Nina abotoou o casaco de Vasilisa e agachou-se diante dela.
A menina tinha quatro anos e olhava para a mãe como se entendesse tudo.

Todas as manhãs eram iguais: prepará-la, levá-la, voltar para casa e respirar fundo.
O apartamento que Nina alugava com Lena cheirava à vida de outra pessoa.
Dois colchões no mesmo quarto, um berço encostado à parede e uma cortina no lugar da porta.
Lena saía cedo e voltava tarde, e essa era a única coisa que tornava a convivência suportável.
— Você não comeu de novo? — perguntou Lena, espreitando a cozinha.
— Vasilisa comeu.
Isso basta.
— Nina, você já se olhou no espelho?
— Já.
O espelho também não ficou muito impressionado.
Nina sorriu.
Ela aprendera a sorrir de um jeito que fazia as pessoas desistirem de fazer perguntas.
De forma breve, tranquila e sem dramatizar.
Isso funcionava com quase todos.
A pensão alimentícia paga por Igor era ridiculamente baixa.
Oficialmente, ele ganhava tão pouco que chegava a ser constrangedor dizer o valor em voz alta.
O restante do salário vinha em um envelope, e Nina não conseguia provar isso.
Ela também não queria começar uma guerra.
A única pessoa da família do ex-marido que não havia desaparecido era o pai dele, Gennady Petrovich.
Ele aparecia a cada duas semanas e levava alimentos, fraldas e, às vezes, dinheiro em um envelope.
Em silêncio, deixava as sacolas junto à porta, pegava Vasilisa no colo e beijava sua testa.
— Gennady Petrovich, o senhor não é obrigado a fazer isso — dizia Nina todas as vezes.
— Não sou obrigado.
Eu quero.
São duas coisas diferentes, Nina.
— Igor sabe que o senhor vem aqui?
— Igor só sabe aquilo que lhe convém saber.
Esse é o maior talento dele.
Ele falava do filho sem raiva, mas com tanta precisão que Nina sempre desviava o olhar.
Gennady Petrovich não reclamava.
Simplesmente fazia aquilo que considerava certo.
E isso já era mais do que qualquer outra pessoa ao redor dela fazia.
Seis meses antes, Gennady Petrovich reuniu a família em casa para aquilo que ele mesmo chamou de “conselho”.
Sentou-se à mesa, colocou as mãos diante de si e pediu que todos se sentassem.
Tamara, sua esposa, estava junto ao fogão.
Igor estava sentado com o celular.
— Quero falar sobre Vasilisa — disse Gennady Petrovich.
— De novo? — perguntou Tamara sem se virar.
— Sim.
De novo.
E continuarei falando até ouvir algo humano.
— Pai, eu e Nina nos separamos de forma normal — disse Igor sem levantar a cabeça.
— Sem escândalos.
Por que você está exagerando tudo isso?
— Uma separação normal é aquela em que a criança não passa fome.
Sua filha mora em um quarto alugado com uma cortina no lugar da parede.
— Eu pago pensão alimentícia.
— Você paga uma quantia insultante.
E sabe disso perfeitamente.
Tamara finalmente se virou.
Secou as mãos numa toalha.
Olhou para o marido como se olha para alguém que acaba de dizer uma grande tolice.
— Gena, já chega.
O rapaz ainda é jovem.
Vai se casar de novo.
Haverá outras noras e outros netos.
Por que ficar obcecado justamente com essa?
— Com essa?
Você acabou de chamar sua própria neta de “essa”?
— Eu disse o que disse.
— Tamara, essa criança não é uma estranha.
Ela é do nosso sangue.
— Esse é, antes de tudo, um problema da Nina.
Ela deu à luz, então que resolva.
O que nós temos a ver com isso?
Gennady Petrovich olhou para o filho.
Igor ficou calado.
Ele sempre se calava quando Tamara falava.
Era conveniente.
Assim, não precisava tomar decisões, discutir nem sentir culpa.
— Igor, você vai dizer alguma coisa?
— Pai, não sei o que você quer de mim.
Eu trabalho.
Pago o que sou obrigado a pagar.
Nina não reclama.
— Nina não reclama porque tem orgulho.
Você não tem.
E isso, meu filho, é um diagnóstico.
Tamara bateu a toalha na mesa.
— Chega.
Não vamos sustentar uma ex-nora.
Eu também tenho direito a uma opinião nesta casa.
— Uma opinião você tem.
Consciência, não.
E estou dizendo isso diante do nosso filho, Tamara, para que ele se lembre.
Gennady Petrovich levantou-se e saiu da cozinha.
Naquela noite, ligou para o pai, Pyotr Alexeyevich, que morava no campo.
A conversa durou duas horas.
Ninguém soube sobre o que eles falaram.
*
O aniversário de Gennady Petrovich caiu num sábado.
Tamara cozinhava desde cedo.
A mesa estava posta na sala grande, com saladas, frios, uma jarra de compota e garrafas.
Os convidados começaram a chegar às cinco.
A irmã de Tamara veio com o marido.
O primo de Gennady veio da região.
Os vizinhos de cima, amigos da família havia vinte anos, também chegaram.
Igor veio sozinho, sem a namorada, embora todos soubessem que ele tinha uma.
Tamara dava ordens.
Distribuía os lugares.
Mudava os pratos de posição.
Estava em seu elemento: a anfitriã, o centro e a voz de comando.
— Gena, onde você colocou Mitrich?
Ele não ouve bem do ouvido esquerdo.
Precisa sentar perto da parede.
— Mitrich vai se sentar onde encontrar lugar.
Isto não é uma prova.
— Está bem, como quiser.
Igor, tire esse casaco da poltrona.
Ainda virão mais pessoas.
— Quem mais vai vir? — perguntou Igor, pendurando o casaco.
— Acho que todos já chegaram.
— Todos — confirmou Tamara.
Gennady Petrovich não disse nada.
Às seis horas, a campainha tocou.
Tamara gritou da cozinha:
— Alguém abra!
Estou com as mãos ocupadas!
Gennady levantou-se e foi abrir.
Nina estava na porta com Vasilisa nos braços.
Em uma mão, segurava uma sacola com um presente e, no outro braço, a criança.
Vasilisa segurava um pequeno coelho de pelúcia e olhava seriamente para o avô.
— Entre, Nina.
Tirem os casacos.
Aqui estão os chinelos.
— Gennady Petrovich, obrigada pelo convite.
Vasilisa, diga “feliz aniversário” ao vovô.
— Feliz anivesário — disse Vasilisa, engolindo uma sílaba.
Gennady pegou a neta no colo.
Levou-a para a sala.
Nina foi atrás.
Quando apareceram na entrada da sala de estar, todos à mesa ficaram em silêncio.
Igor congelou com um copo na mão.
Tamara colocou lentamente a travessa de carne sobre a mesa e se endireitou.
Os convidados trocaram olhares.
— Pai — disse Igor, engolindo em seco.
— O que é isso?
— É meu aniversário.
E eu convidei as pessoas que queria ver.
Nina é uma delas.
— Você poderia ter me avisado — disse Tamara entre os dentes cerrados.
— Poderia.
Mas não avisei.
— Por quê?
— Porque você teria armado um circo antes.
Eu queria que o circo acontecesse diante de testemunhas.
Assim fica mais claro.
Nina sentou-se no lugar vazio na ponta da mesa.
Colocou Vasilisa no colo.
A menina olhava para as saladas coloridas e estendeu a mão para as uvas.
Nina deu-lhe uma, depois de cortá-la ao meio.
Começaram os brindes constrangidos.
Mitrich falou por muito tempo e de forma confusa.
A irmã de Tamara ergueu o copo e brindou à saúde do aniversariante.
Igor ficou calado e rolava uma migalha de pão sobre a toalha.
Nina alimentava a filha discretamente.
Não se metia nas conversas nem tentava chamar atenção.
Sentava-se ereta, calma e quase invisível.
E era justamente isso que parecia irritar Tamara mais do que qualquer outra coisa.
Então Vasilisa estendeu a mão para o copo de compota.
Seus pequenos dedos não conseguiram segurá-lo.
O copo tombou e a compota se espalhou sobre a toalha, formando uma mancha marrom.
Vasilisa se assustou e se agarrou a Nina.
Nina enxugou rapidamente o líquido com um guardanapo e levantou o copo.
— Desculpem.
Ela não fez de propósito.
Tamara se levantou.
Devagar.
Olhou para a mancha na toalha e depois para Nina.
Então falou alto o suficiente para que todos ouvissem:
— Quem é você para se sentar à minha mesa?
Os convidados ficaram imóveis.
Mitrich parou de mastigar.
A irmã de Tamara abaixou o garfo.
— Tamara… — começou Gennady.
— Não, espere.
Estou perguntando.
Quem convidou você?
Quem é você aqui?
Uma ex?
Você é uma ex, Nina.
A ex-esposa do meu filho.
Você não tem o direito de se sentar a esta mesa, comer na minha louça e derrubar meus copos.
Pegue suas coisas e vá embora.
Leve a criança com você.
Nina empalideceu.
Vasilisa começou a chorar baixinho, sem gritar, como choram as crianças que aprenderam a não fazer barulho.
— Tamara — repetiu Gennady Petrovich.
— Sente-se.
— Não vou me sentar!
Esta casa é minha!
— Sente-se — repetiu ele pela terceira vez.
Sua voz soou de tal forma que Tamara realmente se sentou.
Naquele exato momento, a campainha tocou.
*
Gennady Petrovich se levantou e foi abrir.
Dois homens de macacão estavam do outro lado da porta.
Atrás deles havia outro homem com um carrinho.
No carrinho estavam várias caixas.
Elas estavam fechadas com fita adesiva e identificadas com marcador.
— Tragam para cá.
Por enquanto, deixem no corredor.
— Gena, o que é isso? — perguntou Tamara, aparecendo na porta da sala.
— Espere.
Vou explicar tudo agora.
Os carregadores trouxeram oito caixas.
Colocaram-nas cuidadosamente ao longo da parede.
Gennady assinou algum documento.
Depois fechou a porta.
Voltou para a sala.
Ficou em pé na cabeceira da mesa.
Olhou para cada pessoa, uma de cada vez.
Por fim, seu olhar parou em Tamara.
— Nina — disse ele, dirigindo-se à ex-nora.
— Conte a ela.
Nina levantou os olhos.
Segurava Vasilisa, que já havia parado de chorar e mexia no coelho com o dedo.
— Tamara Sergeyevna — disse Nina com voz firme.
— A senhora precisa desocupar o quarto.
E amanhã terá de arrumar suas coisas e deixar o apartamento.
Junto com Igor.
Alguém deixou cair um garfo à mesa.
Igor levantou lentamente a cabeça.
— O quê? — disse ele.
— Você está falando sério?
— Ela está falando sério — respondeu Gennady Petrovich no lugar de Nina.
— E agora vou explicar o motivo.
Ele tirou alguns documentos dobrados do bolso interno do paletó.
Colocou-os sobre a mesa, ao lado da saladeira.
— Este apartamento nunca foi meu.
Ele pertence ao meu pai, Pyotr Alexeyevich.
Ele o comprou há quarenta anos, quando ainda morava na cidade.
Depois se mudou para o campo e nos permitiu morar aqui.
De graça.
Durante todos esses anos, o apartamento continuou registrado no nome dele.
Eu morei aqui como convidado.
Todos vocês moraram aqui como convidados.
— E daí? — perguntou Tamara, agarrando-se à borda da mesa.
— Pyotr Alexeyevich nunca nos expulsou.
— Não expulsou.
Porque acreditava que havia consciência nesta família.
Há seis meses, liguei para ele.
Contei tudo.
Sobre Nina.
Sobre Vasilisa.
Sobre os envelopes de Igor.
Sobre suas palavras, Tamara: “Haverá muitas outras noras e muitos outros netos”.
Ele ouviu tudo e disse uma única frase: “Eu vou resolver”.
— O que ele resolveu? — perguntou Tamara com a voz mais aguda.
— Ele doou o apartamento à bisneta.
À Vasilisa.
Os documentos estão prontos e tudo já foi registrado oficialmente.
O apartamento pertence à menina de quatro anos que você acabou de mandar embora da sua mesa.
Igor se levantou.
Sentou-se.
Depois se levantou novamente.
— Pai, você não podia fazer isso.
Esta é a nossa casa.
Nós crescemos aqui.
— Era a casa do meu pai.
Agora é a casa da bisneta dele.
E Nina, como única representante legal da criança, decide quem pode morar aqui.
— Isso é loucura — disse Tamara, olhando para os convidados em busca de apoio.
— Vocês estão ouvindo?
Ele está nos deixando sem casa por causa de uma ex-nora!
— Não por causa da nora — respondeu Gennady Petrovich em voz baixa, mas cada palavra caiu pesadamente.
— Por causa da minha neta.
Aquela que você descartou no dia do divórcio.
Aquela que Igor alimenta com as migalhas do salário dele.
Aquela que dorme num quarto alugado atrás de uma cortina.
Ela tem quatro anos, Tamara.
Quatro.
E você pergunta à mãe dela quem ela é.
— Gena, você é um traidor — sussurrou Tamara.
— Você traiu sua família.
— Não.
Eu escolhi a parte da família que não consegue se defender sozinha.
Nina se levantou.
Aproximou-se de Gennady Petrovich.
Olhou-o nos olhos.
— O senhor tem certeza? — perguntou baixinho.
— Absoluta.
— E o senhor?
— Vou morar na casa de campo.
Lá é tranquilo.
Há uma horta.
E ninguém vai dizer que estou exagerando.
Tamara — disse ele, virando-se para a esposa.
— Você pode ir comigo.
A casa é grande.
Há espaço suficiente.
— Eu?
Para a casa de campo?
Você ficou louco?
— Não.
Estou perfeitamente lúcido.
É justamente por isso que estou fazendo o que estou fazendo.
Igor se aproximou do pai.
Seu rosto estava branco.
— O vovô sabe que você está nos expulsando?
— O vovô sabe de tudo.
Ligue para ele, se não acredita em mim.
Você sabe o número.
Na verdade, não.
Você não sabe.
Nunca ligou para ele.
Nem uma única vez em quatro anos.
— Pai, podemos contestar isso.
— Conteste.
A doação foi feita de acordo com a lei.
Pyotr Alexeyevich está plenamente capaz de tomar suas próprias decisões e passou pessoalmente por todas as avaliações necessárias.
É a vontade dele.
O apartamento dele.
A decisão dele.
E a bisneta já está oficialmente registrada aqui.
Ponto final.
Gennady Petrovich voltou a se sentar à mesa.
Serviu-se de compota em um copo limpo.
Tomou um gole.
— Agora, se ninguém se importar, eu gostaria de terminar de comemorar meu aniversário.
Tenho sessenta e dois anos.
Não me restam aniversários suficientes para desperdiçá-los com gritos.
*
Os convidados foram embora em silêncio.
Mitrich apertou a mão de Gennady por mais tempo do que de costume e não disse nada.
A irmã de Tamara levou-a para a cozinha e sussurrou alguma coisa, mas Tamara apenas balançava a cabeça.
Igor estava no corredor, entre as caixas.
Elas estavam identificadas como “Cozinha”, “Quarto”, “Livros” e “Diversos”.
Gennady Petrovich já havia começado a se preparar para a mudança antes mesmo da festa.
— Essas coisas são suas? — perguntou Igor, apontando para as caixas.
— São.
Vou buscá-las amanhã de manhã.
O carro chegará às nove.
— Você planejou tudo com antecedência.
— Sim.
Porque não tenho tempo para esperar você amadurecer.
Esperei por dois anos, Igor.
Durante dois anos, visitei Nina e vi como minha neta vivia.
E todas as vezes eu voltava para cá com um sentimento que nem sequer tem nome.
— Pai, eu teria resolvido tudo.
Com o tempo.
— “Com o tempo” significa nunca.
Você diz “com o tempo” quando não pretende fazer nada.
Eu criei você.
Conheço de cor todas as suas desculpas.
Igor encostou-se à parede.
Baixou a cabeça.
— E se eu disser que começarei a pagar uma pensão decente?
— Você dirá.
E pagará por um mês.
Talvez dois.
Depois encontrará um motivo para parar.
Uma nova namorada, novas despesas e uma nova história.
Estou cansado desse ciclo.
Nina também está cansada.
E Vasilisa não deveria passar por isso.
— Você está me castigando.
— Estou salvando sua filha.
Se você enxerga isso como um castigo, então está ainda mais distante da realidade do que eu pensava.
Nina saiu para o corredor.
Vasilisa havia adormecido em seu ombro, agarrada ao coelho.
— Gennady Petrovich, posso falar com o senhor por um minuto?
— Sim, claro.
Eles se afastaram em direção à porta de entrada.
Nina falava quase num sussurro para não acordar a filha.
— Não quero que vocês briguem por nossa causa.
O senhor já fez tanto.
Se isso destruir sua família…
— Nina, família não é apenas quem se senta à mesma mesa.
Família é quem não vira o rosto quando as coisas ficam difíceis.
Tamara virou o rosto.
Igor virou o rosto.
Eu não.
E meu pai também não.
Somos velhos, teimosos e, pelo visto, os únicos desta família que ainda se lembram do que significa responsabilidade.
— Eu devolverei tudo ao senhor.
Quando puder.
— Você não precisa devolver nada.
O apartamento pertence a Vasilisa.
Não a mim nem a você.
A ela.
Quando crescer, ela mesma decidirá.
Até lá, vivam aqui.
Amanhã passarei para ajudar a desfazer as caixas.
Há algumas coisas velhas minhas ali que não serão úteis na casa de campo e só ocupam espaço.
— Obrigada.
— Não há nada para agradecer.
Estou apenas fazendo aquilo que meu filho deveria ter feito há dois anos.
Tamara saiu da cozinha.
Seus olhos estavam vermelhos e os lábios firmemente apertados.
Olhou para Nina com Vasilisa.
Depois para as caixas.
Depois para o marido.
— E para onde devo ir agora? — perguntou.
— Já disse.
Para a casa de campo.
Comigo.
Ou para a casa da sua irmã.
Ou para onde quiser.
Você é adulta, Tamara.
Pela primeira vez na vida, terá de resolver seu próprio problema sem fazer isso às custas de outra pessoa.
— Isso é cruel, Gena.
— Cruel é ver uma criança de quatro anos morando no apartamento de outra pessoa, com uma cortina no lugar da porta, e dizer: “Esse não é o nosso problema”.
Isso é crueldade.
Tamara abriu a boca, mas não encontrou palavras.
Virou-se para Igor.
— Meu filho, diga pelo menos alguma coisa!
Igor olhou para o pai.
Depois para Nina.
Depois para a filha adormecida.
Algo que se parecia vagamente com vergonha passou por seus olhos.
— Não tenho nada a dizer — murmurou.
— Exatamente — respondeu Gennady Petrovich.
— Você nunca tem nada a dizer.
E esse é o principal problema.
Ele vestiu o casaco.
Pegou as chaves do carro.
Depois se virou para Nina.
— Troque as fechaduras amanhã.
Mandarei um chaveiro.
E não deixe entrar ninguém que tente fazer você ceder por pena.
Você tem todo o direito.
— Está bem.
— Dê a Vasilisa os cumprimentos do bisavô.
Ele virá na próxima semana.
Quer conhecer a bisneta.
Diz que ela se parece com ele.
Nina assentiu.
Seus olhos brilhavam, mas ela se manteve firme.
Ela sempre se mantinha firme.
Gennady Petrovich foi embora.
A porta se fechou silenciosamente atrás dele, sem bater.
Tamara permaneceu no corredor, entre caixas que já não eram dela, num apartamento que já não era dela, ao lado de um filho que nunca se tornara verdadeiramente adulto.
Nina entrou no quarto.
Deitou Vasilisa na cama.
Cobriu-a com uma manta.
O coelho ainda estava preso em seu pequeno punho.
Depois Nina voltou ao corredor.
Tamara e Igor ainda estavam ali, imóveis, como se não soubessem para onde ir.
E Nina pensou que era exatamente assim que parecia o momento em que o chão que você julgava seu se revelava pertencer a outra pessoa.
Quando a mesa à qual você impedia os outros de se sentarem deixava de ser sua.
— Vocês têm até amanhã — disse Nina.
— Não vou expulsar ninguém no meio da noite.
Mas amanhã de manhã, por favor, deixem o apartamento.
Tamara não respondeu.
Passou por Nina, entrou no quarto e fechou a porta.
Igor foi atrás dela.
Nina ficou sozinha no corredor.
Sentou-se no banquinho junto ao cabideiro.
Olhou para as caixas.
Para as inscrições feitas com marcador.
Para as chaves que Gennady Petrovich havia deixado sobre o pequeno móvel.
Então pegou o celular e escreveu para Lena:
“Encontrei um apartamento.
Conto tudo amanhã.”
Colocou o celular sobre o móvel.
Depois soltou o ar.
Pela primeira vez em dois anos, conseguiu respirar de verdade.







