— Afinal, você me deixou, uma velha, por uma mulher jovem. Por que voltou? Ficou sabendo do dinheiro? — a esposa riu na cara do marido…

Galina Petrovna estava junto à janela da cozinha, observando a chuva apagar os contornos dos terrenos das casas de campo atrás da cerca.

Vinte anos antes, ela sonhava com uma casa assim, com jardim, e imaginava como plantaria macieiras e faria canteiros de flores.

Agora, porém, morava em um apartamento de três quartos no quarto andar, e a única vegetação que via eram as árvores mirradas do pátio.

— Galka, onde está minha camisa branca? — ouviu-se a voz de Viktor vindo do quarto.

— Está pendurada no guarda-roupa — respondeu ela, sem se virar.

— Não estou vendo.

Galina suspirou e foi procurar a camisa.

Viktor estava diante do guarda-roupa aberto, vestindo apenas a cueca, com a barriga ligeiramente caída sobre o elástico.

Tinha quarenta e cinco anos, mas se comportava como um adolescente incapaz de encontrar as próprias meias.

— Aqui está — disse ela, entregando-lhe a camisa.

— Obrigado — resmungou ele, sem olhar para ela.

— Hoje vou ficar até tarde.

Temos uma reunião com os parceiros de Moscou.

— De novo? — Galina sentou-se na beirada da cama.

— Vitia, talvez possamos ir ver algumas casas de campo no fim de semana?

Vi um anúncio de um terreno barato em Pavlovka.

Viktor abotoou a camisa e olhou para ela pelo espelho.

— Galka, para que precisamos de uma casa de campo?

Seria apenas mais uma despesa.

Além disso, eu não tenho tempo nenhum.

Os negócios não esperam.

— Mas nós tínhamos conversado… — começou ela.

— Conversamos e conversamos — interrompeu ele.

— Falamos sobre muitas coisas.

Mas a vida não é feita de conversas.

É feita de dinheiro, trabalho e responsabilidade.

E não de ficar cavando canteiros.

Galina permaneceu em silêncio.

Ela havia aprendido a ficar calada ao longo daqueles anos.

No começo, ele estava apenas ocupado, depois passou a se cansar, e no último ano havia se tornado estranhamente agressivo.

Às vezes dizia que ela tinha engordado, outras vezes insinuava que as demais mulheres cuidavam melhor de si mesmas.

— Vitia, talvez possamos pelo menos ir fazer um churrasco?

Na casa de campo do Serioja?

— Serioja é preguiçoso.

Em vez de ganhar dinheiro, fica mexendo na horta.

Não quero perder meu tempo com ele.

Viktor ajeitou a gravata e olhou para Galina.

— A propósito, talvez você devesse se matricular em uma academia?

Você perdeu completamente a forma.

Antes era magra, mas agora… — ele não terminou a frase, apenas deu de ombros de maneira eloquente.

Galia sentiu a mágoa tomar conta de todo o seu corpo.

Levantou-se e foi para a cozinha.

As lágrimas subiram à garganta, mas ela as conteve.

Não havia tempo para chorar, pois precisava preparar o café da manhã.

Durante o café da manhã, Viktor lia as notícias no celular.

— Vitia, você se lembra de quando éramos jovens?

Sonhávamos com uma casa e com filhos.

— Não conseguimos ter filhos — resmungou ele, sem tirar os olhos da tela.

— E uma casa… uma casa custa dinheiro.

Muito dinheiro.

Dinheiro que não temos.

— Poderíamos ter, se você não gastasse tudo em restaurantes e viagens de trabalho.

Viktor ergueu os olhos.

— Galka, não comece.

Eu trabalho para que possamos viver dignamente.

E você só sabe reclamar.

— Que reclamações?

Eu só quero que sejamos felizes.

— Felicidade é ter dinheiro e saúde.

E não ficar cavando uma horta.

Depois do café da manhã, Viktor saiu, e Galina sentou-se junto à janela com uma xícara de café.

Ela pensava em como o marido havia mudado.

Antes, ele era um sonhador, e os dois faziam planos juntos.

Agora, porém, havia se tornado duro e cínico.

Como se a vida o tivesse quebrado.

No sábado, Galina foi ao centro fazer compras.

Estava saindo de uma loja quando viu uma figura conhecida.

Viktor estava entrando em um táxi.

Mas não estava sozinho, pois havia uma jovem ao lado dele.

Galina a reconheceu.

Era Aliona, a secretária da empresa em que Viktor trabalhava.

Alta, magra, com cerca de vinte e cinco anos.

Eles conversavam sobre alguma coisa, e Aliona ria, inclinando a cabeça de forma coquete.

Galina ficou paralisada.

Seu coração batia tão forte que ela temeu que os transeuntes pudessem ouvi-lo.

O táxi foi embora, e ela continuou parada, segurando as sacolas nas mãos.

Em casa, não conseguia encontrar sossego.

Andava de um lado para outro pelo apartamento e tentava ler ou assistir televisão.

Nada ajudava.

Quando Viktor voltou tarde da noite, ela perguntou:

— Como foi no trabalho?

— Normal.

Estou muito cansado.

Fiquei examinando documentos até tarde.

— Com quem você trabalhou?

— Sozinho.

Aliona me ajudou um pouco, mas foi embora cedo.

Galina assentiu.

Então ele estava mentindo.

Mentia e nem sequer corava.

Na semana seguinte, sua amiga Tania a convidou para comemorar o aniversário em um restaurante.

Galina não queria ir, mas Tania insistiu.

— Galka, você virou uma verdadeira reclusa.

Precisa sair e ver gente.

O restaurante estava barulhento e animado.

Galina estava sentada à mesa, sorria e participava da conversa, mas seus pensamentos estavam longe.

De repente, ela os viu.

Viktor e Aliona estavam sentados em um canto distante do salão, a uma mesa para dois.

Ele dizia alguma coisa, enquanto ela ria e tocava a mão dele.

Galina sentiu tudo dentro de si gelar.

Pediu licença às amigas e foi ao banheiro.

Ali, olhando-se no espelho, viu uma mulher cansada de quarenta anos, com olhos tristes.

Ela voltou para casa tarde.

Viktor já estava dormindo.

Na manhã seguinte, durante o café da manhã, ela perguntou:

— Onde você estava ontem?

— Em casa.

Você viu.

— Vitia, eu vi você no restaurante.

Com Aliona.

Viktor ficou imóvel, com a colher na mão.

— Estávamos discutindo assuntos de trabalho.

Um novo projeto.

— Em um restaurante?

À noite?

— Sim, em um restaurante.

O que há de estranho nisso?

Galina colocou a xícara sobre a mesa.

— Vitia, diga a verdade.

Você está tendo um caso com ela?

Eles permaneceram em silêncio durante alguns minutos.

Depois, Viktor suspirou.

— Sim.

Estou.

Galina esperava por aquelas palavras, mas ainda assim elas a atingiram como uma bofetada.

— Por quê?

— Entenda, Galka… — ele falava sem olhar para ela.

— Com ela, eu me sinto jovem.

Ela me admira e me considera bem-sucedido.

Mas com você… com você eu me sinto velho.

Somos como dois cavalos velhos presos ao mesmo arreio.

— Vinte anos, Vitia.

Estamos juntos há vinte anos.

— Eu sei.

Mas não quero passar o resto da vida como um velho.

Quero me sentir vivo.

— E agora?

— Vou embora.

Aliona aluga um apartamento, e vou me mudar para lá.

Viktor arrumou suas coisas no mesmo dia.

Galina não chorou, não implorou para que ele ficasse e não fez escândalo.

Apenas ficou sentada na cozinha, olhando pela janela.

Ao sair, ele disse:

— Desculpe, Galka.

Aconteceu assim.

— Sim — respondeu ela.

— Aconteceu assim.

Os primeiros dias depois da partida dele foram os mais difíceis.

O apartamento parecia enorme e vazio.

Galina não sabia o que fazer consigo mesma.

As amigas ligavam e propunham encontros, mas ela não queria ver ninguém.

Uma semana depois, sua mãe telefonou.

— Galochka, tenho uma notícia triste para você.

A tia Lida morreu.

— Que tia Lida? — Galina não entendeu imediatamente.

— A irmã da mamãe.

A que morava em Moscou.

Lembra que ela nos visitou há uns dez anos?

Galina se lembrava vagamente de uma mulher um tanto fria, vestida com um terno caro, que havia ficado pouco tempo na casa deles e passava o tempo todo falando ao telefone.

— Pois bem — continuou a mãe — ela deixou tudo para você.

— Como assim, tudo?

— Uma casa na região de Moscou, uma casa de campo e o dinheiro das contas bancárias.

Muito dinheiro.

Ela trabalhou a vida inteira como contadora-chefe em uma grande empresa e não teve filhos.

Decidiu deixar tudo para a sobrinha.

Galina ouvia sem conseguir acreditar.

Parecia um sonho.

— Mãe, quanto dinheiro é?

— Não sei exatamente.

Mas acho que é o suficiente para você não precisar trabalhar durante muitos anos.

Galina desligou o telefone e ficou sentada em silêncio por muito tempo.

Depois, levantou-se e aproximou-se da janela.

A chuva havia parado, e o céu de outono refletia-se nas poças.

Dois dias depois, ela foi à região de Moscou para conhecer a casa.

Era maior do que havia imaginado.

Tinha dois andares e um grande terreno onde cresciam velhas macieiras.

A casa precisava de reforma, mas era sólida e aconchegante.

Em pé no jardim, Galina sentiu pela primeira vez em muitos anos algo parecido com felicidade.

Ali, ela poderia finalmente fazer aquilo com que sonhara durante toda a vida.

Poderia criar um jardim de flores, plantar arbustos de groselha e construir um gazebo.

Naquela mesma noite, Viktor telefonou.

— Galka, posso ir até aí?

Precisamos conversar.

— Venha — respondeu ela calmamente.

Ele chegou uma hora depois.

Parecia mal, com o rosto abatido e olheiras escuras.

— Galka, eu errei.

Perdoe-me.

— Sente-se — disse ela.

— Quer chá?

— Quero.

Ele se sentou à mesa e endireitou os ombros como se ainda estivesse em sua própria casa.

— Sabe, com Aliona as coisas não foram tão simples.

Ela é jovem e quer diversão e presentes.

Mas eu não tenho tanto dinheiro quanto ela imaginava.

— Entendo — assentiu Galina enquanto servia o chá.

— E, de modo geral, com ela percebi como você é importante para mim.

Passamos tantos anos juntos.

Isso deve significar alguma coisa.

— Claro que significa.

A tranquilidade de Galina encorajou Viktor.

— Quero voltar, Galka.

Vamos começar tudo de novo.

Talvez possamos realmente comprar uma casa de campo, como você queria.

Galina colocou a xícara sobre a mesa e olhou para ele.

— Afinal, você me deixou, uma velha, por uma mulher jovem.

Por que voltou?

Ficou sabendo do dinheiro? — ela riu na cara dele.

Viktor empalideceu.

— Que dinheiro?

Do que você está falando?

— Da herança.

Da casa na região de Moscou.

Das contas bancárias.

Acha que eu não entendo?

— Galka, o que a herança tem a ver com isso?

Eu apenas percebi que…

— Você percebeu que não tinha dinheiro para sustentar uma amante jovem.

E aqui está a esposa com dinheiro.

Muito conveniente.

Viktor tentou pegar a mão dela, mas Galina se afastou.

— Não toque em mim.

— Galka, o que você está dizendo?

Que diferença faz haver dinheiro ou não?

O mais importante é que nós nos amamos.

— Nós nos amamos? — ela se levantou da mesa.

— Durante vinte anos, você me disse que eu era gorda, velha e que meus sonhos eram idiotas.

E agora, de repente, você me ama?

— Eu fui um idiota.

Perdoe-me.

— Não vou perdoar.

E não vou voltar para você.

— Mas para onde você vai?

O que vai fazer?

— Vou morar no campo.

Vou cultivar um jardim.

— Galka, pense bem.

Você é uma mulher da cidade e está acostumada ao conforto.

— Eu me acostumei com humilhações.

E agora quero perder esse hábito.

Durante mais meia hora, Viktor tentou convencê-la, prometeu mundos e fundos e jurou que a amava.

Mas Galina permaneceu irredutível.

— Vá embora, Vitia.

E não volte mais.

Quando ele saiu, Galina sentou-se à mesa com uma folha de papel e começou a fazer um plano.

Anotou quais flores plantaria na primavera, onde faria os canteiros de legumes e como arrumaria a casa.

Pela primeira vez em muitos anos, ela estava verdadeiramente feliz.

Não por causa do dinheiro nem por vingança contra o ex-marido, mas porque finalmente podia viver da maneira que desejava.

Na primavera, mudou-se para a casa na região de Moscou.

Os vizinhos, tanto os veranistas quanto os moradores locais, receberam-na com simpatia.

Uma vizinha idosa, Maria Ivanovna, ensinou-lhe os segredos da jardinagem, enquanto o vizinho Mikhail Stepanovich ajudou na reforma.

Galina trabalhava todos os dias no jardim.

Suas mãos ficaram bronzeadas e fortes, cabelos grisalhos apareceram em sua cabeça, mas seus olhos brilhavam.

Pela primeira vez em muitos anos, ela se sentia viva.

Às vezes, Viktor telefonava e tentava descobrir alguma coisa, mas ela respondia de forma breve e educada.

Como se falasse com um desconhecido.

No outono, enquanto colhia as maçãs, um pensamento lhe ocorreu.

Aquilo era a verdadeira felicidade.

Ela não estava no dinheiro nem nos homens, mas em fazer aquilo que se ama e ser quem realmente se é.

Galina gastava o dinheiro da tia com prudência, usando-o para reformar a casa, comprar mudas e cuidar das necessidades da propriedade.

O restante permanecia no banco e não despertava seu interesse.

Ela percebeu que riqueza não era a quantia existente em uma conta bancária, mas o fato de ser acordada pela manhã não por um despertador e pela irritação, e sim pelo canto dos pássaros e pela vontade de viver.

No inverno, matriculou-se em um curso de paisagismo e planejava abrir um pequeno viveiro de plantas na primavera.

A vida voltava a ganhar sentido e cores.

Viktor permaneceu na cidade com seus problemas, seu escritório e sua busca constante pela juventude.

Às vezes, Galina pensava nele sem raiva, quase com pena.

Ele havia procurado a felicidade no lugar errado e perdera não apenas Galina, mas também a si mesmo.

Mas aquela já não era a história dela.

A história de Galina estava apenas começando, na casa sob as velhas macieiras, entre as flores que ela plantava com as próprias mãos.

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