đŸ”»â€” VocĂȘ nĂŁo conseguia engravidar, entĂŁo traiu o meu irmĂŁo! — gritava a cunhada, enquanto o marido permanecia afastado, pĂĄlido como a cera


Vera estava sentada na beirada da cama, olhando para o marido.

Dois anos de casamento, e todos os meses era sempre a mesma coisa.

Esperança, espera, desilusão — mas a gravidez nunca acontecia.

— Artiom, talvez devĂȘssemos mesmo ir juntos ao mĂ©dico? — a voz dela soava suave, quase suplicante.

— Para quĂȘ?

Comigo estĂĄ tudo bem.

Tenho um atestado.

— Que atestado?

VocĂȘ nem sequer fez exames.

— E eu sou obrigado a fazĂȘ-los na sua frente? — ele ironizou.

— Minha irmã marcou uma consulta com um bom especialista ainda antes do casamento.

Os resultados estĂŁo na gaveta, caso esteja interessada.

Ele fez um gesto despreocupado na direção da gaveta da cÎmoda.

Vera conhecia aqueles papéis.

JĂĄ os tinha visto umas cem vezes.

Carimbos bem colocados, assinaturas e nĂșmeros dentro dos valores normais.

— Então por que não conseguimos?

JĂĄ se passaram dois anos.

— Pergunte à sua irmã.

Ela também não consegue, não é?

Quantas tentativas foram — trĂȘs?

Quatro?

Vera estremeceu.

Ksenia era um assunto doloroso.

Sua irmĂŁ mais velha sonhava em ter um filho durante toda a vida adulta.

Quatro tratamentos malsucedidos.

Lågrimas, injeçÔes e esperanças.

— O que Ksenia tem a ver com isso?

— Pelo visto, Ă© algo de famĂ­lia.

Minha irmĂŁ jĂĄ diz hĂĄ muito tempo que vocĂȘ precisa fazer exames sĂ©rios.

NĂŁo numa clĂ­nica comum do bairro, mas num lugar de verdade.

— Eu já fiz exames.

EstĂĄ tudo bem.

— Está vendo?

Tudo supostamente estĂĄ bem, mas nĂŁo hĂĄ resultado.

EntĂŁo nĂŁo estĂĄ tudo bem.

Ele dizia aquilo com tanta calma e segurança.

— Minha irmĂŁ conhece uma excelente mĂ©dica.

Galina Viktorovna.

Elas sĂŁo amigas desde a infĂąncia.

Vå até ela e peça para fazer todos os exames como deve ser.

Vera permaneceu em silĂȘncio.

Janna era a irmĂŁ mais velha de Artiom e tinha doze anos a mais do que ele.

Ela sempre sabia mais.

Sempre decidia.

Sempre controlava tudo.

— Vou pensar.

— Pensar no quĂȘ?

NĂłs queremos um filho, certo?

Então faça alguma coisa.

Ele sorriu com aquele mesmo sorriso que antigamente fazia Vera derreter.

Agora, aquele sorriso parecia diferente.

O consultĂłrio de Galina Viktorovna ficava numa clĂ­nica particular do outro lado da cidade.

Vera levou quase uma hora para chegar.

— Entre e tire a roupa, — disse a mĂ©dica, sem perder tempo com gentilezas.

Exame, ultrassom, coleta de material e sangue.

Vera obedeceu a todas as instruçÔes.

— Hum, hum, — murmurou Galina Viktorovna, folheando os resultados.

— Há uma pequena inflamação.

E os hormÎnios também estão um pouco inståveis.

Vou prescrever um tratamento.

— Mas o que exatamente está errado?

— Várias coisas.

SĂŁo detalhes pequenos, mas juntos formam um quadro.

Soro, vitaminas e fisioterapia.

TrĂȘs meses, e depois veremos.

— TrĂȘs meses?

— No mínimo.

SaĂșde nĂŁo Ă© brincadeira.

Vera saiu do consultório com um maço de encaminhamentos e receitas.

Sentia o coração pesado, mas tentava pensar de forma positiva.

A médica era experiente e tinha sido recomendada pela cunhada, então as coisas deveriam melhorar.

À noite, a irmã de Artiom ligou.

— E entĂŁo, vocĂȘ foi?

— Fui.

— O que Galina disse?

— Prescreveu um tratamento.

Por trĂȘs meses.

— Está vendo! — havia satisfação na voz da cunhada.

— Eu disse que o problema estava em vocĂȘ.

Ainda bem que começaram a tratar disso a tempo.

Vera nĂŁo respondeu.

O que poderia dizer?

— E sua irmã?

Continua sofrendo?

— Ksenia
 sim, está sendo difícil para ela.

— NĂŁo Ă© de surpreender.

Com essa hereditariedade.

Dizem que sua mãe também não engravidou logo de início.

— Como vocĂȘ sabe


— Artiom contou.

VocĂȘs conversam sobre tudo, nĂŁo Ă©?

Então ouça o que estou dizendo como alguém mais velha: leve o tratamento a sério.

Meu irmĂŁo precisa de uma esposa normal, nĂŁo de uma invĂĄlida.

Vera desligou o telefone e ficou muito tempo olhando para a parede.

“Inválida.”

A palavra ficou presa dentro dela, afiada e dolorosa.

*

Dois meses se passaram.

Soro em dias alternados, punhados de comprimidos e exames toda semana.

Vera comparecia regularmente às consultas com Galina Viktorovna e seguia todas as prescriçÔes.

— HĂĄ progresso, — dizia a mĂ©dica.

— Mas Ă© lento.

Vamos prolongar o tratamento.

— Por quanto tempo?

— Mais dois meses.

E sabe de uma coisa?

Eu recomendaria um sanatĂłrio.

HĂĄ um muito bom, especializado.

Janna conhece.

Claro que Janna conhecia.

Janna sempre sabia de tudo.

— É caro?

— A saĂșde vale mais.

Vera assentiu.

JĂĄ tinha se acostumado a concordar com tudo.

À noite, durante o jantar, Artiom comentou com descaso:

— Ouvi dizer que vocĂȘ precisa ir para um sanatĂłrio.

— Galina Viktorovna recomendou.

— Então vá.

NĂłs daremos um jeito no dinheiro.

— VocĂȘ vai comigo?

— Para quĂȘ? — ele perguntou, sinceramente surpreso.

— Tenho coisas para fazer.

AlĂ©m disso, quem precisa de tratamento Ă© vocĂȘ, nĂŁo eu.

Vera quis protestar, mas ficou calada.

— A propósito, no sábado vamos à casa de Janna.

Ela vai reunir os parentes para uma espécie de almoço em família.

Esteja pronta.

— Está bem.

— E vista-se de forma decente.

Da Ășltima vez, parecia uma estudante.

Vera se levantou em silĂȘncio e começou a tirar as coisas da mesa.

Algo se apertava dentro dela, mas, como sempre, ela reprimiu aquele sentimento.

O almoço de såbado na casa de Janna transformou-se numa tortura.

Cerca de dez pessoas estavam sentadas à mesa — parentes de Artiom e alguns conhecidos em comum.

Vera sentia-se como uma peça exposta numa vitrine.

— Então, Verinha, — perguntou Janna, com um sorriso doce e falso.

— Como está indo o tratamento?

— Devagar.

— Devagar tambĂ©m Ă© bom.

O importante Ă© nĂŁo desistir.

Embora, com o histórico da sua família


— Que histórico? — perguntou Liudmila, a mãe de Vera, ficando tensa.

— Ora essa.

Ksenia também tem problemas.

Quatro tentativas e nenhuma deu certo.

Isso deve ser hereditĂĄrio.

— A situação de Ksenia Ă© completamente diferente.

— Vamos, Liudmila Nikolaievna.

Todo mundo sabe que fruta não cai longe do pé.

NĂŁo fique ofendida, eu sĂł quero o bem de vocĂȘs.

Vera permaneceu sentada com o rosto imĂłvel.

Sua mĂŁe empalideceu.

— Janna, podemos mudar de assunto?

— Por que mudar?

Aqui somos todos da famĂ­lia.

Todo mundo entende.

Desde que Artiom era criança, eu dizia a ele para escolher uma esposa com inteligĂȘncia.

A linhagem Ă© importante.

Mas ele se apaixonou, entĂŁo fazer o quĂȘ?

— Eu nĂŁo sou uma Ă©gua defeituosa.

Todos ficaram em silĂȘncio.

A prĂłpria Vera se surpreendeu por ter dito aquilo em voz alta.

— Como disse? — Janna ergueu uma sobrancelha.

— Eu não sou defeituosa.

E Ksenia também não é.

Somos seres humanos, não animais de reprodução.

— Oh, como somos sensíveis! — a cunhada caiu na risada.

— Artiom, sua esposa ficou ofendida com a verdade.

— Vera, não comece, — disse Artiom, continuando a mastigar.

— Eu não estou começando nada.

SĂł estou pedindo para nĂŁo discutirem minha saĂșde diante de estranhos.

— Que estranhos?

Isto Ă© famĂ­lia!

— Sua família, Artiom.

NĂŁo a minha.

— Isso jĂĄ Ă© demais, — disse Janna, balançando a cabeça.

— Quando uma mulher se casa, ela aceita a família do marido.

Com todas as qualidades e defeitos.

Ou vocĂȘ achou que simplesmente a aceitamos sem motivo?

Sem dote, sem contatos e com uma irmã defeituosa


— Não se atreva a falar assim de Ksenia!

Vera levantou-se tĂŁo depressa que a cadeira foi empurrada para trĂĄs.

— Sente-se, — disse Artiom, olhando finalmente para ela.

— Sente-se e acalme-se.

Minha irmĂŁ nĂŁo quis dizer nada de ruim.

— Nada de ruim?

Ela acabou de chamar minha irmĂŁ de defeituosa!

— E o que há de errado nisso? — a cunhada abriu os braços.

— Quatro fertilizaçÔes in vitro fracassadas sĂŁo estatĂ­sticas, querida.

SĂŁo fatos.

NĂŁo fui eu que os inventei.

Vera olhou para a mĂŁe.

Liudmila estava pĂĄlida, com os lĂĄbios tremendo.

— Nós vamos embora.

— Vera, não dramatize.

— Mãe, prepare-se.

NĂłs vamos embora.

Liudmila levantou-se em silĂȘncio.

Elas saĂ­ram sob os cochichos dos convidados e a risada alta de Janna.

*

No carro, Vera permaneceu calada.

Sua mãe também.

— Minha filha


— Não precisa, mãe.

Eu sei o que vocĂȘ vai dizer.

— O quĂȘ?

— Que preciso aguentar.

Que família exige esforço.

Que todos os maridos sĂŁo assim.

— Não.

Eu queria dizer para vocĂȘ deixĂĄ-lo.

Vera freou bruscamente.

— O quĂȘ?

— Deixe-o.

Antes que seja tarde demais.

Antes que eles destruam vocĂȘ por completo.

— Mas, mĂŁe, vocĂȘ sempre disse que era preciso preservar a famĂ­lia


— Eu dizia.

Mas depende da famĂ­lia.

Desta vez, eu estava errada.

Olho para vocĂȘ e vejo que jĂĄ nĂŁo Ă© a mesma Vera de dois anos atrĂĄs.

VocĂȘ se culpa por algo que nĂŁo Ă© culpa sua.

Pede desculpas simplesmente por existir.

— Isso nĂŁo Ă© verdade.

— É verdade, minha filha.

É exatamente isso.

Vera ligou o carro e voltou Ă  estrada.

As palavras da mĂŁe ficaram presas dentro dela.

IncĂŽmodas e cortantes.

E se ela estivesse certa?

NĂŁo.

Ela nĂŁo podia desistir.

Mais uma chance.

Mais uma tentativa.

No dia seguinte, Vera foi fazer outra sessĂŁo de soro.

No corredor, uma enfermeira a chamou.

— A senhora Ă© Vera, certo?

É paciente de Galina Viktorovna?

— Sim.

— Podemos conversar um instante?

Elas se afastaram para um canto.

A enfermeira olhou ao redor e abaixou a voz.

— Vou me demitir depois de amanhã.

Por isso vou lhe contar.

VĂĄ a outra clĂ­nica.

Qualquer uma.

Deixe que especialistas independentes a examinem.

— O que quer dizer?

— Exatamente isso.

Não posso explicar mais, mas
 acredite em mim.

VĂĄ.

A senhora Ă© saudĂĄvel e sĂł estĂĄ perdendo tempo.

— Como a senhora sabe


— Sou enfermeira.

Vejo os resultados.

Todos veem.

SĂł ficam calados.

— Por quĂȘ?

— Porque Galina Viktorovna Ă© amiga de Janna.

E ela recebe muito bem para produzir
 certos resultados.

Vera abriu a boca, mas a enfermeira jĂĄ tinha ido embora depressa, sem olhar para trĂĄs.

Naquele dia, Vera nĂŁo recebeu o soro.

Disse que nĂŁo estava se sentindo bem.

Foi para casa e ficou sentada até a noite, olhando para um ponto fixo.

SaudĂĄvel.

Ela era saudĂĄvel.

Dois meses de tratamento para doenças inexistentes.

Comprimidos, injeçÔes e humilhaçÔes.

Por quĂȘ?

TrĂȘs dias depois, Vera estava sentada no consultĂłrio de uma clĂ­nica completamente diferente.

Do outro lado da cidade, sem recomendaçÔes e sem conhecidos.

— Os resultados estĂŁo prontos, — disse a jovem mĂ©dica, folheando os papĂ©is.

— Posso parabenizá-la.

A senhora estĂĄ completamente saudĂĄvel.

— Completamente?

— Do ponto de vista ginecológico, não há nenhuma alteração.

Seus hormĂŽnios estĂŁo normais, nĂŁo hĂĄ patologias estruturais e suas trompas estĂŁo perfeitamente desobstruĂ­das.

— E a inflamação?

— Que inflamação?

— Disseram que eu tinha uma inflamação crînica e um desequilíbrio hormonal


— Quem disse isso? — perguntou a mĂ©dica, franzindo a testa.

— Mostre-me os resultados dos exames anteriores.

Vera tirou a pasta com os relatĂłrios de Galina Viktorovna.

A médica analisou os documentos durante muito tempo e depois ergueu os olhos.

— Não vou comentar o trabalho de uma colega.

Vou dizer apenas uma coisa.

Se um casal tenta ter filhos hĂĄ dois anos e a mulher estĂĄ completamente saudĂĄvel, Ă© preciso examinar o homem.

— Meu marido já fez exames.

Com ele estĂĄ tudo bem.

— Onde ele fez os exames?

Quando?

A senhora pode trazer os resultados?

Vera lembrou-se dos papéis guardados na gaveta da cÎmoda.

Dos carimbos perfeitos e das belas assinaturas.

— Vou tentar.

— Tente.

E sabe de uma coisa?

Se ele se recusar, isso também serå uma resposta.

*

À noite, Vera esperou Artiom adormecer e tirou seus “atestados”.

Examinou-os com mais atenção.

Havia um carimbo.

Também havia uma assinatura.

Mas a data
 era estranha.

Tinha mais de trĂȘs anos.

Era de antes do casamento.

Vera abriu o notebook e digitou o nome da clĂ­nica.

O resultado da busca foi inesperado.

A clĂ­nica tinha fechado quatro anos antes.

Um ano antes da data indicada nos documentos.

Suas mĂŁos ficaram geladas.

Ela verificou novamente.

E mais uma vez.

O resultado nĂŁo mudava.

A clĂ­nica nĂŁo existia quando o atestado supostamente foi emitido.

Uma falsificação.

Uma fraude.

Uma mentira.

Vera guardou silenciosamente os papéis de volta e deitou-se ao lado do marido.

Por quĂȘ?

Para que servia toda aquela encenação?

Se ele sabia que o problema estava nele, por que a humilhou durante dois anos?

Por que Janna fazia aqueles discursos sobre mulheres “defeituosas”?

Por que Galina Viktorovna inventava diagnĂłsticos falsos?

Ao amanhecer, Vera encontrou apenas uma resposta.

Os dois sabiam.

Desde o começo.

E tinham feito dela a culpada de propĂłsito.

Mas por quĂȘ?

*

— VocĂȘ estĂĄ brincando?

Ksenia olhava para a irmĂŁ com os olhos arregalados.

— Não.

O atestado Ă© falso.

A clĂ­nica nĂŁo existia quando ele foi emitido.

— Vera, isso é  isso é 

— Eu sei.

— O que vocĂȘ vai fazer?

— Ainda não decidi.

— Deixe-o.

Hoje mesmo.

— Vou deixá-lo.

Mas nĂŁo hoje.

— Por quĂȘ?

Vera olhou para a irmĂŁ.

— Porque eles me chamaram de defeituosa durante dois anos.

Durante dois anos, humilharam vocĂȘ, mamĂŁe e toda a nossa famĂ­lia.

Durante dois anos, tomei remédios para doenças inexistentes e chorei à noite.

Quero que eles respondam por isso.

Publicamente.

— Como?

— O aniversĂĄrio de Artiom serĂĄ daqui a trĂȘs semanas.

Ele sempre convida toda a famĂ­lia.

Janna estarĂĄ lĂĄ, o marido dela e os conhecidos deles.

Quero que todos descubram a verdade.

— Vera, isso Ă© arriscado.

— Eu sei.

Mas nĂŁo posso simplesmente ir embora.

NĂŁo posso permitir que continuem dizendo a todos que sou uma fracassada.

Eles precisam responder pelo que fizeram.

Ksenia ficou em silĂȘncio por muito tempo.

— Está bem.

Do que vocĂȘ precisa?

— De ajuda.

E de um teste de gravidez positivo.

— Um teste?

— Positivo.

— Onde vou conseguir isso?

Eu não estou


— Vendem na internet.

Para brincadeiras.

Preciso de um.

Ksenia assentiu devagar.

— VocĂȘ quer fingir que estĂĄ grĂĄvida?

— Exatamente.

Quero ver a reação deles.

Se ele é infértil e sabe disso, não vai ficar feliz.

Vai se assustar.

E vai se entregar sozinho.

— Vera, isso é 

— Genial? — ela perguntou com um sorriso irînico.

— Eu sei.

Também sei que é arriscado.

Mas nĂŁo serei mais uma vĂ­tima.

O aniversĂĄrio de Artiom caiu num sĂĄbado.

Os convidados começaram a chegar por volta das trĂȘs da tarde.

Vera chegou um pouco mais tarde.

“Tinha se atrasado no salão”, como explicou por telefone.

Na verdade, estava tentando organizar os pensamentos.

Janna a recebeu na entrada.

— Está atrasada, querida.

Os convidados jĂĄ chegaram.

— Havia trñnsito.

— Claro, trñnsito.

Sempre hĂĄ trĂąnsito.

Vera sorriu.

TrĂȘs semanas de fingimento tinham lhe custado muitos nervos.

TrĂȘs semanas de sorrisos, obediĂȘncia e silĂȘncio.

Ela até passou quatro dias no sanatório para criar um ålibi.

Voltou “revigorada”.

Agora estava pronta.

Cerca de quinze pessoas estavam reunidas Ă  mesa.

Parentes, conhecidos e colegas de Artiom.

Sua mãe também veio.

Vera tinha pedido e explicado por quĂȘ.

Ksenia esperava num carro ali perto, caso Vera precisasse de apoio.

Depois dos brindes e aperitivos, Vera se levantou.

— Posso dizer algumas palavras?

— Claro, querida, — respondeu Artiom, acenando de forma benevolente.

— Quero lhe dar um presente.

Um presente especial.

— Oh, interessante!

Vera tirou da bolsa uma caixinha amarrada com uma fita.

Dentro dela havia um teste com duas linhas.

— Feliz aniversário, futuro papai.

SilĂȘncio.

Artiom olhava fixamente para o teste.

Seu rosto estava branco como giz.

— O que
 o que Ă© isso?

— Um teste de gravidez.

Deu positivo.

VocĂȘ estĂĄ feliz?

Ele nĂŁo respondeu.

Olhava para as duas linhas como se tivesse visto um fantasma.

— Artiom? — Janna se aproximou.

— O que há aí?

Ela olhou dentro da caixa e ficou imĂłvel.

— Isso Ă© impossĂ­vel, — disse com a voz baixa e sufocada.

— Por que Ă© impossĂ­vel? — perguntou Vera, sorrindo.

— Estamos tentando há dois anos.

— Isso Ă© impossĂ­vel! — gritou de repente a cunhada.

— É impossível engravidar dele!

Ele é 

Ela parou.

Tarde demais.

Os convidados trocaram olhares.

Liudmila apertou os lĂĄbios.

— Ele Ă© o quĂȘ, Janna? — perguntou Vera com calma, quase com doçura.

— Termine a frase.

— Cale a boca! — Artiom levantou-se de um salto.

— VocĂȘ me traiu!

Confesse, sua desgraçada, com quem vocĂȘ dormiu?

— Com quem eu dormi?

Com ninguém, Artiom.

Nem sequer estou grĂĄvida.

— O quĂȘ?

— Foi uma encenação.

O teste foi comprado.

Eu sĂł precisava ver a reação de vocĂȘs.

E ouvir o que sua irmĂŁ diria.

O silĂȘncio ficou pesado e ensurdecedor.

— E vocĂȘ mesma se entregou, — continuou Vera.

— “É impossível engravidar dele.”

Isso significa que vocĂȘ sabia.

E ele também sabia.

Desde o começo.

— Isso Ă© absurdo! — Janna sacudiu a cabeça com força.

— VocĂȘ inventou tudo!

— SĂ©rio?

E o atestado?

Aquele belo atestado de uma clĂ­nica que fechou um ano antes da data indicada?

Artiom ficou ainda mais pĂĄlido, se isso era possĂ­vel.

— VocĂȘ mexeu nas minhas coisas?

— Eu verifiquei os documentos que vocĂȘ mesmo me mostrou.

Dois anos, Artiom.

Durante dois anos, vocĂȘ me obrigou a tratar doenças que eu nĂŁo tinha.

Durante dois anos, sua irmĂŁ me chamou de defeituosa.

Humilhou minha famĂ­lia.

Cuspiu no meu rosto fingindo preocupação.

— Vera, vocĂȘ nĂŁo entende
 — ele disse, tentando se aproximar.

— Não toque em mim! — ela gritou, recuando.

— Eu entendo perfeitamente.

VocĂȘs dois sabiam que vocĂȘ era infĂ©rtil.

E decidiram colocar a culpa em mim.

Por quĂȘ?

Para que eu me sentisse culpada?

Para que fosse obediente?

Grata a vocĂȘ, o homem maravilhoso que suportava uma esposa supostamente defeituosa?

— Vera


— Cale a boca!

Durante dois anos, vocĂȘ me viu engolir comprimidos para doenças inexistentes.

Viu-me chorar depois de cada menstruação.

Viu sua irmĂŁ pisotear minha dignidade.

E nĂŁo me contou a verdade uma Ășnica vez — nem uma Ășnica vez!

Os convidados permaneciam imĂłveis e calados.

Ninguém ousava nem tossir.

— Sabem o que Ă© mais engraçado? — perguntou Vera com um sorriso amargo.

— Eu realmente amava vocĂȘ.

Estava pronta para suportar qualquer coisa pela nossa famĂ­lia.

Mas vocĂȘ
 vocĂȘs dois
 nem sequer sĂŁo seres humanos.

SĂŁo parasitas.

SĂŁo desprezĂ­veis!

— Como se atreve! — guinchou Janna.

— Na nossa casa!

— Na casa de vocĂȘs?

Ótimo.

EntĂŁo estou saindo da casa de vocĂȘs.

Para sempre.

Vera virou-se para os convidados.

— Desculpem por estragar a festa.

Embora
 talvez seja melhor assim.

Agora vocĂȘs sabem com quem estĂŁo lidando.

Com mentirosos!

Ela pegou a bolsa e caminhou para a saĂ­da.

— Pare! — gritou Artiom, alcançando-a perto da porta.

— VocĂȘ Ă© uma velha que ninguĂ©m quer e que nem consegue ter filhos!

Vera se virou.

— Que lógica interessante.

Quando vocĂȘ achava que o problema estava em mim, estava disposto a viver com uma esposa “defeituosa”.

Mas agora que ficou claro que o problema estĂĄ em vocĂȘ, eu de repente virei uma mulher que ninguĂ©m quer?

— Isso
 isso


— Não, Artiom.

É exatamente a mesma coisa.

VocĂȘ estava disposto a me humilhar enquanto achava que eu era mais fraca.

Assim que viu minha força, começou a gritar.

Ela abriu a porta.

— VocĂȘ receberĂĄ os documentos do divĂłrcio pelo correio.

Adeus.

*

Ksenia a esperava do lado de fora.

Abraçou a irmã sem dizer nada.

— Como vocĂȘ estĂĄ?

— Estranho.

Sinto-me leve e com dor ao mesmo tempo.

— Vamos para casa.

Vera assentiu.

Entrou no carro e recostou-se no banco.

Um ano se passou.

O divĂłrcio foi concluĂ­do.

Artiom nĂŁo tentou resistir.

A cunhada ligou algumas vezes e tentou ameaçå-la, mas depois ficou em silĂȘncio.

Diziam que a reputação da família tinha sido arruinada.

Um dos convidados contou a histĂłria a conhecidos, que contaram a outros, e logo todo o cĂ­rculo social deles conhecia a verdade.

As mulheres que antes olhavam para Artiom com inveja viraram-lhe as costas imediatamente.

Vera não sentiu nenhuma satisfação maldosa.

Apenas seguiu em frente.

Seis meses depois do divórcio, conheceu Maksim por acaso, numa exposição em uma galeria.

Ele pareceu-lhe engraçado e um pouco desajeitado.

Falava sobre as pinturas com tanto entusiasmo que parecia tĂȘ-las pintado pessoalmente.

— VocĂȘ sempre fala com tanta emoção? — ela perguntou.

— SĂł quando o assunto Ă© interessante.

E quando a mulher com quem estou falando Ă© bonita.

— Isso foi um elogio?

— Foi um fato.

Eles conversaram durante trĂȘs horas.

Depois, mais trĂȘs num cafĂ©.

E depois ainda mais.

Maksim era diferente.

Completamente diferente.

NĂŁo tentava mudar Vera, nĂŁo procurava defeitos nela e nĂŁo a comparava com ideal algum.

— VocĂȘ Ă© incrĂ­vel, — ele dizia.

— Nem sei como explicar.

Simplesmente incrĂ­vel.

— Meu ex-marido me chamava de defeituosa.

— Seu ex-marido Ă© um idiota.

Podemos registrar isso oficialmente.

Vera ria.

*

O casamento foi simples.

Apenas as pessoas mais prĂłximas estavam presentes.

Sua mĂŁe chorou de felicidade.

Ksenia estava sentada ao lado do marido, Igor, e os dois seguravam as mĂŁos um do outro.

Dois meses depois do casamento, Vera percebeu que sua menstruação estava atrasada.

O teste — um verdadeiro, não aquele comprado para a encenação — mostrou duas linhas.

— Maksim


Ele olhou para o teste.

Depois olhou para ela.

Depois voltou a olhar para o teste.

— Isso


— Sim.

— Nós vamos


— Sim.

Ele a pegou nos braços e começou a girar pela sala, rindo como uma criança.

— Vou ser pai!

EstĂĄ ouvindo?

Pai!

— Estou ouvindo, estou ouvindo.

Coloque-me no chĂŁo, estou ficando tonta!

— Desculpe, desculpe
 — ele a colocou cuidadosamente no sofá.

— VocĂȘ nĂŁo pode ficar nervosa.

De agora em diante, nĂŁo pode fazer absolutamente nada.

Fique sentada, vou buscar chĂĄ.

Ou suco?

Ou leite?

O que Ă© mais saudĂĄvel?

— Maksim.

— Sim?

— Acalme-se.

— Não consigo! — ele respondeu, radiante.

— Este Ă© o melhor dia da minha vida!

Vera olhava para o marido e pensava que era assim que tudo deveria acontecer.

Era assim que a verdadeira alegria se parecia.

Sem cĂĄlculo, sem medo e sem mentira.

Apenas felicidade.

Um mĂȘs depois, Ksenia ligou.

— Irmãzinha, sente-se.

— Já estou sentada.

— Sente-se direito.

— Ksenia, fale logo!

— Estou grávida.

Vera ficou imĂłvel.

— VocĂȘ está
 mesmo grĂĄvida?

— De gĂȘmeos.

Um menino e uma menina.

— Ksenia!

— Eu sei, eu sei


Eu mesma mal consigo acreditar.

A quinta tentativa deu certo.

O médico disse que estå tudo perfeito.

Vera chorava.

As duas irmãs choravam juntas, através do telefone, da distùncia e de todos aqueles anos de sofrimento.

— Vamos ser mães, — sussurrou Vera.

— Vamos.

Finalmente.

*

No inĂ­cio do outono, Vera caminhava pelo parque.

Sua barriga jĂĄ estava arredondada, e ela a apoiava instintivamente com uma das mĂŁos.

Maksim caminhava ao lado dela sem soltar sua outra mĂŁo.

— VocĂȘ estĂĄ feliz? — ele perguntou.

— Muito feliz.

— Arrepende-se de alguma coisa?

— Não, — respondeu Vera, balançando a cabeça.

— Nem sequer me arrependo daqueles dois anos.

Sem eles, eu nĂŁo teria me tornado a mulher que sou hoje.

E nunca teria conhecido vocĂȘ.

— É uma filosofia interessante.

— É uma filosofia da vida.

Eles pararam perto do lago.

Os patos nadavam na ågua sem prestar atenção às pessoas.

— O que aconteceu com eles? — perguntou Maksim.

— Com seu ex-marido e a família dele?

— Não sei.

E nĂŁo quero saber.

— Não tem curiosidade nenhuma?

— Nenhuma, — respondeu Vera, sorrindo.

— Eles ficaram lá, no passado.

Junto com suas mentiras e sua maldade.

Eu estou aqui.

Com vocĂȘ.

Com nosso bebĂȘ.

Ela colocou a mĂŁo sobre a barriga.

Maksim a abraçou, e os dois ficaram assim por muito tempo — em silĂȘncio, tranquilos e felizes.

*

Às vezes, o passado voltava a se manifestar.

Conhecidos em comum lhe contavam rumores.

Artiom nunca mais se casou.

Janna brigou com metade da famĂ­lia.

As pessoas passaram a evitar a casa deles.

Vera ouvia e depois deixava aquilo ir embora.

NĂŁo era problema dela.

NĂŁo era a vida dela.

Sua vida estava ali.

Num apartamento acolhedor, nos braços de um marido amoroso e à espera do milagre que crescia sob seu coração.

Ela jĂĄ os tinha perdoado hĂĄ muito tempo.

NĂŁo por eles, mas por si mesma.

O Ăłdio envenena uma pessoa por dentro, e Vera nĂŁo queria mais viver envenenada.

— Em que está pensando? — perguntou Maksim certa noite.

— Em como a vida Ă© estranhamente organizada.

Dois anos atrĂĄs, eu achava que estava quebrada.

Que ninguém precisava de mim.

Que nunca seria mĂŁe.

— E agora?

— Agora sei que não era o meu corpo que estava quebrado.

Era aquela vida que estava quebrada.

E ainda bem que ela terminou.

Maksim a beijou.

— Eu amo vocĂȘ.

— Eu sei.

— E amo nosso bebĂȘ.

— Isso eu tambĂ©m sei.

— E pretendo amar vocĂȘs dois por muito, muito tempo.

Vera fechou os olhos e sorriu.

Finalmente, estava em casa.

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