Decidiu expulsar a mãe de casa.

— Vera Nikolaevna, para onde a senhora vai com um frio desses? — a voz da mãe veio da cozinha, quando Vera já abotoava o casaco acolchoado.

— Mãe, vou ao mercado comprar comida, — Vera se esforçou de propósito para falar com calma, embora por dentro tudo estivesse fervendo.

Aos quarenta e cinco anos, ela se sentia como uma adolescente que é controlada o tempo todo.

— Ao mercado ela foi!

E o almoço, quem vai fazer?

A Masha vai voltar da escola a qualquer momento, com fome, — Anna Petrovna saiu para o corredor, ajustando os óculos de lentes grossas.

— Mãe, tem sopa na geladeira, a que eu cozinhei ontem.

E tem almôndegas.

A Masha esquenta.

— Você acostuma a criança desde cedo a comida pronta!

No meu tempo…

Vera se virou bruscamente.

— No seu tempo era tudo diferente, sim.

Mas agora é outro tempo.

E a Masha não é uma criança, ela tem quinze anos.

— Exatamente que é outro! — Anna Petrovna levantou a mão num gesto de indignação.

— Nenhum respeito pelos mais velhos!

Eu, por acaso, sou sua mãe…

— Que se mudou para a minha casa há três meses e tenta impor as suas regras, — Vera se interrompeu, percebendo que tinha passado do limite.

Caiu um silêncio pesado.

Anna Petrovna sentou-se devagar no banquinho perto da porta, os ombros caídos.

— Então agora eu sou um peso?

Uma estranha na minha própria família?

— Mãe, por favor, pare.

Eu não disse isso.

— Mas pensou! — Anna Petrovna apertou os lábios.

— Eu vejo tudo, filha.

E como você faz careta quando eu entro no quarto.

E como você esconde o telefone quando eu estou por perto.

Como se eu estivesse te vigiando.

Vera se encostou cansada na parede.

Essa conversa já não era a primeira vez.

Desde que a mãe se mudou para a casa deles, depois que os médicos a proibiram de viver sozinha por causa da visão que piorava rapidamente, a relação ficava cada vez mais tensa.

— Mãe, vamos não começar.

Eu só vou ao mercado e volto.

Quer que eu compre alguma coisa específica para a senhora?

— Não preciso de nada, — cortou Anna Petrovna, levantando-se.

— Vá para onde ia.

Eu, enquanto isso, vou pôr ordem no armário; as roupas da Mashenka estão penduradas de qualquer jeito.

— Não mexa nas coisas da Masha! — Vera elevou a voz.

— Já conversamos sobre isso.

Cada um tem que ter seu espaço pessoal.

— Espaço pessoal? — Anna Petrovna deu um sorriso amargo.

— Inventaram uma palavrinha da moda.

No meu tempo…

— Pronto, eu saí, — Vera abriu a porta, deixando entrar o ar gelado.

— Já volto.

Descendo as escadas, ela lembrava como tinha ficado feliz quando ela e o Andrei finalmente compraram aquela casinha na periferia da cidade.

Terreno próprio, bairro tranquilo, quartos separados para cada membro da família — um verdadeiro paraíso depois do apertado apartamento de dois cômodos.

Quem diria que a harmonia da família duraria tão pouco?

Lá fora estava fresco e muito frio depois da nevasca recente.

Vera caminhava pela trilha estreita já pisada, pensando em como a vida deles tinha mudado nos últimos meses.

— Oi, mãe, — ouviu-se a voz clara de Masha.

A filha vinha ao encontro dela, voltando da escola.

— Mashenka, você já?

E eu indo ao mercado.

— Vamos juntas? — Masha pegou a mãe pelo braço.

— A vovó reclamou de novo?

Vera suspirou.

— Como sempre.

Queria mexer nas suas coisas no armário.

— Ai, só não isso! — Masha franziu a testa.

— Ela vai bagunçar tudo, como da outra vez.

Até hoje não consigo achar minha blusa branca favorita.

— E não vai achar.

Ela decidiu que a blusa era velha e levou para uma loja de usados.

— O quê? — Masha parou.

— Mãe, mas aquilo foi presente do papai!

— Eu sei, meu bem.

A mãe… ela quer fazer o melhor.

Só não entende que não se pode mexer nas coisas dos outros.

Elas chegaram ao supermercado.

Lá dentro estava quente e cheirava a pão fresco.

Masha pegou uma cestinha.

— Mãe, e se a gente falar com o papai?

Sobre um apartamento separado para a vovó?

— A gente já falou disso, — Vera balançou a cabeça.

— Mas você vê como está a visão dela.

Os médicos disseram que é perigoso morar sozinha.

E não temos outros parentes.

— Mas assim também não dá! — exclamou Masha, irritada.

— Ela controla tudo!

Ontem, você acredita no que aconteceu?

Eu estava no meu quarto, fazendo a lição.

A vovó entra e começa: “Por que você fica sempre no telefone?”

E eu nem toquei no telefone!

Eu só estava escrevendo uma redação.

Vera começou a escolher legumes.

— E o que você respondeu?

— Nada.

Mostrei o caderno para ela.

E ela: “No meu tempo a gente estudava muito bem sem telefone nenhum.

E a letra era caligráfica!” — Masha tentou imitar a entonação da avó.

— Não imite a sua avó, — repreendeu Vera automaticamente.

— E eu faço o quê?

Ela é insuportável!

Sabe o que ela disse ontem para o papai?

Que ele me mimou porque comprou uma mochila nova.

E a velha tem só cinco anos, ainda dá para usar!

Vera lembrou daquela conversa.

O Andrei mal conseguiu se conter.

Ele, em geral, tentava não se meter nos conflitos entre Vera e a mãe dela, mas às vezes a paciência dele também acabava.

— Filha, vamos tentar conversar mais uma vez com a vovó.

Com calma, sem acusações.

Talvez se a gente sentar todo mundo junto e combinar algumas regras…

— Regras? — Masha bufou.

— Mãe, você esqueceu como terminou a última tentativa?

Quando a gente quis fazer um cronograma de uso da cozinha?

Vera lembrava.

Como não lembraria?

Anna Petrovna ficou tão ofendida que passou três dias sem sair do quarto.

Se alimentava de bolachas e água fervente da chaleira, que ela prudentemente levou para dentro.

A qualquer pedido para vir à mesa, respondia que não queria atrapalhar ninguém, já que a presença dela pesava tanto para a família.

— Mãe, você lembra como a vovó era antes? — perguntou de repente Masha, bem baixinho, quando entraram na fila do caixa.

— Quando eu era pequena, ela fazia пирожки, contava histórias.

E com você parecia se dar bem.

— Se dava bem, — repetiu Vera.

— Enquanto morava separada.

Enquanto tinha o espaço dela, os hábitos dela, a rotina dela.

E agora ela acha que é um fardo para todo mundo.

E tenta provar que é necessária — limpando, cozinhando, dando conselhos.

Só que faz isso… do jeito errado.

— E se ela só estiver com medo? — sugeriu Masha, inesperadamente.

— Pensa: a visão piora, não pode morar sozinha, teve que se mudar.

Tudo mudou, você não controla nada.

Então ela tenta controlar pelo menos alguma coisa.

Mesmo que seja em detalhes pequenos.

Vera olhou surpresa para a filha.

Quando ela tinha ficado tão sábia?

— Sabe qual é o problema? — continuou Masha.

— A vovó não consegue aceitar que agora depende dos outros.

Ela acha que, se não controlar tudo, vai ficar completamente indefesa.

Inútil.

Elas saíram do mercado.

O frio beliscava as bochechas, a neve rangia sob os pés.

Vera pensava nas palavras da filha.

Talvez realmente valesse a pena olhar para a situação por outro ângulo.

Já chegando perto de casa, elas viram a vizinha, Raisa Mikhailovna, saindo pelo portãozinho.

— Meninas, boa tarde! — acenou ela, simpática.

— Eu passei lá na sua Anna Petrovna.

Que receitas maravilhosas ela me contou!

E de conservas, e de geleia.

Sua mãe tem mãos de ouro, Verinha!

Vera deu um sorriso forçado.

Claro.

Com os vizinhos, a mãe sempre era doce e gentil.

Para eles, ela era uma dona de casa acolhedora, um poço de sabedoria.

Só que, para os mais próximos, aparecia um lado bem diferente do caráter dela.

Em casa, elas foram recebidas pelo cheiro de doces recém-assados.

Anna Petrovna fazia barulho com a louça na cozinha.

— Pronto, assei tortas, — disse ela, sem se virar.

— Já que vocês não gostam da minha sopa.

Vera trocou um olhar com a filha.

Masha balançou a cabeça discretamente, como quem diz: não comece.

— Obrigada, mãe.

Está com um cheiro ótimo, — Vera começou a guardar as compras.

— E eu aproveitei e pus ordem, — comunicou Anna Petrovna, como quem não quer nada.

— No armário da Mashenka.

Masha congelou com a caixa de leite na mão.

— Mãe, nós combinamos… — começou Vera.

— Não combinamos nada! — Anna Petrovna se virou de repente.

— Eu tenho que ficar olhando calma enquanto as coisas estragam?

Por acaso, encontrei duas blusas — as mangas estão esticadas, tem que ajustar.

E o uniforme escolar precisa ser novo; este já está todo gasto.

— Vovó, — disse Masha, baixinho.

— Esse é o meu uniforme preferido.

Ele é confortável.

— Confortável! — Anna Petrovna resmungou.

— No meu tempo ninguém pensava em conforto.

O importante era capricho, asseio.

E você vai para a escola com isso?

Que vergonha!

— Mãe! — Vera elevou a voz.

— Chega!

Você não tem o direito de mexer nas coisas dos outros!

— Dos outros? — Anna Petrovna empalideceu.

— Então agora eu sou “dos outros”?

A neta é “dos outros”?

— Não foi isso que eu quis dizer…

— Foi exatamente isso! — os olhos de Anna Petrovna se encheram de lágrimas.

— Para vocês eu sou uma estranha que atrapalha a vida!

Que se mete onde não deve!

E eu só quero ajudar!

Vocês não cuidam de ordem nenhuma, fazem tudo de qualquer jeito…

Nesse momento a porta de entrada se abriu, e Andrei entrou em casa.

— Olha só que drama! — ele tentou aliviar o clima.

— Eu pensei que era cheiro de torta.

— Exatamente, drama! — Anna Petrovna levantou as mãos.

— Andrei, diga alguma coisa para a sua esposa!

Eu tento pôr ordem, e elas…

— Anna Petrovna, — Andrei a interrompeu com gentileza.

— Vamos sentar e conversar todos juntos.

— Não há o que conversar! — Anna Petrovna foi em direção à saída da cozinha.

— Façam o que quiserem!

Vivam como quiserem!

E eu… eu não vou atrapalhar vocês!

Ela foi para o quarto dela, batendo a porta com força.

— Pai, — Masha abraçou o pai.

— Ainda bem que você chegou.

— O que foi agora? — Andrei caiu cansado na cadeira.

— A mesma coisa de sempre, — Vera começou a colocar os produtos nas prateleiras.

— A mãe fez outra “inspeção” no armário da Masha.

E agora fica ofendida porque a gente não gostou.

— Talvez valha a pena contratar uma cuidadora? — sugeriu Andrei, com cautela.

— Pelo menos por meio período?

— Você está doido? — Vera balançou a cabeça.

— Ela não aguentaria.

Para ela, isso significaria completa impotência.

— E assim é melhor? — perguntou uma voz da porta: era Nikolai Ivanovitch, o vizinho que costumava passar por lá.

— Desculpem, a porta estava aberta, eu bati…

— Entre, Nikolai Ivanovitch, — Vera fez um gesto.

— Quer um chá?

— Não recuso, — o vizinho sentou à mesa.

— Vou dizer uma coisa…

A minha falecida mãe também era assim.

Controlava tudo, se metia em tudo.

Depois eu entendi: ela só tinha medo de se tornar desnecessária.

— E o que o senhor fez? — perguntou Masha.

— Inventei uma ocupação para ela.

Ela era habilidosa — fazia geleias, conservas, picles.

Então eu propus que ela ensinasse isso às crianças dos vizinhos.

Organizei algo como um clube.

E sabe?

Ela se envolveu tanto!

Esqueceu as críticas e o controle.

Porque se sentiu necessária.

Vera mexia o chá, pensativa.

— A minha mãe também tem mãos de ouro.

Cozinha bem e costura…

— Isso! — Nikolai Ivanovitch se animou.

— E no prédio da frente abriram justamente um curso de costura.

Talvez vocês possam sugerir para ela.

— Ela não vai aceitar, — suspirou Vera.

— Vai dizer que a visão está ruim.

— Tentem, — insistiu o vizinho.

— O principal é apresentar do jeito certo.

Não como “queremos te ocupar”, mas como “precisamos da sua ajuda”.

Nesse momento Anna Petrovna entrou na cozinha sem fazer barulho.

Provavelmente a voz conhecida de Nikolai Ivanovitch a tirou do quarto.

— Estão tomando chá? — perguntou ela, desconfiada.

— Anna Petrovna! — o vizinho se alegrou.

— Estávamos justamente falando da senhora.

É o seguinte…

Minha neta está aprendendo costura, e eu nisso sou um completo leigo.

A senhora poderia me ajudar com um conselho?

Anna Petrovna ficou parada, indecisa.

— Que ajuda eu posso dar, — resmungou.

— Meus olhos estão péssimos.

— Eu não preciso dos seus olhos, eu preciso da sua experiência! — sorriu Nikolai Ivanovitch.

— A senhora costurou a vida toda.

Vestiu a Vera e a Mashenka.

Eu outro dia vi o seu trabalho — o colete que a senhora deu ao Andrei de aniversário.

Mãos de ouro!

Anna Petrovna corou um pouco com o elogio.

— Isso foi antes…

E agora, o que eu posso?

— Vovó, — Masha se meteu de repente.

— Me ensina a pregar botões?

Porque os meus vivem caindo, e eu não sei.

Vera olhou surpresa para a filha.

De manhã, Masha reclamava da interferência da avó, e agora ela mesma pedia ajuda.

— É verdade, mãe, — Vera acompanhou.

— A Mashenka já está grande, está na hora de aprender.

E eu não tenho tempo de mostrar…

— Tempo ela não tem, — resmungou Anna Petrovna, mas já sem a raiva de antes.

— Eu na sua idade sabia fazer tudo.

Está bem, Mashenka, sente aqui do lado.

Agora eu vou te mostrar.

Meia hora depois, o clima na cozinha era outro.

Anna Petrovna, animada com a atenção, falava sobre tipos diferentes de pontos e mostrava como segurar a agulha corretamente.

Masha, para surpresa da mãe, ouvia com interesse sincero.

— E eu tenho uma caixa inteira de botões, — lembrou Anna Petrovna de repente.

— Ainda dos tempos em que a oficina funcionava.

De todo tipo!

Quer que eu te mostre?

— Claro! — Masha se levantou.

— Vamos ao seu quarto?

— Vamos, netinha, — Anna Petrovna se iluminou.

— Lá tem fitas e rendas também…

Eu vou te contar como se costuravam vestidos antigamente.

Elas foram, conversando animadas.

Vera as acompanhou com o olhar.

— Está vendo? — disse Nikolai Ivanovitch, satisfeito.

— O principal é achar o jeito certo.

— Obrigada, — agradeceu Vera com sinceridade.

— Eu nem imaginava…

— E vocês conversem mais, — aconselhou o vizinho, levantando-se.

— Não fiquem calados, não acumulem mágoas.

Vocês são família.

Quando ele foi embora, Andrei abraçou a esposa.

— Sabe, talvez isso seja o começo de uma mudança.

— Que mudança?

— Olha: a mãe se sente necessária quando compartilha a experiência.

E a Masha, ao que parece, se interessa por costura.

Talvez valha mesmo sugerir que a mãe conduza um grupo?

Não no prédio da frente, mas aqui.

Reunir as meninas da vizinhança uma vez por semana…

— Você acha que ela aceitaria?

— E você apresente do jeito certo.

Diga que muitas mães perguntam onde você aprendeu a costurar tão bem.

Que querem que as filhas delas também saibam…

Vera ficou pensando.

E era verdade: a mãe sempre florescia quando podia ensinar alguém, mostrar alguma coisa.

Talvez aí estivesse a solução dos problemas deles.

Do quarto de Anna Petrovna vinha a voz alegre de Masha.

— Vovó, e esse botão aqui, por que é tão diferente?

— Ah, essa é uma história especial!

Esse botão a sua bisavó me deu.

Ela guardou durante a guerra, acredita?

E agora eu vou te dar…

Vera escutou a conversa.

Pela primeira vez em muito tempo, na voz da mãe não havia nem reprovação nem ressentimento — só calor e alegria por estar com a neta.

— Mãe, — gritou ela.

— Posso ver também os seus tesouros?

— Claro, filha! — respondeu Anna Petrovna.

— Venha para cá.

Eu estava justamente querendo contar como costurei o seu primeiro vestido…

A noite virou uma verdadeira viagem ao passado.

Anna Petrovna tirava de uma velha caixinha botões, fitas, rendas, e cada coisinha guardava uma história.

— E esta fita eu guardei para uma ocasião especial, — Anna Petrovna alisou com cuidado uma faixa de seda cor-de-rosa bem suave.

— Eu pensei que serviria para o seu vestido de noiva, Verinha.

Mas você quis um comprado…

Na voz da mãe surgiu um resquício da antiga mágoa, mas Vera não deixou isso crescer.

— Mas agora essa fita pode enfeitar o vestido da Masha!

Você lembra, filha, que você disse que queria um look especial para a formatura da escola?

— Sério que dá? — Masha olhou para a avó, encantada.

— Claro que dá! — Anna Petrovna se iluminou.

— Nós vamos costurar um vestido que vai deixar todo mundo de boca aberta!

Eu acho que ainda tenho por aqui moldes antigos…

Ela começou a remexer nas gavetas da cômoda.

Vera observava a mãe, surpresa — para onde tinha ido a implicância?

Parecia outra pessoa.

— Vera, você lembra deste pedaço? — Anna Petrovna tirou um embrulho de tecido azul-escuro.

— É daquele conjunto que eu costurei para você na sua formatura da faculdade.

— Lembro, — sorriu Vera.

— Era o conjunto mais bonito da turma inteira.

— E você não queria usar no começo!

Ficava dizendo: “É um corte fora de moda”…

— Porque eu era boba, — admitiu Vera com sinceridade.

— E depois eu entendi que coisas feitas com amor nunca saem de moda.

Anna Petrovna olhou para a filha, emocionada.

— E eu guardei tudo esses anos…

Pensei que, quem sabe um dia, poderia servir.

— Vovó, — Masha se encostou nela.

— Me ensina a costurar assim?

Para ficar bonito também?

— Eu ensino, netinha, ensino tudo! — Anna Petrovna abraçou a menina.

— Só que os olhos falham…

Mas pelo tato eu consigo muita coisa, e também sei explicar.

— Vamos fazer assim, — sugeriu Vera.

— A Masha vai ser os seus olhos.

A senhora conta e mostra como deve ser, e ela faz.

— E dá para mostrar para outras meninas também! — completou Masha.

— Na minha sala muita gente quer aprender a costurar, só que não tem com quem.

Anna Petrovna ficou visivelmente animada.

— É uma boa ideia!

A gente poderia se reunir uma vez por semana…

Eu também poderia falar de bordado e de tricô…

— Mãe, — Vera começou com cuidado.

— E se a gente organizasse mesmo um grupo?

Aqui em casa?

Nos fins de semana, por exemplo…

— Você acha que isso interessa a alguém? — Anna Petrovna duvidou.

— Claro que interessa! — exclamou Masha.

— A Katia do prédio vizinho já quer aprender faz tempo.

E a Sveta da minha turma…

— Só não levem a mal se eu errar alguma coisa, — Anna Petrovna ficou envergonhada de repente.

— A visão é zero…

— Mãe, — Vera pegou na mão dela.

— As suas mãos enxergam melhor do que qualquer olho.

E eu e a Masha vamos ajudar.

Andrei apareceu na porta.

— Que clube feminino é esse que vocês montaram aqui?

E hoje vamos jantar ou não?

— Vamos, vamos! — Anna Petrovna se apressou.

— Já vou esquentar as tortas.

Vera, filha, ponha a mesa…

A noite inteira eles ficaram juntos — tomaram chá, olharam fotos antigas, fizeram planos para o futuro grupo.

Anna Petrovna parecia mais jovem — os olhos brilhavam, as bochechas estavam coradas.

Mais tarde, quando Masha já tinha ido dormir e Andrei assistia televisão na sala, Anna Petrovna chamou a filha baixinho para o quarto.

— Vera, — começou ela, com uma suavidade incomum.

— Me perdoe…

— Pelo quê, mãe?

— Por tudo.

Por me intrometer onde não me chamavam.

Por mexer em coisas alheias.

Eu não fiz por mal — é só que… eu fiquei com medo.

Senti que não era necessária para ninguém.

E tentei provar que eu ainda podia fazer alguma coisa…

— Mãe, — Vera abraçou a mãe.

— A senhora sempre é importante para nós.

Só… vamos aprender a respeitar os limites uma da outra?

A senhora me ensinou isso quando eu era criança.

— Ensinei, — suspirou Anna Petrovna.

— E eu mesma esqueci.

A velhice é assim…

Parece que o tempo está indo embora, que você precisa dizer tudo, fazer tudo…

— Não está indo a lugar nenhum, mãe.

A gente ainda tem tanta coisa pela frente!

Vamos organizar o grupo…

— Vamos organizar mesmo? — Anna Petrovna se animou.

— Eu pensei: talvez começar pelo simples?

Botões, casas de botão…

E depois passar para o mais difícil?

— Claro, mãe.

Você pensou direitinho.

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