“Minha mãe e eu vamos viajar de férias, mas você não ganhou dinheiro”, disse o marido e foi embora para o litoral, e quando voltou, uma surpresa o aguardava…

Uma chuva cinzenta, fina e insistente tamborilava no parapeito da janela havia três dias seguidos, mas o apartamento estava aconchegante e cheirava a torta de maçã – agridoce, doce e perfumada, um aroma que sempre fazia Natasha pensar em lar.

Natasha escolhia cuidadosamente as maçãs – doces e azedinhas, para que a torta ficasse exatamente como Sergei gostava.

Ela acrescentou canela e um pouco de baunilha, e agora toda a casa estava tomada por aquele aroma acolhedor.

Sergei prometera chegar para o almoço, dizia que sentia saudades dela, que queria vê-la e que eles teriam um dia de folga para passarem juntos.

Ela ajeitou a toalha sobre a mesa, colocou dois pratos e arrumou os talheres.

Finalmente, ouviu a chave girar na fechadura.

Seu coração deu uma pontada estranha e, depois de enxugar as mãos no avental, ela correu para a porta, ajeitando os cabelos pelo caminho e sorrindo.

Sergei entrou no hall, e junto com ele invadiu a casa um ar frio, carregado de umidade e do cheiro de folhas molhadas.

Ele estava carrancudo.

Natasha percebeu imediatamente – suas sobrancelhas estavam franzidas, os lábios firmemente cerrados e o olhar passava por ela sem se deter.

Ele não a beijou, não sorriu e nem sequer disse “olá”.

Apenas entrou na sala, jogou a jaqueta molhada sobre o encosto de uma cadeira, sem se importar com a água escorrendo sobre o estofado, e se deixou cair pesadamente na poltrona.

Natasha ficou imóvel na porta da sala.

Ela sentia o frio que emanava do marido – não um frio físico, mas interior.

– Você está com fome? – perguntou timidamente.

– Fiz uma torta.

– A sua favorita, de maçã com canela.

Ela se sentou no braço da poltrona, colocou a mão sobre o ombro dele e tentou olhar em seus olhos, procurando ali pelo menos uma pequena faísca de calor.

Mas Sergei se afastou, quase imperceptivelmente, mas o suficiente para que a mão dela escorregasse de seu ombro.

– Não quero – resmungou ele, virando-se para a janela, onde a chuva desenhava seus padrões no vidro.

– Aconteceu alguma coisa? – perguntou Natasha.

– Serioja, você está estranho, não parece você…

Ele ficou em silêncio.

A chuva do lado de fora aumentou e voltou a tamborilar nas vidraças com força renovada.

– Minha mãe e eu vamos viajar de férias – disse Sergei finalmente, virando-se para ela.

– Sem você.

Natasha ficou paralisada.

Teve a impressão de ter ouvido errado.

Piscou várias vezes, tentando compreender o que acabara de ouvir.

As palavras penetravam lentamente em sua consciência, acomodando-se nela como pedras pesadas, cada uma puxando-a para o fundo.

Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não conseguiu emitir som algum.

– O que quer dizer com “sem mim”? – perguntou novamente.

– Mas nós… planejamos tudo juntos.

– Escolhemos o hotel, vimos as passagens.

– Serioja, você está brincando?

– Você não ganhou dinheiro – respondeu ele, frio e impiedoso.

– Você está em casa há três anos.

– Eu trabalho como um condenado, trabalho da manhã à noite, carrego tudo nas costas, enquanto você nem consegue decidir com o que quer trabalhar.

– Você simplesmente existe.

– Você não evolui, não quer mudar nada.

Ele se levantou da poltrona, e Natasha perdeu o apoio.

Ela segurou automaticamente a borda da poltrona para manter o equilíbrio, mas sua cabeça já girava por causa das palavras dele.

– Estou cansado – continuou Sergei, em voz mais alta.

– Estou cansado de sustentar você.

– Não tenho mais forças para carregar nas costas uma pessoa adulta que nem sequer consegue encontrar algo para fazer.

– Vamos viajar de férias – eu e minha mãe.

– Ela merece.

– Ela trabalhou a vida inteira, está aposentada e tem direito ao descanso.

– Mas você… você fica.

– Resolva sua vida.

– Arrume um emprego enquanto estivermos fora.

– E não ouse me ligar para reclamar.

Natasha sentiu um nó subir pela garganta.

Cerrou os dentes e cravou as unhas com força na palma da mão, tentando conter as lágrimas e impedir que elas transbordassem.

– Mas nós tínhamos planos – sussurrou ela, olhando para as costas dele.

– Você mesmo dizia que merecíamos descansar.

– Você dizia que iríamos viajar de férias… juntos…

– Isso foi antes – interrompeu ele.

– Mudei de ideia.

– E não comece uma crise de histeria agora.

– Você está se permitindo demais, Natasha.

– Você acha que tem direito a tudo o que quer, mas não tem direito a nada.

– Você não fez nada de bom.

– Você simplesmente segue a correnteza, enquanto alguém precisa remar por você.

A porta do quarto se fechou atrás dele, e Natasha ficou sozinha na sala.

O mundo ao seu redor parecia ter deixado de existir – as paredes desapareceram, os móveis desapareceram, o cheiro da torta de maçã desapareceu.

Restaram apenas o som da chuva do lado de fora e a dor pulsante em seu peito.

Ela puxou os joelhos contra o peito e ficou olhando fixamente para um ponto na parede – onde estava pendurada uma foto dos dois em uma moldura.

Na foto, eles riam abraçados, Sergei a segurava pela cintura, e ela se encostava ao ombro dele, e parecia que o mundo inteiro estava aos pés deles.

As lágrimas escorriam por suas bochechas, mas ela não as percebia.

Ela olhava para aquela fotografia e via duas pessoas completamente desconhecidas.

Aqueles dois, felizes e despreocupados, que acreditavam no futuro, não tinham nada em comum com ela, que agora estava sentada em um quarto vazio, com o coração despedaçado.

Fragmentos de lembranças passavam diante de seus olhos.

O dia em que se conheceram em uma festa – ela ria das piadas dele, e ele olhava para ela como se fosse a única pessoa naquela sala.

O primeiro encontro dos dois em um pequeno café à beira do calçadão – ele lhe trouxe um buquê de rosas brancas, e ela pensou naquele momento que era a coisa mais bonita que já lhe havia acontecido.

O pedido de casamento – à noite, no mesmo calçadão, ao pôr do sol, ele se ajoelhou diante dela, e ela chorou de felicidade.

O casamento – simples, acolhedor, com amigos próximos e familiares, e a dança durante a qual ela girava de olhos fechados, sentindo-se a mulher mais feliz do mundo.

Eles sonhavam com filhos – escolhiam nomes e discutiam sobre quem teria a palavra final.

Ele dizia que ela era sua inspiração, seu apoio, sua musa.

Prometia estar sempre ao lado dela.

E agora a chamava de um fardo.

Dizia que ela não merecia nada.

Os dois dias seguintes passaram para Natasha como se estivesse vivendo em um nevoeiro.

Ela se levantava cedo, preparava o café da manhã, mas Sergei quase não tocava na comida.

Sentava-se à mesa com uma xícara de café preto, olhava alguma coisa no celular, e às vezes um sorriso estranho, quase imperceptível, surgia em seus lábios.

Natasha percebia, mas não dizia uma palavra.

Apenas ficava diante do fogão, mexendo o mingau ou fritando ovos, e sentia algo dentro dela morrer lentamente.

Sergei quase não falava com ela.

Estava ocupado com assuntos urgentes antes da viagem – passava horas ao telefone com os colegas, discutia alguma coisa, brigava e tomava decisões.

Sua voz vinha do outro cômodo – confiante, profissional, pertencente a um homem que sabia o que queria.

Natasha sentava-se na cozinha, bebia chá e pensava que aquela voz um dia havia sussurrado palavras carinhosas em seu ouvido e prometido eternidade.

Quando Sergei, ao passar por ela, disse a alguém ao telefone que as passagens já estavam compradas, ele hesitou por um instante e depois desviou rapidamente o olhar, fixando-o na parede.

Natasha percebeu.

Ela não era tola.

Sentia a mentira na própria pele, sentia que havia algo errado, mas não conseguia entender exatamente o quê.

Perguntou a si mesma: Por que ele hesitou?

Por que não olha nos meus olhos?

E imediatamente afastou esse pensamento, decidindo que estava apenas se preocupando demais e imaginando coisas.

Mas a inquietação permaneceu.

Ela se instalou dentro dela como uma pequena bola cheia de espinhos que crescia a cada hora.

No dia da partida, Sergei levantou-se cedo.

Natasha já estava na cozinha preparando o café da manhã – ovos mexidos com tomates, como ele gostava, e café recém-passado.

Ela colocou o prato diante dele, mas ele quase não tocou na comida, apenas tomou um gole de café e afastou a xícara.

– Faça uma grande faxina na casa enquanto estivermos fora.

– Está bem – respondeu Natasha com voz calma, embora por dentro tudo estivesse fervendo, borbulhando e virando de cabeça para baixo.

Ela ficou parada na porta da cozinha, observando-o abotoar a jaqueta, ajeitar a gola e pegar as chaves.

Ele parecia concentrado, confiante e feliz.

Tinha quase uma aparência festiva, e isso lhe causava dor.

Ela queria perguntar: Como você consegue?

Como pode estar tão tranquilo quando está me deixando aqui?

Mas as palavras não saíam.

Ficavam presas em algum lugar de sua garganta.

Ele se inclinou, beijou-a na bochecha – friamente e sem jeito – e saiu pela porta.

Natasha foi para a sala, sentou-se no sofá e, naquele momento, percebeu o canto vermelho de um passaporte aparecendo por baixo da mesa de centro.

Sergei havia esquecido o passaporte.

Provavelmente o deixara cair sem perceber.

Natasha pegou-o, girou-o nas mãos, pensando no que fazer.

Ela poderia ligar e dizer para ele voltar.

Mas algo a deteve.

Uma espécie de sentimento interior, uma intuição que lhe sussurrava que havia algo importante ali, algo que ela precisava ver.

Ela se obrigou a abrir o passaporte, folheou as páginas e percebeu passagens colocadas dentro dele.

Dois nomes.

Sergei Viktorovich e… Olga Vasilieva.

Natasha releu o nome várias vezes, tentando entender se não havia se enganado, se não estava vendo coisas em meio a um delírio febril.

Mas o nome estava claro, nítido, impresso em letras grandes.

Olga Vasilieva.

Ela conhecia aquela Olga.

Uma jovem colega de trabalho do marido, loira, de pernas longas e aparência marcante.

O sangue sumiu do rosto de Natasha.

Seus ouvidos zumbiam.

Ela ouvia a voz do marido dizendo: “Minha mãe e eu vamos viajar de férias…”

Ele havia mentido para ela.

Havia mentido durante todos aqueles dias.

Olhava-a nos olhos e falava sobre a mãe, sobre como ela merecia descansar, sobre como Natasha precisava encontrar um emprego.

E durante todo aquele tempo estava planejando uma viagem com outra mulher.

Ele estava parado no hall, beijando-a na bochecha e pensando em como logo veria Olga.

E ela, tola, estava ali acreditando nele.

Acreditava que conseguiriam consertar tudo, que aquilo era apenas uma crise que passaria.

Parecia-lhe que estava caindo em um abismo – lentamente, por uma eternidade, sem fundo, sem apoio, sem nada que pudesse interromper a queda.

A chuva do lado de fora de repente pareceu zombar dela – chorava por ela enquanto ela mesma não conseguia derramar uma única lágrima.

Quando Sergei voltou para buscar o passaporte esquecido, Natasha fingiu que não sabia de nada.

E quando ele foi embora novamente, ela ligou para a sogra, com quem raramente falava.

– Alô? – ouviu-se a voz familiar, um pouco sonolenta, de Galina Petrovna.

– Natachenka?

– Por que você está ligando?

– Aconteceu alguma coisa?

– Galina Petrovna, a senhora está em casa?

– Posso ir até aí?

– Preciso conversar com a senhora.

– Claro, querida, venha – a voz de Galina Petrovna ficou preocupada.

– Aconteceu alguma coisa?

– Contarei tudo quando chegar – disse Natasha e desligou, sem dar a si mesma tempo para mudar de ideia.

Ela se vestiu rapidamente, colocou uma capa de chuva e saiu.

A chuva havia parado, mas o céu estava baixo e pesado, como se pressionasse a terra com todo o seu peso, não permitindo que nenhum raio de luz passasse.

Nuvens cinzentas pairavam sobre sua cabeça, escondendo tudo o que poderia lhe dar esperança.

No ônibus, Natasha sentou-se junto à janela, mas quase não olhava para a estrada – seus pensamentos estavam longe, no passado, naqueles dias em que era feliz.

Ela se lembrava de sua vida com Sergei.

De como haviam se conhecido cinco anos antes, em uma festa.

Naquela época, ela estava junto à janela com um copo na mão, e ele se aproximou, sorriu, disse algo engraçado, e ela riu.

De como ele olhava para ela naquela época – como se ela fosse algo incrível, um tesouro que ele não poderia perder.

De como sorria e a fazia rir de suas piadas bobas.

De como dizia que ela era a melhor coisa que já havia acontecido com ele.

De como a convenceu a deixar o emprego, prometendo que ela não precisaria se preocupar com dinheiro.

– Eu cuidarei de tudo – dizia ele.

– Você cuidará da casa, tornará nossa vida mais bonita, e eu ganharei dinheiro.

– Tudo ficará bem para nós, você vai ver.

Ela acreditou nele.

Pediu demissão porque ele lhe prometera uma vida melhor.

Ela cuidava da casa, cozinhava, limpava e criava um ambiente acolhedor onde ele pudesse descansar depois de um dia difícil.

Ela era seu apoio, seu porto seguro, sua inspiração.

Ou pelo menos era isso que pensava.

Agora entendia que ele queria que ela fosse uma bela decoração em sua vida – conveniente, dócil e sem exigir atenção.

Mas quando a decoração deixou de agradá-lo, ele simplesmente decidiu substituí-la.

Galina Petrovna esperava a nora à porta.

Era uma mulher alta e imponente, com cabelos grisalhos presos em um coque bem-arrumado e olhos bondosos, que agora estavam cheios de preocupação.

Ela sempre tratara Natasha com carinho, quase como uma mãe, e agora, ao ver o rosto pálido e abatido da nora, ficou ainda mais preocupada.

– Entre, querida – disse ela, pegando Natasha pela mão, levando-a até a sala e fazendo-a sentar-se no sofá.

– Você está com frio, suas mãos estão geladas.

– Vou preparar um chá para você se aquecer.

– Conte o que aconteceu.

– Sergei fez alguma coisa?

Natasha sentou-se na poltrona, entrelaçou os dedos e começou a contar tudo exatamente como havia acontecido.

Como o marido dissera que viajaria de férias sem ela.

Como a acusara de preguiça e de não querer trabalhar.

Como fora embora.

E como ela encontrara a passagem no nome de sua colega.

Galina Petrovna ouviu em silêncio, com o rosto impassível.

Apenas os dedos pousados sobre seu colo tremiam levemente, e uma ruga profunda apareceu em sua testa.

Quando Natasha terminou de falar, a sogra pegou sua mão e apertou-a com força.

– Não chore, querida, não chore.

– Vamos pensar em alguma coisa.

– O que há para pensar? – a voz de Natasha tremeu, e as lágrimas que ela havia segurado por tanto tempo finalmente transbordaram.

– Ele foi embora com outra.

– Fiquei sozinha.

– Não tenho emprego, não tenho dinheiro, nem sei o que fazer agora.

– Dediquei toda a minha vida a esse casamento, a essa casa.

– Eu acreditava nele.

– Eu o amava.

– Eu sei, querida, eu sei – Galina Petrovna acariciou sua mão.

– Você não tem culpa.

– Foi ele quem destruiu tudo, não você.

– E sabe de uma coisa?

– O apartamento onde vocês moram está registrado em meu nome, ele é meu.

– Agora meu filhinho, acostumado a ter tudo pronto, terá que cuidar da própria vida.

Natasha ergueu para a sogra um olhar surpreso e cheio de lágrimas.

– Do que a senhora está falando?

– Eu comprei este apartamento para o meu filho – interrompeu Galina Petrovna, corrigindo-se imediatamente.

– Para a família do meu filho.

– Para que ele morasse com a esposa, construísse um lar e criasse os filhos.

– Mas ele decidiu que poderia destruir o destino de outras pessoas por causa de seus caprichos.

– Eu o criei e dei a ele tudo o que podia.

– Mas se ele é assim… se é capaz de tratar dessa maneira uma mulher que o amava, que cuidava dele e que lhe dedicou os melhores anos de sua vida, então ele não merece o que fiz por ele.

– Vou recuperar o apartamento.

– E você, se quiser, pode ficar comigo.

– Você vai se recuperar, começará uma nova vida, e enquanto isso alugaremos o apartamento; depois veremos.

– Mas não, Sergei é seu filho – sussurrou Natasha.

– Eu não posso.

– Você pode – disse Galina Petrovna com firmeza.

– Você vai conseguir.

– Você é forte, eu sei disso.

– Você apenas se esqueceu disso, porque ele a convenceu de que você não valia nada.

– Mas ele estava errado.

– Você vale muito.

– E ainda vai provar isso a ele.

Natasha começou a chorar.

Galina Petrovna a abraçou, acariciando sua cabeça como se ela fosse uma criança pequena, e sussurrou palavras de consolo.

– Tudo vai ficar bem.

– Nós vamos conseguir.

– Você não está sozinha, está me ouvindo?

– Eu vou ajudá-la a se reerguer.

– Vamos encontrar um emprego para você e começar uma nova vida.

– E ele… ele ainda vai se arrepender.

– Ele vai entender o que perdeu, mas então será tarde demais.

– Pronto, pronto, não chore.

Natasha encostou-se ao ombro da sogra e chorou toda a dor, toda a mágoa e toda a decepção que havia acumulado durante aqueles longos meses.

Sentia que algo dentro dela estava se quebrando, mas, ao mesmo tempo, nascia uma força que antes não existia.

Natasha não tinha para onde ir, então mudou-se para a casa de Galina Petrovna.

Ela não sabia quando Sergei voltaria.

Ele ligou apenas uma vez, disse que estava tudo ótimo, que o mar estava quente, que o tempo estava maravilhoso, e desligou sem sequer perguntar como ela estava.

Natasha ouviu aquela conversa e sentiu a raiva ferver dentro dela.

Ele havia viajado com outra, estava aproveitando a vida enquanto ela permanecia ali, tentando juntar os próprios pedaços.

Mas ela não permitiu que a raiva tomasse conta.

Obrigou-se a pensar no futuro.

No fato de que poderia construir uma nova vida.

No fato de que nunca mais permitiria que alguém lhe dissesse o que ela merecia ou não.

Enquanto Sergei estava de férias, Natasha encontrou um emprego.

Uma pequena imobiliária precisava de uma gerente, e ela decidiu tentar.

A sogra a apoiava, ajudava com conselhos e palavras de incentivo e, às vezes, simplesmente sentava-se ao seu lado e acariciava seu ombro quando Natasha sentia que não conseguiria.

Sergei ainda não sabia o que o esperava quando voltasse.

E, pela primeira vez em muito tempo, Natasha não sentia medo.

Sentia tranquilidade.

Uma nova vida estava diante dela.

Ela não sabia como seria, mas estava pronta para recebê-la de coração aberto.

Sergei voltou duas semanas depois.

Bronzeado e feliz, estava diante da porta de seu apartamento com uma mala na mão.

A chave não girava.

Ele franziu a testa e verificou – era a mesma chave que sempre tivera.

Mas a fechadura era diferente.

Nova.

Tentou novamente – sem sucesso.

Tocou a campainha.

Silêncio.

Ligou para a esposa, mas ela não atendeu.

Ligou para a mãe.

– Mãe, há alguma coisa errada com a fechadura…

– Sergei, este apartamento não tem mais nada a ver com você – disse a mãe secamente.

– Suas coisas estão comigo, você pode buscá-las quando quiser.

– O quê? – ele ficou atônito.

– Mãe, você enlouqueceu?!

– Este apartamento é meu!

– Eu morava lá, pagava as contas e fiz a reforma!

– Não – cortou ela.

– É meu.

– Você só morava lá porque eu permiti.

– E agora decidi que você não merece isso, se é capaz de tratar sua esposa dessa maneira.

– Você está falando sério?

– Por causa de uma simples discussão…

– Não houve discussão nenhuma – interrompeu Galina Petrovna, e sua voz ficou mais dura.

– Você viajou de férias com outra mulher.

– E nem pense em mentir para mim, eu sei de tudo.

– Você achou que tudo ficaria por isso mesmo?

– Você a traiu, Sergei.

– Você deixou sua esposa sozinha, humilhou-a, insultou-a e a acusou de coisas pelas quais ela não tinha culpa.

– E agora acha que pode simplesmente voltar e continuar vivendo como se nada tivesse acontecido?

Sergei ficou em silêncio.

– Meu filho – a voz de Galina Petrovna tornou-se subitamente mais suave.

– Eu amava você.

– Sempre estive do seu lado.

– Eu perdoava seus erros, sua grosseria e sua ingratidão.

– Mas o que você fez apagou tudo.

– Você traiu uma pessoa que o amava de todo o coração.

– E por isso é preciso pagar.

Sergei estava no corredor do prédio, apertando o telefone na mão.

Estava furioso, confuso e não entendia como tudo poderia ter desmoronado tão rapidamente.

Pensava que voltaria, que sua esposa estaria esperando por ele e que tudo poderia ser consertado com algumas palavras bonitas e flores.

Pensava que sua mãe sempre estaria do seu lado.

Pensava que sua vida era seu próprio castelo, que ninguém poderia destruir.

Atrás dele estava a mala, e à sua frente, uma porta fechada com uma fechadura nova.

Ele ficou ali olhando para aquela porta, sentindo o mundo que havia construído ao longo de anos desmoronar em um único instante.

E não sabia como reconstruí-lo.

Enquanto isso, Natasha estava sentada na cozinha da sogra, bebendo chá de hortelã e olhando pela janela.

A chuva havia passado, e pequenas aberturas surgiam no céu cinzento – o sol atravessava as nuvens, iluminando o asfalto molhado e as gotas nas vidraças.

O vento havia diminuído, e o mundo ficara silencioso e tranquilo, como se a própria natureza também tivesse atravessado a tempestade e agora estivesse se recuperando.

– Tudo ficou para trás – disse Galina Petrovna, sentando-se à sua frente.

Natasha assentiu, mas ainda sentia um vazio no peito.

Sentia alívio, mas junto dele havia a amargura da perda.

Ela havia perdido o marido.

Mas havia encontrado uma força que nem sabia possuir.

Havia encontrado o apoio de uma pessoa de quem jamais esperara tal atitude.

Havia encontrado a si mesma.

Ela não sabia o que aconteceria depois.

Mas sabia que nunca mais permitiria que alguém a tratasse como se ela não significasse nada.

Nunca mais permitiria que alguém decidisse por ela o que ela merecia ou não.

– Tudo passa – sussurrou, repetindo as palavras que sua avó costumava dizer.

– E isso também vai passar.

Ela pegou a xícara, tomou um gole do chá quente de ervas e sentiu o calor se espalhar por dentro.

E Natasha sorriu.

Quase imperceptivelmente, mas sorriu.

Porque ela tinha um futuro.

Porque merecia mais do que imaginava.

Ela merecia ser feliz.

E estava decidida a encontrar a felicidade.

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