Marina e Dmitri viviam juntos havia trĂȘs anos, em um apartamento alugado com tetos altos e paredes finas.
Eles gostavam de falar sobre o futuro como se ele jĂĄ estivesse parado diante da porta com uma mala.

Uma casa à beira da ågua, um cachorro peludo e risadas de crianças pela manhã.
Parecia que tudo aquilo era apenas uma questĂŁo de tempo.
â VocĂȘ estĂĄ radiante hoje â disse Dmitri, tirando os sapatos no corredor.
â O que estamos comemorando?
â Nada de especial â respondeu ela, sorrindo enquanto ajeitava os pratos.
â SĂł tive vontade de preparar algo gostoso.
â Em um dia de semana?
VocĂȘ?
Ele deu uma risadinha e foi até a mesa.
â EntĂŁo vocĂȘ certamente estĂĄ planejando alguma coisa.
â Sente-se logo.
Vai esfriar.
Ela passara vĂĄrias horas preparando aquele jantar, cuidando de cada pequeno detalhe como se estivesse organizando notas em uma partitura.
Velas, o peixe preferido dele com limĂŁo e pĂŁo quentinho.
Marina queria que aquele momento fosse inesquecĂvel.
â Olha, estĂĄ realmente delicioso â admitiu Dmitri, levando um pedaço Ă boca.
â Quando vocĂȘ aprendeu a cozinhar assim?
â Quando percebi que queria alegrar vocĂȘ com uma coisa.
â Mais mistĂ©rios â disse ele, deixando o garfo de lado.
â Vamos, fale logo.
Estou vendo que vocĂȘ estĂĄ em cima de brasas.
â EstĂĄ bem â disse ela, respirando fundo e tirando de trĂĄs das costas um pequeno embrulho.
â Abra.
Ele desdobrou lentamente o papel fino, como se pudesse haver uma cobra lĂĄ dentro.
Dentro havia um par de sapatinhos de bebĂȘ minĂșsculos e tricotados, do tamanho das duas palmas das mĂŁos dele.
Dmitri ficou olhando para eles por tanto tempo que a vela teve tempo de começar a derreter.
â O que Ă© isso? â perguntou ele em voz baixa.
â Ă aquilo com que sonhĂĄvamos â respondeu ela, inclinando-se para a frente, radiante.
â Vamos ter um filho, Dima.
Vamos ser pais.
â Um filho â repetiu ele, e sua voz ficou achatada como uma moeda.
â Espere, espere.
Que filho Ă© esse agora?
â O nosso.
Seu e meu.
Estou na terceira semana de gravidez.
Fui ao médico.
EstĂĄ tudo confirmado.
Ele se levantou, afastou a cadeira e começou a andar de um lado para o outro no cÎmodo, amassando um guardanapo no punho.
Pequenas manchas surgiram em seu rosto.
VĂĄrias vezes ele abriu a boca para falar, mas apenas o ar saiu.
â Dima, o que estĂĄ acontecendo com vocĂȘ? â perguntou ela, levantando-se tambĂ©m.
â Eu pensei que vocĂȘ ficaria feliz.
â Feliz?
Ele explodiu de repente em um grito agudo.
â VocĂȘ estĂĄ falando sĂ©rio?
NĂłs nĂŁo planejamos isso!
NĂłs nĂŁo querĂamos um filho agora!
â Como assim, nĂŁo querĂamos?
NĂłs falĂĄvamos disso todas as noitesâŠ
â Podemos dizer qualquer coisa durante o jantar!
Falar Ă© uma coisa, mas tudo isso Ă© algo completamente diferente!
Ele apontava o dedo para a barriga dela como se fosse um alvo.
â VocĂȘ tem mesmo certeza de que Ă© meu?
Ela ficou imĂłvel, e os sapatinhos em suas mĂŁos pareceram de repente gelados.
Marina olhou para ele e esperou que ele caĂsse na risada e dissesse que estava brincando.
Mas ele nĂŁo ria.
â O que vocĂȘ acabou de dizer? â sussurrou ela.
â VocĂȘ ouviu muito bem!
Dmitri quase se engasgava com as prĂłprias palavras.
â Quem sabe o que vocĂȘ faz Ă noite enquanto eu estou trabalhando!
HĂĄ trĂȘs anos eu sustento vocĂȘ, e agora vocĂȘ estĂĄ tentando me empurrar o filho de sabe-se lĂĄ quem!
â Dima, volte a si.
VocĂȘ estĂĄ ouvindo o que estĂĄ dizendo?
â Estou ouvindo perfeitamente!
E sabe de uma coisa?
Eu nĂŁo concordei com isso!
Ele arrancou uma bolsa esportiva do armårio e começou a enfiar suas coisas dentro dela, amassando as camisas.
â Resolva isso sozinha.
Se quer ter o bebĂȘ, tenha.
Mas nĂŁo me envolva nessa aventura.
â VocĂȘ vai embora?
Agora?
Ela foi atrĂĄs dele, ainda apertando os sapatinhos nas mĂŁos.
â Vamos ao menos conversar com calma.
â JĂĄ conversamos o suficiente â respondeu ele, puxando bruscamente o zĂper.
â Boa noite e boa sorte.
VocĂȘ vai precisar.
A porta bateu.
Marina ficou parada no meio da sala, com as velas se apagando e os dois sapatinhos minĂșsculos nas mĂŁos.
O jantar esfriava, e ela ainda nĂŁo conseguia acreditar que tudo aquilo realmente havia acontecido.
As primeiras semanas se fundiram em uma Ășnica faixa cinzenta e pegajosa.
Ela nĂŁo chorava diante dos outros, simplesmente porque nĂŁo tinha diante de quem chorar.
Os amigos davam conselhos, os conhecidos davam de ombros, e dentro dela tudo parecia ter sido desligado.
â VocĂȘ estĂĄ ao menos comendo? â perguntou sua amiga Oksana pelo telefone.
â Sua voz parece vir do fundo de um poço.
â Estou comendo um pouco â respondeu Marina.
â NĂŁo se preocupe.
â Ele nĂŁo ligou?
â NĂŁo.
E eu até fico feliz com isso.
â Feliz? â bufou Oksana.
â Ele abandonou vocĂȘ grĂĄvida, e vocĂȘ estĂĄ feliz?
â Estou feliz por ter descoberto quem ele realmente Ă© agora, e nĂŁo daqui a dez anos.
Saiu mais barato assim.
A salvação chegou certa manhã, ao amanhecer.
Ela estava deitada olhando para o teto quando sentiu de repente um movimento quase imperceptĂvel sob o coração, como se um peixinho tivesse dado um empurrĂŁo por dentro.
E algo que estava escondido nas profundezas dela voltou a se acender.
â OlĂĄ, vocĂȘ â sussurrou ela, colocando a mĂŁo sobre a barriga.
â EntĂŁo agora somos dois.
E nĂłs vamos conseguir, estĂĄ ouvindo?
Ela alugou um apartamento menor, trabalhou até o limite e aceitou todos os trabalhos que conseguia realizar.
Quando o menino nasceu, ela lhe deu o nome de Artiom, um nome curto e firme, como um aperto de mĂŁo.
â Veja como ele Ă© sĂ©rio â disse a parteira.
â Nem soltou um chorinho.
SĂł fica olhando ao redor.
â Ele Ă© um pensador â respondeu Marina, sorrindo.
â NĂŁo Ă©, Tioma?
Artiom realmente cresceu como um menino calmo e reflexivo.
Aos dois anos, alinhava os blocos em fileiras perfeitamente retas.
Aos quatro, lia as placas sĂlaba por sĂlaba.
Aos cinco, fazia perguntas que deixavam os adultos coçando a cabeça pensativos.
â MamĂŁe, por que o cĂ©u Ă© azul, mas o pĂŽr do sol Ă© vermelho? â perguntava ele, balançando as pernas no banquinho.
â E o que vocĂȘ acha?
â Talvez a luz se canse durante o dia e fique vermelha â respondia ele seriamente.
â Sabe de uma coisa? â dizia ela, rindo.
â Isso Ă© quase uma teoria cientĂfica.
Depois vamos conferir nos livros.
A escola logo percebeu que os critérios comuns não funcionavam com aquela criança.
OlimpĂadas, clubes e problemas especialmente difĂceis, ele resolvia tudo com a mesma facilidade com que se quebram sementes de girassol e depois pedia mais.
â Seu filho Ă© excepcional â diziam a ela nas reuniĂ”es de pais.
â Ele deveria estudar em uma escola especializada.
â SerĂĄ que podemos pagar? â perguntava ela com cautela.
â HĂĄ vagas gratuitas.
O importante Ă© que ele seja aprovado.
Ele foi aprovado.
E mesmo na escola de matemåtica, entre crianças igualmente talentosas, continuava se destacando.
Não por arrogùncia, mas pela confiança tranquila de alguém que sabe por que se levanta todas as manhãs.
*
No Ășltimo ano da escola, o nome de Artiom jĂĄ era conhecido em competiçÔes municipais e nacionais.
EntĂŁo chegou um convite para a OlimpĂada Internacional de FĂsica, em Genebra.
â MamĂŁe, estou na lista â anunciou ele, entrando correndo em casa.
â Fui selecionado para a equipe nacional.
â Para onde? â perguntou ela, largando a colher.
â Para Genebra.
Mas Ă© caro.
A viagem, os documentos e todo o resto.
Talvez eu deva desistir.
â Pare aĂ â disse ela, levantando a mĂŁo.
â Nada de desistir.
EstĂĄ ouvindo?
â MamĂŁe, eu vejo como vocĂȘ trabalha duro.
VocĂȘ nĂŁo deveria se endividar por minha causa.
â E por quem mais eu deveria fazer isso? â perguntou ela, aproximando-se e segurando o rosto dele entre as mĂŁos.
â VocĂȘ trabalhou duro durante dez anos.
NĂŁo vou deixar que uma simples passagem fique entre vocĂȘ e o seu sonho.
O dinheiro foi encontrado.
NĂŁo de imediato nem com facilidade, mas foi encontrado.
E lå estava ela sentada em uma sala europeia fria, segurando o telefone com força nas mãos e ouvindo uma voz desconhecida pronunciar um sobrenome familiar.
â Medalha de ouro⊠â sussurrou ela, sem conseguir acreditar.
â Tioma, vocĂȘ ganhou o ouro!
Ele voltou até ela vindo do palco, com a medalha no pescoço, e se inclinou para abraçå-la.
â EntĂŁo, mamĂŁe?
Valeu a pena investir tanto em mim? â perguntou ele, sorrindo.
â VocĂȘ Ă© a melhor coisa que fiz na minha vida â respondeu ela.
â Cuidado com esse tipo de frase â brincou ele.
â Vou acabar ficando convencido e insuportĂĄvel.
â VocĂȘ tem esse direito â respondeu ela, rindo entre as lĂĄgrimas.
â Um pouquinho.
A notĂcia de seu triunfo se espalhou pelos meios de comunicação.
Jovem gĂȘnio, talento natural, esperança do paĂs: as manchetes competiam em grandiosidade.
Entre as milhares de pessoas que viram aquelas reportagens estava um homem que reconheceu no garoto o prĂłprio queixo e o formato das prĂłprias sobrancelhas.
*
Durante todos aqueles anos, Dmitri havia subido muito na vida, mas acabara completamente sozinho no topo.
Dois casamentos e dois divĂłrcios.
Um apartamento espaçoso, objetos caros e um vazio ensurdecedor no lugar de tudo o que realmente importava.
â Ă ele â murmurava Dmitri, apontando para a tela.
â Ă mesmo ele.
Ă o meu garoto.
Meu.
Ele procurou informaçÔes, descobriu o endereço e apareceu sem avisar, carregando uma caixa enorme e com a expressão de um homem que havia ensaiado o discurso diante do espelho.
Marina abriu a porta.
â OlĂĄ â disse ele, quase sem fĂŽlego.
â VocĂȘâŠ
VocĂȘ quase nĂŁo mudou.
â VocĂȘ mudou â respondeu ela calmamente.
â Envelheceu.
Entre, jĂĄ que veio.
Ele entrou olhando ao redor com tanta ganĂąncia que parecia estar calculando o valor de cada prateleira.
Colocou a caixa no chão e começou a falar rapidamente, quase tropeçando nas palavras.
â Marina, sou um idiota como poucos.
Estraguei toda a minha vida por causa daquela cena estĂșpida.
Perdoe-me, estĂĄ ouvindo?
Estou pronto para consertar tudo.
â Consertar â repetiu ela sem expressĂŁo.
â Ă uma palavra interessante.
â Agora sou rico.
Tenho tudo!
Ele começou a remexer nervosamente no bolso.
â Vou dar a vocĂȘs quanto dinheiro vocĂȘ quiser.
Vou passar um apartamento para o nome de vocĂȘs e comprar um carro para o rapaz.
Ele vai entrar na universidade.
Eu pagarei tudo!
â Tudo jĂĄ foi pago â declarou uma voz vinda do fundo do apartamento.
Artiom apareceu no corredor.
Era alto e tranquilo.
Parou diante do visitante e o observou sem ódio, mais com a curiosidade de um cientista diante de um espécime estranho.
â Tioma â disse Dmitri, dando um passo Ă frente, com as mĂŁos tremendo.
â Meu filho.
Sou seu pai.
â Ă uma afirmação interessante â respondeu Artiom calmamente.
â Vamos ver se ela resiste a um teste.
Onde o senhor esteve durante os Ășltimos dezoito anos?
â EuâŠ
Eu cometi um erro!
Eu nĂŁo sabia.
Eu penseiâŠ
â O senhor pensou que minha mĂŁe tinha enganado o senhor â interrompeu o jovem.
â E, sem verificar nada, arrumou uma mala.
Em uma Ășnica noite.
Apresentei corretamente os dados do problema?
â NĂŁo fale comigo como se eu fosse um rĂ©u! â explodiu Dmitri, elevando a voz.
â Sou um ser humano.
Cometi um erro!
Isso acontece com todo mundo!
â As pessoas tropeçam em escadas â observou Artiom.
â Aqui se tratou de uma escolha consciente.
Com todos os acessĂłrios incluĂdos.
â O que vocĂȘ entende disso, seu moleque!
Dmitri ficou vermelho e começou a cuspir enquanto falava.
â Estou lhe oferecendo uma vida!
VocĂȘ tem ideia de tudo o que eu possuo?
E ainda torce o nariz!
â Dima, abaixe a voz â interveio Marina.
â VocĂȘ estĂĄ na casa de outras pessoas.
â Na casa de outras pessoas?
Ele se virou para ela, apontando o dedo.
â Sem mim, esse garoto nem existiria!
Ele Ă© do meu sangue, entendeu?
Minha linhagem, meus genes e minha inteligĂȘncia!
â Pare por aĂ â disse Artiom, levantando a mĂŁo de um jeito que fez Dmitri se calar.
â Essa histĂłria dos genes soa muito bonita.
Mas o senhor conhece esta ideia?
A maior glĂłria nĂŁo estĂĄ em nunca cair, mas em levantar-se sempre que se cai.
Minha mĂŁe caiu e se levantou durante dezoito anos.
O senhor caiu uma vez e continua no chão até hoje.
A Ășnica diferença Ă© que agora estĂĄ deitado em um sofĂĄ caro.
â IssoâŠ
Isso Ă© demagogia! â sufocou Dmitri.
â Ă aritmĂ©tica â respondeu o jovem, dando de ombros.
â Zero participação mais zero apoio Ă© igual a zero direitos.
A conta fecha perfeitamente.
â Marina, explique isso a ele pelo menos!
Ele começou a andar de um lado para o outro no corredor, agarrando-se desesperadamente às palavras.
â Eu nĂŁo sou um estranho!
NĂłs Ă©ramos uma famĂlia!
TĂnhamos tantos planos.
Uma casa, um cachorro e tudo mais!
â TĂnhamos planos â confirmou ela com um aceno de cabeça.
â Depois vocĂȘ me chamou de mentirosa, acrescentou algumas outras palavras encantadoras e foi embora batendo a porta.
VocĂȘ se lembra dos sapatinhos, Dima?
â Que sapatinhos? â murmurou ele.
â Os minĂșsculos, tricotados.
Eu os dei a vocĂȘ naquela noite â explicou ela calmamente.
E a calma dela o deixava cada vez mais desconfortĂĄvel.
â Eles ainda estĂŁo guardados em uma caixa.
Eu os conservei.
Como lembrança da sua traição.
*
Dmitri começou a andar de um lado para o outro no corredor, agitando os braços como se tentasse abrir espaço no ar ao redor dele.
â JĂĄ chega com essas liçÔes de moral! â gritou ele.
â Estou oferecendo dinheiro!
Dinheiro de verdade, nĂŁo essas histĂłrias chorosas sobre cair e se levantar!
Quem recusa dinheiro hoje em dia?
â Quem nĂŁo estĂĄ Ă venda â respondeu Artiom.
â VocĂȘ sĂł estĂĄ tentando aumentar o prĂłprio preço!
Dmitri apontou para ele.
â Acha que eu nĂŁo percebo?
Estå esperando que eu ofereça mais!
Vamos, diga o seu preço, seu pequeno comerciante!
â Cuidado â disse Marina com a voz dura.
â Mais uma palavra contra ele, e vocĂȘ sairĂĄ daqui mais rĂĄpido do que entrou.
â Ou o quĂȘ?
Ele se virou para ela, com a saliva escorrendo pelo queixo.
â Quem Ă© vocĂȘ para me dar ordens?
Pode-se dizer que fui eu quem tirou vocĂȘ da lamaâŠ
â De que lama, Dima? â perguntou ela com um sorriso irĂŽnico.
â VocĂȘ me deixou sozinha, grĂĄvida, com uma bolsa cheia de lembranças.
Tudo o que conquistei, conquistei sem vocĂȘ.
E ele â acrescentou, apontando para o filho â eu tambĂ©m criei sem vocĂȘ.
â Isso Ă© injusto!
Ele baixou de repente o tom e começou a choramingar, esfregando nervosamente as mãos.
â Tentem pelo menos compreender a minha situação!
Estou sozinho.
Não tenho ninguém.
Duas mulheres me abandonaram, e eu nĂŁo tive outros filhos!
VocĂȘ nĂŁo pode simplesmente colocar o verdadeiro pai do seu filho na rua!
â O verdadeiro pai? â perguntou Artiom, inclinando levemente a cabeça.
â Vamos definir os termos.
Um pai nĂŁo Ă© aquele que participou uma vez da biologia.
Um pai Ă© aquele que passou noites inteiras sobre meus cadernos, que me levou a olimpĂadas atravessando metade do paĂs e que se endividou para comprar uma passagem para Genebra.
â MasâŠ
Foi uma mulher que fez tudo isso â respondeu Dmitri, confuso.
â Exatamente â disse o jovem, assentindo.
â Ela fez o trabalho de duas pessoas.
Portanto, o lugar do pai nesta casa também pertence a ela.
E para o senhor, desculpe, nĂŁo hĂĄ vaga disponĂvel.
A equipe jĂĄ estĂĄ completa.
â Como ousa!
Dmitri explodiu novamente, com o rosto deformado pela raiva.
â Eu lhe dei a vida, e vocĂȘ me pĂ”e para fora?
â O senhor me deu a vida â confirmou Artiom.
â Obrigado pelo capital inicial.
Depois disso, mamĂŁe e eu nos viramos sozinhos.
Dmitri ficou parado no meio do corredor, abrindo e fechando a boca, tendo esquecido todas as palavras que preparara.
Estava acostumado a ver o dinheiro abrir qualquer porta.
Mas aquela porta continuava fechada, não importava o quanto tentasse forçå-la.
â Marina â disse ele roucamente, em uma Ășltima tentativa.
â Pelo menos por causa do passado.
Por tudo de bom que houve entre nĂłs.
â Houve coisas boas â reconheceu ela.
â Durante trĂȘs anos.
Depois vocĂȘ mesmo riscou tudo em um Ășnico jantar.
Eu teria perdoado vocĂȘ se tivesse voltado uma semana depois.
Um mĂȘs depois.
Até um ano depois.
Mas dezoito anos jĂĄ nĂŁo sĂŁo um atraso, Dima.
Ă outra vida.
Uma vida sem vocĂȘ.
â Leve a caixa â acrescentou Artiom, pegando-a e colocando-a nas mĂŁos do visitante.
â E leve tambĂ©m tudo o que hĂĄ dentro dela.
NĂŁo precisamos de nada vindo de um estranho.
â VocĂȘsâŠ
VocĂȘs ainda vĂŁo se arrepender â murmurou Dmitri, recuando em direção Ă saĂda.
â Os dois.
â JĂĄ choramos tudo o que podĂamos chorar â respondeu Marina calmamente.
â Nossa cota foi cumprida.
Adeus.
A porta se fechou diante do rosto dele.
Fechou-se silenciosamente, sem bater, o que foi muito mais humilhante do que qualquer porta fechada com violĂȘncia.
Ele ficou parado no patamar, segurando aquela caixa ridĂcula nas mĂŁos e ouvindo as risadas que vinham de trĂĄs da parede.
Risadas calorosas e familiares nas quais nĂŁo havia lugar para ele.
Ele desceu, sentou-se em seu carro caro e ficou muito tempo sem conseguir inserir a chave na ignição.
â Como isso foi acontecer? â murmurava, agarrando o volante.
â Como pude perder tudo desse jeito?
Por causa de um Ășnico jantar e da minha lĂngua maldita.
Eu tinha um filho.
Eu tinha ela.
Eu tinha tudo.
E eu, idiota, por causa de uma Ășnica explosĂŁo de raiva, por causa de uma Ășnica noiteâŠ
Sozinho.
Fiz tudo sozinho.
Ninguém tirou nada de mim.
Eu mesmo joguei tudo fora.
E agora nĂŁo tenho famĂlia, nĂŁo tenho filho, nĂŁo tenho nada.
Apenas um idiota rico com uma caixa no banco do passageiro.
Como isso pĂŽde acontecer?
ComoâŠ







