Margarita fechou os olhos e contou lentamente até dez.
Do outro lado da parede, ouviam-se vozes — o marido conversava com a mãe na cozinha, e o tom da conversa não prometia nada de bom.

O dia de trabalho só tinha terminado às nove da noite, as últimas duas horas tinham sido gastas em negociações com os parceiros alemães, e agora ela só queria silêncio.
Konstantin entrou no quarto com uma expressão culpada, mas em seus olhos se percebia a habitual disposição para se defender.
— A mamãe veio jantar conosco.
— Ela espera que você finalmente encontre tempo para a família.
Margarita abriu o notebook e começou a verificar os e-mails da manhã.
No dia seguinte, teria de viajar a trabalho para Ecaterimburgo e precisava conferir os documentos do contrato.
— Konstantin, eu já tinha dito que hoje trabalharia até tarde.
— Meu voo é amanhã às seis da manhã.
— Outra viagem a trabalho?
— Margarita, será que você não pode parar de correr pelo país inteiro?
— Há muita coisa para fazer em casa.
Margarita levantou os olhos da tela.
Konstantin estava parado na porta, com os braços cruzados sobre o peito.
Três anos antes, quando tinham acabado de se casar, ele admirava o trabalho dela e dizia que se orgulhava de ter uma esposa bem-sucedida.
Agora, porém, ele encarava cada projeto profissional dela como uma ofensa pessoal.
— Que coisas, Konstantin?
— O apartamento é meu, sou eu quem paga as contas e também sou eu quem compra os alimentos.
— De quais tarefas domésticas você está falando?
— Nem tudo se mede em dinheiro.
— Existe também algo chamado aconchego familiar e atenção ao marido.
A voz alta e moralizadora de Liudmila Vasilievna veio da cozinha:
— Kostia, venha aqui!
— Conte à sua mãe o que vocês comem nesta casa.
— A geladeira está vazia como um museu!
Margarita fechou o notebook com mais força do que pretendia.
— Sua mãe veio novamente sem avisar?
— A mamãe está preocupada conosco.
— Ela vê que a esposa do filho não cuida da casa.
— Eu trabalho dez horas por dia e contribuo com cento e vinte mil rublos por mês para a família.
— Seu salário é de sessenta e cinco mil.
— Talvez isso devesse ser levado em consideração na divisão das responsabilidades.
Konstantin deu de ombros e se virou para a janela.
— De novo essa conversa sobre dinheiro.
— Há dois chefes nesta casa, e um deles é confiante demais.
Margarita já tinha ouvido aquela frase mais de uma vez.
Konstantin a dizia com um leve sorriso, como se estivesse brincando, mas, a cada vez, as palavras a feriam profundamente.
Três anos antes, aquele mesmo homem dizia coisas completamente diferentes.
Liudmila Vasilievna apareceu na porta, segurando uma panela vazia nas mãos.
— Margarita, explique-me como é possível viver sem comida preparada.
— Kostia emagreceu e anda pálido.
— É isso que você chama de ser esposa?
— Boa noite, Liudmila Vasilievna.
— Há comida na geladeira, e Konstantin sabe cozinhar.
— Somos adultos e podemos resolver isso sozinhos.
— Resolver sozinhos?
— Meu filho come qualquer coisa porque a esposa vive viajando.
— Não sei que trabalho tão importante é esse, mas a família deve estar em primeiro lugar.
Margarita levantou-se da poltrona e foi até a janela.
Lá fora já estava escuro, e os postes iluminavam o pátio vazio.
Na manhã seguinte, ela precisava estar no aeroporto, mas, em vez de se preparar para a viagem, tinha de ouvir reclamações.
— Liudmila Vasilievna, eu chefio um departamento em uma empresa de logística.
— Sou responsável pelas entregas em sete regiões.
— Meu trabalho garante o sustento das famílias de trezentos funcionários.
— Desculpe-me, mas não posso abandonar tudo apenas para preparar o jantar.
— Exatamente! — exclamou a sogra, erguendo a mão com a panela.
— As famílias dos outros são mais importantes para você do que a sua própria família.
— Kostia, está ouvindo isso?
Konstantin olhava em silêncio para o telefone, evitando o olhar da esposa.
Margarita percebeu que não deveria esperar apoio algum.
— Konstantin, diga alguma coisa.
— Afinal de contas, ela é sua esposa.
— A mamãe tem razão.
— Você realmente dedica pouco tempo à casa.
— E quanto tempo você dedica à casa?
— Quem comprou os alimentos da última vez?
— Quem pagou as contas?
— Quem pagou a reforma do banheiro?
— Dinheiro outra vez! — Liudmila Vasilievna bateu a panela na mesa.
— Uma mulher deve ser mulher, não uma empresária.
— Kostia se cansa no trabalho, ele precisa de apoio, não de palestras sobre logística.
Margarita fechou os olhos e tentou organizar os pensamentos.
A conversa girava em círculos.
Cada visita da sogra terminava com as mesmas acusações.
— Liudmila Vasilievna, quando Konstantin e eu nos conhecemos, ele admirava minhas ambições.
— Dizia que se orgulhava de ter uma namorada bem-sucedida.
— O que mudou?
— O que mudou foi que vocês se casaram.
— Agora você não é mais namorada, é esposa.
— E uma esposa deve cuidar do marido, não viver viajando a trabalho.
— E abandonar a carreira que construí durante dez anos?
— O que há de mais nisso?
— Você encontrará um emprego mais simples e mais perto de casa.
— Kostia será o chefe da família, como convém a um homem.
Konstantin assentiu, apoiando a mãe.
Margarita observou atentamente o marido, como se o visse pela primeira vez.
Será que ele realmente compartilhava aquelas opiniões?
— Konstantin, você quer que eu abandone minha carreira?
— Não abandone, mas… ajuste.
— A mamãe tem razão, a família é mais importante do que tudo.
— E de que vamos viver?
— Do seu salário de sessenta e cinco mil?
— Como vamos pagar a hipoteca?
— Que hipoteca?
— O apartamento é seu.
— É meu porque foi comprado antes do casamento.
— Mas e se quisermos uma casa maior e filhos?
— Não se sustenta uma família com sessenta e cinco mil.
Liudmila Vasilievna fez um gesto com a mão, descartando as objeções.
— Nós criamos Kostia com um único salário.
— E ele cresceu muito bem, tornou-se um homem de verdade.
— Hoje em dia todos estão mimados e querem apartamentos enormes.
— Liudmila Vasilievna, aquela era outra época.
— Os preços aumentaram e as necessidades da vida mudaram.
— Mas as exigências para as mulheres continuam as mesmas!
— Marido, casa e filhos — é isso que deve ser mais importante.
— Não essa tal logística.
Margarita sentou-se no sofá e apoiou a cabeça no encosto.
O cansaço caiu sobre ela como um peso de chumbo.
No dia seguinte, havia a viagem; no outro, negociações importantes; e, em casa, acusações constantes.
— Querem saber?
— Vou falar claramente.
— Liudmila Vasilievna, a senhora me considera uma esposa ruim.
— Konstantin, você apoia sua mãe.
— Mas nenhum de vocês propõe soluções concretas.
— Como devemos viver com o salário de um engenheiro?
— Quem pagará as despesas do apartamento que está em meu nome?
— Venderemos seu apartamento e compraremos um menor — sugeriu Konstantin.
— Sobrará dinheiro, e poderemos viver durante algum tempo.
— E depois?
— O que faremos quando o dinheiro acabar?
— Você encontrará um trabalho mais fácil.
— Como secretária, por exemplo.
— Ou vendedora.
Margarita levantou-se do sofá e se aproximou do marido.
— Konstantin, você está sugerindo que eu abandone o cargo de chefe de departamento para trabalhar como vendedora?
— Que troque um salário de cento e vinte mil por vinte e cinco mil?
— A família vale mais do que o dinheiro.
— Muito bem.
— E você está disposto a trocar o trabalho de engenheiro por um emprego mais bem pago?
— Tornar-se gerente, por exemplo?
— Ou gerente de vendas?
Konstantin hesitou, passando o peso de uma perna para a outra.
— Minha profissão é necessária.
— Eu não sou vendedor.
— E eu, pelo visto, sou comerciante?
— Liudmila Vasilievna, explique ao seu filho que logística não é comércio.
— Não me importa o que você faz! — gritou a sogra.
— O importante é que vocês não têm uma vida familiar normal.
— Kostia chega em casa e a esposa não está.
— Não há jantar.
— Não há roupas limpas.
— Que tipo de casamento é esse?
— As roupas são lavadas na máquina, e o jantar pode ser pedido ou preparado por ele mesmo.
— Konstantin é um homem adulto.
— Um homem não deve cuidar das tarefas domésticas!
— E uma mulher não deve ser a única provedora da família!
Liudmila Vasilievna bateu a panela na mesa com tanta força que Margarita estremeceu.
— Exatamente!
— O provedor deve ser o marido!
— E a esposa deve ser seu apoio e sua ajudante!
— Com que dinheiro o marido vai sustentar a família?
— Konstantin, diga um valor concreto.
Konstantin se virou para a janela e permaneceu em silêncio.
A conversa havia chegado a um impasse.
Margarita foi até a cozinha e abriu a geladeira.
Dentro havia recipientes com comida pronta de restaurante, legumes, frutas e laticínios.
A geladeira estava cheia.
— Liudmila Vasilievna, onde a senhora viu uma geladeira vazia?
— Não há comida caseira de verdade!
— Só produtos semiprontos.
— Comida pronta de restaurante não é produto semipronto.
— Comida de restaurante!
— Está ouvindo, Kostia?
— Sua esposa alimenta você com comida de restaurante!
Konstantin deu de ombros.
— Mamãe, eu já disse que Margarita não gosta de cozinhar.
— Ela não sabe cozinhar! — corrigiu a sogra.
— E deveria ter aprendido ainda na infância.
Margarita fechou a geladeira e se voltou para a sogra.
— Liudmila Vasilievna, Konstantin sabe cozinhar?
— Por que um homem deveria saber cozinhar?
— Ele tem outras responsabilidades.
— Quais exatamente?
— Ganhar dinheiro e sustentar a família.
— Mas eu ganho mais.
— Portanto, segundo a sua lógica, sou eu quem sustenta a família.
Liudmila Vasilievna ficou confusa por um segundo e depois franziu a testa.
— Isso está errado!
— Uma esposa não deve ganhar mais do que o marido!
— Por quê?
— Porque não deve ser assim!
— O marido é o chefe da família!
Margarita sentou-se à mesa da cozinha e esfregou as têmporas com cansaço.
Sua cabeça latejava por causa da exaustão e da discussão inútil.
— Então vocês querem que eu trabalhe menos e ganhe menos.
— Ao mesmo tempo, devo cozinhar, limpar e lavar as roupas.
— Enquanto isso, Konstantin continuará trabalhando como antes, receberá seus sessenta e cinco mil e não participará das tarefas domésticas.
— Entendi corretamente?
— Corretamente!
— É assim que deve ser em uma família normal!
O telefone vibrou — uma mensagem de um colega da Alemanha tinha chegado.
A reunião do dia seguinte havia sido antecipada em uma hora, e era preciso rever os planos.
— Desculpem, é uma questão de trabalho.
Margarita pegou o telefone e começou a ler a mensagem.
Liudmila Vasilievna ergueu os braços.
— Está vendo?
— Trabalho outra vez!
— Você nem consegue conversar normalmente!
— Liudmila Vasilievna, é urgente.
— Tenho uma reunião importante amanhã.
— E seu marido não é importante?
— Sua família não é importante?
Margarita colocou o telefone de lado e olhou atentamente para a sogra.
— Diga com sinceridade o que exatamente a senhora quer.
— Que eu abandone o trabalho e fique em casa?
— Que encontre um emprego mais simples?
— Ou que prepare o jantar todos os dias?
— Quero que você seja uma esposa normal!
— Quero que Kostia volte para casa e encontre um jantar quente, uma camisa limpa e uma esposa amorosa.
— Não uma empresária ocupada que está sempre diante do notebook.
Konstantin assentiu, concordando com a mãe.
— A mamãe tem razão.
— A gente quer sentir o calor de um lar, entende?
Margarita levantou-se da mesa e foi até a janela.
Lá fora, os postes se acenderam e começava uma noite comum de verão.
Em algum lugar, famílias jantavam, assistiam à televisão e conversavam.
Ali, porém, havia apenas críticas e censuras intermináveis.
— Konstantin, quando nos conhecemos, você dizia coisas completamente diferentes.
— Admirava minha determinação e se orgulhava dos meus sucessos.
— Naquela época, não éramos casados.
— E o que mudou depois do casamento?
Konstantin ficou em silêncio por um momento e respondeu baixinho:
— As expectativas mudaram.
Liudmila Vasilievna sentou-se ao lado do filho e segurou sua mão.
— Kostia se cansa no trabalho.
— Ele precisa de apoio, não de competição.
— Por que uma esposa deveria ganhar mais do que o marido?
— Isso humilha o homem.
— Meu trabalho humilha Konstantin?
— Claro!
— Todos sabem que é a esposa quem sustenta a família.
— Isso é vergonhoso para um homem.
Margarita se voltou para o marido.
— Konstantin, você tem vergonha do meu salário?
O marido desviou o olhar e permaneceu em silêncio.
A resposta era evidente mesmo sem palavras.
O telefone vibrou novamente.
Desta vez, era o diretor da empresa.
Margarita pediu licença e foi para outro cômodo.
— Margarita, como estão as coisas com o contrato alemão?
— Boa noite, Nikolai Petrovich.
— Amanhã voo para Ecaterimburgo e me encontro com os parceiros regionais.
— Os documentos estão prontos.
— Excelente.
— Esse contrato pode render milhões à empresa.
— Estou contando com você.
— Farei tudo o que estiver ao meu alcance.
A conversa durou cerca de cinco minutos.
Quando Margarita voltou à cozinha, Liudmila Vasilievna estava com uma expressão rígida.
— Trabalho outra vez?
— Margarita, será que você não pode parar de fingir que é insubstituível?
— A empresa vai desmoronar sem você?
— Liudmila Vasilievna, os empregos de trezentas pessoas dependem da reunião de amanhã.
— E o casamento de vocês depende da atenção que você dá ao seu marido!
— O que é mais importante?
Margarita sentou-se à mesa e juntou as mãos diante de si.
— Liudmila Vasilievna, se eu não viajar amanhã, nossa empresa poderá perder um cliente importante.
— Os salários serão afetados e poderá haver demissões.
— Entre essas pessoas há mães de família, jovens especialistas e pessoas próximas da aposentadoria.
— O destino delas depende do meu profissionalismo.
— Isso não é problema seu!
— É, sim.
— Sou chefe do departamento e respondo pelo resultado.
Konstantin levantou os olhos do telefone.
— Margarita, outra pessoa não poderia ir?
— Seu substituto, por exemplo?
— Não tenho substituto.
— E os clientes estão acostumados a trabalhar pessoalmente comigo.
— Que arrogância! — Liudmila Vasilievna balançou a cabeça.
— Ninguém consegue fazer nada sem você!
— Eles conseguem, mas farão pior.
— Conheço as particularidades, tenho contatos pessoais e falo alemão.
— Está vendo? — disse a sogra, virando-se para o filho.
— Sua esposa é realmente insubstituível!
— Mas em casa qualquer pessoa pode substituí-la!
Margarita levantou-se da mesa e foi buscar o notebook em outro cômodo.
Precisava verificar o cronograma das reuniões do dia seguinte e preparar uma apresentação.
Restava pouco tempo, e a conversa não levava a lugar algum.
Liudmila Vasilievna foi atrás dela.
— Aonde você vai de novo?
— A conversa ainda não terminou!
— Preciso me preparar para a viagem.
— Pare de brincar de empresária!
— Vá cuidar do jantar!
Margarita fechou lentamente o notebook e o colocou de lado.
Levantou-se da mesa, aproximou-se da pia e abriu a torneira.
A água fria atingia suas mãos e a ajudava a organizar os pensamentos.
O barulho da água abafava a tensão interna que ameaçava explodir em um acesso de raiva descontrolado.
Konstantin e Liudmila Vasilievna observaram em silêncio enquanto Margarita lavava as mãos.
Os movimentos dela eram lentos e calculados, como se executasse um ritual importante antes de tomar uma decisão séria.
Depois de secar as mãos com uma toalha, Margarita se voltou para a sogra.
— Liudmila Vasilievna, da próxima vez, a senhora terá de devolver as chaves do apartamento.
— O que você disse? — perguntou a sogra, dilatando as narinas, sem acreditar no que tinha ouvido.
— Ninguém lhe deu o direito de entrar aqui como se fosse um alojamento coletivo.
— Este apartamento é meu, e sou eu quem estabelece as regras.
Liudmila Vasilievna revirou os olhos e se voltou para o filho em busca de apoio.
— Kostia, está ouvindo?
— Sua esposa está expulsando sua mãe!
— Na minha casa, ninguém jamais falou dessa maneira.
— Está vendo que tipo de mulher você escolheu?
— Ela não se importa com a família e só pensa no trabalho!
Margarita apontou para a porta.
— Isto não é um salão para reuniões familiares, mas um apartamento comum na cidade.
— Eu moro aqui e pago tudo sozinha.
— Se quiserem realizar conselhos de família, façam isso, mas na sua própria casa.
Konstantin tentou aliviar a tensão e forçou um sorriso.
— Meninas, por que vocês estão agindo como crianças?
— A mamãe não faz isso por mal.
— Ela só está preocupada conosco.
Margarita interrompeu o marido antes que ele terminasse a frase.
— Konstantin, já que você está acostumado a deixar sua mãe decidir como deve viver, que ela continue vivendo com você.
— Mas eu não pretendo me adaptar a isso.
— O que você quer dizer?
— Quero dizer que foi você quem se casou comigo, não eu quem me casei com sua família.
— Se você não consegue estabelecer limites com sua mãe, não há sentido em continuarmos casados.
Liudmila Vasilievna ergueu os braços e levou teatralmente a mão ao coração.
— Meu Deus, o que estou ouvindo!
— Kostia, sua esposa está ameaçando você!
— Está ameaçando pedir o divórcio!
— Apenas porque sua mãe está preocupada!
— Não é porque a senhora está preocupada, mas pela maneira como expressa essa preocupação.
— Liudmila Vasilievna, a senhora vem sem convite, critica meu estilo de vida e exige que eu mude de carreira.
— Isso não é cuidado, é controle.
— Isso é amor de mãe!
— Quero que meu filho tenha uma família normal!
— E eu tenho o direito de querer uma família normal para mim.
— Sem interferência e críticas constantes.
Konstantin estava entre a esposa e a mãe, olhando confuso de uma para a outra.
A escolha era óbvia, mas ele não queria fazê-la.
— Margarita, será que precisa ser tão dura?
— A mamãe está realmente preocupada.
— Com o que exatamente sua mãe está preocupada?
— Com o fato de eu ganhar mais do que você?
— Com o fato de eu não preparar o jantar todos os dias?
— Com o fato de eu não ficar em casa esperando pelo marido?
— Com o fato de não termos uma vida familiar normal.
— Defina o que é uma vida familiar normal.
Konstantin hesitou, sem saber o que responder.
Liudmila Vasilievna aproximou-se do filho e segurou-o pelo braço.
— Kostia, explique coisas simples à sua esposa.
— Uma mulher deve ser mulher.
— Deve cozinhar, limpar e ter filhos.
— Não competir com um homem.
— Liudmila Vasilievna, se o seu sonho é ter uma nora que seja uma dona de casa modesta, que Konstantin procure uma para si.
— Eu nunca implorei para me tornar sua nora.
A sogra empalideceu de indignação.
— Como você se atreve?
— Como ousa falar assim com a mãe do seu marido?
— Exatamente da mesma forma que a senhora se permite falar comigo.
— Liudmila Vasilievna, prepare-se.
— Vou chamar um táxi para a senhora.
— Não vou a lugar algum!
— Esta é a casa do meu filho!
— Este é o meu apartamento, comprado com o meu dinheiro antes do casamento.
— E estou pedindo que a senhora vá embora.
Margarita pegou o telefone e ligou para um serviço de táxi.
Liudmila Vasilievna olhava para a nora de boca aberta, sem acreditar no que estava acontecendo.
— Kostia, você vai permitir que sua esposa expulse sua própria mãe?
Konstantin permaneceu em silêncio, evitando o olhar da mãe.
Pela primeira vez durante o casamento, a esposa tinha feito um ultimato, e ele precisava escolher definitivamente.
— O táxi chegará em quinze minutos — informou Margarita, guardando o telefone.
— Liudmila Vasilievna, aconselho que recolha suas coisas.
— Nunca mais vou voltar aqui! — exclamou a sogra, indo até o corredor buscar a bolsa.
— E também vou proibir Kostia de vir para cá!
— Isso será escolha dele.
— Konstantin é um homem adulto e decide sozinho onde quer ir.
Os quinze minutos seguintes passaram em um silêncio pesado.
Liudmila Vasilievna arrumava suas coisas e murmurava maldições contra a nora.
Konstantin estava sentado no sofá, com os olhos fixos no telefone.
Margarita permanecia junto à janela, observando o pátio.
Quando o táxi chegou, a sogra parou na porta.
— Kostia, você vem comigo?
O filho levantou a cabeça, olhou primeiro para a mãe e depois para a esposa.
— Mamãe, eu vou ficar.
— Então você escolhe ela?
— Depois de tudo o que fiz por você?
— Eu moro aqui.
— Esta é a minha casa.
Liudmila Vasilievna bateu a porta com tanta força que os vidros das janelas estremeceram.
Margarita acompanhou o táxi com os olhos e depois se voltou para o marido.
— Konstantin, agora vamos falar com sinceridade.
— O que exatamente o incomoda em nosso casamento?
— Nada de especial.
— Eu só gostaria de receber mais atenção.
— Que tipo de atenção?
— Seja específico.
— Bem… gostaria que houvesse jantar pronto em casa.
— E que você passasse mais tempo comigo.
— E você está disposto a me dar mais atenção?
— Ajudar em casa e se interessar pelo meu trabalho?
Konstantin deu de ombros.
— Mas eu não sei cozinhar.
— Você aprenderá.
— Eu também não sabia chefiar um departamento antigamente.
— São coisas diferentes.
— Em que exatamente são diferentes?
Konstantin ficou em silêncio, incapaz de encontrar argumentos.
— Simplesmente são diferentes.
Margarita percebeu que não haveria uma conversa séria.
O marido não estava disposto a reconsiderar suas opiniões nem a mudar seus hábitos.
Para ele, era mais fácil exigir que a esposa mudasse.
Depois que a sogra foi embora, a atmosfera da casa mudou.
Konstantin ficou mais calado, como se estivesse na defensiva.
Já não discutia abertamente, mas também não apoiava a esposa.
De manhã, saía para trabalhar em silêncio, e à noite sentava-se diante da televisão.
Margarita mantinha-se calma e cuidava dos próprios assuntos.
Já não compartilhava novidades do trabalho com o marido e não pedia sua opinião sobre seus planos.
Cada um vivia a própria vida dentro do mesmo apartamento.
A viagem de trabalho para Ecaterimburgo foi bem-sucedida.
O contrato com os parceiros alemães foi assinado, e a empresa conseguiu um cliente importante.
Nikolai Petrovich agradeceu pessoalmente a Margarita por seu profissionalismo.
Em casa, o marido recebeu a notícia com indiferença.
— Ótimo.
— Você receberá algum bônus?
— Sim.
— Uma porcentagem do valor do contrato.
— Quanto isso representa em dinheiro?
— Cerca de cinquenta mil.
Konstantin se animou e colocou o controle remoto de lado.
— Nada mal.
— Podemos comprar uma televisão nova.
— Podemos.
— Mas eu é que vou comprá-la, já que o dinheiro é meu.
— Como assim seu?
— Somos uma família.
— Uma família pressupõe igualdade.
— Você acha que seu salário pertence apenas a você, enquanto o meu pertence a todos?
Konstantin hesitou.
— Nunca pensei nisso.
— Então pense.
— Nosso orçamento é separado ou conjunto?
— Não sei.
— O que seria melhor?
— O melhor seria sermos honestos.
— Cada um gasta o que ganha.
Depois daquela conversa, Konstantin ficou ainda mais calado.
Antes, ele contava que a esposa usaria o dinheiro dela para as necessidades comuns, enquanto o salário dele ficaria disponível para seus gastos pessoais.
Agora teria de rever seus planos.
Liudmila Vasilievna não apareceu mais.
Às vezes ligava para o filho, mas não se falava em encontros.
Konstantin visitava a mãe sozinho nos fins de semana.
— Como está sua mãe? — perguntava Margarita quando o marido voltava.
— Está bem.
— Ela pergunta quando você vai pedir desculpas.
— Para quem e por quê?
— Pela sua grosseria.
— Diga à sua mãe que não me considero culpada.
— Eu estava defendendo minha casa contra uma invasão.
Konstantin assentia e não voltava mais ao assunto.
Dois meses se passaram.
Durante esse tempo, o marido ainda não tinha compreendido a verdadeira causa do conflito.
Continuava achando que a esposa deveria se adaptar às exigências da mãe dele.
Apenas já não dizia isso em voz alta.
Margarita entendeu que o relacionamento havia chegado a um beco sem saída.
Konstantin não estava pronto para amadurecer, assumir responsabilidades ou proteger a família de pressões externas.
Era mais confortável para ele continuar sendo o filho eterno, que deixava as mulheres tomarem todas as decisões.
Certa noite, ao voltar do trabalho, Margarita encontrou Liudmila Vasilievna em casa.
A sogra estava sentada na cozinha com uma xícara de chá, como se nada tivesse acontecido.
— Boa noite — cumprimentou Margarita friamente.
— Boa noite.
— Kostia me convidou para jantar.
Margarita olhou interrogativamente para o marido.
— Konstantin, havíamos combinado que as visitas seriam avisadas com antecedência.
— A mamãe queria conversar com você.
— Queria pedir desculpas.
Liudmila Vasilievna colocou a xícara sobre a mesa.
— Margarita, vim dizer que eu estava errada.
— Não deveria ter interferido na vida familiar de vocês.
— Obrigada por reconhecer isso.
— Mas você também foi grosseira comigo.
— As pessoas mais velhas devem ser respeitadas.
— Liudmila Vasilievna, o respeito deve ser mútuo.
— A senhora não respeitou minhas escolhas, meu trabalho nem meu modo de vida.
— Eu estava preocupada com meu filho.
— E eu estou preocupada com meu casamento.
— Sua interferência constante o está destruindo.
Liudmila Vasilievna suspirou.
— Está bem.
— Não criticarei mais o seu trabalho.
— E não virá mais sem convite?
— E não virei mais sem convite.
Margarita assentiu.
— Nesse caso, podemos tentar começar de novo.
Mas, no fundo, ela entendia que o problema não era a sogra.
O problema era o marido, que não conseguia estabelecer limites, tomar decisões nem assumir a responsabilidade pela família.
À noite, depois que Liudmila Vasilievna foi embora, Margarita sentou-se ao lado do marido no sofá.
— Konstantin, por que você não me avisou sobre a visita da sua mãe?
— Queria fazer uma surpresa.
— Queria que vocês se reconciliassem.
— E se eu não quisesse me reconciliar?
— Por que não iria querer?
— A mamãe pediu desculpas.
— Konstantin, você entende o que aconteceu dois meses atrás?
— Vocês discutiram.
— A mamãe disse coisas demais e você ficou ofendida.
Margarita percebeu que o marido realmente não enxergava a essência do conflito.
Para ele, havia sido uma briga comum entre mulheres, que deveria terminar com desculpas e reconciliação.
— Konstantin, não se trata de eu ter ficado ofendida.
— Trata-se do fato de você não ter defendido sua esposa dos ataques da sua mãe.
— Eu não queria escolher entre vocês.
— Mas você precisou escolher.
— E escolheu a neutralidade.
— O que há de errado com a neutralidade?
— O problema é que uma família é uma equipe.
— Marido e esposa devem apoiar um ao outro.
Konstantin assentiu, mas Margarita percebeu que suas palavras não o alcançavam.
Ele estava acostumado a deixar que as mulheres resolvessem seus conflitos sozinhas enquanto ele permanecia afastado.
A casa ficou silenciosa, respeitosa e organizada.
Liudmila Vasilievna já não criticava a nora, e Konstantin não fazia mais cenas.
Mas aquele silêncio era enganoso, como a calmaria antes da tempestade.
Margarita compreendeu o principal: é possível estabelecer regras e alcançar uma tranquilidade externa, mas não se pode obrigar uma pessoa a mudar por dentro.
Konstantin continuou sendo o mesmo — incapaz de agir sozinho, dependente da opinião da mãe e despreparado para um casamento baseado na igualdade.
O silêncio da casa era resultado da força de Margarita, não da compreensão do marido.
E essa percepção marcou o começo do fim do relacionamento deles.







