O marido exigia que eu abandonasse minha mãe doente e preparasse julienne para os parentes dele.
— Por onde você andou?! — o alto-falante do novíssimo Nissan X-Trail chiava tanto que parecia que o plástico do painel ia rachar a qualquer momento.

— Sveta, você viu que horas são?
Meus pais chegaram famintos da viagem, e o seu telefone estava bloqueado!
Svetlana apertou ainda mais o volante; seus dedos, dentro das finas luvas de couro, estavam dormentes de frio.
No cruzamento, a neve molhada batia direto no para-brisa, e os limpadores mal davam conta.
— Vitalik, eu avisei, — respondeu ela com calma.
— Eu fui buscar uma encomenda na clínica especializada para a mamãe.
Amanhã ela vai ao hospital, e sem esses remédios o médico não vai atendê-la.
— Ah, que tragédia você arranjou! — retrucou o marido.
— Sua mãe está sentada em casa, só sente as juntas doerem por causa do tempo, ninguém nunca morreu disso.
Mas minha mãe, Lídia Semiónovna, e meu pai, Piotr Deníssovitch, ficaram seis horas sacudindo dentro de um ônibus!
Então trate de se apressar.
Mamãe quer julienne com cogumelos, compre creme de leite e peito de frango no caminho.
Ah, e truta!
Está ouvindo?
Mamãe pediu peixinho.
Ouviu-se um breve bipe no telefone: Vitalik havia encerrado a chamada.
Ele sempre fazia isso quando achava que a última palavra devia ser dele.
Svetlana lançou um olhar para o banco do passageiro.
Ali estava uma caixa de papelão grosso com o carimbo do centro de reabilitação do Altai.
Dentro havia três preciosos frascos de um raro bálsamo de ervas de alta concentração e um potinho de gordura de texugo purificada.
Dezessete mil rublos.
Quase metade da reserva mensal dela, que ela, inspetora fiscal sênior com quinze anos de experiência, juntava aos poucos.
Sua mãe, Tamara Vassílievna, tinha coxartrose de terceiro grau.
Cada passo era uma tortura para ela.
O Nissan estacionou suavemente junto ao prédio cinzento de nove andares da era stalinista.
Aquele apartamento de três quartos havia sido deixado para Svetlana pelo avô, professor de geologia.
Tetos altos, parquet de carvalho.
Vitalik chegara ali cinco anos antes com apenas uma mala, mas se acomodara rapidamente.
O crossover em que ele agora dirigia também havia sido comprado por Svetlana antes do casamento.
Mas diante dos parentes do interior, Vitali mantinha a pose: “Meu carro”, “Meu apartamento”, “Eu sustento a família”.
Subindo no elevador, Svetlana apertou a caixa contra o peito.
Dentro dela crescia um mau pressentimento.
Na porta, foi recebida por um cheiro pesado de bebida velha e tabaco.
Svetlana fez uma careta; em sua casa ninguém jamais havia fumado.
— Ah, apareceu a madame da capital! — veio da sala a voz da sogra.
Svetlana entrou no cômodo e parou imóvel.
Piotr Deníssovitch, o sogro, estava esparramado no seu amado sofá claro de veludo, pelo qual Svetlana economizara durante meio ano, escolhendo o tom areia mais delicado.
O sogro estava deitado com meias cinzentas cheias de bolinhas, com as pernas levantadas diretamente sobre o macio braço do sofá.
Ao lado, sobre a mesinha de centro, havia uma garrafa de cerveja aberta, deixando um anel úmido e pegajoso na madeira polida.
— Boa tarde, Piotr Deníssovitch, — conseguiu dizer ela.
— Tire os pés do braço do sofá!
— Ora, filha, por que já chega latindo assim? — bocejou o sogro, sem sequer virar a cabeça da televisão.
— Não vivemos num museu, Vitalka disse para ficarmos à vontade.
Svetlana apertou os dentes com tanta força que suas têmporas doeram e seguiu para a cozinha.
Lá, à mesa redonda de jantar, estava sentada Lídia Semiónovna.
Ela vestia o robe de seda de Svetlana, presente de uma amiga pelo aniversário.
O robe repuxava nas costuras sobre a figura robusta da sogra, mas isso não a incomodava nem um pouco.
A sogra estava sentada com uma perna apoiada na cadeira da cozinha.
Bem diante dela, sobre a mesa, estava a caixa da clínica.
Ela havia sido rasgada, um dos frascos do caro bálsamo do Altai estava tombado de lado, e dele escorria lentamente sobre o tampo envernizado uma papa espessa e marrom.
O potinho com gordura de texugo estava aberto, e a sogra enfiava os dedos nele sem nenhum constrangimento, espalhando uma camada grossa sobre seus calcanhares amarelados e rachados.
— Lídia Semiónovna! — Svetlana perdeu o fôlego.
— O que a senhora está fazendo?!
Isso são os remédios da minha mãe!
A sogra nem sequer se virou, esfregou lentamente a gordura na sola do pé e soltou um arroto satisfeito.
— Ah, Svetik, pare de gritar.
Entro na cozinha e vejo uma caixa.
Pensei: deixa eu ver o que meu filho preparou para mim.
Olho, tem uma pomada cheirosa, está escrito “para as articulações”.
Depois do ônibus, minhas pernas estavam todas se retorcendo!
Então passei um pouquinho.
Aquece bem, erva forte!
E o seu chá de ervas, aquele do pacote azul, nós preparamos também.
Com o seu mel do Altai, nossa, desceu que foi uma beleza!
Svetlana olhou para a pia.
Ali estava jogado o pacote azul vazio da mistura medicinal que sua mãe precisava tomar rigorosamente às colheradas antes dos procedimentos.
Dezessete mil rublos e duas semanas de espera pela entrega.
Tudo aquilo agora estava espalhado pelos calcanhares sujos da sogra.
Vitaly entrou na cozinha; cheirava ao perfume caro que Svetlana lhe dera de Ano-Novo, e lançou à esposa um olhar irritado.
— E por que você está parada aí?
Você não vai ficar pobre, vai encomendar mais para a sua mãezinha.
Vamos, ponha a mesa, queremos comer.
Cadê a truta?
Você comprou?
Svetlana virou-se lentamente para o marido.
— Vou para a casa da minha mãe, — disse ela, recolhendo na caixa os dois frascos que haviam sobrado intactos.
— Você enlouqueceu? — Vitaly deu um passo à frente, tentando agarrar a mão dela.
— E o jantar?
Meu pai está com fome!
Minha mãe acabou de chegar da viagem!
Já para a cozinha, marchando, ouviu o que eu disse!
Não me envergonhe diante dos meus pais!
— Os produtos estão no mercado, Vitalik, — respondeu Svetlana em tom áspero, puxando a mão de volta.
Ela se virou, pegou a bolsa e saiu para o corredor.
Atrás dela, a sogra gritava:
— Vitalya, olhe para ela!
Veja só que rainha apareceu!
Não dá o menor valor ao marido!
Criatura ingrata!
Svetlana fechou a porta atrás de si.
O telefone vibrava sem parar no bolso, mas ela o colocou em modo avião.
Três horas depois.
— Filhinha, que Deus cuide deles, desses dinheiros.
O importante é que você e Vitalik não briguem, — sussurrou baixinho Tamara Vassílievna, tentando cobrir com uma velha manta de flanela o joelho inchado e arroxeado.
— Eu aguento.
Vai doer um pouco mais quando vier o frio, mas já estou acostumada.
Svetlana estava sentada na beira da cama rangente no pequeno apartamento khruschovka na periferia da cidade.
Ali cheirava a hortelã, Corvalol e livros antigos.
Um nó amargo se formava em sua garganta.
Sua mãe, que trabalhara a vida inteira como professora primária, estava acostumada a economizar cada copeque consigo mesma.
Ela estava pronta para engolir analgésicos aos punhados, contanto que não incomodasse o genro.
— Não vai doer, mãe, — Svetlana acariciou suavemente a mão dela.
— Eu trouxe dois frascos, isso vai bastar para o primeiro ciclo.
E Vitalik não fará mais parte da nossa vida.
A mãe soltou um suspiro assustado, levou a mão aos lábios, mas não fez perguntas.
Conhecia o temperamento da filha: se Sveta tomava uma decisão, era inútil discutir.
Depois de colocar a mãe para dormir, Svetlana se acomodou na cozinha sob a luz fraca do velho abajur.
Sobre a mesa havia um notebook antigo.
Dentro de Svetlana não havia mais mágoa nem lágrimas.
Entrara em funcionamento o cérebro calculista da auditora sênior do serviço fiscal.
“Então, Vitalya”, pensou ela, abrindo a primeira aba.
“Já que você é um grande empresário e dono da vida às minhas custas, vamos calcular o seu balanço.
Vamos ver quanto você pesa sem o meu dinheiro.”
Primeiro, Svetlana acessou sua conta pessoal na seguradora Ingosstrakh.
O Nissan X-Trail prateado, no qual Vitalik tanto gostava de fechar “pobretões” nas estradas, pertencia a ela.
Ela mesma o comprara numa concessionária três anos antes.
Vitaly estava apenas incluído na apólice obrigatória de seguro automotivo.
Svetlana clicou no botão “Rescisão antecipada do contrato”.
Preencheu o formulário e anexou os dados de seu cartão.
O programa exibiu a mensagem: “Contrato de seguro obrigatório anulado.
O reembolso de parte do prêmio de seguro, no valor de 4.200 rublos, será efetuado em até três dias úteis.”
“Primeiro ponto concluído”, sorriu Sveta.
“A partir deste segundo, meu querido, você dirige sem seguro.
O primeiro posto da polícia de trânsito será seu.”
Em seguida, ela abriu o aplicativo Gazpromneft.
Ela tinha um cartão corporativo de combustível com um bom desconto, que Vitaly usava para abastecer o crossover “até completar” às custas dela.
Svetlana bloqueou o cartão com um único clique, alterando o PIN.
Mas o pedaço mais saboroso era a garagem.
Dentro dos limites da cidade, na prestigiada cooperativa “Signal”, havia uma sólida garagem metálica que ficara para Svetlana do avô professor.
Vitaly a alugava havia dois anos como oficina ilegal para dois rapazes habilidosos vindos do exterior próximo.
Eles pagavam por fora: vinte mil rublos por mês em dinheiro vivo.
Vitaly pegava esse dinheiro para suas “despesas pessoais”, sem sequer pensar em dividir com a esposa ou pagar impostos.
Svetlana, sendo funcionária da Receita, havia registrado esse fato há muito tempo, mas ficara calada, esperando pelos últimos resquícios de consciência do marido.
Ela abriu a conta pessoal do Serviço Fiscal Federal e redigiu uma denúncia oficial em seu próprio nome:
“Eu, Voronova Svetlana Igorevna, na qualidade de proprietária do terreno e da construção não residencial, box de garagem nº 42, comunico que neste território está sendo exercida atividade empresarial ilegal por terceiros, sem registro como empresário individual e sem pagamento de impostos…”
À declaração, ela anexou capturas de tela das conversas do telefone de Vitaly, que havia copiado prudentemente um mês antes, quando ele dormia bêbado no sofá.
Svetlana fechou a tampa do notebook.
O relógio marcava duas da manhã.
Na manhã seguinte, a carruagem do seu príncipe da capital deveria finalmente se transformar em abóbora.
No dia seguinte.
— Svetka, você enlouqueceu de vez?! — Vitaly gritava ao telefone tão alto que, no posto de gasolina, os motoristas de caminhão se viravam.
— Por que meu cartão de combustível está bloqueado?
Estou sem nada no tanque!
Desbloqueie agora, preciso levar meus pais ao restaurante!
Svetlana, de pé junto à janela no apartamento da mãe, tomou um gole de chá quente com tomilho.
Lá fora, grandes flocos de neve giravam no ar.
— O cartão está em meu nome, Vitalik, — respondeu ela calmamente.
— Peça à Lídia Semiónovna, ela com certeza tem alguma reserva da aposentadoria, ou ao seu pai.
— Que aposentadoria, sua… — Svetlana já havia desligado.
Ela sabia o que aconteceria em seguida.
No posto de gasolina, Vitaly teve de passar por uma humilhação terrível: sob o olhar de desprezo da caixa, pedir ao pai o cartão da aposentadoria para colocar no tanque miseráveis quinze litros.
Mas a verdadeira surpresa os aguardava na saída do posto.
Como Svetlana havia anulado a apólice do seguro obrigatório e, pelo aplicativo dos Serviços Públicos, havia apresentado uma declaração de que o carro estava sendo conduzido por uma pessoa estranha sem seu consentimento, a primeira equipe da polícia de trânsito na saída da cidade levantou a placa listrada.
Vitaly freou como de costume, baixou o vidro com ar arrogante, seguro de sua impunidade.
Mas o inspetor severo, depois de consultar a base de dados, rapidamente o trouxe de volta à realidade.
— O seu seguro foi anulado, cidadão.
O carro pertence a Voronova Svetlana Igorevna.
O senhor não está incluído na apólice.
— Mas este é o carro da minha esposa! — gritou Vitaly, sentindo as costas gelarem.
— Eu estava incluído na apólice!
Somos casados!
— Sua esposa apresentou pessoalmente uma declaração.
O veículo será apreendido, saia do carro.
Quarenta minutos depois, Vitaly, Lídia Semiónovna e Piotr Deníssovitch estavam parados no acostamento da estrada sob um vento gelado com neve.
A sogra, enrolada em seu velho casaco acolchoado, amaldiçoava em voz alta “aquela cobra da cidade”.
Diante dos olhos deles, o Nissan X-Trail prateado era lentamente puxado para a plataforma do guincho.
Naquele mesmo momento, do outro lado da cidade, na cooperativa de garagens “Signal”, os assustados locatários-mecânicos tiravam freneticamente para a neve seus macacos e conjuntos de chaves.
— Ei, patroa, por que está tomando a garagem?
Nós pagamos ao Vitalik dois meses adiantados! — gritou um deles, tentando segurar Svetlana pela manga da jaqueta.
— Todas as perguntas, façam ao Vitalik, — Svetlana mostrou ao policial local que se aproximara os documentos do terreno e o passaporte cadastral.
— Eu sou a proprietária, há alguma dúvida?
Ninguém teve dúvidas.
A família Smirnov chegou ao prédio stalinista em Oktábrskoye Pole apenas no fim da tarde.
Ao subir ao seu andar, Vitaly notou imediatamente, perto do duto de lixo, quatro enormes sacos pretos de construção, lacrados com fita adesiva.
De um deles saía o salto de uma velha bota da sogra.
— O que é isso?.. — balbuciou Vitaly.
Ele se lançou à porta do apartamento, enfiou a chave na fechadura, mas ela nem sequer entrou.
No lugar da velha fechadura havia uma fechadura novinha de aço cromado.
Vitaly, furioso, começou a bater na porta com os punhos.
— Svetka!
Abra, sua desgraçada!
Abra, eu vou chamar a polícia!
Este apartamento também é meu!
Acima da porta, a lente da câmera do sistema de casa inteligente fez um clique discreto.
Do alto-falante veio a voz de Svetlana:
— Eu já chamei a polícia, Vitaly.
Aqui eu sou a única proprietária, e o seu registro temporário foi cancelado por mim hoje ao meio-dia pelos Serviços Públicos.
As suas coisas e as dos seus pais estão nos sacos perto do elevador, peguem e vão embora.
— Eu vou te processar! — gritou Lídia Semiónovna, avançando contra a câmera.
— Você roubou meu filho, vaca da cidade!
— Tudo de bom, — respondeu Svetlana secamente, e a câmera se apagou.
Passou-se um mês.
Num pequeno apartamento de um cômodo na periferia da cidade, Vitaly, que perdera o emprego por causa das constantes faltas e dos processos, estava sentado na cozinha descascada, passando raivosamente pelo feed de notícias.
A inspeção fiscal lhe enviara uma cobrança de impostos por dois anos de aluguel ilegal da garagem, com uma multa enorme e juros de mora.
O pai, Piotr Deníssovitch, fumava em silêncio junto à janela entreaberta, tentando não olhar para o filho.
Na família Smirnov, agora todos os dias discutiam sobre quem compraria o pão e por que a conta de luz havia aumentado trezentos rublos.
E no apartamento stalinista em Oktábrskoye Pole havia cheiro de limpeza, amaciante de lavanda e chá de ervas com tomilho recém-preparado.
Tamara Vassílievna, mãe de Svetlana, apoiando-se na perna com cuidado e quase sem dor, levou à mesa um prato com torta de maçã.
— Svetochka, que chá gostoso hoje, parece mesmo o do Altai.
Svetlana sorriu.







