## PARTE 1
A moeda bateu na borda do prato de porcelana e parou bem diante da mão de Sofia.

— Cem pesos — disse Valeria Montes com um largo sorriso.
— Acho que isso chega para começares uma vida nova.
Risadas ecoaram ao redor da longa mesa.
Raúl Castillo, o marido de Sofia, nem sequer tentou esconder o sorriso.
A mãe dele, Isabel, cobriu a boca com a mão, fingindo surpresa, enquanto a irmã mais nova, Camila, já filmava tudo com o telefone.
Sofia permaneceu sentada em silêncio.
Diante dela havia um copo de água no qual ela nem sequer tinha tocado.
O jantar acontecia na casa de campo da família Castillo, localizada nos arredores de Querétaro.
Era ali que Sofia vivera durante os últimos oito anos após o casamento com Raúl.
Ela própria havia escolhido os móveis daquela casa.
Ela própria havia cuidado da reforma.
Ela própria havia tratado do jardim.
E fora ela quem, alguns anos antes, salvara o negócio da família da falência, quando ninguém da família Castillo queria admitir o quão perto a empresa estivera do colapso.
Mas naquela noite todos fingiam que ela era uma estranha ali.
— Não olhes assim, Sofia — disse Valeria, ajeitando os brincos caros.
— Isto não é nenhuma tragédia.
— Raúl simplesmente percebeu que quer viver de outra maneira.
Sofia ergueu lentamente os olhos.
— De outra maneira?
— Sim — respondeu Raúl.
— Quero uma vida honesta.
— Sem problemas constantes, sem controlo e sem a tua interferência.
Valeria pousou a mão no ombro dele.
Sofia olhou para aquela mão.
Houve um tempo em que fora ela própria quem comprara o relógio que Raúl agora usava no pulso.
Houve um tempo em que acreditara que aquele homem se tornaria a sua família.
Agora ele estava sentado ao lado de uma mulher que vestia um vestido comprado com o dinheiro de Sofia.
— Hoje assinei os documentos — continuou Raúl.
— A casa fica comigo.
— A empresa também.
— As nossas contas foram separadas.
— Vais receber uma pequena quantia e poderás ir para algum lugar onde ninguém te conheça.
Isabel assentiu satisfeita.
— Assim será melhor para todos.
— Principalmente para Valeria — acrescentou Camila em voz baixa.
Todos voltaram a rir.
Raúl pegou numa pasta grossa que estava sobre a mesa e atirou-a diante de Sofia.
— Aqui está o acordo de divórcio e os documentos para a transferência da tua participação na empresa.
— Assina e terminamos isto sem escândalo.
Sofia não abriu a pasta.
— E se eu não assinar?
Durante alguns segundos, a sala ficou em silêncio.
Raúl sorriu com desprezo.
— Então vais perder muito mais.
Valeria inclinou-se para a frente.
— Sofia, não compliques as coisas.
— Sempre foste uma mulher sensata.
Ela pegou noutra nota que estava sobre a mesa.
— Aqui tens.
— Duzentos pesos.
— Já está melhor.
As risadas ficaram ainda mais altas.
Sofia olhou para o dinheiro.
Depois para Raúl.
Depois para a mãe dele.
Por fim, sorriu pela primeira vez naquela noite.
— Vocês realmente acham que eu não entendo nada?
Raúl franziu a testa.
— O que queres dizer com isso?
— Nada.
Sofia abriu a pasta.
Examinou calmamente o primeiro documento.
O segundo.
O terceiro.
Então parou.
— Raúl, quem preparou estes documentos?
— Um advogado.
— Qual advogado?
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Isso não importa.
— Importa, sim.
Sofia virou a página.
— Aqui diz que eu transfiro voluntariamente para vocês a minha participação na empresa.
— Mas há um problema.
Ela ergueu o documento.
— Essa participação nunca me pertenceu pessoalmente.
Raúl deixou de sorrir.
— O quê?
— Tu sabes perfeitamente que, há cinco anos, as minhas ações foram transferidas para um trust familiar.
Isabel endireitou-se bruscamente na cadeira.
— Que trust?
Sofia olhou para ela.
— O mesmo sobre o qual o vosso advogado falou há três anos.
— Vocês simplesmente decidiram que eu não entendia documentos jurídicos.
Raúl empalideceu.
— Tu não podias…
— Podia.
Sofia fechou a pasta.
— Além disso, a casa também não te pertence.
Desta vez, ninguém riu.
Valeria franziu a testa.
— Claro que pertence ao Raúl.
— Não.
Sofia tirou o telefone.
— A casa pertence à empresa Aurora Capital.
Raúl levantou-se bruscamente.
— Mas que raio?!
— E sabes quem é a única administradora dessa empresa?
Ele não respondeu.
Sofia olhou-o diretamente nos olhos.
— Eu.
Isabel empalideceu.
Camila baixou lentamente o telefone.
Pela primeira vez, Valeria deixou de sorrir.
Mas Raúl ainda tentava manter a compostura.
— Estás a fazer bluff.
— Não.
Sofia levantou-se da mesa.
— E agora vem a parte mais interessante.
Ela colocou o telefone sobre a mesa.
No ecrã havia um e-mail aberto.
Data: hoje.
Remetente: um grande fundo internacional de investimento.
O assunto da mensagem dizia:
**“Aprovação da aquisição da participação de controlo do Grupo Castillo.”**
Raúl leu o e-mail e ficou imóvel.
— Isto é impossível…
— É possível.
— Quem lhes vendeu as ações?
Sofia não respondeu.
Apenas pegou na mala.
— Daqui a quarenta e oito horas, a vossa família vai descobrir a quem realmente pertence o negócio de que vocês tinham tanto orgulho.
Valeria levantou-se de repente.
— Espera!
Sofia parou junto à porta.
— O quê?
— Podemos resolver tudo.
Sofia olhou calmamente para ela.
— Acabaste de me dar duzentos pesos para começar uma vida nova.
Ela tirou as notas do bolso e colocou-as de volta sobre a mesa.
— Fica com elas.
Raúl deu um passo em frente.
— Sofia, vamos conversar.
Pela primeira vez, ela sorriu de verdade.
— Conversamos daqui a dois dias.
— Sobre o quê?
Sofia abriu a porta.
— Sobre o motivo pelo qual a pessoa que ainda ontem vocês consideravam o vosso amor e apoio hoje se tornará a vossa única oportunidade de não perder tudo.
Ela saiu.
Ninguém percebeu que o advogado dela já a esperava junto à porta.
E ninguém naquela mesa ainda sabia o mais importante.
Valeria não era a única mulher com quem Raúl traía Sofia.
E a pessoa que ajudara Sofia a preparar a armadilha estivera naquela sala durante todo aquele tempo.
Quando a verdade vier à tona dentro de quarenta e oito horas, a família Castillo compreenderá uma coisa:
Eles não expulsaram de casa uma esposa indefesa.
Com as próprias mãos, expulsaram a mulher que controlava toda a fortuna deles.







