Olga subia as escadas com cuidado, segurando-se com uma mão no corrimão e, com a outra, apertando contra o peito a alta da maternidade junto com o filho recém-nascido, Maksim.
O vento de outubro circulava pelo prédio, fazendo a mulher envolver o bebé ainda mais na manta quente.

Depois de uma semana na maternidade, as paredes de casa pareciam especialmente desejadas.
Konstantin abriu a porta ainda antes de Olga conseguir tirar as chaves.
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— Como estão os meus queridos? — o marido ergueu com cuidado a manta para espreitar o filho a dormir e depois abraçou a mulher pelos ombros.
— Estamos cansados, mas em casa é sempre melhor, — Olga sorriu e entrou na sala, onde Konstantin já tinha preparado o berço ao lado do sofá.
Enquanto o marido se agitava à volta do bebé, verificando a temperatura do quarto e fechando a janela basculante, o telemóvel de Olga emitiu o som característico de uma notificação da aplicação do banco.
A mulher sentou-se na ponta do sofá e abriu a mensagem.
O valor no ecrã fez-lhe piscar várias vezes.
Duzentos mil rublos tinham entrado na sua conta pessoal com a indicação “Para o neto Maksim”.
O pai de Olga nunca se distinguira por generosidade, mas o nascimento do primeiro neto, ao que parecia, derretera-lhe o coração.
— O meu pai transferiu dinheiro, — Olga mostrou o ecrã ao marido.
— Duzentos mil, especificamente para o Maksim.
— Para o carrinho, o berço, a roupa e tudo o resto.
Konstantin assobiou, olhando para os números.
— Nada mau!
— O teu pai levou mesmo a sério o papel de avô.
— Agora vamos poder comprar um bom carrinho transformável, daquele que eu andava a ver, e a cadeirinha do carro, — Olga já fazia mentalmente uma lista de compras.
— E também roupa para crescer, brinquedos educativos…
— Espera, espera, — Konstantin levantou a mão, travando o fluxo de planos da mulher.
— E se pensarmos mais além?
Olga ergueu a sobrancelha, sem perceber onde o marido queria chegar.
— Ouve, a minha mãe sonha há muito em renovar os móveis da sala.
— Ainda tem aquele conjunto antigo, dos tempos soviéticos.
— Um conjunto bonito custa mesmo à volta de cento e cinquenta mil.
— Ainda ficam cinquenta mil para as necessidades do bebé — para começar, chega perfeitamente.
O sangue pareceu fugir lentamente do rosto de Olga.
A mulher fitou o marido, como se tentasse perceber se ele estava a brincar.
— Estás a falar a sério?
— Claro! — Konstantin esfregou as mãos, entusiasmado.
— A mãe faz tanto por nós: ajuda com a limpeza, cozinha quando estamos a trabalhar.
— É justo agradecermos.
— Konstantin, — Olga pronunciou o nome do marido devagar, como se estivesse a explicar algo a uma criança.
— Esse dinheiro foi dado especificamente para o Maksim.
— O meu pai escreveu claramente na transferência: “para o neto”.
— Não é para a tua mãe, nem para móveis, é para o nosso filho.
— Que mania a tua! — o marido fez um gesto com a mão.
— O bebé agora não precisa de muita coisa.
— Fraldas, leite, bodies — com cinquenta mil dá para viver meio ano.
— E a mãe merece atenção.
Olga levantou-se do sofá e foi até à janela, olhando para as folhas amareladas no pátio.
Os dedos apertaram com força o telemóvel.
— A tua mãe merece atenção tua, não do meu pai, — a mulher virou-se para o marido.
— Se queres agradá-la, gasta o teu dinheiro.
— O meu dinheiro? — Konstantin franziu o sobrolho.
— Não somos uma família?
— O que é teu e o que é meu é tudo de todos.
— Engraçado teres-te lembrado disso só agora, — Olga voltou a sentar-se no sofá.
— Quando a tua mãe pediu ajuda para arranjar a casa de banho, dizias que não tínhamos dinheiro a mais.
— Quando ela queria ir visitar a irmã, mas não tinha para o bilhete, também falavas de dificuldades financeiras.
— Isso era diferente, — o marido desvalorizou.
— Na altura, realmente não havia dinheiro.
— E agora há, porque o meu pai os deu para o neto, — Olga abriu a aplicação do banco e começou a ajustar algo.
— E vão ser usados exatamente para o neto.
Konstantin aproximou-se, tentando ver o ecrã.
— O que estás a fazer?
— Estou a mudar as definições de acesso à conta, — respondeu Olga calmamente, sem levantar os olhos.
— A partir de agora, só eu posso dispor desse dinheiro.
— Como assim, só tu? — a voz do marido subiu.
— Somos marido e mulher!
— É precisamente por isso que estou a bloquear o acesso, — Olga concluiu a operação e meteu o telemóvel no bolso.
— Para não te dar a tentação de gastar o dinheiro do bebé em caprichos de adulto.
Konstantin sentou-se na poltrona em frente, massajando as têmporas.
— Olga, que infantilidade.
— A mãe faz tanto por nós…
— E por isso deve-se agradecer, não comprar móveis com dinheiro destinado ao neto dela.
— Está bem, pronto, — o marido levantou as mãos num gesto conciliador.
— Então diz-me quanto é que realmente é preciso para o bebé nos primeiros meses.
— Um valor exato.
Olga tirou da mala uma lista preparada com antecedência.
— Carrinho transformável: quarenta mil.
— Cadeirinha do carro: vinte e cinco.
— Berço com colchão ortopédico: trinta.
— Roupa para o primeiro ano: vinte e cinco mil, tendo em conta que os bebés crescem depressa.
— Fraldas, leite, medicamentos: cerca de quinze mil para seis meses.
— Brinquedos educativos, livrinhos: dez mil.
— Cadeira de alimentação, banheira e outras pequenas coisas: mais uns vinte mil.
— Dá cento e oitenta e cinco mil, — calculou Konstantin.
— Sobram quinze.
— Que ficam na conta como reserva para despesas imprevistas, — concluiu Olga.
— Ou achas que as crianças não ficam doentes?
Maksim mexeu-se no berço e choramingou baixinho.
Olga foi logo até ele, pegou-o ao colo e começou a embalá-lo suavemente.
— A mãe vai ficar mesmo triste se souber que podíamos ajudá-la e não ajudámos, — Konstantin insistiu.
— E o meu pai vai ficar triste se souber que o dinheiro dado especificamente para o neto foi gasto em móveis para a tua mãe, — Olga ajeitou a manta à volta do bebé.
— Na tua opinião, de quem é mais importante a opinião para a nossa família?
Konstantin calou-se, percebendo que se tinha encurralado.
O sogro podia mesmo ofender-se se soubesse dos planos do genro para o dinheiro oferecido.
— Está bem, — acabou por ceder o marido.
— Mas então, pelo menos, compramos à mãe alguma coisa pequena.
— Um vaso bonito ou um quadro.
— Para mostrar que pensamos nela.
— Compramos, — concordou Olga.
— Com o teu dinheiro.
À noite, quando Maksim dormia e Konstantin saiu para passear o cão, Olga estava sentada à mesa da cozinha com uma chávena de chá, voltando a ver as notificações do banco.
Duzentos mil rublos pareciam uma quantia sólida, mas a mulher sabia que, nos primeiros anos, um bebé custa muito mais.
O telemóvel tocou.
No ecrã apareceu o nome da sogra.
— Olenka, querida, como estás?
— E como está o meu netinho? — a voz de Vera Ivanovna soava invulgarmente carinhosa.
— Obrigada, Vera Ivanovna, está tudo bem.
— O Maksim come e dorme a horas.
— Muito bem!
— Eu liguei ao Kostinha e ele disse que os teus pais te mandaram um dinheirinho para o bebé.
— Que atenciosos!
Olga ficou alerta.
Na voz da sogra havia notas escondidas.
— Sim, o meu pai decidiu ajudar com as primeiras despesas.
— Claro, claro, hoje em dia crianças são caras, — Vera Ivanovna fez uma pausa.
— Só que eu pensei… os meus móveis da sala já estão muito gastos.
— E o neto vai vir à casa da avó, brincar no chão.
— Era bom renovar o ambiente, criar uma atmosfera acolhedora para as festas de família.
— Vera Ivanovna, esse dinheiro é especificamente para as necessidades do bebé, — explicou Olga com paciência.
— Preciso de comprar o carrinho, a cadeirinha do carro…
— O que estás a dizer! — a sogra interrompeu.
— A vizinha tem um carrinho quase novo, vende por dez mil.
— A cadeirinha também se arranja em segunda mão.
— E a casa bem arrumada é importante para todos!
Olga apertou a chávena com mais força.
Ficava claro de onde tinham vindo as ideias de Konstantin sobre gastar o dinheiro do bebé.
— Eu vou comprar coisas novas para o meu filho, — disse a mulher com firmeza.
— E se quiser renovar os móveis, o Konstantin pode ajudá-la.
— Ah, Olenka, — a voz da sogra ficou mais fria.
— Não pensei que fosses assim… calculista.
— Somos uma família.
— Precisamente por sermos uma família é que eu garanto que o dinheiro dado para a criança seja gasto na criança, — Olga acabou o chá e pousou a chávena no lava-loiça.
Depois de a conversa terminar, a mulher ficou muito tempo junto à janela, a observar os poucos transeuntes no pátio.
Maksim ressonava baixinho no berço, e do apartamento ao lado vinha o som da televisão.
Olga percebia que a conversa daquele dia era apenas o começo.
Konstantin e a mãe dele não iriam desistir de tentar influenciar a sua decisão.
Mas os duzentos mil rublos, oferecidos pelo avô ao neto, seriam gastos exatamente no neto.
E ponto final.
No dia seguinte, enquanto Maksim dormia depois de mamar, Olga arrumava metodicamente as coisas do marido numa grande mala de viagem.
Fatos, camisas, meias — tudo era dobrado com cuidado e colocado nos compartimentos.
A mulher trabalhava calmamente, sem pressa, como se estivesse a fazer uma tarefa doméstica comum.
À noite, Konstantin voltou do trabalho bem-disposto.
— Karish, já acertei com a mãe! — gritou o marido do corredor.
— Amanhã vamos escolher os móveis.
— Encontrámos uma loja excelente, há descontos até ao fim do mês.
Olga saiu do quarto e apontou em silêncio para a mala junto à porta de entrada.
— O que é isso? — Konstantin franziu o sobrolho, olhando para a bagagem.
— As tuas coisas, — respondeu Olga com calma.
— A partir de agora vais viver com a tua mãe.
O marido ficou parado, a piscar e a abanar a cabeça, como se tentasse afastar uma alucinação.
— Estás a falar a sério?
— Por causa de uns trocos?
— Não é por causa do dinheiro, — Olga cruzou os braços no peito.
— É por achares normal gastar dinheiro do bebé em caprichos de adulto.
— E por achares que podes decidir por mim.
— Eu sou o chefe da família! — Konstantin levantou a voz.
— E eu decido para onde vai o dinheiro nesta casa!
— Nesta casa já não há dinheiro teu, — Olga abriu a porta de entrada.
— Há o meu dinheiro e o dinheiro da criança.
— Do teu podes dispor no apartamento da tua mãe.
Konstantin deu um passo à frente, tentando entrar mais para dentro, mas Olga não se mexeu.
— Olga, pára com esse teatro!
— O Maksim é meu filho e eu tenho direito…
— Tens direito de ver o teu filho por acordo, — interrompeu Olga.
— Mas aqui já não vais viver.
— Pega na mala e sai.
— Ou queres que eu chame a polícia?
— Tu não vais fazer isso!
— Vou, — Olga tirou o telemóvel e começou a marcar o número.
— O agente de bairro, Mikhail Sergeevič, é uma pessoa muito prestável.
— Ontem perguntou como estavam as coisas com o recém-nascido.
Konstantin viu a determinação nos olhos da mulher e percebeu que blefar não adiantava.
Ela estava mesmo pronta para chamar a polícia.
— Está bem, — rosnou o marido entre dentes.
— Mas isto ainda não acabou.
— Acabou, — disse Olga com firmeza.
— Leva as tuas coisas.
Konstantin agarrou na mala e rolou-a para o patamar, resmungando sobre a ingratidão feminina e sobre o quanto ele se tinha esforçado pela família.
Olga fechou a porta, rodou a chave duas vezes e colocou a corrente.
As chaves do marido estavam no móvel do corredor.
Ela pegou nelas e guardou-as na gaveta da mesa da cozinha — agora aqueles pedaços de metal não tinham qualquer significado.
Maksim acordou e chorou baixinho.
Olga foi até ao berço, pegou no filho ao colo e começou a cantarolar uma canção de embalar.
No apartamento reinava o silêncio, interrompido apenas pela respiração do bebé e pelos sons da rua.
Passada uma hora, Vera Ivanovna ligou.
— Olenka, que são estas histéricas?
— O Kostinha chegou aqui todo transtornado, diz que o expulsaste!
— Expulsei, — confirmou Olga, seca.
— Mas como é que podes fazer isso?
— Vocês são marido e mulher!
— Por causa de uns trocos destruir uma família!
— A família foi destruída pelo vosso filho, quando decidiu gastar o dinheiro do bebé nos vossos móveis, — Olga passou o telemóvel para o outro ouvido, continuando a embalar Maksim.
— Eu apenas pus ordem.
— O dinheiro na família tem de ser de todos!
— Tem.
— Mas este dinheiro foi dado especificamente para a criança, não para mobilar o apartamento da sogra.
Vera Ivanovna ficou em silêncio, provavelmente a pensar numa nova estratégia.
— Está bem, admitamos que vocês discutiram.
— Mas a criança precisa de um pai!
— Estás a tirar o pai ao Maksim!
— O Maksim não vai ficar sem pai.
— O Konstantin pode ver o filho quando quiser.
— Só que aqui já não vai morar.
— E a pensão?
— Achas que o meu filho vai sustentar vocês?
— A pensão o Konstantin vai pagar de qualquer maneira, — respondeu Olga com calma.
— E sustentar-me, mesmo antes, ele nunca teve grande vontade.
A conversa terminou com um sinal brusco.
Vera Ivanovna, ao que parecia, percebeu que a pressão não resultaria.
Na semana seguinte, Olga marcou consulta com uma advogada.
A senhora idosa ouviu a história com atenção e abanou a cabeça.
— Não é um caso raro, — disse Galina Mikhailovna.
— Às vezes os homens acham que a mulher deve partilhar tudo o que recebe dos pais.
— E esquecem as próprias obrigações.
— Dá para proteger juridicamente o dinheiro do bebé?
— Como a transferência foi feita explicitamente como um presente para a criança, esse montante não entra nos bens comuns.
— Em caso de divórcio, o ex-marido não poderá reclamar essa quantia.
Olga deu entrada no pedido de divórcio no mesmo dia.
Juntou o extrato da transferência com a indicação da finalidade e uma nota explicativa sobre como o marido tentara gastar o dinheiro do bebé na compra de móveis para a mãe.
Um mês depois, Konstantin tentou reatar.
Apareceu com um ramo de flores e uma caixa de chocolates.
— Karish, eu percebi o meu erro, — disse Konstantin pela porta entreaberta.
— Vamos esquecer tudo e começar do zero.
— O que foi exatamente que percebeste? — perguntou Olga, sem o convidar a entrar.
— Que o dinheiro é mesmo para o Maksim.
— Vamos gastá-lo só com ele.
— E os móveis para a mãe?
Konstantin hesitou.
— Bem… um dia mais tarde.
— Quando houver dinheiro livre.
— Então não percebeste o principal, — Olga começou a fechar a porta.
— Continuas a achar que podes decidir como gastar um dinheiro que deram a mim.
— Mas eu concordei!
— Hoje concordaste.
— Amanhã vais inventar outra coisa para o gastar.
— Não, Konstantin.
— Tarde demais.
A porta fechou-se completamente.
À noite, Olga estava sentada numa poltrona ao lado do berço, observando Maksim a dormir.
O bebé respirava baixinho, fechando os punhinhos.
Na mesa estavam catálogos de artigos infantis — no dia seguinte, a mulher planeava encomendar o carrinho e a cadeirinha do carro.
Os duzentos mil rublos continuavam na conta, intactos.
Cada centavo seria gasto com quem tinha direito a ele.
O avô de Maksim podia ficar tranquilo: o presente ao neto chegaria ao destino certo.
Olga sorriu ao olhar para o filho a dormir.
A partir dali, ao lado deles ficaria apenas quem realmente pensasse na criança.
E os outros que procurem dinheiro para os próprios desejos por conta própria.







