No apartamento de três quartos de Galina Ivanovna estava a decorrer uma obra.
Mais precisamente, não uma obra, mas uma “renovação”, como a nora Lenochka gostava de chamar, de forma moderna.

O filho Pavel trouxe Lena para a casa da mãe um ano antes.
Ela era uma rapariga desenrascada, moderna, trabalhava como gestora de vendas e, logo à entrada, declarou:
— Galina Ivanovna, isto aqui é “soviético”.
— Não se consegue respirar.
— É preciso mudar tudo!
— Vamos fazer estilo escandinavo!
— Paredes brancas, o mínimo de móveis, ar!
Galina Ivanovna, uma reformada tranquila, não resistiu.
Ela amava o filho e queria que os jovens se sentissem confortáveis.
Ela deixou que deitassem fora a velha estante, o cristal checo e até os seus ficus preferidos.
Mas havia um objeto em casa pelo qual ela lutava com unhas e dentes.
Era um enorme e pesado tapete de lã com veados, pendurado na parede do seu quarto.
— Lenochka, Pasha, por favor, não lhe toquem, — pedia ela sempre que o assunto do tapete surgia.
— É uma lembrança do meu pai.
— Ele trouxe-o de uma viagem de trabalho ao Turquemenistão há quarenta anos.
— Debaixo dele tive os meus filhos, debaixo dele chorei o meu marido.
— Deixem-no ficar.
Lena, pelas costas, fazia o gesto de girar o dedo na têmpora:
— Pasha, isto é uma vergonha!
— Século XXI, e no centro do apartamento temos este tapete vermelho horrível!
— Ele junta pó!
— Começa-me a alergia por causa dele!
Pavel, habituado a ouvir a esposa em tudo, apenas encolhia os ombros:
— Mãe, é verdade…
— É feio.
— Vamos tirá-lo?
— Só por cima do meu cadáver, — disse Galina Ivanovna com firmeza.
E foi a única vez que ela levantou a voz.
Na quarta-feira Galina Ivanovna foi para a casa de campo — fechar a temporada, cobrir as rosas para o inverno.
Só deveria voltar ao fim da tarde.
Lena andava pelo apartamento, e o olhar voltou a cair no tapete odiado.
— Chega, Pasha!
— A minha paciência acabou! — declarou ela.
— Enquanto ela não está, tiramos esta porcaria.
— Ela chega, grita e depois acalma-se.
— E ainda nos vai agradecer quando vir como ficou espaçoso!
— Lena, talvez não devêssemos?
— Ela pediu… — hesitou Pavel.
— Temos de fazer, temos! — troçou a mulher.
— Ou és homem, ou és um filhinho da mamã.
— Vá, ajuda a enrolar!
Eles perderam uma hora com aquilo.
O tapete era impossível de levantar, pesadíssimo, como se estivesse cheio de chumbo.
— Meu Deus, quanta poeira! — espirrava Lena.
— Que nojo!
— Pesadíssimo, como se tivessem cosido tijolos lá dentro!
Depois de o enrolarem como puderam e o prenderem com fita adesiva, Pavel colocou o embrulho ao ombro e levou-o para o lixo.
— Deixa mesmo junto aos contentores, os sem-abrigo levam para fazer de cama! — gritou-lhe Lena, satisfeita.
Quando Pavel voltou, o quarto brilhava de vazio.
No papel de parede ficou uma mancha mais clara, mas Lena já experimentava ali um poster elegante com abstração.
— Pronto!
— Que bonito!
— Europa! — alegrava-se ela.
Galina Ivanovna voltou às sete da noite.
Entrou no quarto, pousou o saco com maçãs e ficou imóvel.
O olhar dela ficou cravado na parede nua.
Pavel e Lena estavam sentados na cozinha, à espera do escândalo.
Mas não houve gritos.
De repente ouviu-se um baque surdo — o saco tinha caído.
Pavel correu para o quarto.
A mãe estava sentada no sofá, branca como cal, a segurar o coração.
— Onde?.. — perguntou ela quase sem voz.
— Mãe, nós deitámo-lo fora… — começou Pavel, culpado.
— Era velho, tinha traça…
— Deitaram fora? — sussurrou ela.
— No lixo?
— Sim.
— Mãe, não comeces, vamos comprar um novo, melhor!
Galina Ivanovna ergueu os olhos para o filho, cheios de lágrimas e de horror.
— Vocês não deitaram fora um tapete, idiotas…
— Vocês deitaram fora o vosso apartamento.
— Como assim? — não entendeu Lena, que tinha entrado.
— O teu pai… — Galina Ivanovna falava com dificuldade, procurando ar.
— Antes de morrer, nos anos noventa…
— Ele vendeu o negócio.
— Tinha medo dos bandidos.
— Não levou o dinheiro ao banco, eram tempos terríveis.
— Converteu tudo em dólares.
— E cosê-los na forra do tapete.
— Num fundo duplo.
— Lá… lá estão setenta mil dólares.
— Eu guardava-os para vocês, para a hipoteca, queria dar-vos quando nascesse um neto…
Na sala instalou-se um silêncio cortante.
Lena empalideceu tanto que as sardas desapareceram.
— Setenta… mil?! — guinchou ela.
— Mas isso é… isso é cinco milhões!
— Pasha!!!
— Corre!!!
Pavel saiu do prédio como se tivesse levado uma queimadura.
Correu para os contentores, a rezar a todos os santos.
Os contentores estavam vazios.
— Onde está?! — gritou, virando os recipientes vazios.
Aproximou-se o varredor do bairro, tio Misha, que varria folhas.
— Porque estás a gritar, rapaz?
— O tapete!
— Havia aqui um tapete!
— Vermelho, velho!
— Onde é que está?!
— Ah, esse… — cuspiu tio Misha.
— O camião do lixo foi-se embora há meia hora.
— Levaram tudo.
— Os rapazes ainda praguejaram, era muito pesado.
— Para onde foi?!
— Para que aterro?!
— Sei lá eu.
— Provavelmente para o municipal.
— Mas não te metas lá: há montanhas de lixo do tamanho de um prédio de nove andares, e os bulldozers alisam tudo logo.
— Procura vento no campo.
Pavel deslizou pela parede do contentor e caiu na lama.
Setenta mil dólares.
A herança do pai.
O futuro da família.
Tudo isso estava agora a ser prensado por um bulldozer algures na periferia da cidade, misturado com restos apodrecidos e trapos velhos.
Pavel voltou para casa negro de tristeza.
Lena, ao saber que o dinheiro tinha desaparecido, fez uma histeria:
— A culpa é tua!
— Tinhas de verificar!
— Tu!
Galina Ivanovna estava sentada numa poltrona.
Já não chorava.
Olhava para eles com uma calma gelada.
— Rua, — disse baixinho.
— O quê? — Lena engasgou-se a meio do grito.
— Galina Ivanovna, precisamos de fazer um plano, talvez ir ao aterro…
— Rua da minha casa, — repetiu a mãe.
— Os dois.
— Mãe, mas para onde vamos? — gaguejou Pavel.
— O apartamento…
— O apartamento é meu.
— E vocês queriam “Europa”?
— Queriam independência?
— Então vão.
— Aluguem, trabalhem, ganhem dinheiro.
— Eu não quero viver com pessoas que não respeitam nem o meu pedido nem a memória do teu pai.
— Vocês não deitaram fora um tapete.
— Deitaram fora a vossa consciência.
Nessa mesma noite, os jovens foram-se embora.
Alugar casa revelou-se caro, começaram discussões e acusações mútuas.
Seis meses depois, Lena deixou Pavel por um homem mais bem-sucedido, dizendo que “não queria andar com um falhado”.
E Pavel…
Pavel agora vem muitas vezes à casa da mãe.
Pede perdão.
Galina Ivanovna perdoou-o, claro: é mãe.
Mas não volta a pendurar um novo tapete na parede.
A parede agora está vazia.
Como lembrete de que a ganância e a falta de respeito podem esvaziar uma vida num só minuto.
Moral: As coisas antigas às vezes guardam não só pó, mas também história, amor e, por vezes, futuro.
Antes de destruir ou deitar algo fora, pense: será que está a deitar fora, junto com a “tralha”, a sua sorte?
Respeite os pedidos dos pais — eles sabem o que você não sabe.







