um bom assunto — respondeu o velho, assentindo e piscando para a filha.

— O importante Ă© nunca abaixar a cabeça.

— Sabe o que vou lhe dizer por fim, minha filha?

— A vida Ă© como um jardim.

— Um galho podre precisa ser cortado a tempo para não matar a árvore inteira.

— Se vocĂȘ tiver pena dele, destruirĂĄ tudo.

— Eu o cortei, pai — respondeu Veronika calmamente.

— E parece que a árvore começou a respirar novamente.

— Exatamente — respondeu ele, acariciando a cabeça da neta.

— E o querido ex-genro que cozinhe o próprio borscht agora.

— JĂĄ que Ă© um contador tĂŁo dedicado Ă s dĂ­vidas, que equilibre sozinho seus dĂ©bitos e crĂ©ditos.

— Sem nós.

Veronika riu de forma leve, livre e sincera.

NĂŁo havia raiva nem amargura naquele riso.

Havia apenas a serenidade de alguém que finalmente deixara de pagar as contas dos outros e decidira viver segundo as próprias regras.

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