Galina emprestou o carro ao cunhado por duas semanas.
Quatro meses se passaram, e ela percebeu: não haveria nem carro, nem desculpas.

Mas ela tinha um trunfo que ninguém conhecia.
Galina colocou as chaves do carro sobre a mesa e empurrou-as na direção de Pavel.
As chaves deslizaram sobre a toalha plástica com um leve ruído e pararam junto ao cotovelo dele.
— Até eu receber o salário, Gal.
— Duas semanas no máximo.
— Preciso ir até a obra, e o meu está na oficina.
— Duas semanas, Pasha.
— Nem um dia a mais.
Ele assentiu, agarrou as chaves com o punho e saiu sem sequer terminar o chá.
A caneca ficou sobre a mesa.
Galina colocou-a na pia, enxaguou-a e virou-a sobre o pano de prato.
Olhou pela janela: Pavel já estava entrando no seu Lada prateado e ajustando o espelho à sua altura.
O marido de Galina, Kostya, estava sentado na sala ao lado e permanecia em silêncio.
Ele sempre ficava calado quando o assunto era o irmão.
— Pelo menos peça um recibo — disse Galina ao voltar.
— Que recibo, Gal?
— É o Pasha.
— Meu irmão.
Ela queria responder.
Mas olhou para Kostya, para suas costas curvadas dentro da camiseta esticada, para a maneira como ele passava o polegar pela tela do celular sem levantar a cabeça, e ficou em silêncio.
Discutir com Kostya sobre Pavel era inútil.
Ela aprendera isso ao longo de doze anos.
Na primeira semana, Pavel ligava por conta própria.
Dizia que estava tudo bem, que tinha abastecido o carro e verificado o óleo.
Galina ouvia e assentia, embora ele não pudesse vê-la.
Na segunda semana, as ligações ficaram mais raras.
Na terceira, ela mesma ligou para ele.
— Pasha, quando você vai devolver o carro?
— Preciso levar o Lyosha à policlínica.
— Gal, aconteceu uma coisa.
— Atrasaram meu salário.
— Só mais uma semana, está bem?
— E o que o salário tem a ver com o carro?
— Bem, preciso abastecer e trocar os pneus.
— Não posso devolver o carro com o tanque vazio.
Ela estava parada junto à janela da cozinha e olhava para a vaga vazia no pátio.
No lugar onde normalmente ficava seu carro, agora estacionava um vizinho do terceiro andar com seu Renault preto.
A vaga fora ocupada no segundo dia.
Galina chamou um táxi para ir à policlínica.
Lyosha estava sentado no banco de trás, balançando as pernas sem conseguir alcançar o chão.
Ele tinha seis anos, e o mundo lhe parecia simples.
A mamãe liga, o táxi chega, o médico examina sua garganta.
E Galina fazia contas.
Trezentos rublos para ir.
Trezentos para voltar.
Duas vezes por semana, porque Lyosha tinha sido encaminhado para procedimentos.
Além disso, havia os produtos que antes ela comprava no hipermercado fora da cidade e que agora precisava comprar na loja perto de casa, pelo dobro do preço.
Um mês se passou.
Pavel não ligava.
Galina telefonava, mas ele desligava e escrevia: “Estou ocupado, ligo depois”.
Ele não ligava.
Kostya jantava em silêncio.
Galina colocou diante dele um prato de macarrão com uma costeleta e sentou-se à sua frente.
— Ligue para seu irmão.
— Para quê?
— Porque ele está dirigindo meu carro há um mês.
— Nosso carro.
— Meu, Kostya.
— Eu comprei.
— Com meu dinheiro.
— Antes mesmo do nosso casamento.
Ele levantou os olhos.
Não havia raiva neles.
Havia cansaço, familiar como o papel de parede da cozinha que eles planejavam trocar havia quatro anos e nunca trocaram.
— Gal, não exagere.
— O Pasha vai devolver.
— Para onde ele vai fugir?
— Para onde ele foi agora?
— Ele não atende o telefone.
— Talvez esteja na obra.
— O sinal pode estar ruim.
Galina levantou-se e colocou seu prato na pia.
Não tinha vontade de comer.
Saiu para a varanda, pegou o telefone e ligou para a sogra.
— Zinaida Petrovna, olá.
— Você falou com o Pasha?
— Ah, Galotchka, o que aconteceu?
— Ele pegou meu carro há um mês.
— Disse que devolveria quando recebesse o salário.
— E não devolveu.
— Bem, Galotchka, você conhece o Pasha.
— Ele é distraído.
— Vou falar com ele.
Distraído.
Galina apertou o corrimão da varanda com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
Pavel tinha quarenta e dois anos.
Tinha um metro e oitenta e cinco de altura, ombros largos como um armário e uma barba ruiva que deixara crescer no ano anterior e que o fazia parecer um lenhador de propaganda.
Distraído.
Claro.
Zinaida Petrovna ligou para o filho.
Pavel foi até a casa da mãe, tomou chá e prometeu devolver o carro “nos próximos dias”.
Galina soube disso pela sogra, que ligou para lhe dar satisfação.
— Ele disse que devolveria nos próximos dias, Galotchka.
— Não se preocupe.
— Obrigada, Zinaida Petrovna.
Galina desligou e abriu o calendário no telefone.
Marcou a data.
Cinco de outubro.
Haviam se passado trinta e oito dias desde que Pavel pegara as chaves.
Os próximos dias não chegaram nem três dias depois, nem sete, nem quatorze.
No início de novembro, Galina viu seu carro.
Por acaso.
Estava indo de ônibus pela cidade, passando pelo shopping na periferia, quando viu o Lada prateado com a placa que conhecia de cor.
O carro estava estacionado, e o para-lama esquerdo estava arranhado.
Havia uma longa faixa branca do para-choque até a porta.
Ela desceu no ponto seguinte.
Voltou ao estacionamento a pé, pelo acostamento, pela lama.
Era novembro, e sob seus pés havia uma mistura de folhas e argila.
Chegou ao carro.
Deu a volta.
O para-lama esquerdo estava arranhado.
Havia um pequeno amassado no para-choque traseiro, discreto, mas visível.
No banco traseiro havia uma jaqueta que não era dela.
Era amarela, feminina e tinha capuz.
Galina fotografou tudo.
O arranhão, o amassado, a jaqueta e a placa.
Suas mãos não tremiam.
Por dentro, havia silêncio.
Não era raiva.
Era outra coisa, densa e fria, como uma pedra no bolso durante o inverno.
Ela ligou para Pavel.
Ele atendeu no quarto toque.
— Ah, Gal, oi.
— Pasha, estou parada perto do shopping.
— Estou olhando para o meu carro.
— O para-lama está arranhado e o para-choque está amassado.
Silêncio.
Um segundo, dois, três.
— Ah, isso.
— É uma coisa pequena.
— Bateram nele no estacionamento.
— Nem percebi no começo.
— E de quem é a jaqueta no banco traseiro?
— Que jaqueta?
— A amarela.
— Ah, essa.
— Eu dei carona para uma colega.
— Pasha.
— Quando você vai devolver o carro?
— Gal, literalmente na próxima semana.
— Sério.
Ela não discutiu.
Desligou.
Ficou mais um minuto junto ao carro e depois voltou para o ponto de ônibus.
O ônibus não chegou durante doze minutos.
Ela contou.
Em casa, contou tudo a Kostya.
Ele ouviu olhando para a televisão.
— Um arranhão, o para-choque e uma jaqueta qualquer.
Ele não se virou.
— Acontece.
— Em estacionamentos, alguém sempre acaba batendo em outro carro.
— Kostya.
— O quê?
— Este é o meu carro.
— Meu.
— Não é do Pasha.
— E ele está praticamente destruído no estacionamento do shopping, com coisas de outra pessoa dentro.
— Não está destruído, Gal.
— É só um arranhão e um pequeno amassado.
— E se meu irmão pegasse suas ferramentas por um mês e as devolvesse cheias de marcas?
— Você não tem irmão.
— Imagine que tivesse.
Ele deu de ombros.
Galina foi para a cozinha.
Colocou a chaleira no fogo.
A chaleira começou a ferver e depois desligou com um clique.
Ela colocou água fervente na caneca, pôs o sachê de chá, retirou-o e depois colocou-o novamente.
Pegou o telefone e abriu as fotografias.
O arranhão, o amassado, a jaqueta.
Lyosha correu para a cozinha, descalço, usando um pijama de dinossauros.
— Mamãe, amanhã vamos de carro?
— Não, querido.
— O carro está na oficina.
— De novo?
— De novo.
Ele saiu correndo.
Galina terminou o chá e abriu as notas no telefone.
Escreveu: “Arranhão no para-lama esquerdo.
Amassado no para-choque traseiro.
Fotos de 7 de novembro.
Ligação para Pavel, gravação disponível”.
Ela ativara a gravação das chamadas ainda em setembro.
Não de propósito.
Era apenas um hábito que lhe ficara depois de um conflito com um empreiteiro no trabalho, quando quase perdeu seu bônus por causa das palavras de outra pessoa.
Dezembro.
O carro não voltava.
Pavel parou de atender às ligações.
Galina escreveu para ele no aplicativo de mensagens: “Pasha, devolva o carro ou vamos resolver essa questão.
Estou falando sério”.
Ele leu.
Não respondeu.
Zinaida Petrovna ligou por conta própria.
— Galotchka, não fique incomodando o Pasha.
— Ele está passando por uma fase difícil.
— Zinaida Petrovna, ele está com o meu carro.
— Ora, Galotchka, vocês são uma família.
— Precisam ajudar uns aos outros.
— Quatro meses, Zinaida Petrovna.
— Ah, por que você fica contando?
— É assim que se trata a própria família?
Galina estava sentada na beirada da cama e escutava.
Do outro lado da parede, Lyosha assistia a desenhos animados, e de lá vinha a voz aguda de algum personagem.
Kostya estava trabalhando no turno.
— Zinaida Petrovna, não vou esperar mais.
— O que você quer dizer com isso?
— Quero que Pavel devolva o carro.
— Ou pague o conserto e o aluguel durante todo esse período.
— Que aluguel?
— Galotchka, você enlouqueceu?
— Isso é família!
Galina desligou.
Deitou-se na cama com o rosto enterrado no travesseiro.
O travesseiro cheirava a sabão em pó.
Os desenhos de Lyosha continuavam ressoando atrás da parede.
Ela ficou deitada e pensou.
Não no carro.
Na casa de campo.
A casa de campo pertencia à sogra.
Eram seis sotkas em Malinovka, quarenta minutos da cidade de trem.
A casa era de madeira, antiga, com uma varanda que Kostya reconstruíra durante dois verões seguidos.
Havia macieiras, framboesas e uma estufa.
Zinaida Petrovna já fazia muito tempo que não ia lá.
Suas pernas doíam, suas costas doíam, e o ônibus que saía da estação sacudia demais.
Todos usavam a casa de campo.
Kostya e Galina levavam Lyosha para passar o verão lá.
Pavel ia com os amigos para fazer churrasco e às vezes dormia lá.
Mas havia um detalhe que nem todos conheciam.
Em dois mil e vinte e dois, Zinaida Petrovna pediu ajuda a Galina para regularizar a propriedade.
A sogra havia acumulado dívidas com as contribuições da associação.
Eram quatro anos de recibos não pagos.
O presidente ameaçava levá-la à Justiça.
Galina pagou.
Foram quarenta e sete mil rublos de suas próprias economias.
Então a sogra, agradecida e assustada, propôs transferir a propriedade da casa de campo para Galina.
— Galotchka, vamos registrar no seu nome.
— Eu não consigo mais cuidar disso.
— E você é tão organizada.
Galina não discutiu.
Foi com Zinaida Petrovna ao cartório.
A escritura de doação foi registrada em março de dois mil e vinte e dois.
Galina registrou o direito de propriedade no Rosreestr.
Tudo estava de acordo com a lei.
Tudo estava regular.
Kostya sabia.
Pavel, aparentemente, não sabia.
Ou sabia, mas não dera importância.
Em janeiro, Galina ligou para Pavel de um número desconhecido.
Ele atendeu.
— Alô?
— Pasha, sou eu, Galina.
— Ah, Gal.
— Oi.
— Devolva o carro.
— Gal, eu já disse.
— Em breve.
— Quatro meses e meio, Pasha.
— Bem, é que agora não consigo ficar sem carro.
— A obra fica longe.
— E eu devo ficar indo de transporte público com uma criança aos médicos?
— Bem, você está conseguindo se virar de alguma maneira.
Ela fechou os olhos.
Os dedos da mão direita encontraram a costura da calça jeans e começaram a esfregá-la para frente e para trás.
Para frente e para trás.
— Pasha, vou lhe dar uma semana.
— Se daqui a uma semana o carro não estiver de volta, vou fechar a casa de campo.
— Que casa de campo?
— Malinovka.
— E o que você tem a ver com isso?
— A casa é minha, Pasha.
Silêncio.
Longo.
Galina ouvia algum aparelho fazendo um zumbido do outro lado.
Talvez uma ventilação.
Talvez um aquecedor.
— Como assim é sua?
— Zinaida Petrovna transferiu a propriedade para mim há três anos.
— Escritura de doação, Rosreestr, tudo oficial.
— Isso…
— Espere.
— Minha mãe nunca me contou nada.
— Não sei o que ela contou a você.
— A casa é minha.
— E se daqui a uma semana eu não vir o carro na minha vaga, vou trocar as fechaduras.
— Gal, você está falando sério?
— Absolutamente.
Ela desligou e colocou o telefone sobre a mesa com a tela virada para baixo.
Suas mãos latejavam como se ela tivesse carregado sacolas pesadas durante duas horas.
Pavel ligou para Kostya vinte minutos depois.
Galina ouviu a conversa do corredor.
— Você está sabendo que sua mulher está me ameaçando?
— Com o quê?
— Vai tomar a casa de campo.
— Pasha, a casa realmente está no nome dela.
— E você ficou calado?
— E quando você vai devolver o carro?
— O que o carro tem a ver com isso?
— Tem tudo a ver.
Kostya falava calmamente.
Galina estava atrás da porta e ouvia cada palavra.
Pela primeira vez em quatro meses, Kostya não estava do lado do irmão.
Ou talvez estivesse, mas parara de demonstrar isso.
A conversa terminou rapidamente.
Kostya saiu para o corredor e olhou para Galina.
— Você está falando sério sobre a casa de campo?
— E você acha mesmo que vou esperar mais seis meses?
Ele coçou a nuca.
Galina conhecia aquele hábito desde a infância.
Era assim que ele agia quando não conseguia encontrar uma saída.
— Gal, ele é meu irmão.
— E eu sou sua esposa.
— E Lyosha é seu filho.
— Estamos há quatro meses sem carro.
— Gastei mais de vinte mil em táxis e transporte público.
— O para-lama está arranhado.
— O para-choque está amassado.
— E ele nem pediu desculpas.
Kostya ficou em silêncio.
Depois assentiu.
Foi para o quarto.
Zinaida Petrovna ligou no dia seguinte.
Sua voz estava diferente.
Não era carinhosa nem conciliadora.
— Galina, como você se atreve?
— Olá, Zinaida Petrovna.
— Eu lhe dei a casa de campo e você está chantageando meu filho?
— Não estou chantageando ninguém.
— Estou pedindo que ele devolva minha propriedade.
— O carro?
— O carro.
— Então diga isso ao Pasha normalmente, sem ameaças.
— Zinaida Petrovna, eu falei normalmente.
— Falei durante quatro meses.
— Liguei, escrevi e pedi.
— Ele não atende ao telefone.
— Então deve estar ocupado.
— Nesse caso, a casa de campo ficará fechada.
— Eu vou recuperar o presente!
— Zinaida Petrovna, uma escritura de doação não pode ser cancelada unilateralmente.
— É a lei.
Silêncio.
Galina ouvia a sogra respirando do outro lado da linha.
Pesadamente.
Ofegante.
— Você é uma cobra, Galina.
— Sou a pessoa que pagou suas dívidas e mantém o terreno há três anos.
— Tenha uma boa noite.
Ela desligou.
Suas mãos não tremiam.
Por dentro, havia um vazio, como um quarto depois de uma mudança.
Paredes nuas.
Poeira no chão.
Luz entrando pela janela.
E nada mais.
Uma semana se passou.
O carro não apareceu.
Galina tirou um dia de folga e foi para Malinovka.
Primeiro o trem.
Depois o ônibus.
Depois caminhou pela estrada junto à floresta.
O ar de janeiro estava tão denso que parecia possível cortá-lo.
A neve rangia sob suas botas, e aquele som era o único em toda a rua.
A casa de campo a recebeu em silêncio.
O portão estava congelado, e ela precisou puxá-lo.
Dentro da casa havia cheiro de madeira fria e de maçãs antigas que Galina colocara no outono em uma caixa na varanda.
As maçãs haviam congelado e estavam cobertas de geada.
Ela deu a volta na casa.
Verificou as janelas, as portas e a fechadura do galpão.
Tudo estava no lugar.
Na varanda estavam as botas de borracha de Pasha, que ele deixara no verão.
Número quarenta e quatro.
Ao lado havia uma garrafa vazia de cerveja e um saco de carvão para a churrasqueira.
Galina colocou as coisas de Pasha em um saco.
As botas, a garrafa, o carvão e um boné esquecido em um prego.
Levou tudo para fora do portão e deixou junto à cerca.
Chamou um chaveiro.
Ele chegou duas horas depois em uma velha Gazela.
Era um homem idoso usando um casaco acolchoado, com cheiro de álcool da noite anterior e brocas nos bolsos.
— Trocar as fechaduras?
— Todas.
— O portão, a casa e o galpão.
— Três unidades.
— Troque.
Ele trabalhou durante quarenta minutos.
Galina ficou na varanda, tomando chá quente de uma garrafa térmica que levara consigo e olhando para as macieiras.
Os galhos estavam nus e negros, cobertos de neve por cima.
No verão, estariam brancos de flores.
Lyosha correria entre eles, recolhendo as maçãs caídas.
O chaveiro terminou.
Entregou-lhe três chaves novas.
Galina pagou, acompanhou-o até o portão e trancou-o depois que ele saiu.
Ficou ali por alguns instantes.
Silêncio.
Somente um corvo grasnou em algum lugar, e o som ficou suspenso no ar gelado como uma nota que alguém esqueceu de encerrar.
Pavel apareceu no fim de semana seguinte.
Galina soube porque ele ligou furioso para Kostya.
— Você trocou as fechaduras!
— Não consigo entrar!
— Pasha, essa é a casa dela.
— É a casa da minha mãe!
— Os documentos estão no nome da Galina.
— Você sabe disso.
— Vou processar você!
— Processe.
Kostya contou a conversa à noite.
Eles estavam sentados na cozinha.
Lyosha já dormia.
Sobre a mesa havia duas canecas de chá e um prato de biscoitos que Galina comprara no caminho do trabalho.
— Ele realmente vai processar?
— Não vai, Gal.
— Um advogado custa dinheiro.
— E Pasha não tem dinheiro.
— Não tem dinheiro, mas está dirigindo meu carro há quatro meses.
— Cinco.
— O quê?
— Já são cinco meses.
Galina fez as contas.
Agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro e janeiro.
Kostya tinha razão.
Quase cinco meses.
— E o que você sugere?
— Nada.
— Você fez tudo certo.
Ela olhou para ele.
Ele não desviou o olhar.
Aquilo era incomum.
Durante doze anos, Kostya desviava os olhos quando o assunto era o irmão.
Encolhia-se, pegava o telefone e murmurava: “Vamos resolver”.
Mas agora estava sentado ereto e olhando para ela.
— Kostya.
— O quê?
— Obrigada.
Ele assentiu e estendeu a mão para pegar um biscoito.
Três dias depois, Pavel trouxe o carro.
Não ligou.
Não avisou.
Galina saiu para a varanda pela manhã e viu o Lada prateado estacionado em sua vaga.
Como se nunca tivesse saído dali.
Ela se vestiu e desceu.
Deu a volta no carro.
O arranhão no para-lama estava pintado, mas de forma torta.
Era evidente que não fora consertado em uma oficina, mas pelo próprio Pavel, com tinta spray.
O para-choque fora endireitado, mas a marca permanecia.
O interior estava limpo.
A jaqueta havia desaparecido.
Sobre o painel havia um bilhete arrancado de um caderno:
“Gal, desculpa.
Pavel.”
Sem ponto.
Sem vírgula depois de “Gal”.
Duas palavras e um nome.
Ela sentou-se ao volante.
Ajustou o espelho que Pavel havia movido para sua altura.
Girou a chave.
O motor ligou na primeira tentativa.
O tanque estava com um quarto de combustível.
Galina ficou sentada no carro durante uns cinco minutos sem ir a lugar algum.
Apenas ficou ali.
Com as mãos sobre o volante.
O volante estava frio.
Era janeiro, e o carro passara a noite inteira na rua.
Ela apertou o volante e depois relaxou as mãos.
Ligou o aquecedor.
O ar quente começou a sair das entradas de ventilação, e os vidros começaram a descongelar.
O som do motor era familiar e constante, como um pulso.
O pulso dela.
À noite, Zinaida Petrovna ligou.
Sua voz estava baixa e cautelosa.
— Galotchka, Pasha devolveu o carro?
— Devolveu.
— Então pronto.
— E você estava preocupada.
— Zinaida Petrovna.
— O quê?
— Não vou devolver a casa de campo.
Silêncio.
— Mas Pasha devolveu o carro.
— A casa está registrada em meu nome.
— Eu pago as contribuições.
— Eu cuido do terreno.
— Troquei as fechaduras.
— Se quiserem ir até lá, liguem antes e eu darei a chave.
— Quer dizer que eu tenho que ligar para você?
— Para ir à minha própria casa de campo?
— À minha casa de campo, Zinaida Petrovna.
— Galina…
— Boa noite.
Ela desligou.
Kostya estava parado na porta da cozinha e ouvira tudo.
— Foi duro, Gal.
— E passar cinco meses sem carro com uma criança foi fácil?
Ele não respondeu.
Passou por ela, entrou na cozinha, serviu-se de água e bebeu.
Colocou o copo sobre a mesa.
— Minha mãe vai ficar magoada.
— Que fique.
— Pasha também.
— Que fique.
Galina tirou do bolso as três chaves da casa de campo.
Colocou-as na prateleira do corredor, ao lado das luvas de Lyosha e de seu cartão de transporte.
As chaves estavam alinhadas, prateadas e novas, com as etiquetas deixadas pelo chaveiro.
Kostya olhou para elas.
— Você me dá uma?
— Claro.
— Você é meu marido.
Ela sorriu.
Foi a primeira vez em cinco meses.
E não era aquele sorriso que se mostra para tranquilizar alguém.
Era diferente.
Era o sorriso que surge quando alguma coisa finalmente volta ao seu lugar.
Fevereiro.
Galina levava Lyosha da policlínica para casa.
Em seu próprio carro, com o aquecedor ligado e o rádio falando sobre o tempo.
Lyosha estava sentado no banco traseiro e desenhava com o dedo no vidro embaçado.
— Mamãe, vamos à casa de campo no verão?
— Vamos.
— E o tio Pasha?
— Não sei, querido.
— Ele é bom?
Galina olhou pelo espelho retrovisor.
Lyosha olhava para ela, esperando uma resposta.
Os olhos eram cinzentos, como os de Kostya.
— Ele é complicado, Lyosha.
— Como assim?
— É quando uma pessoa não é má, mas faz as coisas de um jeito que torna a vida difícil para os outros.
— E nem percebe.
Lyosha pensou.
— Como o Vitka da escola?
— Talvez.
Ele voltou a desenhar no vidro.
Desenhou uma casa, uma árvore e alguma coisa redonda.
— É uma macieira, mamãe.
— Estou vendo.
Galina dirigia e pensava que as macieiras de Malinovka floresceriam em maio.
Que ela também colocaria novas fechaduras na estufa, porque Pavel guardava ali algumas de suas varas de pesca.
Que Lyosha correria pelo terreno descalço.
A grama estaria molhada pelo orvalho da manhã.
E ele gritaria de frio e de felicidade.
E se Pavel apareceria ou não, essa seria uma escolha dele.
Ela já havia feito a sua.
O carro seguia suavemente.
Do lado de fora, a neve caía, rara e preguiçosa.
Os limpadores de para-brisa a afastavam do vidro em movimentos ritmados.
Para lá e para cá.
Para lá e para cá.
No estacionamento de casa, Galina desligou o motor.
Ficou sentada por mais um minuto.
Colocou as mãos sobre o volante, aquecido pelo aquecedor.
Era isso.







