— A tua mãe tirou as minhas cortinas e pendurou os trapos velhos dela porque aqui é “demasiado sombrio”?!
Esta é a minha casa, não o museu dela sobre a vida quotidiana soviética!

Arranca imediatamente essa coisa horrível, ou eu mesma vou queimar essas cortinas no quintal!
Sou eu quem manda nesta casa! — gritava a esposa, que acabara de regressar de uma viagem de trabalho e encontrara no apartamento uma “renovação de designer” feita pela sogra.
O choque inicial com o que viu fez Margarita começar a gritar, mas apenas um segundo depois a sua voz baixou e dentro dela instalou-se um vazio gelado e calculista.
Ela ficou parada na entrada da espaçosa sala de estar, apertando com força a alça da cara mala de couro.
Margarita acabara de sair de um voo de cinco horas, vestia um rigoroso fato cor de grafite de corte impecável, e a cabeça ainda lhe latejava de cansaço depois de negociações exaustivas.
Aquele apartamento tinha sido criado como o seu lugar pessoal de força, um refúgio perfeito.
Minimalismo absoluto, superfícies pretas mate, iluminação oculta e grés porcelânico frio.
Agora, porém, o ar que antes era preenchido pelo aroma subtil de perfumes caros e difusores de sândalo estava completamente envenenado pelo cheiro a naftalina, lã velha e arrecadação húmida.
— Acalma-te e baixa o tom, Margarita — disse Oleg preguiçosamente, sem sequer pensar em mudar de posição.
Ele estava meio deitado, descontraído, no enorme sofá italiano, com o portátil sobre os joelhos, vestindo umas calças de casa já deformadas.
— Ninguém estragou nada.
A Zinaida Pavlovna apenas tornou a divisão mais acolhedora.
Tu estás sempre fora, e eu estou farto de viver numa sala de operações esterilizada.
Agora, pelo menos, há alguma coisa para olhar e algo que dá uma sensação de calor.
— Alguma coisa para olhar? — Margarita deu um passo firme em frente, deliberadamente sem tirar os sapatos de salto alto.
O fino salto agulha entrou com um estalido nas fibras grossas de um monstruoso tapete sintético bordô e mostarda que agora cobria o seu parquet italiano de luxo.
— Para este horrível acumulador de pó com o desenho desbotado?
Ou talvez para aquela aberração na parede?
Ela estendeu com repulsa a mão de manicure francesa perfeita na direção da parede, onde apenas uma semana antes estava uma instalação minimalista de metal escuro.
Agora, o espaço tinha sido impiedosamente desfigurado por uma enorme tapeçaria representando veados junto a um bebedouro.
O tecido barato formava ondas feias depois de ter sido pregado grosseiramente com pequenos pregos de construção diretamente na cara tinta mate cor de asfalto molhado.
— A minha mãe trabalhou o dia inteiro e carregou tudo isso através da cidade — rosnou o marido, fechando o portátil e atirando-o para a ponta do sofá.
— Nada nunca está bom para ti.
Não te importas minimamente com o esforço dos outros.
Ela queria fazer-te uma surpresa para quando voltasses.
São coisas de qualidade, naturais, que duraram décadas.
Não como o teu plástico sem alma e esse vidro frio que até dá arrepios.
— A tua mãe transformou um imóvel de luxo numa feira da ladra barata do século passado — disse Margarita, pronunciando cada palavra com precisão enquanto avançava lentamente para o centro da sala.
Os seus olhos analisavam a dimensão do desastre.
— Olha para esta mesa de centro.
Olha para os apoios de braços do meu sofá!
Ela aproximou-se da mesa baixa de vidro preto temperado.
Sobre a superfície perfeitamente brilhante, que refletia a luz dos focos embutidos, estavam espalhados uns espalhafatosos panos brancos feitos em croché.
As suas ridículas pontas rendadas pendiam dos lados.
Pedaços idênticos de fio repousavam nos encostos das poltronas e saíam debaixo da televisão.
Margarita pegou num deles com dois dedos, como se fosse um tecido contaminado, e atirou-o na direção de Oleg com repulsa evidente.
A pequena bola macia de fios brancos bateu-lhe no peito e caiu no sofá.
— Estás no teu perfeito juízo? — Oleg endireitou-se bruscamente, com manchas vermelhas a aparecerem-lhe no rosto devido à raiva crescente.
— Estás a comportar-te como uma egoísta completa.
Isto é apenas decoração!
Se isso é assim tão importante para ti, pega nelas e guarda-as cuidadosamente no armário.
Para quê fazer um escândalo do nada?
Podias pelo menos mostrar um pouco de gratidão básica por uma pessoa adulta!
— Gratidão por vandalismo?
Isto chama-se invasão descarada e destruição da propriedade alheia, Oleg — respondeu Margarita, cruzando os braços sobre o peito e sentindo fisicamente as têmporas pulsarem por causa daquele cheiro estranho.
— Investi uma fortuna neste interior.
Escolhi pessoalmente cada tonalidade das superfícies, cada linha do mobiliário, para poder regressar à limpeza perfeita depois de um trabalho pesado.
E tu ficaste aqui sentado a assistir enquanto ela martelava pregos nas minhas paredes?
— Eu não sou obrigado a prestar-te contas de cada passo que dou ou das ações da minha família na nossa casa — respondeu o marido duramente, levantando-se.
Ele ergueu-se sobre ela, tentando intimidá-la com a sua altura, mas a esposa nem sequer se mexeu.
— Eu gosto deste tapete.
É quente andar descalço sobre ele.
E gosto destas tapeçarias.
Criam um ambiente normal.
Pára de impor as tuas condições.
Eu também tenho direito ao conforto aqui.
— O teu conforto acaba exatamente onde começam a fealdade evidente e o mau gosto — disse Margarita, olhando para ele sem pestanejar, com uma expressão de repulsa pura e concentrada.
— Tu és simplesmente uma criatura sem espinha.
É mais fácil para ti deixá-la destruir a nossa casa do que dizer um “não” firme.
Tens exatamente dez minutos para enrolar este pesadelo bordô, arrancar os veados da parede e atirar tudo isso para o patamar.
— Não vou mexer-me daqui — sibilou Oleg entre os dentes cerrados, apertando os punhos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Nem uma única coisa vai sair desta sala.
Já está na hora de perceberes que o mundo não gira à volta do teu gosto artificial.
Habitua-te a viver rodeada de coisas normais.
Margarita assentiu lentamente.
Nem um único músculo se mexeu no seu rosto.
Ela percebeu que uma conversa construtiva já não era possível.
O homem que estava à sua frente tinha feito conscientemente a sua escolha, recusando-se a proteger o território comum dos dois.
Margarita não perdeu mais tempo com discussões inúteis.
Virou-se sobre os saltos altos e caminhou pelo longo corredor com passos firmes e precisos em direção à arrecadação.
A sua postura impecável revelava a determinação absoluta de uma pessoa habituada a resolver instantaneamente qualquer problema que aparecesse no seu caminho.
Abriu o painel escondido do armário embutido e retirou sem hesitar um rolo de sacos pretos espessos e extremamente resistentes para entulho, com capacidade para duzentos litros.
O som seco do plástico a ser rasgado ecoou pelo espaço estéril do apartamento.
Ao regressar à sala, abriu calmamente um enorme saco preto sem sequer tirar o caro casaco grafite.
Os espalhafatosos panos brancos foram os primeiros a cair na boca sem fundo do saco de plástico.
Margarita varreu-os da mesa de vidro com movimentos bruscos e cheios de repulsa, amassando impiedosamente o áspero fio sintético entre os dedos bem cuidados.
— Estás a comportar-te como uma mulher completamente desequilibrada — rosnou Oleg enquanto observava a esposa destruir sem piedade os vestígios do trabalho da mãe.
— São coisas normais.
Pára imediatamente com esta encenação.
— É lixo que pertence ao aterro municipal — respondeu Margarita friamente, passando aos apoios de braços da enorme poltrona de couro.
Outra porção de rendas de croché foi parar ao fundo do saco.
— E estou a limpar a minha propriedade da porcaria que trouxeram para aqui.
Se tu não és capaz de garantir nem sequer a segurança básica dos nossos bens enquanto eu ganho o dinheiro que pagou este mesmo parquet italiano, faço isso sozinha.
Depois de terminar com os objetos menores, avançou com segurança para a parede onde pendia a horrível tapeçaria com veados junto ao bebedouro.
Margarita agarrou com as duas mãos o tecido espesso e poeirento e puxou-o com força para si.
Ouviu-se um desagradável som de metal a raspar contra o reboco.
Os pequenos pregos de construção saltaram da cara superfície mate com estalidos secos, deixando horríveis crateras esbranquiçadas na parede perfeitamente lisa cor de asfalto molhado.
A pesada tapeçaria caiu com um baque surdo diretamente sobre as fibras sintéticas do tapete, levantando uma pequena nuvem de pó cinzento e irritante.
— Estragaste a parede! — Oleg avançou bruscamente, com o rosto deformado por uma fúria genuína.
— Estás a destruir com as tuas próprias mãos a renovação cara em que trabalhámos durante meio ano!
— Essa parede foi estragada pela tua mãe quando decidiu que tinha todo o direito de martelar pregos enferrujados nela — respondeu Margarita, empurrando com a ponta do sapato a tapeçaria amarrotada para mais perto do saco preto aberto.
— E tu estavas ali sentado naquele sofá, a assistir cobardemente a este repugnante ato de vandalismo.
A tua incapacidade de abrir a boca e defender a nossa casa provoca em mim apenas desprezo.
Tu não és um homem, Oleg.
És apenas um acessório confortável para sofá, sem opinião própria nem direito de voto neste território.
Ela inclinou-se, agarrou a borda do tapete bordô e mostarda, que cheirava insuportavelmente a arrecadação velha, e começou a enrolá-lo energicamente num rolo grosso.
A densa base sintética oferecia grande resistência, as fibras duras arranhavam a pele fina dos seus pulsos, mas Margarita trabalhava com uma precisão mecânica e assustadoramente metódica.
Naquele momento, Oleg, respirando pesadamente, correu para a extremidade oposta do tapete e agarrou-a firmemente com as mãos largas, puxando-a bruscamente para si.
— Larga esse maldito tapete! — rugiu ele, olhando de lado para a esposa.
Os dedos dele ficaram brancos devido ao enorme esforço.
— Estás obcecada por essa tua limpeza sem vida!
Tu não queres uma casa normal onde as pessoas possam viver, queres um pavilhão de exposições onde não se pode nem respirar nem existir.
És uma carreirista vazia e fria, incapaz de criar sequer o mínimo de aconchego!
Dá mesmo náuseas estar no mesmo espaço que tu!
— Para ti, aconchego significa viver num túmulo que fede a naftalina e acumular séculos de pó? — Margarita puxou ainda com mais força o tecido pesado para si, enquanto os seus saltos agulha deslizavam com um rangido desagradável sobre o grés porcelânico liso que começava a ficar exposto.
— Puxa com mais força, mostra pelo menos alguma vez essa tua miserável força física!
Defende este pedaço de sintético sujo como devias ter defendido a minha casa contra uma invasão externa!
Mas tu só sabes consumir aquilo que já está pronto.
Vives confortavelmente à minha custa, nas condições perfeitas que fui eu e só eu que criei, e quando chega o momento de fazer alguma coisa de verdade, escondes-te atrás da saia da mamã!
Ficaram frente a frente, separados pelo pedaço horrível de tecido velho esticado até ao limite.
O ar da espaçosa sala tornou-se espesso com o ódio mútuo, agora totalmente exposto.
Cada palavra lançada acertava em cheio, abrindo impiedosamente as feridas mais podres do casamento deles.
Margarita não tinha qualquer intenção de ceder nem um milímetro do seu espaço pessoal.
Ela puxou o tapete violentamente para cima e para o lado, fazendo o marido perder o equilíbrio e dar um passo extremamente desajeitado para a frente.
— Só tens inveja porque eu tenho uma família normal, onde as pessoas realmente se preocupam umas com as outras! — cuspiu Oleg, tentando recuperar o equilíbrio e voltando a agarrar a borda rígida do tapete detestado.
— Odeias a minha mãe apenas porque ela sabe ser uma mulher normal e viva, e não um robô frio e calculista num fato caro!
— O cuidado da tua mãe consiste em impor agressivamente o seu gosto miserável e ignorar completamente as regras dos outros — respondeu Margarita friamente, colocando a ponta metálica afiada do salto diretamente sobre os dedos do marido agarrados às fibras.
Oleg retirou instintivamente a mão e soltou um silvo abafado com a dor súbita e aguda.
Aproveitando a vantagem, Margarita enrolou imediatamente o resto do tapete num rolo apertado e incrivelmente pesado, esmagando-o impiedosamente com os pés, e começou a empurrar à força aquela massa resistente para dentro do saco preto de entulho.
O plástico espesso estalou ameaçadoramente nas costuras, mas suportou a enorme pressão.
Margarita colocou por cima a tapeçaria amarrotada com os veados, enterrando definitivamente sob ela os últimos vestígios da intervenção alheia.
Ela endireitou-se lentamente, ajeitou com um gesto habitual as abas do seu impecável casaco grafite e olhou para Oleg com o olhar gelado e triunfante de um predador que acabara de recuperar, numa batalha, o controlo absoluto sobre o seu território.
— Oleg, querido, pensei que depois do voo iam querer alguma coisa quente, por isso trouxe rolinhos de couve recheados e também fiz uns pastéis com fígado! — ouviu-se da entrada uma voz alta e confiante, acompanhada pelo som metálico de uma chave a girar na fechadura.
A pesada porta blindada abriu-se, deixando entrar no espaço estéril do apartamento a figura corpulenta de Zinaida Pavlovna.
Com ela entrou imediatamente uma nuvem densa e sufocante de cheiros a cebola demasiado frita, óleo de girassol barato e massa pesada com fermento.
Aquele odor culinário agressivo destruiu, logo nos primeiros segundos, o aroma subtil, quase impercetível, dos caros difusores com extrato de madeira de sândalo, transformando o ar numa substância insuportável e pegajosa.
A sogra segurava firmemente nas duas mãos sacos de plástico do supermercado completamente cheios, através dos quais se viam recipientes turvos com comida.
Depois de dar alguns passos sobre o grés porcelânico claro, Zinaida Pavlovna parou bruscamente.
O seu olhar fixou-se no enorme saco preto de entulho, completamente cheio, que se erguia no meio da sala de estar.
— O que está a acontecer aqui?
Porque deixaste esse saco no meio da sala, filho?
Começaram alguma obra inesperada? — perguntou em voz alta, dirigindo-se exclusivamente a Oleg e ignorando de propósito Margarita, que estava ali ao lado no seu impecável fato grafite.
— Isto é uma limpeza geral do espaço, Zinaida Pavlovna — respondeu Margarita com uma voz uniforme e fria, como aço a bater contra vidro.
Ela deu um passo seguro na direção do corredor.
— Estou a livrar a minha propriedade do lixo tóxico que a senhora teve hoje a audácia de trazer para aqui.
A sogra inspirou ruidosamente e o seu rosto ficou imediatamente coberto de manchas vermelhas.
Com um baque surdo, pousou os pesados sacos diretamente sobre a superfície preta mate da consola de design na entrada.
Margarita observou, com uma fúria crescente, uma mancha amarela e gordurosa de molho que estava a vazar surgir através do plástico fino e deixar uma horrível marca oleosa sobre a superfície cara e perfeita.
— Oleg, o que é que ela está a dizer?
Que lixo?
Eu trouxe-vos as melhores coisas lá de casa para que este vosso túmulo de betão começasse finalmente a parecer uma casa humana normal! — Zinaida Pavlovna apontou ameaçadoramente um dedo curto e grosso na direção da sala.
Oleg atravessou rapidamente a distância entre o sofá e o corredor e colocou-se ombro a ombro com a mãe.
O rosto dele deformou-se numa expressão de hostilidade aberta.
— A Margarita ficou completamente louca depois de voltar.
Arrancou a tapeçaria da parede, estragou a tinta e enfiou o tapete neste saco com os pés.
Não quer saber do trabalho dos outros.
Só aceita as paredes pretas nuas dela e superfícies vazias.
— Quem lhe deu o direito de entrar no meu território com as suas próprias chaves? — Margarita ignorou a provocação do marido e fitou a sogra com um olhar duro e imóvel.
— Aproveitou-se da minha ausência, entrou aqui e desfigurou as minhas paredes com os seus pregos enferrujados.
Trouxe um tapete sujo e fedorento onde ácaros se reproduziram durante anos.
Ponha imediatamente o molho de chaves sobre o móvel.
Zinaida Pavlovna colocou as mãos nas ancas, com o peito volumoso a subir e descer pesadamente por baixo da blusa florida e sem forma.
— O teu território?!
Vocês são uma família!
Oleg vive aqui, por isso esta casa também é dele!
E tu, em vez de receberes o teu marido depois do trabalho com um jantar quente, passas semanas a correr de uma viagem de trabalho para outra!
É impossível estar neste apartamento, parece um mausoléu!
Estou a tentar criar um ambiente normal para o meu filho, já que a mulher dele nem sequer é capaz de pôr um pano na mesa!
— A sua ideia de aconchego consiste em impor agressivamente pobreza e mau gosto — respondeu Margarita, cruzando os braços sobre o peito.
O cheiro do fígado frito que enchia a entrada fazia-lhe subir fisicamente o enjoo à garganta.
— O seu filho vive num conforto pago exclusivamente por mim.
Esta renovação, estes móveis, estes eletrodomésticos — tudo foi comprado com o meu dinheiro.
E não vou permitir que o resultado do meu trabalho seja transformado numa extensão de uma feira da ladra do bairro.
— Não te atrevas a dizer à minha mãe o que deve fazer! — rugiu Oleg, dando um passo brusco em frente e erguendo-se sobre a esposa.
— Ela veio com boas intenções e trouxe-nos comida caseira!
Passou metade do dia ao fogão!
E tu comportas-te como uma cabra completa.
Não tens qualquer respeito pelas pessoas, para ti só existem preços, marcas e o teu ego gigantesco!
Margarita apontou com repulsa para a consola onde a mancha amarela de gordura continuava lentamente a espalhar-se pela superfície preta mate.
— Comida?
Isto não é comida, Oleg.
É uma massa gordurosa cheia de substâncias cancerígenas cujo cheiro empesta todo o prédio.
A minha cozinha está equipada com eletrodomésticos de gama premium, não para aquecer esta massa duvidosa em recipientes de plástico baratos.
O rosto de Zinaida Pavlovna contorceu-se de raiva.
Com um movimento brusco e nervoso, tirou do saco um recipiente de plástico com rolinhos de couve recheados e enfiou-o quase na cara da nora.
— Massa?!
Tu alguma vez na vida cozinhaste uma coisa destas?
Tu só mastigas as tuas folhas verdes e andas pelos restaurantes à custa dos outros!
O meu filho ainda vai acabar com uma úlcera contigo e com essa comida seca!
Eu mato-me de trabalhar para que ele possa comer comida caseira, normal e quente!
Margarita nem se mexeu.
Olhou para o plástico turvo coberto de gotas de condensação e gordura alaranjada com um desprezo tão gelado que qualquer outra pessoa já teria recuado.
— O seu filho é um homem adulto e plenamente capaz.
Se ele deseja assim tanto comer cebola demasiado frita e massa queimada, pode fazê-lo na sua cozinha antiga.
Mas não na minha casa.
Não vou tolerar aqui nem os seus objetos cheios de pó, nem a sua comida fedorenta, nem a sua presença.
A senhora violou descaradamente as regras, danificou propriedade cara e agora está aqui a tentar reclamar direitos sobre um apartamento com o qual não tem a mínima relação.
Margarita agiu com uma frieza calculada e assustadora.
Estendeu lentamente a mão com a manicure francesa impecável e agarrou firmemente o recipiente pegajoso de plástico cheio de rolinhos de couve que a sogra continuava agressivamente a empurrar quase contra o seu rosto.
Com a outra mão, Margarita agarrou o saco inchado do supermercado abandonado sobre a consola mate.
Óleo espesso e alaranjado já escorria através do plástico fino, deixando marcas irreparáveis na cara superfície de design.
— O que estás a fazer?!
Larga já isso! — gritou Zinaida Pavlovna, tentando recuperar a comida, mas a nora foi mais rápida.
Sem dizer uma única palavra, Margarita virou-se bruscamente sobre os saltos altos.
Com passos seguros, atravessou a sala e aproximou-se do enorme saco preto de entulho onde o tapete bordô e a horrível tapeçaria já estavam comprimidos.
Abriu os dedos e deixou cair friamente os dois sacos de comida na boca sem fundo do plástico.
Os pesados recipientes aterraram sobre as fibras sintéticas com um som surdo e húmido.
O plástico barato rebentou com o impacto e uma concentração nauseante de cheiro a cebola demasiado frita, misturada com o odor de arrecadação velha, espalhou-se imediatamente pela sala.
— Estás completamente doente da cabeça?! — rugiu Oleg, arrancando do lugar.
Em dois saltos, percorreu a distância entre o corredor e a esposa e agarrou-a brutalmente pelo ombro, amassando o caro tecido do seu casaco grafite.
— Estás a deitar comida caseira perfeitamente normal para o lixo de construção!
Estás a destruir o trabalho de uma pessoa que passou metade do dia ao fogão por tua causa!
— Tira as mãos de cima de mim — disse Margarita, sacudindo a mão do marido do seu ombro com um movimento brusco e forte do corpo.
Não havia nem uma gota de medo nos seus olhos, apenas uma fúria pura e concentrada de proprietária.
— Estou a eliminar resíduos biológicos que contaminam o meu território.
O lugar destes recipientes fedorentos é exatamente ali, no meio da sintética suja, dos ácaros e dos pregos enferrujados.
— És completamente louca!
Psicopata! — Zinaida Pavlovna entrou pesadamente na sala, com os seus passos fortes a ecoarem no grés porcelânico.
Ela estendeu-se nervosamente para a abertura do saco preto, tentando salvar o que restava das suas obras-primas culinárias, sujando as mãos no molho gorduroso que já se tinha espalhado pelos panos brancos de croché.
— Oleg, olha para ela!
Ela está a humilhar-nos!
Eu piquei a carne, amassei a massa, e esta louca atirou tudo para o lixo!
Margarita não deixou a sogra retirar as coisas estragadas.
Empurrou brutalmente a mulher corpulenta com a anca, agarrou as bordas grossas do saco de duzentos litros e torceu a abertura com um poderoso puxão, formando um nó apertado que selou hermeticamente o fedor e os últimos vestígios daquele conforto alheio.
O plástico estalou ameaçadoramente, mas suportou a enorme pressão.
— E agora, rua — ordenou Margarita com uma voz baixa que vibrava de tensão.
Ela agarrou o nó de plástico com as duas mãos e, apoiando os saltos contra o chão, começou a arrastar a carga quase impossível de levantar através de toda a sala.
O saco pesado deslizou com um rangido desagradável sobre o luxuoso parquet italiano, deixando atrás de si uma marca mate quase invisível.
Margarita arrastou-o pelo corredor, passando pelas figuras imóveis do marido e da sogra.
Ao chegar à porta de entrada, empurrou-a com o ombro até ficar totalmente aberta e, com um pontapé forte, lançou o fardo preto para o patamar.
O saco bateu no chão de betão com um baque surdo.
— As suas coisas estão ali, Zinaida Pavlovna.
E as suas experiências culinárias também — disse Margarita, estendendo o braço perfeitamente direito na direção da porta aberta.
— Pegue nesse lixo e desapareça daqui.
Agora.
Deixe as chaves sobre o móvel.
— Estás a pôr a minha mãe no patamar por causa de um tapete e de comida?! — o rosto de Oleg ficou vermelho-escuro e grossas veias incharam-lhe no pescoço.
Ele deu um passo ameaçador na direção da esposa e bloqueou a saída com o corpo.
— Já perdeste completamente qualquer noção de limites!
Ultrapassaste todas as fronteiras aceitáveis!
Tu não és uma pessoa, és apenas um pedaço de gelo com uma conta bancária!
— Estou a limpar a minha propriedade de parasitas — respondeu Margarita, sem sequer pensar em recuar.
Olhava para o marido com um desprezo absoluto e evidente, analisando cada traço do rosto dele deformado pela raiva.
— E agora chegámos ao momento mais importante, Oleg.
Tens exatamente um minuto para tomar a tua decisão final.
Ou pegas imediatamente num pano, limpas a mancha de gordura da minha consola, mandas a tua mãe embora e esqueces para sempre que ela tem acesso a este apartamento…
Ou vais ao quarto, pegas na tua mala e desapareces atrás daquele saco preto para onde quiseres.
— Estás a fazer-me ultimatos na minha própria casa? — sibilou Oleg, apertando os punhos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Esta não é a tua casa.
E nunca foi — disse Margarita, dando o último e mais devastador golpe, pronunciando cada palavra com uma precisão assustadora.
— És apenas um parasita conveniente, incapaz de qualquer coisa.
Durante anos dormiste em lençóis caros, comeste carne marmoreada, usaste tecnologia de luxo e fingiste ser um homem de sucesso.
Mas, na realidade, és um zero absoluto.
Não és capaz nem de ganhar dinheiro para pagar este grés porcelânico, nem de o proteger da intervenção dos outros.
És apenas um consumidor infantil que, para ser completamente feliz, só precisa de borscht fedorento e de um tapete desbotado no chão.
Então vai e aproveita essa vida miserável num velho apartamento soviético.
Zinaida Pavlovna soltou um suspiro alto, agarrando a gola da blusa florida.
— Filho, como podes permitir que esta cabra fale contigo assim?!
Vamos embora daqui imediatamente!
Que fique sozinha entre as suas paredes pretas e se engasgue com os milhões dela!
Ela é uma velha vazia e maldosa de quem os homens normais fogem sem olhar para trás!
— Não fico nem mais um segundo com uma porcaria destas — cuspiu Oleg, enquanto os seus olhos corriam freneticamente pelo espaço impecável da entrada.
Com um movimento brusco e nervoso, arrancou do cabide o seu casaco de couro gasto, quase arrancando o suporte metálico da parede.
— Vais morrer completamente sozinha, Margarita.
Na tua limpeza estéril.
E ninguém te vai dar sequer um copo de água.
— Prefiro um copo de água trazido por um estafeta do que a tua caneca suja a deixar círculos pegajosos na minha mesa de vidro — respondeu Margarita com um sorriso frio e triunfante.
Oleg agarrou brutalmente a mãe pelo cotovelo e puxou-a para a saída.
Zinaida Pavlovna atirou com toda a força o molho de chaves sobre a consola mate já danificada.
O metal bateu com estrondo na superfície e deixou um risco profundo.
Ela lançou à nora um último olhar cheio de ódio ardente e atravessou a soleira.
Oleg saiu atrás dela, com as botas pesadas a deixarem marcas sujas sobre o chão claro de grés porcelânico.
Nem sequer olhou para trás.
Margarita avançou calmamente e empurrou a pesada porta blindada.
A enorme placa de metal deslizou silenciosamente para o lugar e as complexas fechaduras fecharam-se com um clique seco e seguro, separando-a para sempre da sua vida anterior.
Ela ficou sozinha.
O apartamento começou lentamente a recuperar a sua geometria rígida e intransigente.
Na sala, uma parede escura e vazia permanecia desfigurada pelas crateras esbranquiçadas deixadas pelos pregos, enquanto no chão se viam os riscos provocados pelo arrastar de objetos pesados.
O ar continuava completamente impregnado pelo cheiro acre de cebola frita e lã velha.
Margarita tirou o casaco grafite, foi à cozinha, ligou o potente exaustor na potência máxima e dirigiu-se à arrecadação para buscar um produto químico de limpeza agressivo.
O território estava completamente limpo.
Agora restava apenas fazer uma desinfeção total…







