🔺— Para que os trouxeste? Eu não vou criar os filhos dos outros, disse Kirill. Era precisamente isso que Veronika temia, mas deu-lhe tempo até à manhã seguinte…

Veronika atravessou a porta do apartamento com Polina sonolenta nos braços e empurrando à sua frente um adolescente carrancudo com uma mala pesada.

Ela não tinha regressado sozinha do funeral de Zhanna e compreendia que os esperava uma conversa extremamente difícil.

Kirill saiu para o corredor, viu as crianças, e o seu rosto ficou petrificado.

Pelos seus lábios fortemente cerrados, era evidente que o marido estava furioso.

— Que delegação é esta?

A voz de Kirill tremia de raiva mal contida.

— Veronika, perdeste completamente o juízo?

— Ajuda Artyom a tirar os sapatos, ele mal consegue ficar de pé, pediu ela calmamente, passando por ele.

— Vou deitar a pequena e depois conversamos.

— Conversamos agora.

— Amanhã de manhã, entregamo-los aos serviços de proteção de menores.

— Os dois.

— Eles não vão para nenhum orfanato.

Artyom estremeceu e parou no meio do corredor, apertando a mala contra o peito.

Polina mexeu-se nos braços de Veronika e murmurou alguma coisa durante o sono.

Kirill deu um passo em frente, bloqueando o caminho para o quarto.

Os seus olhos pareciam estranhos e irreconhecíveis.

— Trouxeste duas crianças estranhas para a nossa casa sem sequer telefonar!

— Percebes o que isso significa?

— Percebo melhor do que tu.

— Eles já não têm mais ninguém.

— O pai desapareceu há três anos, e a tia recusou-se terminantemente a ficar com eles, diante de mim, junto ao caixão.

— E o que é que eu tenho a ver com isso?

— O que é que eu tenho a ver com isso, Veronika?

— Tem a ver contigo porque, há um ano, nós próprios falámos em adoção.

— Ou já te esqueceste?

Kirill ficou sem fôlego, e a sua boca torceu-se num sorriso amargo.

Artyom recuou um passo em direção à porta, como se estivesse a preparar-se para fugir.

Veronika percebeu e abanou lentamente a cabeça, indicando-lhe que ficasse.

O adolescente ficou imóvel.

— Artyom, vai para a cozinha.

— Há almôndegas no frigorífico.

— Aquece-as e come, ordenou ela com voz serena.

— Vou deitar Polina e depois eu e Kirill discutiremos tudo com calma.

— Não tenho fome, murmurou o rapaz.

— Vai.

Quando Artyom desapareceu, Kirill baixou a voz quase até ao sussurro para que as crianças não ouvissem, mas sibilava de raiva como uma serpente.

Veronika ouviu tudo: sobre irresponsabilidade, sobre mais uma boca para alimentar e sobre a mãe dele, que lhe ia “arrancar a cabeça”.

Ela deitou Polina no quarto de hóspedes e aconchegou-lhe a manta.

Só depois se virou para o marido.

— Amanhã vou apresentar um pedido de tutela temporária.

— Zhanna deixou-me os documentos há seis meses, como se tivesse pressentido o que iria acontecer.

— Decidiste tudo por mim?

— Estou a propor que tomemos a decisão juntos.

— Aqui e agora.

— Se disseres “não”, vou cuidar deles sozinha, e contigo falarei através de um advogado.

Kirill cerrou os dentes.

Ele conhecia aquele tom dela, calmo, sem histeria e sem lágrimas.

Veronika ficava assim quando já não tinha para onde recuar.

A manhã começou com uma chamada de Tamara Sergeyevna.

Kirill falava no corredor, tapando o telefone com a mão, mas a voz da mãe atravessava até a porta.

Veronika preparava papa e ouvia uma palavra em cada duas: “envergonhaste-nos”, “nem filhos teus tiveste” e “como se os filhos dos outros não bastassem”.

Artyom estava sentado à mesa e esforçava-se para fingir que não ouvia nada.

— Come, disse Veronika, colocando um prato à sua frente.

— Papa de sêmola com passas.

— Zhanna dizia que gostavas.

— Gostava, corrigiu ele em voz baixa.

— Quando era criança.

— Então prova outra vez.

— Talvez te lembres.

Kirill voltou para a cozinha com o rosto cinzento como um cinzeiro.

Sentou-se em frente a Artyom e olhou para ele durante muito tempo.

O adolescente baixou teimosamente os olhos para o prato.

— Artyom, disse finalmente Kirill.

— Ontem disse coisas a mais.

— Ouviste?

— Ouvi.

— Desculpa.

— Não vou abandonar-vos.

— Apenas fiquei assustado.

O rapaz levantou os olhos.

Havia tanta desconfiança neles que Veronika sentiu o coração apertar-se.

No quarto, Polina balbuciava alguma coisa para o seu cão de peluche, sem imaginar do que eles falavam.

— Vão entregar-me? perguntou Artyom diretamente.

— Vão ficar com Polina e mandar-me para lá?

— Ninguém vai entregar ninguém, disse Kirill com firmeza.

— Se são dois, ficam os dois.

— Mas tenho uma condição.

— Nesta casa não mentimos uns aos outros.

— Combinado?

— Combinado.

— Dá-me a mão.

O adolescente estendeu-lhe a mão com desconfiança e cautela.

Kirill apertou-a com força.

Veronika virou-se para o fogão para que ninguém visse os seus olhos encherem-se de lágrimas.

A burocracia revelou-se pior do que eles esperavam.

Eram necessários certificados, exames, comissões e relatórios de inspeção da casa.

Chamavam-nos ora para uma instituição, ora para outra.

Exigiam ora uma declaração do local de trabalho, ora um parecer de um psicólogo, ora uma confirmação das condições de habitação.

— Estão novamente a pedir uma declaração de rendimentos, disse Veronika, atirando mais um formulário para cima da mesa.

— É a terceira vez num mês.

— Eu trago, respondeu Kirill sem levantar os olhos da calculadora.

— Arranjei um trabalho extra e dou cursos à noite.

— Também aos fins de semana.

— Kirill, quase não te vejo.

— Mas tu vês as crianças.

— Alguém tem de o fazer.

Certa vez, disseram-lhes diretamente na inspeção que, enquanto os documentos estivessem a ser tratados, Polina e Artyom seriam temporariamente colocados numa instituição especializada.

Veronika ficou pálida, enquanto Kirill se levantou e colocou as mãos sobre a mesa.

— Não vão colocá-los em lado nenhum.

— Meu senhor, existem procedimentos…

— Os procedimentos existem para ajudar as crianças, não para as arrastar de instituição em instituição.

— Temos camas, comida, seguro de saúde regularizado e um acordo com o jardim de infância.

— De que mais precisam?

— Precisamos que deixe de nos pressionar.

— E eu preciso que uma criança de três anos não acabe durante a noite numa cama estranha, entre pessoas estranhas.

— Está preparada para assumir pessoalmente a responsabilidade por isso?

A funcionária permaneceu em silêncio.

Kirill olhava-a fixamente nos olhos, sem pestanejar.

No dia seguinte, deram-lhes uma autorização temporária para manter as crianças em casa até ao fim da inspeção.

A família contraiu um empréstimo.

Mudaram o papel de parede do quarto das crianças e compraram uma segunda cama, uma secretária para Artyom e um armário.

Inscreveram Polina num jardim de infância com um grupo de terapia da fala.

Inscreveram Artyom em aulas de natação, com as quais ele sonhava ainda quando Zhanna era viva.

Veronika começou a dar aulas particulares em casa, enquanto Kirill regressava quase à meia-noite.

— Vamos conseguir? perguntou ela certa vez, olhando para a pilha de contas.

— Vamos conseguir.

— Fiz as contas.

— Se reduzirmos tudo em vinte por cento e não comprarmos nada desnecessário, dentro de um ano estaremos equilibrados.

— E as férias?

— Daqui a um ano.

— Para algum lugar junto ao mar.

— Polina precisa de iodo.

Kirill e Artyom encontraram inesperadamente uma ligação.

O adolescente passava semanas calado, respondia de forma rude e escondia-se atrás dos auscultadores.

Mas certa noite Kirill ouviu, vindo do quarto dele, um som abafado e sufocado, como se alguém estivesse a estrangular uma almofada.

— Artyom, disse ele baixinho, entreabrindo a porta.

— Veste-te.

— Vamos dar uma volta.

— Para onde?

— É uma da manhã.

— À padaria aberta vinte e quatro horas.

— Tenho fome.

— E Polina?

Kirill virou-se.

A pequena dormia abraçada ao seu cão de peluche.

Veronika dormia ao lado dela para ouvir caso acordasse.

Ele apontou para a porta com a cabeça.

— Vamos.

— Meia hora chega.

Eles atravessaram o pátio vazio em silêncio.

Junto ao quiosque, Kirill comprou dois pães doces e dois pacotes de leite.

Sentaram-se num banco frio debaixo de um candeeiro.

— Artyom, ouve, disse ele, partindo o pão ao meio.

— Tens treze anos.

— És um homem.

— E estás a chorar.

— Isso é normal e está certo.

— Mas não podes fazê-lo à frente de Polina.

— Eu não estou a chorar.

— Estás.

— Eu ouço-te.

— Mordes a almofada.

— E então?

— Se a pequena vir, vai assustar-se.

— Ela ainda não pode ter medo.

— Por isso vamos fazer assim.

— Quando sentires que já não aguentas, bate na minha parede.

— Saímos e vimos até aqui.

— Sentamo-nos e ficamos em silêncio.

— Tu choras o tempo que precisares.

— Eu viro-me de costas.

— Combinado?

Artyom olhou durante muito tempo para o seu pão.

Depois engoliu em seco e assentiu.

Regressaram quarenta minutos depois.

Polina apegou-se imediatamente a Veronika.

Dois meses depois, já gritava por todo o parque infantil:

— Mamã Veronika, olha, estou a descer o escorrega!

No início, Tamara Sergeyevna apertava os lábios.

Depois começou a aparecer com pastéis.

Mais tarde, começou a ir buscar Polina ao jardim de infância.

Um dia, Veronika ouviu a sogra dizer a uma vizinha:

— Os meus netos.

Sem qualquer hesitação.

— Kirill, a tua mãe comprou hoje sapatilhas para Artyom.

— Eu sei.

— Eram caras.

— Eu sei.

— Ela telefonou para perguntar o tamanho.

Um ano depois, viajaram para a Croácia.

Polina viu o mar pela primeira vez.

Artyom riu verdadeiramente pela primeira vez em muito tempo, quando andaram de barco e os salpicos de água lhe batiam no rosto.

Veronika fotografava tudo.

Kirill ficou bronzeado e parecia dez anos mais novo.

Quando regressaram, começaram os comentários.

Primeiro, no trabalho de Veronika.

— Veronika, é verdade que vos pagam quarenta mil por cada criança?

— Quem lhe disse isso?

— Toda a gente sabe.

— Agora já não vivem na pobreza.

— Croácia e tudo isso.

— Pagámos a viagem à Croácia com um empréstimo que ainda vamos pagar durante mais dois anos.

— É isso que diz.

A vizinha do prédio foi ainda mais direta.

Apanhou Veronika junto ao elevador e perguntou em voz baixa:

— Já passaram o apartamento de Zhanna para o vosso nome?

— Ou há algum problema?

— O apartamento de Zhanna pertence a Artyom e Polina.

— Existe uma proibição de qualquer transação até atingirem a maioridade.

— Quer saber mais alguma coisa?

— Eu só perguntei.

— E eu só respondi.

No trabalho de Kirill, perguntaram-lhe diretamente se viviam bem graças às prestações de tutela.

Ele não discutiu nem tentou provar nada.

Apenas olhou para a pessoa e respondeu brevemente:

— Estamos a guardar a pensão de órfãos deles para os estudos universitários de Artyom.

— Até ao último cêntimo.

— Se estiver interessado, posso mostrar-lhe o extrato bancário.

— Vá lá, eu não estava a falar a sério.

— Mas eu estou.

— Não volte a fazer-me perguntas dessas.

Em casa, Veronika encostou a cabeça ao ombro dele.

— Eles pensam mesmo que ficámos com as crianças por causa do dinheiro?

— Que pensem o que quiserem.

— O importante é que Artyom e Polina sabem a verdade.

— Eles sabem?

— Artyom sabe.

— Eu falei com ele.

— Polina simplesmente sente.

Duas semanas depois de regressarem, Veronika sentiu-se mal.

Aconteceu na cozinha.

A cabeça começou a andar à roda, ela cambaleou para o lado e mal teve tempo de se sentar.

Kirill chamou uma ambulância sem ouvir os protestos dela.

Artyom estava no corredor, branco como uma parede, apertando contra si Polina, que estava aterrorizada.

— Veronika, disse ele, agarrando-lhe a manga quando o paramédico já a conduzia até à ambulância.

— A senhora…

— Tu vais voltar?

— Vou voltar.

— Estás a ouvir?

— Vou voltar, com certeza.

— Jura.

— Juro.

No hospital, mantiveram-na lá até de manhã.

Kirill ficou sentado no corredor sem sequer sair para fumar.

Ele não fumava, mas levantava-se por hábito e logo voltava a sentar-se.

Às sete da manhã, a médica saiu.

— É o marido?

— Parabéns.

— A sua mulher está na quinta semana.

— O quê? perguntou Kirill, levantando-se devagar, como se não acreditasse.

— Ela está grávida.

— É uma fase muito inicial.

— Às vezes isso acontece depois de muitos anos de espera, quando o nível de ansiedade diminui.

— O corpo decide que chegou a hora.

Ele não se lembrava de como chegou a casa.

Artyom recebeu-o no corredor, sem ter dormido e com os olhos vermelhos.

Polina espreitava por detrás da perna do irmão.

— O quê? perguntou o adolescente, sem fôlego.

— O que aconteceu com ela?

— Ela está bem.

— Amanhã terá alta.

— Tens a certeza?

— Artyom…

— Vamos ter um bebé.

O adolescente olhou para ele sem perceber.

Depois percebeu.

O seu rosto contraiu-se, primeiro de medo, depois de esperança e novamente de medo.

Ele recuou meio passo.

— Então agora já não precisam de nós?

Kirill aproximou-se dele e colocou uma mão no seu ombro.

Apertou-o com força.

— Artyom.

— Ouve-me de uma vez por todas.

— Tu és meu filho.

— Polina é minha filha.

— O bebé que vai nascer será o terceiro.

— E pronto.

— Ponto final.

— Isso não está em discussão.

— Mesmo?

— Mesmo.

Polina saiu de trás do irmão e puxou Kirill pela perna das calças.

Levantou para ele os seus grandes olhos sérios.

— Papá Kirill, a mamã Veronika volta amanhã?

— Volta, minha pequena.

— Vai voltar, com certeza.

Artyom fungou e virou-se rapidamente para a parede.

Kirill apontou silenciosamente com a cabeça para a porta de entrada, como que sugerindo que fossem até à padaria.

O adolescente assentiu.

Desta vez, Kirill pegou ele próprio em Polina ao colo.

Desta vez, não podiam ir sem ela.

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