Por que eu teria que dar uma casa de presente para a sua mãe?

Ela já está enlouquecendo de tanto luxo, e você ainda fica choramingando! — gritou a esposa.

— Você enlouqueceu de vez?! — Andrei atirou o telefone no sofá com tanta força que ele quicou e caiu no chão.

— A minha mãe precisa de ajuda, e você fica fazendo escândalo aqui!

Larisa nem se virou.

Ficou parada à janela, olhando a nevasca do outro lado do vidro — a neve caía em flocos oblíquos, cobrindo tudo com um sudário branco.

O quarto cheirava a borscht, que ela vinha cozinhando desde cedo, e àquela opressão pesada e mofada que sempre pairava no ar depois das brigas deles.

— Por que eu teria que dar uma casa de presente para a sua mãe? — soltou ela, sem levantar a voz.

Justamente essa fúria quieta era mais assustadora do que o grito.

— Ela já está enlouquecendo de tanto luxo, e você ainda fica choramingando!

Andrei parou, imóvel.

As têmporas latejaram.

Ele conhecia aquele tom — quando Larisa falava assim, calma e fria, significava que a guerra estava só começando.

— O que você disse?

— O que eu penso. — Ela finalmente se virou, e ele viu o rosto dela.

Cansado.

Envelhecido nos últimos meses.

— A sua mãezinha tem dois apartamentos no centro, recebe uma aposentadoria decente, mas, veja só, não é suficiente!

Agora ela quer também a nossa casa.

A casa que eu e você construímos por dez anos!

Andrei cerrou os punhos.

Tudo por dentro fervia de indignação diante da injustiça daquelas palavras.

A mãe dele realmente tinha pedido ajuda, mas isso era crime?

Ela o criou sozinha, depois que o pai foi embora com uma amante mais nova.

Passou fome, perdeu sono, só para que ele estudasse, virasse alguém.

E agora o quê?

Abandoná-la quando ela envelheceu?

— Você não entende, — começou ele, tentando se controlar.

— Ela tem problemas de saúde, ela precisa…

— Problemas?! — Larisa riu, e aquele riso parecia estilhaços de vidro quebrado.

— Problemas?!

Ontem eu vi ela no shopping, correndo três horas pelas lojas!

Que coração doente aguenta uma coisa dessas?

— Então agora você está vigiando ela?

— Encontrei por acaso.

E sabe o que é mais interessante? — Larisa se aproximou, e Andrei sentiu o perfume dela — aquele mesmo que ele tinha dado no último aniversário.

— Ela não estava sozinha.

Estava conversando com uma amiga, se gabando de que em breve vai se mudar para uma casa de campo.

Para a nossa casa, Andrei!

Ele baixou os olhos.

A mãe dele realmente falava disso — como quem não quer nada, no meio de outras coisas.

Dizia que na cidade estava difícil viver, que queria natureza, respirar ar puro.

E ele, idiota, acreditou.

Prometeu falar com Larisa, convencer.

— Ela é velha, ela está sozinha…

— Sozinha?!

Ela tem um batalhão de amigas!

Todo dia ou vai visitar alguém, ou vai a exposições, ou ao teatro!

E eu, por sinal, a última vez que fui ao cinema foi há dois anos, quando você ainda lembrava que tinha uma esposa!

A neve do lado de fora caía cada vez mais forte.

Lá embaixo, em algum lugar, a porta do prédio bateu, alguém xingava tentando dar partida no carro.

Um sábado de inverno como outro qualquer.

Mas, no apartamento deles, tudo estava desabando.

Andrei passou a mão pelo rosto.

Como ele estava cansado desse confronto eterno.

A mãe ligava todo dia, chorava ao telefone, reclamava da vida.

A esposa se calava, virava o rosto, dormia na beira da cama.

Entre dois fogos, ele se desgastava até virar pó.

— Lara, escuta… — Ele tentou pegar a mão dela, mas ela puxou a palma como se tivesse se queimado.

— A gente pode encontrar um meio-termo.

Talvez fazer uma doação com condição de direito de morar até o fim da vida?

Ou…

— Ou você perdeu a cabeça de vez? — Os olhos de Larisa brilharam.

— Você entende que esse é o nosso único imóvel?

O apartamento é alugado, a casa é tudo o que a gente tem!

E você quer entregá-la a uma mulher que tem dois apartamentos!

— Ela é minha mãe!

— E eu sou o quê?! — gritou Larisa, e a voz dela falhou.

— Vinte e dois anos juntos!

Vinte e dois anos eu aguento as farpas dela, as insinuações, esse descontentamento eterno!

Ela nunca — está me ouvindo, nunca! — me disse uma palavra boa!

Andrei sabia que era verdade.

A mãe dele nunca aceitou Larisa.

Desde o primeiro dia dizia que o filho podia ter encontrado alguém melhor.

Mais rica.

Mais bonita.

Com dote.

E aquela — uma ratinha cinzenta, professora de música, sem contatos, sem dinheiro.

Os anos passaram, e a mãe não parou.

Ora criticava as tortas dela, ora a reforma, ora a criação dos filhos.

Os filhos…

Dois.

Ilia estuda em Moscou, no segundo ano.

Dasha está no décimo ano e se prepara para os exames.

O que eles vão dizer se descobrirem que a casa onde passaram a infância vai ficar com a avó?

A mesma avó que vive comparando Dasha com a neta da vizinha e vive jogando na cara de Ilia que ele escolheu “o curso errado”?

— A mamãe ligou hoje de manhã, — disse Andrei de repente, bem baixo.

— Disse que, se a gente não ajudar, ela vai procurar um advogado.

Que um dia ela deu dinheiro para a entrada e agora tem direito…

Larisa empalideceu.

— Isso é chantagem.

— É verdade.

Lembra, quinze anos atrás, quando a gente comprou o terreno?

Ela deu trezentos mil.

— Dinheiro que a gente devolveu!

Devolveu no ano seguinte!

Com juros!

— Ela tem outra versão.

— Claro, outra, — Larisa se sentou no sofá, e de repente pareceu menor.

— Ela vai virar tudo do jeito que convém a ela.

Ela sempre faz isso.

Do lado de fora escurecia.

A nevasca virou uma tempestade de verdade.

Andrei foi até a janela e encostou a testa no vidro frio.

Em algum lugar, a três quilômetros dali, no conforto de um apartamento de três quartos, a mãe dele estava sentada.

Talvez assistindo a uma novela, tomando chá com balas.

Ou talvez fazendo planos — como pegar a casa, como tirar a nora do caminho, como voltar a ser a principal na vida do filho.

— Sabe o que é o pior? — disse Larisa para o vazio.

— Não é ela querer a nossa casa.

É você sequer cogitar isso.

Você está mesmo pronto para fazer o que ela quer.

Ele ficou calado.

Porque não sabia a resposta.

Porque se sentia culpado diante das duas.

Diante da mãe — por não conseguir dar a ela tudo o que ela queria.

Diante da esposa — por ter sequer tocado nesse assunto.

— Eu não posso abandoná-la, — ele conseguiu dizer por fim.

— E a mim, você pode?

A pergunta ficou suspensa no ar, pesada.

Andrei se virou.

Larisa olhava para ele, e no olhar dela havia tanta coisa — dor, mágoa, desespero.

E cansaço.

Um cansaço infinito de lutar pelo direito de simplesmente viver em paz.

— Amanhã eu vou até ela, — disse ele.

— Vou falar sério.

Vou explicar que a casa a gente não pode dar.

— E ela vai ouvir?

— Tem que ouvir.

Larisa deu um meio sorriso irônico.

— Você não conhece ela mesmo, né?

O telefone de Andrei vibrou no chão.

Ele pegou: mensagem da mãe.

“Filho, marquei com o tabelião para segunda-feira.

Você vem?”

Andrei foi até a casa da mãe no domingo à noite, quando a cidade já estava mergulhada no crepúsculo.

A escada do prédio cheirava a gatos e radiadores velhos, e o elevador rangia, como sempre.

No patamar do terceiro andar, ele teve uma surpresa — na porta do apartamento da mãe estava Ninel Borisovna, a vizinha de baixo, aquela que sempre sabia de tudo primeiro.

— Ah, Andriusha, — ela sorriu, mas o sorriso era predatório, desagradável.

— Vai ver a mamãe?

Ela está recebendo visitas.

Chamou um advogado, o Semion Lvovich.

Parece que vai ter uma conversa séria.

Ele não respondeu, apertou a campainha.

Ninel Borisovna não foi embora, ficou ali, claramente esperando bisbilhotar.

A porta se abriu, e a mãe apareceu no batente — de robe novo, cabelo arrumado.

Setenta e dois anos, e parecia disposta.

Disposta demais para alguém com “coração doente”.

— Entra, filho, — ela beijou as duas bochechas dele.

— Chegou na hora certa.

Na sala, à mesa, estava sentado um homem de uns cinquenta anos, de terno caro, com uma pasta de documentos.

Semion Lvovich Krasnov — o advogado que todo mundo no bairro conhecia.

Especialista em heranças, com fama de encontrar brechas em qualquer lei.

— Boa noite, Andrei Petrovich, — o advogado estendeu a mão; o aperto foi firme.

— Sua mãe me contou a situação.

O caso, vou ser sincero, é interessante.

— Que caso? — Andrei se sentou em frente, sentindo tudo por dentro apertar.

A mãe, agitada, servia chá, colocava biscoitos na mesa.

Fazia o papel de velhinha cuidadosa, mas os olhos dela brilhavam de outro jeito — com entusiasmo, cálculo.

— O Semion Lvovich analisou todos os papéis, — começou ela, sentando ao lado do advogado.

— Acontece que eu tenho todos os fundamentos para reivindicar uma parte da casa de vocês.

— A gente te devolveu o dinheiro, mãe.

— Devolveu? — O advogado abriu a pasta e tirou alguns papéis.

— Sua mãe guardou um recibo.

Nele consta que os trezentos mil rublos não foram entregues como empréstimo, mas como investimento na construção, com a condição de garantir direito de moradia.

Vê aqui, — ele apontou para o documento, — a sua assinatura.

Andrei pegou o papel.

O recibo…

Ele realmente o escreveu quinze anos atrás, às pressas, sem ler direito.

Na época parecia: qual a diferença, desde que a mãe ajudasse.

Depois eles devolveram o dinheiro, e ele esqueceu daquele papelzinho.

— Mas a gente quitou!

— Verbalmente, — a mãe deu um gole no chá.

— Não há documentos do reembolso.

E este recibo existe.

E tem validade jurídica.

— Você armou isso de propósito? — A cabeça de Andrei ficou confusa.

— Ficou quinze anos calada, e agora…

— Eu penso no meu futuro, — a mãe endireitou as costas, e a voz ficou dura.

— A aposentadoria é pequena, a saúde já não é a mesma.

Eu preciso de segurança para o amanhã.

— Você tem dois apartamentos!

— Um eu prometi para o Roman, — ela soltou, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Andrei ficou atônito.

Roman — o irmão mais novo dela, o tio que nos últimos vinte anos só aparecia quando precisava de dinheiro.

Bebia, não fazia nada, vivia às custas da mãe.

— Você vai passar um apartamento para ele?!

— Ele é meu irmão.

Ele tem filhos, netos.

— E eu, não tenho?!

Semion Lvovich pigarreou com delicadeza.

— Andrei Petrovich, vamos sem emoções.

A situação é a seguinte: ou o senhor formaliza voluntariamente um contrato de doação de metade da casa para sua mãe, ou nós vamos ao tribunal.

Considerando a existência do recibo, a perspectiva judicial para o senhor é, no mínimo, duvidosa.

— Isso é chantagem!

— Isso é proteção de interesses legais, — o advogado guardou os papéis de volta na pasta.

— Pense até segunda-feira.

Se concordar, resolvemos tudo de forma rápida e pacífica.

Se não… — ele deu de ombros, com um sentido bem claro.

Andrei se levantou.

As pernas fraquejaram, a boca secou.

A mãe olhava para ele de baixo para cima, e naquele olhar não havia uma gota de arrependimento.

Só uma certeza fria de estar certa.

— Sabe o que a Larisa disse? — ele falou baixo.

— Que você enlouqueceu de tanto luxo.

E ela estava certa.

— Não ouse falar assim com a sua mãe! — ela explodiu.

— Eu te criei, te eduquei, te garanti um apartamento!

— O apartamento a gente comprou sozinho!

Com o nosso suor!

— Depois que eu te dei o sinal da entrada!

Sem mim vocês ainda estariam se apertando pelos cantos!

No corredor, ouviram-se passos.

A porta se abriu um pouco, e no vão apareceu um rosto que Andrei reconheceu na hora — o tio Roman.

Rosto vermelho, jaqueta amassada, cheiro de cerveja.

— Ô, sobrinho, — ele deu um sorriso torto, entrando.

— Ouvi, ouvi do que estão falando aqui.

Não ferve, não.

A mamãe está certíssima.

Na velhice ela precisa de paz, não de escândalos com a sua múmia.

— Cala a boca, — rosnou Andrei.

— Olha só que orgulhoso, — Roman se aproximou, fedendo a álcool.

— Esqueceu que a sua senhora deu uma frigideira de presente para a minha irmã no aniversário?

Uma frigideira comum, baratinha!

Até ri!

— Roman, não, — a mãe fez uma tentativa fraca de deter o irmão, mas os olhos dela cintilavam, divertidos.

— Não o quê?

Que ele saiba! — O tio se jogou no sofá.

— A tua esposa passou a vida inteira de olho na minha irmã.

Invejava ela ter apartamentos e vocês uma casa inacabada.

Agora que ela comemore — em breve uma parte da casa vai ser nossa!

Semion Lvovich se levantou e juntou os papéis.

— Eu vou indo.

Aguardo sua decisão até amanhã à noite.

Se aceitar, nos encontramos no tabelião na terça-feira.

Andrei acompanhou o advogado com os olhos e depois se virou para a mãe.

— Você está falando sério?

Vai me processar?

Vai processar o próprio filho?

— E você achou o quê? — a mãe se levantou e abriu os braços.

— Que eu vou ficar até o fim da vida entre essas quatro paredes?

Eu quero viver!

Viver direito, não definhar!

— Você já tem tudo para viver direito!

— Eu não tenho nada! — ela gritou, e a máscara de velhinha boa caiu de vez.

— Um dos apartamentos é pequeno, escuro, no térreo!

O outro eu vou dar para o Roman — ele me ajuda, ao contrário de você!

E a casa de vocês é espaçosa, clara, com jardim!

Lá eu vou passar o resto da vida como gente, e não como uma miserável!

— Mãe, você entende que vai destruir a família?

— Que família? — ela fez pouco caso.

— Você e essa sua Lara mal vivem, eu vejo!

Ela não te valoriza, os filhos foram embora!

Que família é essa?

Roman deu uma risadinha do sofá.

— É isso mesmo!

Eu mesmo vi tua esposa sentada com um sujeito num café.

Dois meses atrás.

Conversando bem “fofinhos”!

O coração deu um salto.

Andrei se virou devagar para o tio.

— O que você disse?

— O que eu disse.

No café da Avenida Lenin, de dia.

Sentados como dois pombinhos.

Quem sabe ela já está preparando um presentinho?

Chama-se chifre!

A mãe não contestou, não o defendeu.

Só ficou ali, olhando o filho processar a informação.

Andrei entendeu — era o golpe final.

Guardado de propósito para quebrar a vontade dele de vez.

— Vai, filho, — disse a mãe quase com carinho.

— Vai para casa, pensa.

Amanhã você liga e me diz a decisão.

E lembre-se: eu não vou recuar.

A casa vai ser minha.

Ele saiu sem se despedir.

No corredor do prédio, Ninel Borisovna ainda estava lá, agora abertamente curiosa.

No caminho até o carro, o telefone vibrou — mensagem de um número desconhecido.

“Andrei Petrovich, aqui é o Semion Lvovich.

Seu caso é indefensável.

Recomendo chegar a um acordo pacífico.

Caso contrário, vai perder tudo.”

Em casa, Larisa o recebeu em silêncio.

Estava sentada na cozinha, diante dela — um prato de sopa intocado.

Andrei jogou as chaves na mesa, andou pelo cômodo.

Tudo por dentro fervia — de raiva, de impotência, e do que o tio disse sobre o café.

— Você se encontrou com alguém? — ele disparou sem introdução.

Larisa levantou os olhos — surpresa, confusa.

— Do que você está falando?

— Num café.

Dois meses atrás.

Com um homem.

Ela pensou e então o rosto clareou.

— Com o Mikhail Sergeevich?

O diretor da escola de música?

A gente estava discutindo o programa do concerto de formatura.

E daí?

— O Roman viu vocês.

Disse que estavam sentados como dois pombinhos.

Larisa riu — curto, cruel.

— Então o seu tio alcoólatra virou testemunha?

Maravilha.

Então eles já chegaram à mentira descarada.

O que vem agora?

Vão me acusar de assassinato para ter certeza de tomar a casa?

Andrei se sentou pesado na cadeira.

As mãos tremiam.

Ele contou tudo — o recibo, o advogado, as ameaças de processo.

Como a mãe, friamente, planejava passar um apartamento para o Roman e se mudar para a casa deles.

— Ela enlouqueceu, — sussurrou Larisa.

— Enlouqueceu de vez.

— Eu não sei o que fazer.

— Sabe, sim. — A esposa olhou firme para ele.

— Amanhã você vai ao seu advogado.

A um advogado de verdade, não a esse Krasnov cínico.

Verifica o recibo, procura meios de defesa.

E dá um basta na sua mãe.

— Mas ela é minha mãe…

— Ela é uma manipuladora e uma tirana! — Larisa bateu a mão na mesa.

— Vinte e dois anos eu aguento!

Aguento o veneno dela, as humilhações, as tentativas eternas de nos colocar um contra o outro!

Mas isso acabou.

Ou você agora fica do lado da sua família, ou eu vou embora.

E as crianças vêm comigo.

Ele olhou para ela — a mulher com quem viveu mais de vinte anos.

Os olhos cansados, os fios brancos no cabelo, as mãos marcadas de trabalho.

Ela realmente aguentou a vida inteira.

As agressões da sogra, a falta de dinheiro, a ocupação constante dele.

E nunca exigiu mais.

Até aquele dia.

De manhã, Andrei foi a um advogado conhecido.

O advogado examinou a cópia do recibo e balançou a cabeça.

— O documento foi redigido de forma correta, não há muito como contestar.

Mas há um ponto: se vocês provarem que devolveram o dinheiro, dá para reconhecer a obrigação como cumprida.

— Como provar?

A gente devolveu em dinheiro.

— Havia testemunhas?

— Não.

— Então é difícil.

Mas dá para tentar com extratos bancários — mostrar que, naquele período, você sacou uma quantia grande.

E também verificar se o prazo prescricional já não venceu.

À noite, a mãe ligou.

A voz, doce e insinuante.

— Filho, você já pensou?

O Semion Lvovich está esperando a resposta.

— Mãe, eu encontrei uma testemunha, — mentiu Andrei.

— Quando devolvemos o dinheiro, um vizinho estava com a gente.

Ele está disposto a depor.

Pausa.

Então a mãe riu — desagradável, estridente.

— Mentira.

Não houve vizinho nenhum.

Você acha que eu não lembro?

— Houve.

E eu também tenho documentos.

Extratos bancários do saque.

— Podia ter sacado para qualquer coisa!

— Que o tribunal decida.

Mãe, se você entrar com a ação, eu vou me defender.

E todo mundo vai saber quem você é.

Todos os vizinhos, suas amigas, nossos parentes.

Vão saber que você tentou tirar a casa do próprio filho.

— Você está me ameaçando?! — a voz explodiu em grito.

— Eu te pari, eu te amamentei!

— E eu te devolvi o dinheiro.

Com juros.

Estamos quites, mãe.

— Quites?! — ela gargalhou, e havia algo assustador naquele riso.

— Muito bem!

Então esqueça que você tem mãe!

A casa eu vou conseguir do mesmo jeito!

O Semion tem contatos, conhece o juiz!

Vocês vão perder e ficar sem nada!

— Tente, — Andrei se surpreendeu com a própria calma.

— Só saiba que eu vou contar ao juiz sobre seus dois apartamentos, sobre você passar um deles para um bêbado do irmão.

Vou contar como você é saudável e disposta, como corre pelas lojas.

Você acha que o juiz não vai perceber que isso é pura ganância?

A mãe respirava no telefone — pesado, entrecortado.

E então disse algo que destruiu as últimas pontes de vez.

— Então é assim.

Escute bem.

Eu tenho conhecidos.

Eles podem fazer uma visita à sua Lara.

Explicar a ela como deve se comportar.

O sangue gelou nas veias.

— O que você disse?

— O que eu disse.

O Roman conhece gente.

Não vão encostar nela, claro, vão só conversar.

Talvez assustem um pouco.

Para que ela te convença a entregar a casa.

— Você está ameaçando a minha esposa?!

— Eu estou defendendo os meus interesses!

Andrei desligou.

As mãos tremiam tanto que ele mal acertou o botão.

Ele ligou para a polícia e registrou uma ocorrência por ameaças.

Depois ligou para o advogado e pediu para formalizar a conversa por escrito.

Dois dias depois chegou a intimação — a mãe realmente entrou com o processo.

Mas agora Andrei estava preparado.

Ele arrumou testemunhas — vizinhos que lembravam que, quinze anos antes, ele levou o dinheiro para a mãe.

Surgiram documentos bancários.

E, principalmente, surgiu o registro das ameaças.

A audiência aconteceu rápido.

A juíza ouviu os dois lados e analisou os documentos.

A mãe fazia o papel de velhinha ofendida — chorava, reclamava do filho ingrato.

Mas, quando foi reproduzida a gravação das ameaças contra Larisa, o rosto da juíza ficou de pedra.

— Indeferir os pedidos, — declarou ela, seca.

— O autor não comprovou as obrigações alegadas.

Além disso, as ações do autor apresentam indícios de chantagem.

Encaminhar a questão ao Ministério Público para avaliação de instauração de procedimento criminal.

A mãe empalideceu.

Semion Lvovich juntou os papéis depressa, claramente sem esperar esse desfecho.

Andrei saiu da sala de audiências sentindo um vazio estranho por dentro.

Houve vitória, mas não houve alegria.

À noite, ele estava com Larisa na cozinha.

Lá fora, voltava a nevar — como naquele primeiro dia, quando tudo começou.

— Ela não vai mais ligar, — disse a esposa, baixinho.

— Eu sei.

— Você sente pena dela?

Andrei pensou.

Pena?

Não.

Mais tristeza.

Tristeza por a própria mãe ter sido capaz de algo assim.

Por ganância e egoísmo terem devorado tudo o que havia de humano nela.

— Ela escolheu esse caminho, — disse ele por fim.

— Podia viver em paz, vir visitar, ver os netos.

Mas quis mais.

Quis tudo.

— E acabou sem nada.

— Não exatamente.

Ela tem dois apartamentos, — Andrei sorriu, amargo.

— Um, é verdade, ela vai dar ao Roman.

Mas é escolha dela.

Larisa pegou na mão dele.

Em silêncio.

E naquele silêncio havia mais do que em quaisquer palavras.

Eles resistiram.

Juntos.

A casa deles continuou sendo a casa deles.

E, em algum lugar a três quilômetros dali, num apartamento aquecido, uma mulher idosa olhava pela janela para a nevasca e pensava que mirou alto demais.

Que o filho nunca mais ligaria.

Que os netos não viriam nas férias.

Que ela tinha ficado completamente sozinha — com seus apartamentos, com seus planos e com um vazio na alma.

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