— Você vai me fazer um favor: vai registrar minha irmã no seu apartamento, — exigiu o marido.

— Ira, é o seguinte, — Artëm colocou a xícara sobre a mesa e sentou-se à sua frente, inclinando-se um pouco para a frente.

— Você vai me fazer um favor: vai registrar minha irmã no seu apartamento.

Como família, como gente decente.

Ira terminou devagar de lavar o último prato e enxugou as mãos.

Ela não tinha pressa em responder, embora dentro dela já tivesse surgido uma pergunta cautelosa.

Em seu rosto permanecia o sorriso suave de uma pessoa acostumada primeiro a ouvir e depois a pensar.

— Você está falando daquele apartamento que meu avô me deixou? — perguntou ela com calma.

— Onde Karina vai morar, no seu sofá ou no meu?

— O que o sofá tem a ver com isso? — ele fez uma careta.

— O registro é só um papel.

Um carimbo.

Ela precisa por conveniência, sabe, posto de saúde, essas coisas.

— Está bem, vamos analisar isso numa boa, — ela se sentou ao lado dele e pousou a mão sobre a dele.

— O registro dá direito de uso.

E onde há um direito, há também um interesse.

Eu não sou contra ajudar, sou contra fazer isso às cegas.

Ele se afastou, como se o toque dela o irritasse.

Ira percebeu o movimento, mas não demonstrou.

— Que interesse, do que você está falando? — bufou Artëm.

— Minha irmã de sangue está pedindo, e você fica bancando a advogada.

Onde te ensinaram isso, nos seus livros inteligentes?

— Nos livros inteligentes escrevem uma coisa boa, — sorriu ela.

— “Confie, mas verifique.”

Eu confio.

Eu verifico.

Isso não é contradição, é bom senso.

— Bom senso, ela diz, — ele revirou os olhos.

— Karina só precisa de um endereço, entende?

Ela não quer nada da sua espelunca.

— Se ela não quer nada, então vamos formalizar tudo de um jeito que nada aconteça, — propôs Ira com suavidade.

— Um documento, preto no branco: registro temporário, ninguém reivindica parte do apartamento.

Ela assina, e eu a registro até amanhã.

Artëm ficou em silêncio por um segundo.

Algo em seu rosto vacilou: talvez cálculo, talvez irritação.

Ira esperou com paciência, mantendo aquela esperança de que agora ele dissesse: “Faz sentido, vamos fazer assim.”

— Você tem noção de como isso parece? — disse ele entre os dentes.

— Minha irmã vem, e você coloca um papel debaixo do nariz dela.

Que vergonha.

— Vergonha não é esclarecer.

Vergonha é chorar depois, — respondeu ela com firmeza.

— Eu não quero chorar, Artëm.

Quero ajudar sem lágrimas.

*

Dois dias depois, Ira estava sentada em um pequeno café com sua amiga Lera, que a conhecia desde os tempos em que as duas matavam aula juntas.

Lera escutava, mexendo o cacau com a colherzinha, e franzia a testa cada vez mais.

— Espera, deixa eu confirmar, — Lera afastou a xícara.

— Artëm quer registrar Karina no apartamento que é seu, pessoal, anterior ao casamento, herdado do seu avô.

E ficou ofendido porque você pediu um documento.

Entendi certo?

— Exatamente, — assentiu Ira.

— E ficou ofendido como se eu tivesse pedido para ele dançar em cima da mesa.

— E o que te incomoda? — Lera estreitou os olhos.

— O registro, por si só, realmente não dá direito a uma parte do imóvel.

— Não dá, — concordou Ira.

— Mas o registro é o primeiro degrau.

E pessoas que se ofendem imediatamente com uma pergunta simples geralmente estão planejando o segundo degrau.

E o terceiro.

— Inteligente, — murmurou a amiga.

— Você está parecendo aquele que dizia que quem foi avisado está armado.

— “Quem foi avisado, está armado”, — sorriu Ira.

— Só que eu não pretendo guerrear.

Pretendo não me deixar arrastar para o jogo dos outros.

— E Karina, o que ela diz? — Lera quebrou um pedaço de biscoito.

— Você falou com ela diretamente?

— Ainda não.

Artëm passa tudo por ele mesmo, como por uma central de despacho, — Ira girou um guardanapo entre os dedos.

— Por isso quero falar com ela pessoalmente.

Sem intermediários.

Um intermediário sempre acaba distorcendo alguma coisa a favor de si mesmo.

— Escuta, tia Zoja está sabendo? — perguntou Lera de repente.

— Na família de vocês, ela é a principal voz da razão.

— Zoja só sabe que “Karina precisa de registro”, — suspirou Ira.

— Não sabe os detalhes.

Acho que está na hora de contar tudo como é.

Mas primeiro, a própria Karina.

— Você é impossivelmente calma, — Lera balançou a cabeça.

— Eu já estaria subindo pelas paredes.

— Subir pelas paredes não é eficiente, — riu Ira.

— Lá de cima se vê pouco, e cair dói.

Prefiro ir pelo chão, com meus próprios pés, mas em direção à porta.

Autora: Vika Trel © 5074

O encontro com Karina aconteceu em um shopping barulhento, perto da fonte iluminada, onde combinaram “conversar por cinco minutos”.

Karina se atrasou vinte minutos, apareceu correndo com sacolas e imediatamente se jogou no banco.

— Então, que interrogatório é esse? — disparou ela, sem cumprimentar.

— Artëm disse que você está se fazendo de difícil.

— Olá, Karina, — disse Ira com calma.

— Não estou me fazendo de difícil.

Estou propondo fazer tudo honestamente, para que depois ninguém tenha perguntas.

— Que perguntas, pelo amor de Deus, — Karina agitou a mão de unhas compridas.

— Preciso do registro, então registra.

O que há para pensar?

Todas as pessoas normais fazem assim.

— Todas as pessoas normais leem o que assinam, — sorriu Ira.

— Estou te propondo um documento: você fica registrada temporariamente, não reivindica parte do apartamento e não mora nele.

Simples, meia página.

Karina a encarou como se Ira tivesse falado em um dialeto desconhecido.

Depois seu rosto começou lentamente a se encher de irritação.

— Então você não confia em mim, uma parente? — a voz dela subiu.

— Eu não sou nenhuma golpista.

Ela exige papelada.

Você tem ideia de como isso é humilhante?

— Humilhante é quando enganam você, — respondeu Ira de modo uniforme.

— Um documento não humilha ninguém.

Um documento protege as duas partes.

Inclusive você.

— Me proteger de quê? Eu não estou planejando nada! — Karina se levantou de um salto.

— Sabe quem se comporta assim?

Gente gananciosa.

Você fica sentada em cima dos seus metros quadrados como uma galinha em cima dos ovos e morre de medo.

— Se eu não estou planejando nada, assino com prazer, — retrucou Ira calmamente.

— Está vendo como é conveniente?

A sua própria lógica funciona para os dois lados.

— Não venha me enrolar com palavras! — Karina agarrou as sacolas.

— Artëm ainda vai conversar com você.

Do jeito certo.

Sem esses seus papéis.

— Que venha, — assentiu Ira, continuando sentada.

— Mas que leia o documento também.

Porque na família de vocês, pelo visto, ler não está na moda.

*

À noite, em casa, Artëm já estava no limite: Karina tinha conseguido ligar para ele primeiro e contar tudo à sua maneira.

Ele recebeu Ira no corredor, de braços cruzados, bloqueando a passagem.

— Você perdeu completamente a noção? — começou ele ainda na entrada.

— Você deixou minha irmã em prantos.

O que você pensa que está fazendo?

— Estou me permitindo fazer perguntas sobre o meu próprio apartamento, — Ira tirou a jaqueta com calma e a pendurou no gancho.

— Dizem que é um direito legal de qualquer proprietário.

— Proprietário, — ele a imitou.

— Seu avô te deixou um apartamento, e você se acha como se tivesse construído tudo com as próprias mãos.

Assina o registro e para de fazer cena!

— Assino.

Depois de um documento, — ela foi até a cozinha e colocou a chaleira no fogo.

— Aliás, eu já imprimi.

Está sobre a mesa.

Você pode levar para Karina, pode ler você mesmo.

— Eu não vou ler nada! — ele levantou a voz.

— Não há nada para ler!

Você é minha esposa ou o quê?

Estou pedindo um favor, como família, e você age como se fosse com estranhos!

— Essa é uma virada interessante, — Ira serviu chá para si e se sentou com calma.

— Com estranhos, eu já teria me despedido há muito tempo.

Com você, estou conversando.

— Eu vou te explicar a diferença agora, — ele se inclinou sobre ela, apoiando as mãos na mesa.

— Se você não registrar Karina, vai haver guerra nesta família.

É isso que você quer?

— Sabe o que uma pessoa inteligente disse? — ela tomou um gole de chá, imperturbável.

— “Paz não é ausência de conflito, mas a capacidade de resolvê-lo.”

Eu estou oferecendo uma solução.

A guerra quem oferece é você.

— Chega dessas suas citações! — ele rugiu.

— Você está zombando de mim?

Eu estou falando sério, e ela fica filosofando!

— Eu também estou falando sério, — Ira colocou a xícara sobre a mesa.

— Tão sério que um papel sem assinatura é apenas um papel.

E uma assinatura leva cinco minutos.

Quem é contra cinco minutos é contra a honestidade.

*

No dia seguinte, tia Zoja apareceu na casa deles: baixinha, magra, com um olhar atento e o hábito de dizer o que pensava.

Artëm a chamou como artilharia pesada, contando que a parente pressionaria Ira.

O cálculo estava errado.

— Então, contem o que vocês não dividiram, — Zoja cruzou as mãos sobre os joelhos.

— Mas um de cada vez e sem gritos.

Artëm, você primeiro.

— O que há para contar? — resmungou ele.

— Karina precisa do registro, e Ira exige papéis, inventou umas partes do apartamento.

Está envergonhando a família.

— Certo, — Zoja virou-se para Ira.

— E você, o que diz?

— Eu proponho registrar Karina temporariamente e fazer ela assinar que não reivindica partes do apartamento e que não mora nele, — disse Ira de forma firme.

— Só isso.

Essa é toda a minha terrível ganância.

Zoja ficou em silêncio, depois bateu brevemente a palma da mão no joelho.

E virou-se para o sobrinho com uma expressão que o fez se endireitar sem querer.

— E qual é o problema, Artëm? — perguntou ela diretamente.

— A moça está falando algo sensato.

Documento não é ofensa, é ordem.

— Tia Zoja, até a senhora?! — ele abriu os braços.

— Eu achei que pelo menos a senhora entenderia!

— Eu entendo perfeitamente, — cortou Zoja.

— Entendo que, quando uma pessoa tem medo de assinar que não reivindica nada, significa que reivindica.

Sou velha, mas não sou burra.

— Ninguém está reivindicando nada! — explodiu Artëm.

— Então que sua irmã se sente e assine, — Zoja deu de ombros.

— E, se quiser gritar, saia e grite no corredor do prédio; aqui as pessoas conversam.

Karina, sentada no canto, bufou e virou o rosto.

Ira encontrou o olhar de tia Zoja: breve, compreensivo.

Naquele olhar havia mais apoio do que em todas as palavras de Artëm no último mês.

— Obrigada, tia Zoja, — disse Ira baixinho.

— Pelo menos alguém aqui sabe ler nas entrelinhas.

✔️— Retire o processo, eu não desejo nada de ruim para você, — arrulhou a sogra.

Histórias para a alma de Elena Strizh, 2 dias atrás.

O apoio de uma única pessoa não deteve os outros.

Uma semana depois, Artëm organizou um “conselho de família” em sua casa: Karina, alguns primos dele e mais alguém de lado.

Colocaram Ira no centro, como se fosse uma audiência, e ela sentiu imediatamente que a delicadeza tinha acabado e que a paciência estava chegando ao fim.

— Nós conversamos, — começou Artëm com ar importante, — e decidimos: você registra Karina sem papel nenhum.

A família decidiu assim.

— Interessante, — Ira percorreu os presentes com o olhar.

— E a família se esqueceu de me perguntar?

Ou eu sou um móvel aqui?

— Não comece, — Karina fez uma careta.

— Todos são a favor, só você é contra.

Você tem noção de como parece boba?

— Eu tenho noção de como vocês parecem, — a voz de Ira ficou mais dura.

— Um grupo inteiro contra uma pessoa por causa de uma assinatura.

Isso não se chama “a família decidiu”, isso se chama “pressionar pela quantidade”.

— Como você está falando? — saltou um dos primos.

— Está sendo grosseira com os mais velhos?

— Estou falando exatamente como falam comigo, — cortou ela.

— Querem educação?

Comecem por vocês.

Porque exigir vocês sabem, mas ouvir não.

— É inútil tentar convencê-la, — Artëm abanou a mão.

— Teimosa como uma mula.

Eu disse.

— Uma mula que sabe ler contratos é melhor que um pastor que não sabe, — sorriu Ira friamente.

— Teremos mais elogios?

— Você está procurando problema, — sibilou Karina.

— Vai acabar ficando sem família nenhuma.

— Se “família” é quando me cercam e exigem que eu entregue de graça o que é meu, — disse Ira pausadamente, — então prefiro me separar de uma família assim.

Sem ressentimentos.

*

Depois do “conselho”, a casa ficou completamente fria.

Artëm parou até de fingir educação e agora falava com Ira com desprezo.

Certa noite, entrou na cozinha e jogou sobre a mesa uma folha dobrada.

— Toma, aqui está o seu famoso papel, — disse ele entre os dentes.

— Só que nele está escrito de outro jeito.

Eu refiz.

Aqui diz que você registra Karina por tempo indeterminado e dá a ela direito de uso.

Assina.

Ira pegou a folha, abriu e leu.

Seu rosto não se moveu, mas seu olhar ficou afiado como um lápis apontado.

Ela colocou o papel de volta com cuidado.

— Então vocês decidiram agir abertamente, — disse ela devagar.

— Não “temporariamente”, não “sem pretensões”, mas logo por tempo indeterminado e com direito de uso.

Eis toda a verdade sobre “ninguém reivindica nada”.

— É por conveniência, — resmungou ele, desviando os olhos.

— O que você está inventando de novo?

— Conveniência para quem, Artëm? — ela se levantou.

— Para você?

Para Karina?

Com certeza não para mim.

Sabe, por muito tempo pensei que você simplesmente não entendia o que estava pedindo.

Mas você entende perfeitamente.

Só contava que eu não entenderia.

— Chega de transformar uma mosca em elefante! — ele levantou a voz.

— Assina e esquecemos tudo!

— Esqueceremos, — ela assentiu com uma calma estranha.

— Só não o que você pensa.

Naquele momento, a raiva dentro dela não explodiu em grito.

Endureceu, transformando-se em uma decisão fria e clara.

Ira não pretendia mais convencer ninguém.

Ela pretendia agir.

*

De manhã, ela saiu para resolver assuntos, sem explicar nada a ninguém.

Primeiro, foi até tia Zoja, depois a outros endereços que mantinha na cabeça como uma rota curta para a liberdade.

À noite, em sua bolsa havia documentos dobrados com cuidado e conferidos duas vezes.

— Artëm, precisamos conversar, — disse ela ao voltar, sentando-se à frente dele.

— Brevemente.

— Ah, finalmente caiu em si, — ele se animou.

— Trouxe assinado?

— Trouxe outra coisa, — ela colocou várias folhas sobre a mesa.

— Esta é a primeira.

Eu formalizei oficialmente o apartamento de modo que registrar qualquer pessoa ali sem o meu consentimento separado agora é tecnicamente impossível.

Todos os passos necessários foram feitos.

Hoje.

— O quê? — ele piscou, confuso.

— Como assim impossível?

— Muito simples, — respondeu ela com calma.

— Enquanto você reescrevia o papel a seu favor, eu não fiquei de braços cruzados.

“Demora é como morte”, já ouviu isso?

Eu não gosto de demorar.

— Espera, você não tinha… — ele se interrompeu sob o olhar dela.

— Isso é bem comum!

— Não é comum, — cortou Ira.

— É anterior ao casamento, veio do meu avô, é meu.

Você sabia disso desde o começo, por isso se irritava quando eu fazia perguntas.

Quer ler o segundo documento?

Artëm ficou em silêncio, e naquele silêncio havia mais confusão do que em todo o mês de gritos.

Ele estava acostumado a ver a pressão funcionar.

Mas ali já não havia nada sobre o que pressionar: Ira já tinha decidido tudo.

— No segundo, — continuou ela, — está o pedido de divórcio.

Eu vou protocolá-lo.

Não porque deixei de amar de repente.

Mas porque amor é quando não tentam te saquear com toda a parentela.

— Você enlouqueceu, — ele soltou o ar.

— Por causa de um registro qualquer?

— Não por causa do registro, — ela se levantou.

— Porque o registro mostrou quem é quem.

Agradeço a ele por isso.

Mais barato que qualquer psicólogo.

*

Karina apareceu correndo uma hora depois: descabelada, barulhenta, pronta para o escândalo.

Ela entrou voando pelo corredor e atacou logo da porta.

— O que você aprontou?! — gritou.

— Artëm disse que você blindou o apartamento e começou um divórcio!

Você pirou de vez?!

— Olá, Karina, — Ira nem sequer levantou a voz.

— Eu coloquei ordem.

A mesma que vocês chamavam de humilhação.

Viu como foi útil?

— Você é só uma gananciosa e traidora! — Karina colocou as mãos na cintura.

— Nós te aceitamos na família, e você!

— Me aceitaram para me registrar e me empurrar para o lado, — enumerou Ira com calma.

— Sabe, existe uma boa ideia: “Não atribua à malícia o que se explica pelo interesse.”

Só que, no caso de vocês, havia malícia e interesse.

O pacote completo.

— Artëm vai te deixar, e você vai ficar mofando sozinha dentro das suas paredes! — disparou Karina.

— Quem vai querer você?

— Dentro das minhas paredes é a expressão principal, — sorriu Ira.

— Elas são minhas.

E quanto a “quem vai querer você”, não se preocupe.

Uma pessoa que sabe se defender não fica sem caminho.

— Nós vamos fazer você pagar! — Karina quase sufocou de indignação.

— Façam, — Ira deu de ombros.

— Só leiam os documentos primeiro.

Porque na família de vocês, eu já disse, não gostam de ler.

E é uma pena.

A leitura disciplina muito.

Karina abriu a boca para uma nova tirada, mas parou.

Pela primeira vez, ela percebeu que não havia mais nada contra o que gritar.

A decisão já tinha sido tomada e formalizada.

Ela estava acostumada a palavras resolverem tudo, mas ali as palavras se quebravam contra um resultado pronto.

💯— Decidiu ir embora? — o marido riu maldosamente e começou a observar enquanto a esposa arrumava as coisas.

— E nem pense em voltar!

Pântano familiar | Histórias das quais não se fala, 2 dias atrás.

À noite, tia Zoja apareceu sem ligar, como só ela sabia fazer.

Sentou-se na cozinha, examinou Ira da cabeça aos pés e assentiu com aprovação.

— Então, colocou ordem? — perguntou.

— Coloquei, — assentiu Ira, servindo chá para ela.

— Bloqueei o apartamento, protocolei os documentos do divórcio.

Sem gritos, sem histeria.

Apenas fiz.

— Muito bem, — Zoja tomou um gole da xícara.

— Eu disse: quem tem medo de assinar “não reivindico” é porque reivindica.

Pena que meu sobrinho tenha se mostrado meio tolo.

Mas isso não é culpa sua.

— Obrigada por estar do meu lado, — disse Ira baixinho.

— A senhora foi a única que viu a essência.

— Eu só sou velha e já vi muitos assim, — riu Zoja.

— A ganância sempre se esconde atrás da palavra “como família”.

Assim que ouvir “como família”, segure a carteira e os documentos com mais força.

— Vou lembrar, — riu Ira.

— Bom presságio.

— E não teve medo? — Zoja olhou para ela atentamente.

— Sozinha contra todos.

— Tive, — admitiu Ira honestamente.

— Mas sabe, o medo é um mau conselheiro.

Ele aconselha a esperar, adiar, torcer para que tudo se resolva sozinho.

Mas nada se resolve sozinho.

Sozinho só cria crosta.

— Você é uma moça inteligente, — Zoja deu um tapinha na mão dela.

— Artëm não merecia alguém como você.

Mas tudo bem.

Para uma pessoa boa, a vida sempre encontra um jeito de se endireitar.

— “O caminho é vencido por quem caminha”, — sorriu Ira.

— Eu estou caminhando.

Devagar, mas na minha direção.

✔️— Me dê acesso ao seu cartão, — declarou o marido.

Oksana deu, mas…

Histórias para a alma de Elena Strizh, ontem.

Alguns dias depois, Artëm tentou abordar a questão por outro lado.

Ele ligou tarde da noite: a voz já não era irritada, mas bajuladora, com uma falsa ternura.

— Ira, vamos resolver isso numa boa, — começou ele.

— Todos nós nos exaltamos, acontece.

Retira o pedido, vai?

Eu vou dizer para Karina te deixar em paz.

Vamos viver como antes.

— Como antes, como? — perguntou Ira com calma.

— Reunir outro conselho e pressionar em grupo de novo?

Não, obrigada.

Eu já andei nessa atração.

— Não vai ter conselho nenhum! — garantiu ele.

— Eu entendi tudo, de verdade.

Só não se divorcia, por que você está agindo como uma criança?

— Artëm, — disse ela com suavidade, mas firmeza.

— Você não entendeu que estava errado.

Você entendeu que perdeu.

São coisas diferentes… quer dizer, desculpe, vou dizer de outro modo: não são a mesma coisa de jeito nenhum.

— Quer que eu peça desculpas? — ele quase implorou.

— Até na frente de todo mundo?

— Desculpas são boas quando vêm antes do ato, não depois, — respondeu Ira.

— Você pede desculpas porque ficou encurralado.

E ficou encurralado porque eu fechei a brecha.

Isso não é arrependimento.

É lamento por uma vantagem perdida.

— Você ficou tão dura, — ele suspirou.

— Eu fiquei exatamente como é preciso ser perto de quem testa a nossa resistência, — disse ela.

— Obrigada a todos vocês pelo treinamento, aliás.

Agora ninguém me pega de mãos nuas.

— Então acabou? — perguntou ele, abafado.

— Acabou, — confirmou Ira, sem raiva.

— E sabe, pela primeira vez… isto é, estou muito tranquila.

Como se finalmente eu tivesse parado de carregar o peso dos outros e o colocado no chão.

*

Um mês depois, Ira estava novamente sentada no mesmo café com Lera.

Sobre a mesa havia dois cacaus e um prato de biscoitos, como nos velhos tempos.

Só que agora, diante de Lera, estava sentada uma pessoa que havia saído definitivamente do jogo alheio.

— Então, como você está? — perguntou Lera.

— Honestamente.

— Honestamente, bem, — sorriu Ira.

— Em silêncio.

Sem conselhos, sem gritos, sem pastas sobre a mesa.

O apartamento é meu, a cabeça é minha, as decisões são minhas.

— E eles? — Lera ergueu uma sobrancelha.

— Não te incomodam?

— Karina escreveu algumas mensagens furiosas, depois parou, — Ira deu de ombros.

— Artëm ligava, tentando ora pressionar, ora se fazer de coitado.

Mas já não há nada sobre o que pressionar, e ele só sabe ter pena de si mesmo.

— Você é de ferro, — a amiga balançou a cabeça.

— Eu teria quebrado cem vezes.

— Não sou de ferro, — riu Ira.

— Eu só entendi uma coisa.

Quando dizem “faça um favor” e depois se ofendem com a pergunta “qual exatamente”, isso não é um favor.

É uma armadilha com lacinho.

— Vou escrever isso na geladeira, — murmurou Lera.

— E não se arrepende de ter decidido tudo tão bruscamente?

— Nem um pouco, — Ira tomou um gole de cacau.

— A demora em assuntos importantes é uma forma de covardia.

Eu simplesmente não quis ser covarde.

Vi o problema e resolvi.

Não fiquei esperando que ele crescesse.

— A você, — Lera ergueu a xícara.

— À mulher que lê o que assina.

— E àquela que não assina o que não leu, — acrescentou Ira, brindando com ela com o cacau.

— Pelo visto, isso é uma arte inteira.

Mas eu aprendi.

— Tia Zoja ficaria orgulhosa, — sorriu Lera.

— Ela está orgulhosa, — assentiu Ira.

— Ligou ontem.

Disse que eu sou a única normal da linhagem deles.

Eu respondi que é porque não sou da linhagem deles.

Ela riu por cinco minutos.

Elas ficaram sentadas, conversando sem pressa, e naquela conversa não havia nem sombra do peso que ainda a esmagava um mês antes.

Ira não explicava mais, não se justificava, não tentava convencer.

Ela simplesmente vivia: dentro de suas próprias paredes, com sua própria cabeça e com sua própria tranquilidade, que não entregava mais de graça a ninguém.

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