Lá fora, uma chuva nojenta e inclinada de novembro caía sem parar, enquanto dentro do luxuoso salão de banquetes fazia calor, estava abafado e tudo parecia insuportavelmente falso.
Veronika estava sentada à cabeceira da mesa, com seu vestido de seda cor creme, agarrando com os dedos esbranquiçados a borda da toalha branca como a neve.

Ao lado dela, reto como um pau, estava sentado Pasha.
Ele olhava tenso para o prato vazio, e os músculos de sua mandíbula se mexiam sem parar.
Eles comemoravam o aniversário de casamento.
Cinco anos.
Bodas de madeira.
Desde o início, Veronika implorara a Pasha que não convidasse ninguém, que simplesmente fossem os dois passar o fim de semana em algum hotel-spa no campo.
Mas a sogra, Margarita Lvovna, ao saber dos planos deles, fez uma cena histérica tão teatral, levando a mão ao coração e ameaçando chamar a ambulância, que eles tiveram de ceder.
“Como assim não comemorar?!”
“A primeira data importante do meu único filho!”
“Os parentes não vão entender!”
E agora eles estavam ali, sentados naquela parada de hipocrisia.
Margarita Lvovna, uma mulher majestosa vestida de veludo bordô, levantou-se de seu lugar.
Ela bateu com o garfo em uma taça de cristal, pedindo silêncio.
O burburinho das vozes cessou.
— Queridos convidados!
Sua voz impostada, quase teatral, espalhou-se pelo salão.
— Cinco anos.
— Não é pouco tempo.
— Sabem, quando o meu Pavlusha trouxe para casa esta menina frágil, confesso que fiquei em choque.
Ela fez uma pausa dramática.
Veronika sentiu um suor frio e pegajoso escorrer por suas costas.
Ela sabia que aquilo estava prestes a começar.
— Uma menina de uma família simples de trabalhadores, sem contatos, sem registro em Moscou…
Margarita Lvovna sorriu para Veronika com falsa compaixão e um leve toque de repulsa.
— Naquela época eu disse ao meu filho: “Pavlusha, você entende que está assumindo um fardo enorme?”
— “Ela terá que aprender tudo.”
— “Terá que ser calçada, vestida e apresentada à sociedade.”
— Mas meu filho é um cavaleiro!
— Um benfeitor!
— Pode-se dizer que ele salvou uma pessoa.
— Recolheu-a, aqueceu-a e moldou dela uma mulher decente.
— Então bebamos ao meu filho, à sua paciência angelical e à sua generosidade!
Um silêncio pesado, espesso como geleia, pairou sobre o salão.
Os parentes do lado de Pasha trocaram olhares, e alguém tossiu sem jeito.
A mãe de Veronika, sentada na outra ponta da mesa, ficou intensamente vermelha e baixou os olhos, mexendo nervosamente na ponta do guardanapo.
Veronika não conseguia respirar.
Era como se todo o ar tivesse sido sugado da sala.
— Mãe.
A voz de Pasha soou baixa, mas tão cortante que as taças tilintaram.
— Sente-se.
— Agora.
— Mas o que foi que eu disse de errado?
Margarita Lvovna piscou inocentemente seus cílios pintados, pressionando teatralmente a mão contra o peito.
— Eu só estou constatando fatos!
— Estou dizendo a verdade!
— Estamos todos entre os nossos.
— Nika é esforçada, ela tenta, tenta se elevar até você, embora os genes falem mais alto…
Pasha empurrou a cadeira com força.
Ele se levantou, pegou Veronika pela mão gelada e a puxou para si.
— Nós vamos embora.
— A conta está paga.
— Divirtam-se sozinhos.
Ele jogou o guardanapo sobre a mesa.
— Pavel!
— Sente-se no seu lugar!
— Você está me envergonhando diante da tia Sveta!
gritou a sogra, perdendo seu brilho majestoso.
— É você que está se envergonhando, mãe.
— Sozinha.
Pasha não se virou.
Eles saíram sob a chuva torrencial.
Veronika tremia com pequenos, mas violentos tremores.
No táxi, ela se virou para a janela, por onde as gotas escorriam, e começou a chorar em silêncio.
Pasha a puxou silenciosamente para perto de si e afundou o rosto em seus cabelos.
— Perdoe-me.
sussurrou ele com a voz abafada.
— Perdoe-me por ter feito você ir até lá.
Aquela noite não se tornou nenhuma revelação repentina.
Ela apenas se tornou um ponto final grosso e feio na guerra que Margarita Lvovna travava contra a nora havia todos aqueles cinco anos.
—
Tudo começou com pequenas coisas.
Com alfinetadas aparentemente inocentes.
“Veronichka, segundo que receita você preparou esta sopa?”
“Foi a receita da sua avó ordenhadora?”
“Pasha não come esse tipo de coisa, ele tem o estômago fraco.”
“Ah, que blusinha é essa que você está usando?”
“É sintética, não é?”
“Não faz mal, Pasha vai comprar algo decente para você no próximo salário, para você não envergonhá-lo diante dos colegas.”
“Você devia ler um pouco dos clássicos, porque com você nem dá para conversar sobre teatro, fica aí sentada como um rato.”
No começo, Veronika engolia as ofensas.
Tentava agradar.
Aprendia a preparar pratos complicados de coelho, comprava ingressos caros para o Teatro Bolshoi para conseguir manter uma conversa e se inscrevia em cursos de etiqueta.
Ela fazia de tudo para provar àquela mulher que era digna de seu filho.
Mas tudo era inútil.
Para Margarita Lvovna, viúva de um alto funcionário e dona de três apartamentos na Avenida Kutuzovsky, qualquer nora que não fosse filha de um ministro seria uma “vira-lata”.
E Veronika, filha de uma simples enfermeira e de um mecânico de automóveis de Ryazan, era para ela como uma pedra no sapato.
Pasha tentava contê-la.
Discutia com a mãe, batia portas e passava semanas sem atender suas ligações.
Mas Margarita Lvovna era uma manipuladora genial.
Imediatamente começavam suas crises de hipertensão e ataques de taquicardia, e Pasha, como filho único, cedia e corria até ela com remédios.
E tudo voltava ao ponto de partida.
Mas depois do episódio no aniversário, algo se rompeu.
No dia seguinte, quando Veronika voltou do trabalho — ela, aliás, era designer-chefe em um escritório de arquitetura e ganhava tanto quanto o marido, embora a sogra insistisse em chamá-la de “ajudantezinha” — serviu-se de uma taça de vinho e sentou-se em frente a Pasha.
— Pasha, eu não aguento mais.
— Estou cansada de lutar contra moinhos de vento.
— Sua mãe me odeia.
— E ela nunca vai parar.
— Ela vai bater nos pontos mais dolorosos até nos destruir.
Pasha esfregou os olhos cansados.
— Nika…
— Vou conversar com ela.
— Vou conversar seriamente.
— Ela nunca mais vai cruzar a soleira da nossa casa.
— Conversas não funcionam.
Veronika balançou a cabeça.
— Ela não escuta você.
— Para ela, eu sou sujeira debaixo das unhas.
— Estou lhe dando um ultimato.
— Ou cortamos qualquer contato com ela, absolutamente qualquer contato, até bloquear os números, ou eu arrumo minhas coisas.
— Eu não quero ter filhos em uma família onde a avó deles vai considerar a mãe deles uma nulidade.
Pasha empalideceu.
Mas assentiu.
— Eu entendi.
— Eu vou escolher você.
— Sempre.
Por cerca de um mês, eles viveram em um silêncio abençoado.
Os telefones ficaram mudos, e ninguém apareceu batendo à porta.
Pela primeira vez em muito tempo, Veronika começou a dormir normalmente.
Então aconteceu algo que virou a vida deles de cabeça para baixo.
Era uma noite de sexta-feira.
Pasha ficou até tarde no trabalho, pois estavam encerrando um projeto complicado.
Veronika preparou o jantar e estava sentada com um livro quando a campainha tocou.
Na soleira estava Margarita Lvovna.
Sem sua arrogância habitual.
Com uma capa de chuva simples, o cabelo despenteado.
E os olhos cheios de lágrimas.
— Veronika…
A voz da sogra tremia.
— Deixe-me entrar, por favor.
— Pelo amor de Deus.
Veronika ficou confusa.
Ela esperava um escândalo, maldições, acusações de que havia “roubado seu filho”.
Mas diante dela estava uma mulher velha e destruída.
— O que aconteceu?
Veronika deu um passo para o lado, relutante, deixando-a entrar no corredor.
— Pasha não atende o telefone.
— E eu…
— Acabaram de me ligar do hospital.
Margarita Lvovna encostou-se na parede, como se as pernas não a sustentassem.
— Suspeitam de câncer.
— Um tumor…
— lá, nas partes femininas.
— Preciso de uma biópsia urgente.
— E de uma operação.
— Estou com medo, Veronika.
— Estou com tanto medo…
Algo dentro de Veronika se partiu.
Por mais cruel que ela fosse, ela era a mãe do homem que Veronika amava.
Um ser humano vivo.
— Venha para a cozinha.
— Vou lhe dar algumas gotas calmantes.
— Vou conseguir falar com Pasha, ele logo estará aqui.
Todo o mês seguinte se transformou em um inferno.
Esquecendo os ultimatos e as mágoas, Veronika assumiu tudo.
Pasha estava em choque, dividido entre o trabalho e a mãe, perdendo a concentração.
Por isso, Veronika procurava sozinha os melhores médicos e levava pessoalmente a sogra a intermináveis ressonâncias, tomografias e exames.
Ela ficava sentada com ela nas longas e sombrias filas do centro oncológico, segurando sua mão quando Margarita Lvovna tremia de medo.
— Nika…
dizia a sogra em voz baixa, sentada no corredor do hospital, olhando para as paredes brancas.
— Por que você está fazendo isso?
— Eu lhe fiz sofrer tanto.
— Eu a humilhei diante de todos.
— Porque a senhora é a mãe de Pasha.
— E Pasha é a minha família.
respondia Veronika calmamente, entregando-lhe um copinho de água.
— E não vamos falar disso agora.
— Precisamos esperar o resultado da biópsia.
A biópsia chegou uma semana depois.
Benigna.
O tumor revelou-se um fibroma inofensivo, que podia ser removido com uma operação simples e comum, sem quimioterapia.
Quando o cirurgião anunciou os resultados, Margarita Lvovna caiu em prantos ali mesmo no consultório.
Ela abraçou Veronika com tanta força que as costelas dela quase estalaram.
A operação foi bem-sucedida.
Veronika ia todos os dias ao hospital, preparava caldos leves e levava camisolas limpas.
A relação parecia ter mudado radicalmente.
A sogra olhava para ela com uma gratidão quase infantil e a chamava de “filhinha” e “minha salvadora”.
Pasha estava nas nuvens, pois as mulheres mais importantes de sua vida finalmente haviam feito as pazes.
Um mês depois de Margarita Lvovna receber alta, Pasha foi enviado em uma viagem de negócios de três dias a São Petersburgo.
Veronika ficou sozinha em casa.
À noite, voltando do trabalho, ela entrou em um supermercado.
Encheu a cesta e foi até o caixa.
E então seu olhar prendeu-se a uma figura conhecida na fila do caixa ao lado.
Era Margarita Lvovna.
Mas ela não estava sozinha.
Ao lado dela estava uma loira impressionante, de pernas longas, usando um caro casaco de vison.
Elas conversavam animadamente.
Veronika recuou instintivamente para trás de uma prateleira de chocolates, para não chamar atenção.
Ela escutou.
— Margarita Lvovna, a senhora é demais!
A loira ria alegremente.
— Como a senhora suporta aquela ratinha?
— Ela é completamente sem graça.
— Nem rosto, nem presença.
— Ah, Ilonochka, nem me fale!
A sogra revirou os olhos teatralmente, e em sua voz reapareceram aquelas mesmas notas arrogantes e venenosas.
— Eu a suporto com as últimas forças.
— Mas não tenho escolha, depois da operação precisei dela como cuidadora gratuita.
— Meu Pashka está sempre no trabalho, e eu não queria contratar uma estranha.
— Aquela pelo menos fica calada, traz sopinhas e serve.
— Mas não se preocupe, minha menina.
— Eu ainda vou expulsar aquela provinciana de Ryazan da casa dele.
— É questão de tempo.
— Assim que eu me recuperar totalmente…
— Afinal, eu criei Pashka para você, Ilona.
— Você é uma moça de boa família, instruída, seu pai trabalhou no mesmo ministério que o meu falecido marido.
— Mas aquela…
— Uma vira-lata.
— Nós vamos mandá-la embora, não se preocupe.
Veronika ficou atrás da prateleira sem respirar.
O pacote de leite caiu de suas mãos e bateu no chão com um som surdo.
A embalagem estourou, e uma poça branca começou a se espalhar lentamente pelo piso.
Ela não fez escândalo.
Não saiu de trás da prateleira para gritar.
Ela simplesmente se virou em silêncio, deixou a cesta ali mesmo e saiu para a rua, para o ar frio e cortante.
O mundo não desabou.
Ele apenas se cobriu com uma camada espessa e impenetrável de gelo.
Ela entendeu tudo.
Toda aquela encenação de gratidão, todos aqueles “filhinha” e lágrimas.
Era apenas o medo animal de uma mulher solitária e doente, que precisou de uma criada gratuita durante a doença.
Assim que o perigo passou, a máscara de bondade caiu, revelando uma essência podre e negra.
Veronika voltou para casa.
Pegou uma mala.
Não ligou para Pasha.
Apenas reuniu suas coisas, somente aquilo que havia comprado com seu próprio dinheiro.
Seus livros, seu notebook, suas roupas.
Deixou sobre a mesa as chaves do apartamento e a aliança.
Alugou um quarto em um hotel, e no dia seguinte entrou com o pedido de divórcio.
Pasha voltou da viagem de negócios e encontrou o apartamento vazio.
Ela recusava suas ligações.
Escreveu apenas uma mensagem:
“Sua mãe está completamente saudável.”
“E está planejando casar você com Ilona.”
“Eu não quero mais ser uma decoração na propriedade familiar de vocês.”
“Não me procure.”
“Pedi o divórcio.”
Pasha ligava sem parar.
Ele ia ao trabalho dela, ficava debaixo das janelas do hotel para onde ela havia se mudado temporariamente.
Ele estava desesperado, jurava que não sabia nada sobre aquela Ilona, que mataria a mãe, que nunca mais falaria com ela.
Mas Veronika olhava para ele com um vazio frio e assustador nos olhos.
— Pasha.
— O problema não é Ilona.
— E não é a sua mãe.
— O problema é que, durante anos, você permitiu que ela pisasse em mim.
— Você é filho dela.
— E sempre será filho dela.
— Mas eu não quero mais ser alvo de treinamento do complexo de inferioridade dela.
— Eu estou me destruindo ao lado de vocês.
— Eu já não amo você o suficiente para suportar esta merda.
Ela se virou e foi embora.
Margarita Lvovna triunfava.
Quando soube do divórcio, organizou uma verdadeira festa em casa, convidando Ilona para jantar.
Mas seu triunfo durou pouco.
Pasha foi à casa da mãe na noite seguinte.
Ele estava bêbado, furioso e assustador.
Atirou contra a parede o jogo de louça que Ilona havia trazido como presente.
— Você conseguiu o que queria, mãe.
disse ele com a voz rouca, olhando para Margarita Lvovna, encolhida de medo.
— Você destruiu a minha vida.
— Você devorou a única mulher que eu amei.
— Pavlusha, meu filho…
— Ela não era mulher para você!
— Eu só queria o seu bem!
— Eu tinha Ilonochka para você…
— Enfia a sua Ilona onde quiser!
gritou ele tão alto que os pingentes de cristal do lustre tilintaram.
— Nunca mais.
— Está ouvindo?
— Nunca mais vou cruzar a soleira desta casa.
— Para mim, você não existe mais.
— Viva sozinha com seus apartamentos e seu veneno.
— Você vai morrer sozinha, e quem vai lhe trazer um copo d’água será a sua Ilona de raça, se é que você vai passar o apartamento para ela!
Ele se virou e saiu, batendo a porta com tanta força que o reboco caiu da parede.
Três anos se passaram.
Veronika mudou-se para outra cidade e abriu seu próprio escritório de design.
Ela se casou com um homem que não tinha pais “importantes”, mas que tinha um coração grande e bondoso.
A família dele a recebeu como uma das suas, sem se importar com registro de residência ou origem.
Pasha nunca se casou, nem com Ilona, nem com qualquer outra mulher.
Ele pediu demissão do trabalho e foi para algum lugar no norte, trabalhar por contrato.
Ele manteve sua palavra e bloqueou para sempre o número da mãe.
E Margarita Lvovna ficou sozinha.
Em seu enorme e luxuoso apartamento na Avenida Kutuzovsky.
A doença atrás da qual ela um dia se escondera voltou, desta vez de verdade.
Ilona, ao saber do diagnóstico, desapareceu de sua vida em uma semana, alegando estar ocupada.
Margarita Lvovna passava horas sentada na sala vazia, olhando para o telefone que permanecia em silêncio.
E todos os dias, ao adormecer, pensava naquela mesma “menina de Ryazan”, a única que havia ficado com ela no corredor do hospital, segurando sua mão.
Mas já era tarde demais para corrigir os erros.







