— É um aniversário ou um velório? — ironizou a irmã postiça…

— Este tom de papel chama-se “rosa empoeirado”, combina perfeitamente com os guardanapos — Vera alisou cuidadosamente a dobra do convite.

— Passei três dias recortando estes padrões com um estilete.

A avó, sentada à sua frente, ajeitou os óculos e sorriu.

Sobre a mesa diante dela fumegava uma chávena de chá de ervas.

— Está lindo, minha neta.

— Tens mãos de ouro, dá para ver logo que está a crescer uma futura arquiteta.

— Só é uma pena que a tua mãe não repare em toda esta beleza.

— A mãe não tem tempo, está ocupada a escolher as cortinas para a sala — disse Vera suavemente, sem ressentimento, enquanto continuava a colocar os cartões nos envelopes.

— Eu compreendo tudo.

— Ela tem uma vida nova e precisa estar à altura do estatuto do marido.

— Estatuto… — A avó abanou a cabeça e, depois de procurar no bolso do casaco de malha, tirou um envelope grosso.

— Toma.

— É para o teu aniversário.

— Só se faz dezoito anos uma vez na vida.

— Faz tudo exatamente como quiseres.

Vera ficou imóvel.

Ela sabia quanto a avó recebia de reforma.

— Avó, não posso aceitar, é dinheiro demais.

— Eu faço alguns trabalhos com maquetes e ganho algum dinheiro, vai chegar para alugar a sala pequena.

— Aceita e não discutas! — interrompeu-a a idosa com firmeza.

— Poupei especialmente para isto.

— O teu padrasto, esse dono de fábricas e navios, não te dará nem um cêntimo, eu bem vejo.

— E tu mereces ter o teu próprio dia.

Vera pegou cuidadosamente no envelope.

Uma sensação de calor espalhou-se pelo seu peito.

De repente, ela acreditou que tudo iria dar certo.

Andrei prometera ajudar com a iluminação e Sveta com a música.

Aquela seria a sua noite.

Calma, intimista, entre pessoas queridas.

A mãe entrou no quarto, fazendo os saltos baterem ruidosamente no chão.

Trazia nos braços uma pilha de revistas brilhantes.

— Vera, leva o lixo, ainda ficaram caixas de pizza da Nina — disse ela sem sequer olhar para a filha.

— E tira estes restos de papel da mesa, vamos receber visitas à noite.

— Mãe, são os convites para o meu aniversário — disse Vera em voz baixa.

— Queria mostrar-te um.

— Depois, tudo depois.

— A Nina pediu para a casa de banho estar livre daqui a uma hora, precisa de se arranjar — a mãe já estava a mudar as revistas de lugar, sem prestar atenção ao envelope nas mãos da filha.

Vera apenas assentiu.

Ela estava habituada a suportar tudo.

O mais importante era que tinha um plano e pessoas que a amavam.

Arrumou cuidadosamente os convites numa pilha.

A esperança de ter uma boa festa era tão sólida como os alicerces do edifício que estava a projetar para o seu trabalho académico.

O telefone vibrava sem parar.

Vera, sentada diante dos desenhos, demorou a atender, mas a insistência de quem ligava acabou por obrigá-la a interromper o trabalho.

Era Sveta.

— Já viste isto?

— Ver, não desmaies! — a voz da amiga tremia de indignação.

— Entra no grupo geral do nosso curso.

— Agora!

Vera abriu a aplicação de mensagens.

No grupo geral havia uma imagem colorida.

Era um convite.

A mesma fonte.

A mesma cor “rosa empoeirado”.

O mesmo endereço do café “Loft”.

Só o nome era diferente — Nina.

E a sala indicada também era outra — “Sala Grande”.

— Mas ela nasceu no dia quinze! — Vera apertou o telefone com força.

— Porque é que está escrito dia treze?

— Essa é a minha data!

— Ela está a mandar mensagens privadas para toda a gente — disparou Sveta rapidamente.

— Diz que foste tu que copiaste a ideia dela, que na tua festa vai ser uma seca e que na dela vai haver um blogger famoso e um bar de cocktails.

— Ver, metade do nosso curso já respondeu que vai à festa dela.

— Lá é tudo de graça.

Vera sentiu algo quente e corrosivo começar a ferver dentro dela.

Levantou-se da mesa, fazendo os lápis caírem dos seus joelhos.

Aquilo não era apenas ofensivo.

Era roubo.

Um roubo descarado e sem escrúpulos da sua vida.

Ela saiu para o corredor.

A porta do quarto da irmã postiça estava entreaberta.

Nina estava deitada na cama, balançando as pernas no ar e escrevendo alguma coisa no smartphone.

— Não tens nada para me explicar? — Vera entrou sem bater.

Nina virou lentamente a cabeça.

Um sorriso convencido surgiu no seu rosto.

— Olha, chegou a aniversariante.

— O que é que há para explicar?

— O pai deu-me dinheiro e decidi fazer a festa mais cedo.

— O dia quinze é uma segunda-feira, é inconveniente.

— E o dia treze é sábado.

— Perfeito.

— Roubaste o meu design.

— Convidaste os meus amigos.

— Reservaste o mesmo lugar — a voz de Vera tremia, não de lágrimas, mas de raiva.

— Estás a fazer isto de propósito?

— Não te dês tanta importância — bufou Nina, sentando-se na cama.

— Eu simplesmente sei fazer as coisas bonitas, e tu não.

— Ninguém está interessado nas tuas “festinhas de cartão”.

— Estou a salvar as pessoas do tédio.

— Devias agradecer-me por sequer permitir que apareças lá.

— Talvez sobre comida e eu mande para o teu quartinho.

*

— Vais cancelar tudo isto agora mesmo — Vera deu um passo em frente.

A sua paciência tinha acabado.

Não haveria mais delicadeza.

— Ou o quê? — Nina soltou uma gargalhada estridente e desagradável.

— Vais fazer queixa à avozinha?

— O pai não quer saber, já pagou a conta.

— A mãe está do meu lado.

— E tu não és ninguém.

Vera reduziu a distância entre elas num instante.

Agarrou a irmã postiça pelo ombro e puxou-a bruscamente da cama.

Nina soltou um grito, não esperando tamanha força daquela enteada sempre tão calma.

— Eu disse que vais cancelar tudo, ou vou organizar-te uma festa que nunca mais esquecerás na vida! — Vera gritou-lhe diretamente na cara.

— Tira as mãos de mim, psicopata! — Nina tentou libertar-se e arranhou Vera com uma unha comprida.

— Pai!

— Ela está a bater-me!

O padrasto entrou a correr no quarto, seguido pela mãe.

— O que é que se passa aqui?! — rugiu o homem, ficando vermelho de raiva.

— Ela atacou-me! — gemeu Nina, assumindo imediatamente o papel de vítima.

— Eu só convidei alguns amigos e ela está com inveja!

— Vera!

— Como te atreves a tocar-lhe? — a mãe correu até Nina e começou a examinar-lhe o ombro.

— Ficaste completamente selvagem nessa tua escola técnica?

Vera recuou.

Olhou para aquelas pessoas e percebeu que ali não havia nem um grama de justiça.

Gritar era inútil.

Explicar-se seria humilhante.

— Está bem — a voz de Vera tornou-se gelada.

A raiva dentro dela tinha-se extinguido.

— Faz a tua festa.

— Junta a tua multidão.

— Mas lembra-te, Nina: a felicidade roubada ainda te vai ficar atravessada na garganta.

— És uma ladra!

Ela virou-se e saiu, sem ouvir os gritos histéricos da irmã nem os sermões da mãe.

Vera marcou o número de Andrei.

— Não vamos cancelar nada — disse ela com firmeza.

— Que venham aqueles que realmente querem estar comigo.

— Não preciso dos outros.

*

No dia treze, o café “Loft” zumbia como uma colmeia.

À direita, atrás das pesadas portas de carvalho da sala pequena, tocava um jazz suave.

Sobre as mesas havia ramos de flores silvestres que Vera tinha colhido pessoalmente na casa de campo da avó.

Cheirava a bolos caseiros e cera de vela.

À esquerda, atrás da divisória de vidro da sala grande, os graves faziam tudo tremer.

Os estroboscópios piscavam e ouviam-se gargalhadas de gente bêbada.

Na sala de Vera não havia muita gente.

Vieram Andrei, Sveta, mais cinco colegas do curso e, claro, a avó.

Mas o ambiente era incrível — leve e sincero.

Andrei trouxe um presente invulgar — uma rosa de ferro forjado que ele próprio tinha feito na oficina.

De repente, a porta abriu-se com estrondo.

Nina estava parada à entrada.

Usava um vestido coberto de lantejoulas e segurava um copo na mão.

Atrás dela amontoavam-se alguns rapazes e raparigas desconhecidos.

— Então, seus falhados! — gritou Nina, tentando falar mais alto do que o jazz.

— Isto aqui é um velório?

— Venham connosco, lá é que está a verdadeira festa!

— O blogger Max chegou!

Ela caminhou até ao centro da sala, pegou sem cerimónia num pastel de uma bandeja, deu uma dentada e fez uma careta.

— Credo, couve.

— Que coisa de aldeia.

— Andrei — virou-se para o rapaz — porque estás aqui a morrer de tédio?

— Anda comigo, vou apresentar-te às pessoas certas.

— Larga essa rata cinzenta.

Andrei levantou-se lentamente.

Era alto e largo de ombros — trabalhar com metal tinha deixado a sua marca.

— SAI daqui — disse ele calmamente.

— Ui, que assustadores! — Nina deu uma risadinha e tentou agarrá-lo pelo cotovelo.

— Vá lá, não te faças de difícil.

Nesse momento, a avó levantou-se.

Apoiava-se numa bengala, mas mantinha-se direita como um general numa parada.

— Nina — disse ela em voz baixa, mas de uma forma que fez todos se calarem.

— O teu aniversário é no dia quinze.

— Hoje é o dia da Vera.

— Tu és uma ESTRANHA aqui.

— E a tua festa também é ROUBADA.

Nina ficou vermelha de raiva.

— E quem são vocês para me expulsarem?

— Eu paguei por este clube inteiro!

— O meu pai pode comprar-vos a todos!

Ela levantou o braço para derrubar um vaso da mesa, mas Vera agarrou-lhe o pulso.

Com força.

Dolorosamente.

— FORA — disse Vera em voz baixa.

— Vais partir-me o braço! — gritou Nina.

— Parto, se não fores embora — Vera olhou-a diretamente nos olhos.

Não havia medo naquele olhar.

Vera empurrou a irmã em direção à saída.

A irmã postiça perdeu o equilíbrio nos saltos altos, agitou os braços de forma ridícula e quase caiu, derramando o conteúdo do copo sobre o próprio vestido.

Projeto “Lexi” — Vladimir Leonidovich Shorokhov | LitRes

O riso não veio da sala de Vera.

Quem ria eram as pessoas atrás de Nina.

À porta estava o mesmo “blogger convidado”, Max, com o telefone estendido à sua frente.

A câmara estava apontada diretamente para a mancha molhada no vestido de Nina e para o seu rosto deformado pela raiva.

— Isto está a ser transmitido ao vivo, querida — sorriu o rapaz de cabelo pintado.

— Que conteúdo fantástico.

— “Riquinha histérica arruína a festa da irmã.”

— Os seguidores estão a adorar a tua arrogância.

— Um espetáculo completo.

Nina congelou.

Ela sabia perfeitamente o que era o ódio nas redes sociais.

— Tu… estavas a filmar? — sussurrou.

— Desliga!

— Nós tínhamos combinado fazer publicidade!

— Isto é publicidade.

— Só que publicidade negativa — respondeu o blogger com indiferença.

— Tu própria acabaste contigo.

— As pessoas gostam de sinceridade, não de ostentação.

Ele virou a câmara para Vera e para os amigos dela.

— Pessoal, feliz aniversário!

— Aqui está mesmo muito fixe, há um ambiente incrível.

— Eu preferia ficar aqui do que naquele circo.

Nina saiu a correr da sala, escondendo o rosto com as mãos.

O seu grupo trocou olhares e começou a dispersar-se.

Ninguém queria aparecer no vídeo como amigo daquela criadora de escândalos.

A noite só terminou de madrugada.

Eles comeram o bolo que a avó tinha feito, dançaram ao som das suas músicas favoritas e riram muito.

Andrei segurou Vera pela mão e não a largou nem por um minuto.

No dia seguinte, o vídeo espalhou-se pelas páginas e grupos locais da cidade.

Os comentários foram impiedosos com Nina.

As pessoas escreviam sobre a sua ganância, estupidez e falta de educação.

O padrasto tentou pagar para que o vídeo fosse apagado, mas a Internet não esquece nada.

Durante muito tempo, teve de se justificar perante os seus parceiros de negócios pelo comportamento da filha, que tinha envergonhado o nome da família.

Vera olhava para o ecrã do telefone e lia as palavras calorosas de desconhecidos que elogiavam a decoração e o seu autocontrolo.

Ela percebeu uma coisa: a força não pode ser comprada, só pode ser construída dentro de nós.

Nina fechou-se no quarto e não saiu durante dois dias.

Vera, por sua vez, fez as malas.

Decidiu mudar-se para casa da avó.

Agora sabia com certeza que conseguiria cuidar de si própria.

Com Andrei, com os estudos, com a vida.

Aquele era o início da arquitetura do seu próprio destino.

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