A vaga de estacionamento embaixo da janela estava vazia pelo terceiro dia.
Galina olhava para lá todas as manhãs enquanto a chaleira começava a ferver.

Não porque estivesse esperando.
Era apenas um hábito que, em onze anos, tinha se impregnado no corpo, como o cheiro de borsch no papel de parede da cozinha.
Oleg levou o Logan prateado no domingo.
Junto com os pneus de inverno, o molho de chaves do porta-luvas e sua almofada favorita para a lombar, que ele sempre colocava no banco do motorista.
A almofada era ortopédica, bege, com uma pequena mancha de café no canto.
Galina a comprara pessoalmente dois anos antes, em uma loja ortopédica na Komsomolskaya.
— Vou levar o carro — disse ele então, parado no corredor com duas bolsas esportivas.
— Leve.
— E depois não venha ligar dizendo que não tem como ir para a datcha.
— Não vou ligar.
Ele hesitou.
Esperava alguma coisa.
Talvez lágrimas.
Talvez gritos.
Mas ela segurava nas mãos uma caneca de chá de camomila e olhava para algum ponto na altura da clavícula dele.
Não para os olhos.
Ela tinha parado de olhar nos olhos dele ainda em fevereiro, quando encontrou no bolso da jaqueta dele um recibo do restaurante “Veranda” para duas pessoas.
Ela nunca tinha ido ao “Veranda”.
A história do casamento deles caberia em uma única folha de caderno, se fosse escrita com letra pequena.
Conheceram-se por meio de amigos em comum, ele trabalhava em uma oficina mecânica e ela na contabilidade de uma construtora.
O casamento foi modesto, no café “Beryozka”, para vinte e quatro pessoas.
Galina tinha vinte e sete anos na época, Oleg trinta.
Passaram a lua de mel na datcha da mãe dele, na região de Kaluga: mosquitos, churrasco e um rio atrás da cerca.
Os primeiros anos passaram de forma estável.
Não exatamente feliz, mas estável: sem grandes altos, sem quedas.
Oleg consertava carros, ela contava o dinheiro dos outros.
À noite, assistiam a séries.
Nos fins de semana, iam ao Auchan.
Não conseguiam ter filhos e, com o tempo, os dois pararam de falar sobre isso, como se deixa de notar uma rachadura no teto.
Galina começou a guardar dinheiro no terceiro ano de casamento.
Não por ganância.
E não porque planejasse ir embora.
Simplesmente, um dia, sua mãe disse ao telefone, de passagem, entre uma conversa sobre mudas e pressão arterial:
— Gal, você tem pelo menos alguma coisa sua?
— Como assim?
— No sentido literal.
— Uma reserva.
— Um colchão.
— Chame como quiser.
— Mãe, está tudo bem entre nós.
— Entre nós também estava tudo bem.
— Até seu pai ir embora.
A mãe falava com calma.
Como se fala de coisas há muito vividas e secas, como roupa no varal da varanda.
O pai foi embora quando Galina tinha quatorze anos.
Levou a garagem, o Moskvich e a caderneta de poupança.
A mãe ficou com duas filhas em um apartamento de dois cômodos em um prédio antigo de Khrushchev, com o teto vazando e a geladeira vazia.
Depois daquela conversa, Galina abriu uma conta separada no banco.
Não vinculou nenhum cartão a ela.
Instalou o aplicativo no telefone do trabalho, que Oleg nunca pegava nas mãos.
Guardava pouco.
Três mil por mês.
Às vezes cinco, se conseguisse ganhar um extra com os relatórios trimestrais.
Oleg trazia o salário em dinheiro vivo, e ela também recebia uma parte em mãos.
Ninguém verificava nada.
Ele, de modo geral, não se interessava por números, se eles não estivessem ligados a peças de carro.
Oito anos.
Contando os juros, juntaram-se quatrocentos e setenta mil.
Não era um milhão.
Mas para uma mulher que o marido havia deixado com um apartamento alugado e uma vaga vazia no estacionamento, era dinheiro que cheirava a liberdade.
E cheirava a isto: à possibilidade de não ligar para a sogra pedindo dinheiro emprestado até o salário.
À possibilidade de pagar tranquilamente dois meses de aluguel adiantado.
À possibilidade de comprar as botas de inverno que, pelo terceiro inverno seguido, ela mandava consertar.
Mas isso foi depois.
No começo, houve o domingo, Oleg no corredor com as bolsas e um silêncio que tilintava como uma panela vazia.
Ele foi embora para ficar com Zhanna.
Galina descobriu o nome por acaso, um mês depois da partida dele.
Tamara, uma ex-colega de Oleg, ligou para ela, uma mulher de voz grave e hábito de dizer tudo como era.
— Gal, você sabe pelo menos para quem ele fugiu?
— Para mim tanto faz.
— Zhanna Viktorovna.
— Do lava-rápido na Proletarskaya.
— Ela tem vinte e seis anos.
— Cílios alongados, lábios inflados.
— Clássico, Gal.
Galina ouvia e descascava batatas.
A faca deslizava pela casca em tiras longas e uniformes.
Ela contava as tiras.
Sete.
Oito.
Nove.
— Você está me ouvindo?
— Estou ouvindo, Tamar.
— E então?
— Estou descascando batatas.
Tamara ficou em silêncio por um instante e depois soltou uma risada seca.
— Você é dura como pedra, Galka.
Galina não era dura como pedra.
Simplesmente, em onze anos, imaginara aquele momento tantas vezes que, quando ele chegou, o corpo já sabia o que fazer.
Continuar.
Descascar batatas, lavar o chão, ir trabalhar, contar as notas fiscais dos outros, voltar para casa, colocar a chaleira no fogo.
Mas por dentro, atrás das costelas, algo se deslocou.
Como móveis depois de uma mudança de lugar: parece o mesmo quarto, mas você anda e esbarra nas quinas.
Na primeira semana sem Oleg, Galina dormiu mal.
Não de saudade.
Por causa do silêncio.
Durante onze anos, ele roncara ao lado dela, e aquilo era um som de fundo, como o zumbido da geladeira.
Agora, a geladeira zumbia sozinha.
Ela ligava o rádio na cozinha, baixinho, quase inaudível, e adormecia ao murmúrio da programação noturna.
Um homem de voz suave lia histórias.
Certa vez, ele leu algo sobre uma mulher que saiu de casa descalça e caminhou pela grama molhada até a floresta.
Galina adormeceu sem ouvir o fim.
De manhã, pensou: será que ela chegou à floresta ou não?
No trabalho, ninguém percebeu nada.
Galina sentava-se à sua mesa, ao lado do ficus e do calendário, e fazia o mesmo de sempre: distribuía valores pelas colunas, conferia documentos, bebia café solúvel de uma caneca branca com a inscrição “Melhor Contadora”.
A caneca fora presenteada em uma festa da empresa três anos antes.
A inscrição estava quase apagada.
Duas semanas depois, Oleg ligou.
— Gal, preciso dos documentos do carro.
— O certificado deve estar na gaveta.
— Em qual gaveta?
— Na cômoda, no quarto, a de baixo.
Ela abriu a gaveta.
Lá estavam um passaporte antigo, a garantia do ferro de passar, um saquinho com botões e o documento do carro.
— Encontrei.
— Vou passar para pegar.
— Pode passar.
— Não estarei em casa até as seis.
— Está bem.
Ele não disse “obrigado”.
Ela não esperava.
Oleg foi quando ela não estava.
Ela percebeu pelo cheiro.
No corredor, havia o cheiro da colônia dele.
A mesma que ela lhe dava todo Ano-Novo, porque ele nunca conseguia lembrar o nome.
“Donna Karan”, frasco preto, cem mililitros.
O cheiro permaneceu até a noite.
Galina abriu a janela do corredor e ficou ali até os dedos dos pés congelarem.
Novembro.
Os azulejos do chão estavam gelados.
Ele levou o documento do carro.
E ao lado, na mesma gaveta, estava um velho caderno onde Galina antigamente anotava receitas.
Oleg não tocou nele.
Ele não sabia que, entre as páginas da charlotte e do borsch, havia um papel com o login e a senha do aplicativo do banco.
Engraçado.
Se tivesse aberto aquele caderno, teria visto os quatrocentos e setenta mil que a esposa juntara por oito anos.
Mas para que Oleg precisaria de uma receita de charlotte?
Ele não gostava de maçãs.
A mãe chegou três semanas depois.
Sem avisar, como sempre.
Ligou da estação:
— Estou no trem, chego em quarenta minutos.
— Não precisa me encontrar, eu mesma caminho.
Zoya Pavlovna, sessenta e três anos, um metro e cinquenta e oito de altura, cabelo curto grisalho, que tingia de ruivo com henna.
As mãos eram pequenas, secas, com veias salientes.
Ela sempre carregava uma sacola com comida caseira, mesmo que fosse viajar apenas por duas horas.
— Aqui, pirozhki de repolho.
— E um pote de pepinos em conserva, o último.
Galina pegou a sacola.
Estava quente.
Os pirozhki estavam quentes, embrulhados em uma toalha.
— Mãe, por que você veio?
— Porque sim.
— Não tenho o direito de ver minha filha?
Ela entrou na cozinha e olhou ao redor.
Seu olhar se prendeu ao cabide vazio onde antes ficava a jaqueta de Oleg.
— Quando ele foi embora?
— Há três semanas.
— Para onde?
— Para uma mulher.
— Jovem?
— Vinte e seis anos.
Zoya Pavlovna assentiu.
Não se surpreendeu.
Sentou-se à mesa e alisou o guardanapo.
— Coloque a chaleira.
Galina colocou.
A água começou a chiar nos canos.
A mãe olhava pela janela para a vaga vazia do estacionamento.
— Ele levou o carro?
— Sim.
— E o dinheiro?
— Que dinheiro, mãe?
Zoya Pavlovna virou-se e olhou para a filha.
Seus olhos eram cinza-claros, com um anel amarelo ao redor da pupila.
Galina sempre tivera um pouco de medo daqueles olhos: eles viam através das paredes.
— Aquele mesmo, Gal.
— O que você vinha guardando.
— Como você sabe?
— Eu te dei à luz.
— E fui eu mesma que te aconselhei isso.
— Achou que eu tinha esquecido?
Galina sentou-se em frente a ela.
As mãos foram sozinhas para a beirada da toalha da mesa.
— Quatrocentos e setenta — disse ela baixinho.
— Mil?
— Sim.
Zoya Pavlovna ficou em silêncio por exatamente cinco segundos.
Depois tirou um pirozhok da sacola, partiu-o ao meio e empurrou uma metade para a filha.
— Coma.
— E conte o que vai fazer.
Mas Galina ainda não sabia o que fazer.
O dinheiro estava na conta e não se mexia.
Todas as noites, ela abria o aplicativo, olhava os números e fechava.
Como se verificasse: está no lugar?
Estava no lugar.
Enquanto isso, Oleg morava com Zhanna.
Galina sabia disso por Tamara, que sabia por Lyosha da oficina, que sabia pelo próprio Oleg.
A corrente funcionava sem falhas.
— Dizem que ele está fazendo reforma lá — informou Tamara pelo telefone.
— No apartamento dela.
— Na Proletarskaya, dois quartos.
— Trocou os radiadores, colocou azulejos no banheiro.
— Que coloque.
— Gal, ele está enfiando o dinheiro dele lá.
— Na prática, o dinheiro comum de vocês.
Galina não explicou que dinheiro “comum” eles já não tinham havia muito tempo.
O salário de Oleg ia para peças de carro, cerveja às sextas-feiras e gasolina.
Era ela quem pagava o apartamento.
A comida também.
As contas, claro.
Simplesmente se estabeleceu assim.
Não houve uma conversa séria, nem limites, nem acordo.
Estabeleceu-se em silêncio, como mofo no canto do banheiro: primeiro não se vê, depois não dá mais para limpar.
Em dezembro, Oleg ligou de novo.
— Gal, tenho uma pergunta.
— Estou ouvindo.
— Lá no seu trabalho… bem, você recebe bônus de inverno, não recebe?
— O trimestral?
— Para que você quer saber?
Ele hesitou.
Ela ouvia a respiração dele no telefone.
Pesada, pelo nariz.
Antes, ele respirava assim quando mentia.
— Preciso de dez mil.
— Devolvo em janeiro.
— Não.
— Como assim, “não”?
— Não vou dar.
Pausa.
Longa.
Depois ele riu.
Curto, como se tivesse tossido.
— Está bem.
— Entendi.
Ele desligou.
Galina colocou o telefone sobre a mesa e olhou para as próprias mãos.
Os dedos tremiam.
Pouco, quase imperceptivelmente, como acontece depois de se levantar depressa da mesa.
Ela os fechou em punhos, segurou assim, depois soltou.
Serviu água.
Bebeu.
Pela primeira vez em onze anos, ela disse “não” a ele e não se sentiu culpada.
Bem, quase não se sentiu.
O inverno se arrastava.
Sem o carro, ir ao trabalho ficou demorado: ônibus até o metrô, metrô até Proletarskaya, depois uns quinze minutos a pé passando pelo lava-rápido onde Zhanna trabalhava.
Galina acelerava o passo sempre naquele trecho, embora nunca tivesse visto nem Zhanna nem Oleg.
Mas as pernas aceleravam sozinhas, e ela só percebia depois, quando a respiração ficava irregular.
Em janeiro, ela adoeceu.
Um resfriado comum, febre de 37,4, nariz entupido, garganta arranhando.
Mas não havia ninguém para ir à farmácia.
Ninguém para colocar a chaleira no fogo.
Ela ficou deitada no sofá, coberta com duas mantas, e pensou: estranho, em onze anos Oleg nunca lhe trouxe chá na cama quando ela estava doente.
Nem uma vez.
E ela esperava.
Todas as vezes.
Ligou para a mãe.
— Mãe, estou doente.
— Febre?
— Baixa.
— Mas estou péssima.
— Tem limão?
— Não.
— Mel?
— Não.
— Então faça o seguinte.
— Peça entrega.
— Limões, mel, gengibre.
— E caldo de galinha.
— Mãe, entrega é cara.
— Galina.
— Você tem quatrocentos e setenta mil na conta.
— Peça o caldo.
Ela riu.
Pela primeira vez em dois meses, riu de verdade, tanto que tossiu e derramou água na manta.
Pediu caldo.
E limões.
E mel.
E também um pacote de biscoitos “Yubileynoye”, porque Oleg não os suportava, e ela gostava.
Em fevereiro, Tamara contou uma novidade.
— Ele saiu de lá.
— Da casa da Zhanna?
— Sim.
— Ela o expulsou.
— Ou ele saiu sozinho.
— As versões divergem.
Galina estava no fogão, mexendo arroz.
A espátula de madeira girava em círculos.
Um círculo, mais um círculo.
— E onde ele está agora?
— Na casa da mãe.
Na casa da sogra.
Zinaida Fyodorovna, uma mulher de ombros largos e hábito de examinar Galina dos pés à cabeça quando se encontravam.
Ela tinha um apartamento de um cômodo no térreo, com vista para as lixeiras.
Oleg crescera ali, e Galina sempre se perguntava como um homem tão grande cabia em uma cozinha tão pequena.
— Ele ligou para você? — perguntou Tamara.
— Não.
— Vai ligar.
— Talvez.
O arroz começou a queimar.
Galina baixou o fogo e acrescentou água.
Os grãos chiaram.
O vapor subiu ao teto e se depositou no vidro do exaustor em pequenas gotas.
Ele não ligou em fevereiro.
Ligou em março.
No dia oito, um sábado.
Galina estava limpando o apartamento: passava pano no espelho do corredor quando a tela do telefone se iluminou com o nome dele.
— Feliz dia — disse Oleg.
— Obrigada.
— Como você está?
— Normal.
— Escute… posso passar aí?
Ela segurava o pano na mão direita.
O pano estava molhado.
Pingava no chão.
As gotas caíam sobre o linóleo com um som baixo, e Galina as contava enquanto pensava.
— Para quê?
— Quero conversar.
— Sobre o quê?
— Gal, por que você está assim…
— Só conversar.
— Eu não sou um estranho.
Ela olhou para seu reflexo no espelho.
Trinta e oito anos.
Olheiras que nenhum creme conseguia apagar.
O cabelo preso com um elástico.
Um suéter cinza com bolinhas de tecido nos cotovelos.
— Não é um estranho — repetiu ela.
— Pois é.
— Não, Oleg.
— É exatamente um estranho.
Ela desligou.
Colocou o telefone na prateleira.
Terminou de lavar o espelho.
As mãos não tremiam.
Nem um pouco.
Mas ele veio mesmo assim.
Não naquele dia.
Uma semana depois.
Sem ligar.
Simplesmente tocou a campainha.
Galina abriu.
Ele estava parado na soleira, usando a mesma jaqueta de cujo bolso, um ano antes, caíra o recibo do “Veranda”.
Tinha emagrecido.
Sob os olhos, tinha olheiras escuras, como ela.
Duas pessoas com as mesmas marcas sob os olhos, em lados opostos do batente da porta.
— Posso entrar?
— Não.
— Gal…
— O que você quer?
Ele mudou o peso de um pé para o outro.
As botas estavam sujas, com marcas de sal da rua.
— Eu entendi tudo, Gal.
— Eu errei.
— Fiz besteira.
— Mas quero voltar.
Ela ficou em silêncio.
Olhava para as manchas brancas nas botas dele.
— Zhanna foi… uma confusão.
— O diabo me tentou.
— Estou mal sem você.
Ela ficou em silêncio.
— Morar com minha mãe é impossível.
— Ela me diz todos os dias que idiota eu sou.
— Ela tem razão.
— Pois é, você vê.
— Todo mundo diz isso.
— Então é verdade, sou um idiota.
— Me dá uma chance, vai?
Galina encostou-se no batente da porta.
O batente era frio, de madeira, com uma pequena lasca na altura do ombro dela.
Aquela lasca tinha sido deixada por Oleg quando ele arrastara o guarda-roupa.
Seis anos antes.
Ela dissera então: cuidado.
Ele não ouviu.
— Você levou o carro — disse ela.
— Bem… levei.
— Posso trazer de volta.
— Se você quiser.
— Não preciso do carro.
— Então do que você precisa?
Ela pensou.
Não por um segundo, nem por dois.
Por muito tempo.
Ele ficou parado esperando, e ela via como estava nervoso: os dedos puxavam o zíper da jaqueta, para lá e para cá, para lá e para cá.
— Preciso que você vá embora.
— Como assim?
— No sentido literal.
— Vá embora.
— Gal, estou falando sério.
— Eu também.
Ela fechou a porta.
Em silêncio, sem bater.
Girou a chave.
Duas voltas.
Encostou as costas na porta e ficou assim até ouvir os passos dele se afastarem pela escada.
Ele descia devagar.
Esperava que ela abrisse.
Ela não abriu.
À noite, ligou para a mãe.
— Mãe.
— Ele veio.
— E então?
— Pediu para voltar.
— E você?
— Recusei.
Silêncio.
Depois a mãe suspirou.
Não pesadamente, não de forma trágica.
Como se suspira quando algo finalmente se encaixa no lugar.
— Fez certo, Gal.
— Não sei.
— Sabe.
— Só ainda tem medo de saber.
Galina fechou os olhos.
Do lado de fora, um carro passou, e os faróis deslizaram pelo teto em uma faixa amarela.
Não era o Logan prateado.
Era outro.
— Mãe, quero fazer um curso.
— Que curso?
— De direção.
— Mas você tem carteira.
— Tenho.
— Mas faz cinco anos que não sento ao volante.
— Ele sempre dirigia.
— Então vá.
— E com que dinheiro?
— Com o meu.
Zoya Pavlovna soltou um riso curto.
Aquele mesmo som que Galina conhecia desde a infância: aprovação misturada com “eu avisei”.
— Então vá.
Em abril, Galina se inscreveu em aulas para recuperar a prática de direção.
Três aulas por semana, de uma hora e meia, em uma pista de treinamento na periferia da cidade.
O instrutor era um homem de uns cinquenta anos, com bigode e o hábito de dizer “então” antes de cada frase.
— Então, pé esquerdo na embreagem.
— Suavemente.
Ela pressionava a embreagem e sentia o carro de treino, um Granta, tremer sob ela.
Cheirava a borracha e ao perfume de outra aluna que estivera antes.
O volante estava quente e um pouco pegajoso.
— Então, curva.
— Vire a cabeça.
— Não o volante, a cabeça.
Depois da terceira aula, ela parou de confundir as marchas.
Depois da quinta, começou a sentir as dimensões do carro.
Depois da oitava, o instrutor disse:
— Então, na verdade, a senhora dirige bem.
— Por que veio?
— Esqueci.
— Esqueceu o quê?
— Que eu sabia.
Ele olhou para ela, mastigou o bigode e assentiu.
Não perguntou mais.
Galina não tocou no dinheiro da conta até maio.
Depois sacou oitenta mil.
A entrada para uma Kalina usada, ano 2021, branca, com cento e quatorze mil quilômetros rodados.
O restante combinaram em parcelas por seis meses.
O carro foi trazido ao pátio numa quinta-feira de manhã.
Galina ficou à janela com uma caneca de chá, olhando a Kalina branca ocupar o mesmo lugar onde, por onze anos, ficara o Logan prateado.
O carro era menor.
E não tão brilhante.
Mas era o carro dela.
Comprado com o dinheiro dela.
Aquele do qual Oleg não sabia.
Ela terminou o chá.
Vestiu a jaqueta.
Desceu ao pátio.
No interior, havia cheiro de aromatizador em forma de pinheiro e algo químico vindo dos tapetes novos.
O volante estava frio, mas confortável.
Os espelhos estavam ajustados para outra pessoa.
Ela os corrigiu.
Puxou o banco para a frente.
O motor pegou de primeira.
Baixo, regular.
Ela saiu do lugar.
Com cuidado, como tinham ensinado.
Seta para a esquerda, verificar o espelho, sair do pátio.
Escolheu a primeira rota por acaso.
Ou talvez não por acaso.
Foi até a casa da mãe, em Stupino.
Cento e vinte quilômetros.
Antes, ela e Oleg iam juntos, ele ao volante, ela ao lado, com o telefone nas mãos e as instruções do navegador.
Agora o navegador orientava ela.
Só ela.
Na estrada, o trânsito estava livre.
Manhã de maio, sol baixo, asfalto ainda úmido depois da chuva da noite.
Ela ligou o rádio.
A mesma voz noturna que lia histórias no inverno não trabalhava durante o dia.
Em vez dela, tocava algo animado e desconhecido.
Galina baixou o volume e ouviu o motor.
Ele funcionava de modo regular.
Como ela.
Zoya Pavlovna saiu até o portão quando ouviu o motor.
Estava usando seu eterno avental com girassóis e observava a filha estacionar junto à cerca.
Galina desligou o motor.
Saiu.
As mãos cheiravam a volante.
— Mãe.
— Estou vendo.
A mãe deu a volta no carro.
Tocou no capô.
Olhou para dentro.
Abriu o porta-malas e, por algum motivo, verificou-o.
— Branca — disse ela.
— Branca.
— Kalina?
— Kalina.
— Quanto?
— Trezentos e vinte.
— Dei oitenta de entrada, o resto em parcelas.
Zoya Pavlovna fechou o porta-malas.
Endireitou-se.
Olhou para a filha com aqueles mesmos olhos cinza-amarelados.
— Lembra que eu te liguei há oito anos?
— Sobre a reserva?
— Sobre a reserva.
Elas ficaram em silêncio.
Entre elas, a Kalina branca com cento e quatorze mil quilômetros, cheirando a aromatizador de pinheiro.
— Tem pirozhki? — perguntou Galina.
— O que você acha?
Entraram na casa.
A mãe na frente, Galina atrás.
Perto da varanda havia uma bacia com roupa de molho.
Toalhas secavam no varal.
Da cozinha vinha cheiro de repolho e de algo doce, talvez geleia.
Galina cruzou a soleira e pensou: eis o cheiro de casa.
Não do apartamento onde vivera onze anos com um homem que nunca lhe trouxera chá na cama.
Mas de casa.
Oleg ligou mais uma vez.
Em junho.
A voz dele estava diferente: opaca, como uma lâmpada prestes a queimar.
— Gal, Lyosha me disse que você comprou um carro.
— Sim.
— De onde veio o dinheiro?
Ela ficou em silêncio.
Ele esperava.
Ela ouvia a respiração dele ao telefone e pensava: antes, esse som era o mais familiar do mundo.
A respiração dele dormindo, os roncos, os suspiros.
Agora era o som de um estranho.
— Gal?
— De onde?
— Isso não é da sua conta, Oleg.
— Como não é da minha conta?
— Nós fomos casados.
— Fomos.
Ele se calou.
Ela o imaginou sentado na pequena cozinha da mãe, à mesa que ainda se lembrava da toalha de oleado soviética.
Imaginou-o apertando os olhos, tentando entender de onde ela tirara dinheiro.
Ele devia estar repassando opções na cabeça: parentes deram?
Ela fez empréstimo?
Um homem novo?
Nenhuma opção coincidia com a verdade.
A verdade estava no caderno de receitas, entre a charlotte e o borsch.
Mas ele não gostava de maçãs.
E nunca se interessara pelas anotações dela.
— Se você tinha dinheiro, deveria ter me dito — pronunciou ele.
— Isso não é justo.
— Não é justo, você diz?
Ela ficou calada por um instante.
Do lado de fora, crianças chutavam bola no pátio.
Tum, tum, risadas.
— E o “Veranda” para duas pessoas, isso foi justo?
Ele não respondeu.
Ela desligou.
Em julho, Galina pediu o divórcio.
Oficialmente, eles ainda eram casados até a chegada dos documentos.
Oleg assinou sem discussão.
Não havia bens a dividir: o apartamento era alugado, os móveis da Ikea haviam virado tralha em onze anos.
O carro ele levara ainda em novembro.
E sobre a conta, ele não sabia.
No tribunal, sentaram-se no mesmo banco, mas com dois lugares entre eles.
Galina olhava para a juíza, uma mulher de franja curta e voz cansada.
Oleg olhava para o chão.
— Não há reivindicações patrimoniais? — perguntou a juíza.
— Não — disseram os dois.
Ao mesmo tempo.
Foi a última coisa que disseram igual.
Depois do tribunal, ela saiu para a rua.
Julho, calor, o asfalto derretendo.
Encontrou sua Kalina no estacionamento perto do prédio do tribunal.
Sentou-se ao volante.
Ligou o ar-condicionado.
Ele soprava fraco, mas soprava.
As mãos pousaram no volante.
Naturalmente.
Como se sempre tivesse sido assim.
O telefone apitou.
Mensagem da mãe: “E então?”
Ela digitou a resposta: “Acabou.”
“Divorciaram a gente.”
A mãe respondeu um minuto depois: “Os pirozhki estão esfriando.”
“Venha.”
Galina ligou o motor.
Acionou a seta.
Olhou no espelho.
No espelho estava seu rosto.
Trinta e oito anos, as olheiras um pouco mais claras do que no inverno, os cabelos soltos.
Ela não se lembrava da última vez em que tinha usado o cabelo solto.
Entrou na estrada.
O rádio murmurava algo sobre o tempo.
Ela mudou para música.
Atrás dela ficaram a cidade, o tribunal, o estacionamento, onze anos e o Logan prateado.
À frente havia cento e vinte quilômetros até a mãe, uma Kalina branca com uma quilometragem que agora aumentava todos os dias, e pirozhki de repolho.
Isso era suficiente.







