Nikolai não soltou os cravos das mãos.
Ficou parado no saguão da maternidade, segurando as flores de cabeça para baixo e olhando pela janela, atrás da qual a neve caía.

— Eu não vou levá-la para casa.
— Como assim, não vai levá-la? — Lyusya não entendeu.
— O táxi está marcado para as doze.
— Você viu o que ela tem no rosto?
— Vi.
— Estou vendo há dois dias.
— É um hemangioma.
— O médico disse que acontece e que, com o tempo, pode clarear.
— “Pode clarear” — zombou ele.
— E pode não clarear.
— Lyus, tente entender direito.
— Tenho homens na garagem, tenho gente trabalhando para mim.
— Vou ter que explicar isso para cada um deles?
— Você não vai precisar explicar nada — disse Lyusya.
— Afinal, você não vai levá-la.
E ele realmente não levou.
Quem as buscou foi a vizinha do terceiro andar, Valentina Petrovna, de táxi, pagando do próprio bolso.
Ela chegou de casaco com gola de astracã e uma sacola de tangerinas e, antes de qualquer coisa, abriu o cobertor.
— Ah, que menina bonita.
— Olha essas bochechas, esses olhos.
— E essa mancha?
— Isso não está escrito na testa dela dizendo quem ela é.
— Ela está justamente quase na testa, Valya.
— E daí?
— O importante é que não está na cabeça.
Eles se divorciaram seis meses depois.
Nikolai pagou pensão alimentícia até Nina completar oito anos, depois parou, e Lyusya não tentou encontrá-lo.
A mancha ocupava metade da bochecha esquerda e avançava até a têmpora.
Era de um vermelho-escuro, como se alguém tivesse derramado compota e não tivesse limpado.
Na policlínica, os médicos apenas davam de ombros e recomendavam acompanhamento.
Em 1998, apareceu um médico que disse que havia um laser importado e uma chance de remover cerca de setenta por cento da mancha, mas o tratamento era pago e exigia várias sessões.
— E quanto custa? — perguntou Lyusya.
O médico disse o valor.
Lyusya calculou mentalmente seu salário de bibliotecária, multiplicou, dividiu e chegou a uma conclusão: nunca.
— Mamãe, e se eu não almoçar na escola? — sugeriu Nina.
— Você vai almoçar na escola — disse a mãe de um jeito que encerrou a questão para sempre.
O pátio era típico de Kuzminki: prédios de cinco andares, álamos e uma caixa de areia que vivia sendo escavada.
— Lá vem a Mancha!
— Não é Mancha, é Dálmata!
— Sokolova, você toma banho ou sua mãe lava você?
No começo, Nina chorava.
Depois parou, porque percebeu que, quando chorava, a mancha ficava mais vermelha e ainda mais evidente.
Aos oito anos, aprendeu a atravessar o pátio de modo que a bochecha esquerda ficasse voltada para a parede.
Aos dez, aprendeu a responder:
— Minha mãe me lava.
— Junto com a sua jaqueta.
— Por isso ela é tão feia.
A família do pai apareceu uma única vez.
A avó Tamara veio conhecer a neta, sentou-se na cozinha, tomou chá e deu seu veredito:
— Não é da nossa linhagem.
— Nunca tivemos ninguém assim na família.
— Na família de vocês também nunca houve homens — respondeu Lyusya.
— Só garagens.
Depois disso, a avó Tamara nunca mais apareceu.
Na escola era pior do que no pátio, porque na escola tudo acontecia conforme um horário e diante de testemunhas.
Especialmente as fotografias.
— Sokolova, fique na última fila — dizia Raisa Andreievna.
— E na ponta.
— Na ponta direita, eu disse.
O fotógrafo acrescentava:
— Menina, vire para o outro lado.
— Isso, e incline um pouquinho a cabeça.
— Pronto, fique parada.
Na fotografia da turma do 9º “B”, Nina aparece de meio perfil, como se tivesse se virado por algum motivo próprio.
A fotografia ainda está guardada em uma caixa de sapatos, junto com o diploma da olimpíada distrital de literatura.
— Nina, não fique chateada — disse certa vez sua colega de classe Sveta, que, diga-se de passagem, era a mais bondosa de todas.
— É só que você não teve sorte com a aparência.
— Então precisa compensar com a personalidade.
— E eu estou compensando — respondeu Nina.
— Já estou quase conseguindo.
Valentina Petrovna Luzhina morou no apartamento número trinta e sete durante toda a vida de Nina.
Trabalhou a vida inteira em um ateliê da Casa de Serviços, na Volgogradka, e, quando o ateliê fechou, passou a costurar em casa.
Era uma mulher barulhenta, com as mãos cobertas de pequenas marcas de agulha, e falava com todos do mesmo jeito: tanto com uma criança quanto com um diretor.
Certa vez, quando Nina tinha sete anos, estava sentada no banco perto da entrada do prédio e chorava porque alguns meninos tinham jogado sua corda de pular sobre a marquise.
Valentina Petrovna saiu com um balde de lixo, olhou para ela e colocou o balde no chão.
— Então.
— Por que você está chorando?
— Jogaram minha corda lá em cima.
— A corda não é nada.
— Tenho três metros delas.
— Por que você está chorando de verdade?
Nina fungou.
— Eles disseram que ninguém vai querer se casar comigo.
— Venha comigo.
— Vou lhe mostrar uma coisa.
A tal coisa ficava na cozinha, perto da janela, e chamava-se “Chaika”.
Valentina Petrovna sentou Nina, colocou suas mãos no volante da máquina e a obrigou a costurar uma linha em um pedaço de tecido de algodão.
— Ficou torta — lamentou Nina.
— Torta — concordou Valentina Petrovna.
— Na primeira vez sempre fica torta.
— Olhe para suas mãos.
— Dedos longos, pulso estreito, unhas fortes.
— Essas, Ninka, são mãos de costureira.
— Eu reconheço mãos assim de longe.
— E guarde isto na memória, porque só vou dizer uma vez: as pessoas olham para o rosto de alguém por três segundos.
— Cinco, no máximo.
— Mas depois olham para o seu trabalho durante a vida inteira.
A partir daquele dia, Nina passou a ir ao número trinta e sete como se fosse trabalhar.
Aos nove anos, costurou seu primeiro avental.
Aos doze, ajustou para si mesma um vestido velho da mãe, e a mãe ficou boquiaberta.
Aos quinze, metade do 9º “B” usava saias que “Sokolova costura por duzentos rublos e uma caixa de bombons”.
— Você vai estudar — dizia Lyusya.
— Vai para a faculdade.
— Você tem cabeça para isso.
— Mamãe, eu já estudo.
— Você costura.
— É a mesma coisa.
— Só que você tem associações ruins.
Nina não foi para a faculdade.
Ou melhor, entregou os documentos para a faculdade de letras e voltou para casa feliz.
Mas encontrou a mãe caída no chão do corredor.
Foi um derrame.
Nina tinha dezessete anos.
Depois disso, vieram dezesseis anos.
Acordar às seis, porque era preciso virá-la.
Fraldas de pano, fraldas descartáveis, “mamãe, vou levantar você, segure no meu pescoço”.
Escaras, contra as quais ela lutava como se fossem inimigas do povo.
Duas sessões de soro por semana, a enfermeira Olya recebendo em dinheiro, fila na policlínica para conseguir uma receita, onde sempre aparecia alguém cheio de energia:
— Moça, você está marcada?
— Aqui tem gente esperando!
— Eu também estou esperando.
— E para quê?
— Você é jovem.
Nos primeiros anos, Lyusya falava com dificuldade.
Depois, melhorou um pouco.
O braço direito nunca voltou a funcionar.
Ela também não voltou a andar.
Ficava sentada em uma cadeira perto da janela, olhando para o pátio.
— Nina — disse ela certa vez.
— Você precisa sair um pouco.
— Ir a algum lugar.
— Visitar suas amigas.
— Quais?
— Bem… a Sveta.
— A Sveta se casou em Mitino e teve dois filhos.
— Nós nos cumprimentamos por mensagem no Ano-Novo.
— Então simplesmente vá caminhar.
— Mamãe, eu caminho.
— Ontem fui até o Pyaterochka por um caminho e voltei por outro.
— Praticamente um cruzeiro.
Havia, porém, Artyom.
Eles se conheceram em um curso de corte e costura que Nina frequentava aos sábados, enquanto uma cuidadora ficava com sua mãe.
Ele tinha vinte e três anos, estudava para ser tecnólogo, tinha orelhas engraçadas e era o único do grupo que nunca perguntou sobre a mancha.
Durante dois meses, tomaram café em uma lanchonete envidraçada na esquina.
Três vezes ele a acompanhou até a entrada do prédio.
Uma vez, beijou-a.
Depois Nina o convidou para ir à sua casa.
Para conhecer sua mãe.
Ele ficou quarenta minutos.
Educadamente.
Até ajudou a mudar a cadeira de lugar.
— Escuta — disse ele na entrada do prédio.
— Não pense que eu tenho preconceito contra nada.
— Mas isso… vai durar muito?
— O quê?
— Bem… sua mãe.
— Vai durar — disse Nina.
— Espero sinceramente que dure.
Uma semana depois, a mãe dele ligou.
Nina ainda se lembra de que estava na cozinha e havia trigo-sarraceno cozinhando no fogão.
— Ninochka, vou falar com você de mulher para mulher, sem ofensa.
— Para quem você acha que uma mulher como você serve?
— Com essa mancha e uma mãe acamada.
— Você é adulta, entende.
— Deixe o rapaz seguir a vida dele.
— Ele está preso a você por uma coleira ou o quê? — perguntou Nina.
— Então solte você mesma.
— Estou com as mãos ocupadas com o trigo-sarraceno.
Ela desligou e ficou meia hora olhando os grãos transbordarem debaixo da tampa.
Ninguém queria contratá-la.
— Nós ligaremos para você — diziam na loja de cosméticos.
— Sinto muito, mas nós somos o rosto da empresa — diziam no salão.
— Já tentou cobrir isso? — perguntou a responsável pelo recrutamento em uma agência de viagens.
— Já.
— Com maquiagem de palco.
— Dura quatro horas.
— Depois pareço uma parede rebocada no meio de uma reforma.
Então ela começou a costurar.
Em casa, porque não podia ficar fora por mais de duas horas.
Primeiro, fazia barras das calças dos vizinhos.
Depois, os vizinhos começaram a trazer seus próprios vizinhos.
Depois, alguém publicou na internet uma foto de um vestido que Nina havia costurado usando uma velha cortina da mãe e escreveu:
“Meninas, isto é Kuzminki.”
“Uma costureira trabalha em casa.”
“Tem mãos de ouro.”
E foi assim que tudo começou.
Ela costurava à noite, dormia quatro horas por dia, entre a roupa para lavar e as injeções.
Comprou uma máquina industrial.
Depois, uma overloque.
Depois, colocou uma segunda mesa bem no meio do quarto.
A mãe ficava sentada na cadeira e dava ordens:
— Nina, sua costura está saindo do lugar.
— Mamãe, você não consegue ver daqui.
— Eu sou sua mãe.
— Eu vejo tudo.
Quando Nina completou vinte e um anos, elas trocaram de apartamento.
Não por luxo.
O apartamento ficava no quarto andar, sem elevador, e uma vez por mês era preciso levar a mãe para exames.
Nina e um vizinho precisavam carregá-la nos braços.
Seis lances para baixo.
Seis para cima.
Encontraram uma opção no primeiro andar, em Maryino, com uma rampa.
Valentina Petrovna foi se despedir.
Trouxe um embrulho.
— Pegue.
— Tesouras.
— Não para trapos, mas para o trabalho.
— Tesouras boas são como um marido: uma vez na vida e não se emprestam a ninguém.
— Você só teve um marido, não é?
— Um.
— Vinte e dois anos.
— Era um homem bom, só fumava como uma locomotiva.
— Aliás, as tesouras duram mais.
Elas se abraçaram.
Valentina Petrovna ainda colocou um dedal no bolso de Nina.
Era velho, gasto e tinha uma pequena marca.
— Ligue.
— Você lembra do telefone?
Nina lembrava.
Era preto, de disco, no corredor, sobre um pequeno móvel coberto por uma toalha de renda.
E ela ligava.
No primeiro ano, com frequência.
No segundo, menos.
Depois, o telefone fixo foi retirado, e Valentina Petrovna se recusava categoricamente a usar celular:
“Eu não vou ficar gritando dentro dessa caixinha.”
Nina foi visitá-la algumas vezes, mas não a encontrou.
Deixou um bilhete na porta.
O bilhete desapareceu.
Não houve resposta.
Depois, a mãe sofreu um segundo derrame, e já não havia tempo para isso.
Era assim que Nina dizia a si mesma:
não havia tempo para isso.
A mãe morreu dois anos atrás, em fevereiro, tranquilamente, durante o sono.
Uma semana antes, disse:
— Nina.
— Perdoe-me por ter ocupado sua vida.
— Você me deu a vida — respondeu Nina.
— São dois verbos diferentes, mamãe.
Depois do funeral, ela dormiu durante três dias.
Levantava apenas para beber água e voltava a se deitar.
No quarto dia, limpou o apartamento, jogou fora as caixas de remédios e percebeu que, pela primeira vez em dezesseis anos, não precisava correr para lugar nenhum.
E, para ser sincera, não tinha ninguém para quem correr.
Ela tinha trinta e três anos.
Aos trinta e cinco, tinha um ateliê na Avtozavodskaya, outro em Lyublino, vinte e duas costureiras na oficina, uma fila de dois meses para encomendas e contratos para confeccionar figurinos para dois teatros.
As clientes que chegavam pela primeira vez olhavam para sua bochecha durante três segundos.
Depois, olhavam para o caimento da roupa.
Em abril, Nina foi ver um imóvel para abrir seu terceiro ateliê.
O corretor, Marat, passou o caminho inteiro falando sobre o fluxo de pessoas e a localização.
Só quando o carro saiu da Volgogradka, Nina levantou os olhos.
— Pare.
— Isto é Kuzminki?
— Exatamente.
— O bairro é promissor, há renovação urbana, prédios novos…
— Pare aqui, por favor.
Ela reconheceu o pátio pelos álamos.
Não havia mais nada para reconhecer.
No lugar do prédio de cinco andares havia uma cerca verde com a imagem de uma família feliz e a inscrição:
“Aqui surgirá um novo bairro.”
Atrás da cerca, uma escavadeira trabalhava.
Não havia caixa de areia.
Nem banco.
Nem a marquise onde sua corda havia caído.
— Sokolova? — ouviu-se atrás dela.
De um prédio vizinho, ainda não desocupado, vinha uma senhora com um cachorrinho usando um macacão.
— Zinaida Markovna?
— Ela mesma.
— E você, eu reconheceria em qualquer lugar…
A senhora parou e fez um gesto com a mão.
— Ah, desculpe, sou uma velha idiota.
— Pelo visto, você ficou rica?
— Olha só o carro.
— Não posso reclamar.
— E a senhora, como está?
— Eu estou prestes a ser despejada, em agosto.
— Vão me dar um apartamento no décimo quarto andar, acredita?
— Tenho oitenta e um anos.
— Tenho medo de elevador e eles querem me colocar no décimo quarto.
Elas ficaram ali, conversando sobre preços, netos e sobre como antigamente o pátio era varrido todos os dias.
Então Nina perguntou:
— Zinaida Markovna, e Valentina Petrovna?
— Luzhina, do número trinta e sete?
A senhora puxou o cachorrinho para mais perto.
— Valya?
— Valya, Nina, está mal.
— Ela morreu?
— Pior.
E contou tudo.
Sergey, o filho, havia morrido três anos antes.
Foi um infarto no trabalho, aos quarenta e nove anos.
Depois do funeral, Valentina Petrovna ficou acamada por um mês.
Depois se levantou.
Depois caiu no banheiro e fraturou o colo do fêmur.
Foi operada, mas nunca mais voltou a andar.
Ela não quis registrar a herança deixada pelo filho.
No cartório, assinou uma renúncia em favor da nora, Inna.
“Para que tudo fique para o neto, para que não precisem dividir.”
Com a renovação urbana, deram-lhe um apartamento novo de um quarto.
Valentina Petrovna foi registrada nele.
Em dezembro, porém, levaram-na embora.
— Para onde?
— Para uma instituição.
— Acho que perto de Klin.
— Inna dizia a todos que era para reabilitação.
— Temporariamente.
— Que lá havia cuidados e médicos.
— Já faz seis meses que é “temporário”.
— E, pelo que ouvi, o apartamento está alugado.
— Ela foi se despedir de vocês?
— Levaram-na para fora, Nina.
— Dois rapazes em uma maca.
— Ela estava de roupão, sabe, daqueles acolchoados, verdes.
— E vou lhe dizer uma coisa: ela nem chorou.
— Ficou olhando para o teto e em silêncio.
— Quando voltei para casa, tomei tanta valeriana que até o cachorro se assustou.
Nina entrou no carro.
Marat informou alegremente que o imóvel estaria disponível a partir do primeiro dia de junho.
— Marat.
— Encontre instituições para idosos perto de Klin.
— Agora mesmo, no telefone.
— Quantas existem por lá?
— Umas quinze…
— Então vamos ligar para as quinze.
Encontraram no sexto telefonema.
“Bosque de Bétulas”, uma instituição particular para idosos.
“Ambiente familiar, cinco refeições por dia, cuidados 24 horas.”
No site, apareciam senhoras sorridentes que, aparentemente, não haviam sido fotografadas ali.
— Valentina Petrovna Luzhina está aí?
— E quem é você dela? — perguntou uma voz gentil.
— Sou vizinha.
A viagem levou duas horas.
Uma casa de dois andares atrás de uma cerca alta.
Radiadores pintados.
Cheiro de cloro e repolho cozido.
O mesmo cheiro que Nina aprendera a odiar durante dezesseis anos de hospitais.
A administradora, Alla Sergeievna, examinou longamente seu passaporte.
— Mas vocês têm sobrenomes diferentes.
— Eu nunca disse que era parente.
— Entenda, tudo aqui funciona por contrato.
— O contrato foi assinado por Inna Vitalievna.
— As visitas são somente com hora marcada.
— Então eu marco.
— Para agora.
— Isso não é permitido…
— Alla Sergeievna.
Nina colocou um cartão de visita sobre o balcão.
— Eu não sou inspetora nem jornalista.
— Vou ficar duas horas.
— E pago um mês adiantado, se isso acelerar o processo.
O quarto era para quatro pessoas.
Perto da janela, de costas para a porta, uma senhora pequena estava sentada em uma cadeira de rodas e olhava para as bétulas.
— Valentina Petrovna, alguém veio visitá-la.
Ela não se virou.
— Tia Valya.
— Sou eu.
A cadeira virou lentamente.
Oitenta e quatro anos.
As mãos repousavam sobre os joelhos.
As unhas estavam roídas.
Os cabelos, cortados curtos e tortos, mostrando claramente que não haviam sido cortados por um cabeleireiro.
Os olhos olhavam, mas não compreendiam.
Então seu olhar percorreu o rosto de Nina, prendeu-se à bochecha esquerda e parou.
— Ninka — disse Valentina Petrovna.
— O que você veio fazer?
— Veio ajustar alguma coisa?
— Vim buscar a senhora.
— Para onde?
— Para casa.
A senhora ficou muito tempo em silêncio.
Depois, voltou-se para a janela.
— Eu não tenho casa, Ninka.
— Eu mesma a entreguei.
— Fui ao cartório e assinei.
— Eu tenho uma — disse Nina.
— Primeiro andar, rampa, cozinha de doze metros quadrados, janelas para o pátio.
— Passei dezesseis anos cuidando da minha mãe lá.
— Eu sei como fazer.
— Não precisa cuidar de mim.
— Então não vou levá-la — disse Nina.
— Vou contratá-la.
— Tenho vinte e duas costureiras, e metade delas não sabe costurar uma manga sem me fazer gritar.
Foi então que Valentina Petrovna começou a chorar.
Chorou de maneira desajeitada, enrugando o rosto e enxugando-o com o dorso da mão.
Nina se agachou ao lado da cadeira e simplesmente segurou sua mão.
No criado-mudo ao lado da cama havia óculos, um pente quebrado e um dedal gasto.
O outro, do par.
Nina guardava o seu havia quatorze anos em uma nécessaire.
A conversa com Inna Vitalievna foi curta e aconteceu por telefone.
— Quem é você?
— Uma vizinha.
— Ah, por favor.
— Vizinha.
— Você sabe quanto custa mantê-la?
— Cinquenta e oito mil por mês!
— Nós não somos monstros.
— Nós a colocamos em uma boa instituição.
— Lá há médicos e procedimentos, não é como uma instituição pública onde as pessoas ficam deitadas nos corredores.
— A aposentadoria dela é de cerca de trinta mil.
— E vocês alugam o apartamento por cerca de sessenta mil.
— Eu vi os anúncios.
Silêncio.
— Isso não é da sua conta.
— E, além disso, ela concordou!
— Ela assinou na minha presença!
— Então ela mesma pode rescindir.
— Ela foi declarada incapaz?
— O quê?
— Valentina Petrovna é plenamente capaz — repetiu Nina.
— Ninguém a declarou incapaz.
— Portanto, ela decide onde quer morar.
— E onde quer estar registrada.
— Você é advogada?
— Não.
— Sou costureira.
— Mas tenho um advogado, e ele recebe para isso.
— Então leve-a! — explodiu Inna.
— Leve-a, mas não me ligue depois quando se cansar dela!
— E saiba que não há nada para dividir.
— Está tudo registrado!
— Eu imaginei.
O advogado, aliás, disse que era possível lutar judicialmente.
Valentina Petrovna tinha direito de uso.
Tinha registro no apartamento.
E a reintegração por meio judicial era possível.
Levaria cerca de oito a dez meses, com perícia e algumas audiências.
— Eu não vou processar ninguém — disse Valentina Petrovna.
— Lá está meu neto.
— Ele tem vinte e dois anos.
— No meu aniversário, mandou um cartão eletrônico.
— O que eu vou fazer, lutar contra ele?
— Ele não visitou a senhora durante seis meses.
— Ele estuda em São Petersburgo.
Ela ficou em silêncio.
— Não vou fazer isso, Nina.
— Não insista.
O contrato foi rescindido em uma semana.
Elas saíram na quarta-feira, sob chuva.
Valentina Petrovna ficou sentada no carro, agarrada à bolsa, em silêncio durante todo o caminho.
Mas, ao entrarem em Moscou, de repente disse:
— Seu cinto de segurança está rangendo.
— Precisa lubrificar.
— Com certeza.
— Vou fazer isso primeiro.
Depois começou aquilo que Nina sabia fazer melhor do que qualquer coisa no mundo.
Médico geriatra.
Fisioterapeuta duas vezes por semana.
Andador, que Valentina Petrovna chamou de “construção” e se recusou a tocar durante a primeira semana.
Vitamina D.
Ferro.
Comida adequada.
E uma rotina, porque uma pessoa idosa precisa de rotina tanto quanto uma criança pequena.
Um mês depois, ela se levantou.
Dois meses depois, caminhou da cama até a cozinha, apoiando-se na parede.
Sentou-se em um banquinho e recuperou o fôlego.
— E então? — perguntou Nina.
— E então o quê?
— A cozinha está boa.
— Mas as cortinas estão tortas.
— Não pode ser.
— Pode.
— Você fez a barra a olho.
— Eu estou vendo.
— Esqueceu tudo o que eu lhe ensinei?
— Esqueci — respondeu Nina.
— Então vou ter que aprender tudo de novo.
Em setembro, Valentina Petrovna foi pela primeira vez à oficina.
Levaram-na em uma cadeira de rodas e a colocaram perto da mesa de corte.
As vinte e duas costureiras olharam para a pequena senhora com curiosidade, mas sem entusiasmo.
Quarenta minutos depois, o entusiasmo apareceu.
— Onde você está colocando o molde?
— Coloque-o no sentido do fio!
— Olhe para o tecido.
— Ele vai deformar depois de duas lavagens e a cliente vai voltar, e com razão!
— E quem fez essa costura?
— Confessem!
— Não vou brigar.
— Vou chorar!
— Valentina Petrovna — disse cautelosamente a chefe da equipe, Lyuda, de quarenta e oito anos e vinte anos de experiência.
— Mostre como você encaixa a manga.
— Eu faço isso há vinte anos e sofro há vinte anos.
— Dê aqui.
— Olhe.
— E não respire no meu ouvido.
A partir daquele dia, ela passou a ir todos os dias.
Na primavera, já caminhava com uma bengala e subia as escadas sozinha, reclamando de toda a humanidade por não ter pensado em instalar corrimãos decentes.
E, em fevereiro, Kristina apareceu.
Dezoito anos.
Um gorro quase cobrindo os olhos.
Uma jaqueta inadequada para o clima.
Ela havia respondido ao anúncio:
“Procura-se aprendiz de cortadora.”
“Experiência não é necessária.”
“Oferecemos treinamento.”
Sentou-se em uma cadeira na recepção e manteve as mãos escondidas nas mangas o tempo todo.
— Faculdade de costura, segundo ano — leu Nina no formulário.
— Muito bem.
— Experiência profissional?
— Não tenho.
Ela fez uma pausa.
— Quer dizer, tive.
— Fui a três lugares.
— E?
A garota ficou em silêncio.
Depois tirou as mãos das mangas e as colocou sobre a mesa.
Da região dos pulsos até os dedos, a pele estava coberta de manchas brancas e irregulares.
As mesmas manchas subiam pelo pescoço e avançavam atrás da orelha.
— Vitiligo — disse Kristina.
— Não é contagioso.
— Estou dizendo logo para que depois não perguntem.
— Em dois lugares disseram que ligariam de volta.
— E no terceiro, a administradora disse diretamente: “Temos clientes nas provas, você entende.”
— E perguntou se eu não poderia trabalhar usando luvas.
Nina olhou para as mãos dela.
Depois, olhou para sua própria bochecha esquerda refletida na porta do armário.
Abriu a boca para responder.
Não teve tempo.
A porta se abriu de repente.
Valentina Petrovna entrou com a bengala, os óculos e uma fita métrica pendurada no pescoço.
— Nina, onde você deixou a entretela?
— Eu procurei em toda a prateleira…
Ela parou.
Olhou para a mesa.
Olhou para as mãos da garota.
Aproximou-se.
Pegou aquelas mãos entre as suas, secas e marcadas por pequenas picadas de agulha.
Virou-as com as palmas para cima.
— Ora, vejam só.
— Ora, vejam só que mãos!
— Já viu que dedos longos?
— Você, menina, precisa trabalhar com renda.
— E com acabamento.
— Aqui é preciso ter paciência e dedos.
— E dedos ou você tem, ou não tem.
Kristina ficou sentada, vermelha, sem respirar.
— Escute bem — disse Valentina Petrovna, sentando-se à frente dela com um gemido.
— Vou dizer uma vez, e você vai guardar isso.
— As pessoas olham para o rosto de alguém durante três segundos.
— Cinco, se forem muito curiosas.
— Mas depois olham para o seu trabalho durante a vida inteira.
— Entendeu?
— E-entendi.
— Não entendeu nada ainda.
— Mas vai entender.
Ela se virou para Nina.
— Vamos ficar com ela?
— Vamos.
— Então eu mesma vou ensiná-la.
— E não discuta.
— Você tem uma oficina.
— Você tem essas… negociações.
— Eu sou velha.
— Não tenho para onde correr.
Dois anos depois, Kristina tornou-se cortadora.
Um ano e meio depois, trouxe para a oficina uma garota chamada Alisa, de dezenove anos.
Ela gaguejava tanto que tinha medo de atender ao telefone até às lágrimas.
E ninguém a contratava porque diziam:
“E como ela vai lidar com os clientes?”
— Nina Nikoláievna — disse Kristina.
— Olhe para as mãos dela.
— Só olhe para as mãos.
Nina olhou para as mãos.
Depois, olhou para Kristina.
— Você entende de quem são essas palavras?
— Entendo.
— Valentina Petrovna mandou continuar passando a mensagem.
— E eu estou passando.
Naquele momento, Valentina Petrovna estava sentada no canto da oficina, desfazendo a manga mal encaixada de alguém.
Sem levantar a cabeça, ela disse:
— Alisa, então?
— Venha aqui, Alisa.
— Mostre as mãos.







