— O seu irmão com a família está preparando uma surpresa para vocês, daqui a umas duas horas estarão aí, — avisou a sogra.

Lena estava cortando os legumes para a sopa quando o telefone do marido tocou.

Andrei atendeu, e pelo tom de voz dele ela entendeu na hora: era a sogra ligando.

— Sim, mãe.

— Uhum.

— Tá bom, tá bom.

Lena abaixou o fogo da panela da sopa e se virou.

Andrei já tinha desligado e olhava para ela com uma expressão meio culpada.

Ela conhecia aquele olhar.

Conhecia bem demais.

— O que aconteceu? — perguntou, com a voz controlada.

— Então… é que… — Andrei coçou a nuca.

— O seu irmão com a família está preparando uma surpresa para vocês, daqui a umas duas horas estarão aí, — ele tentou sorrir.

Lena colocou a concha devagar sobre a mesa.

Bem devagar.

E com muito cuidado.

— Daqui a duas horas.

— É.

— A mãe só ficou sabendo agora, eles já saíram.

— Queriam fazer uma surpresa.

— Surpresa, — repetiu Lena, sem a menor animação na voz.

— Andrei, é a terceira vez no mês.

— Terceira.

— Lena, por que você já começa assim… — Andrei se aproximou.

— É família.

— Família, — Lena se apoiou na bancada da cozinha.

— Há duas semanas eles vieram passar o fim de semana.

— Há uma semana “só passaram por duas horinhas”, que viraram jantar, e eles acabaram com tudo o que tinha em casa.

— E agora de novo.

— Lena, por favor, — Andrei chegou mais perto.

— Vamos evitar uma cena.

— É só preparar uma mesa decente.

— Você tem duas horas.

— Eu tenho duas horas, — Lena soltou um riso seco.

— Andrei, e você tem mãos?

— Pernas?

— Você pode ir ao mercado?

— Pode cortar alguma coisa?

— Ou a sua única função é me repassar ordens?

— Pra que falar assim? — ele franziu a testa.

— Eu trabalho, você fica em casa.

— É natural que…

— Que eu cozinhe? — Lena completou por ele.

— Andrei, eu também trabalho.

— Remoto, sim, mas trabalho.

— Tenho prazo depois de amanhã.

— E, no lugar disso, eu deveria largar tudo e correr pela cozinha porque seu irmão decidiu fazer mais uma surpresa?

— Lena, é a minha família!

— E esta é a minha casa! — ela elevou a voz.

— A minha casa, o meu tempo, o meu trabalho!

— Você entende?

— Eu não sou um restaurante grátis para os seus parentes!

Andrei ficou vermelho.

— Então agora a minha família é um bando de aproveitadores?

— É isso que você está dizendo?

— A sua família vem pela terceira vez no mês, — Lena falou devagar, marcando cada palavra.

— Terceira vez.

— Eles não avisam.

— Eles simplesmente aparecem.

— E eu tenho que largar tudo e cozinhar.

— Arrumar a mesa.

— Entreter as crianças.

— Depois lavar uma montanha de louça.

— E no dia seguinte limpar tudo.

— Você já parou para pensar como eu me sinto?

— Eu penso em como o meu irmão vai se sentir se souber que a minha esposa o considera um aproveitador!

— E eu penso em como eu me sinto! — Lena pegou a bolsa que estava pendurada no encosto da cadeira.

— Quer saber de uma coisa?

— Cozinha você.

— Você tem duas horas.

— A internet está cheia de receitas.

— Lena, você… o que você está fazendo?

— Indo embora, — ela já estava vestindo a jaqueta.

— Vou pra casa da Nástia.

— Não quero estragar a festa de família de vocês com a minha presença.

— Lena! — Andrei deu um passo em direção a ela, mas ela já estava abrindo a porta.

— Lena, espera!

— O que eu vou dizer pra eles?!

— Inventa alguma coisa, — ela se virou na soleira.

— Você é criativo, não é?

— Diz que eu passei mal do nada.

— Ou que fui sequestrada por alienígenas.

— Ou diz a verdade: que eu cansei de ser cozinheira dos seus parentes.

A porta bateu.

Andrei ficou parado no meio do corredor, sem acreditar no que estava acontecendo.

Depois voltou para a cozinha.

Olhou para a sopa ainda por terminar.

Para a geladeira vazia — Lena ia ao mercado depois do almoço.

Para o relógio — quinze para as duas.

O irmão com a família deveria estar ali às quatro.

— E você simplesmente foi embora? — Nástia colocou uma xícara de chá na frente de Lena.

— Assim, foi embora?

— Fui embora, — Lena envolveu a xícara quente com as mãos.

As mãos ainda tremiam — de raiva, de mágoa, de tudo ao mesmo tempo.

— Nástia, eu não aguento mais.

— Você entende?

— Eu não aguento.

— Entendo, — Nástia sentou-se à frente dela.

— Lena, ele ao menos percebe o que está fazendo?

— Não, — Lena balançou a cabeça.

— Pra ele isso é normal.

— A mãe dele viveu assim a vida inteira: cozinhava, recebia visitas, servia todo mundo.

— E, pelo visto, gostava.

— Ou simplesmente não sabia que podia ser diferente.

— Mas eu sei!

— E o que ele diz?

— Que é a família dele.

— Que eu tenho que fazer.

— Que, já que eu estou em casa, é natural que eu cozinhe.

Lena deu um sorriso amargo.

— Sabe, ele nem perguntou se eu queria.

— Só mandou.

— “Você tem duas horas.”

— Como se eu fosse uma empregada!

— Homens, — suspirou Nástia.

— Ainda carregam na cabeça imagens patriarcais.

— Mulher no fogão, marido no sofá.

— Eu não sou contra cozinhar, — Lena tomou um gole de chá.

— De verdade.

— Eu gosto de cozinhar.

— Mas quando é escolha minha.

— Quando eu quero.

— Não quando me dão ordens, porque o irmão dele decidiu aparecer de novo.

— E o irmão dele não pode avisar?

— Pode.

— Mas pra quê?

— Eles têm a mim.

— Uma cantina grátis sempre aberta.

Lena pousou a xícara na mesa.

— Sabe o que é o pior?

— Andrei nem entendeu por que eu fiquei com raiva.

— Pra ele isso não é problema nenhum.

— Chegaram parentes — e daí?

— A Lena cozinha, a Lena limpa, a Lena entretém todo mundo.

— E quantos filhos o irmão dele tem?

— Três.

— Cinco, sete e nove anos.

Lena fechou os olhos.

— Entende?

— Eu gosto deles.

— Sério.

— São crianças boas.

— Mas, meu Deus, em meia hora eles destroem o apartamento.

— E o Andrei fica sentado com o irmão, bebe cerveja e fala de futebol.

— E eu corro entre a cozinha e as crianças, tentando cozinhar e, ao mesmo tempo, impedir que elas se machuquem.

— E a cunhada?

— A Kátia? — Lena abriu os olhos.

— A Kátia é ótima.

— Mas ela é visita.

— Ela veio descansar.

— Ela fica na sala, bebe vinho e conta os problemas do trabalho.

— E eu cozinho.

— Porque é a minha casa, então eu sou a anfitriã, então eu tenho que fazer.

Nástia ficou em silêncio.

— Lena, você consegue imaginar o que está acontecendo agora na sua casa?

Lena soltou um sorriso de canto.

— O Andrei está em pânico.

— Me liga — eu não atendo.

— Liga pra você — você não atende.

— Revira a geladeira e vê que está vazia.

— Olha para o relógio e percebe que, em uma hora, chegam visitas.

— E o que ele vai fazer?

— Não sei, — Lena deu de ombros.

— Vai pedir pizza, eu acho.

— Ou vai cozinhar pelmeni.

— Tem um pacote no freezer.

— E como a família dele vai reagir?

— Essa, — Lena sorriu sem alegria, — é uma pergunta interessante.

Dmítri, o irmão de Andrei, estacionou seu SUV em frente ao prédio exatamente às quatro.

A família começou a descer do carro: a esposa Kátia, três crianças, uma montanha de bolsas.

— Tio Andreeei! — gritou o mais velho, Kiríll, e disparou para a entrada.

— Calma, calma, — repreendeu Kátia, mas ela mesma sorria.

Ela adorava surpresas.

Andrei abriu a porta com um sorriso forçado.

Ele conseguiu ir ao mercado, comprar comidas prontas, pizza, frutas.

Conseguiu cozinhar os pelmeni — afinal, é simples.

Conseguiu esquentar a pizza para as crianças.

Mas estava com cara de acabado, havia uma mancha de gordura na camiseta, e o apartamento cheirava a algo queimado.

— Oi, oi! — Dmítri abraçou o irmão.

— A surpresa deu certo?

— Aham, — Andrei respondeu, sem convicção.

— Entrem.

As crianças invadiram o apartamento como um pequeno furacão.

Kátia foi para a sala e olhou em volta.

— E a Lena, cadê?

— A Lena… — Andrei hesitou.

— A Lena não se sentiu bem.

— Foi para a casa de uma amiga.

— Ficou doente? — Kátia franziu a testa.

— É algo sério?

— Não, não.

— Só… dor de cabeça.

— Enxaqueca.

— Você sabe, às vezes ela tem.

Dmítri deu um tapinha no ombro do irmão.

— Não tem problema, homens dão conta!

— Né, Andriúkha?

— Né, — Andrei tentou parecer animado.

Mas quando se sentaram à mesa e Kátia viu os pelmeni comprados, a pizza na caixa e as fatias de embutidos do supermercado, o rosto dela mudou.

— Isso… é tudo?

— Bem, eu estava sozinho, — Andrei sentiu as orelhas queimarem.

— Não deu tempo de fazer muita coisa.

— Vocês entendem.

— Entendemos, entendemos, — Dmítri se apressou em dizer, mas os olhos diziam outra coisa.

O jantar foi tenso.

As crianças comeram a pizza e correram para brincar.

Os adultos mastigavam os pelmeni em silêncio.

Kátia abriu a boca várias vezes, claramente querendo dizer algo, mas desistia.

Dmítri falava pouco.

— Então, quando a Lena volta? — perguntou por fim Kátia, quando as crianças se cansaram e foram para o sofá descansar.

— Não sei, — Andrei admitiu, com honestidade.

— Ela não atende.

— Estranho, — Kátia olhou para o marido.

— Não é, Dmítri?

— Bem… — Dmítri deu de ombros.

— Se a pessoa está passando mal…

— Ela não está passando mal, — soltou Andrei de repente.

A cerveja soltou a língua.

— Ela só não quis cozinhar.

— Disse que estava cansada de visitas e foi embora.

Caiu um silêncio.

— Como assim “não quis”? — disse Kátia lentamente.

— Assim mesmo.

— Disse que vocês vêm vezes demais e que ela não é obrigada a cozinhar.

— E foi pra casa da amiga.

Kátia e Dmítri trocaram um olhar.

— Vezes demais? — a voz de Kátia ganhou um tom metálico.

— A gente incomoda?

— Eu não sei, — Andrei passou as mãos no rosto.

— Eu realmente não sei.

— Ela disse: terceira vez no mês.

— Disse que está cansada.

— Terceira vez no mês é muito? — Dmítri franziu a testa.

— Sério?

— A gente é família.

— Família não visita com hora marcada.

— Eu falei exatamente isso pra ela!

— Sabe, Andrei, — Kátia se levantou da mesa.

— Talvez seja melhor a gente ir mesmo.

— Não quero ser inconveniente.

— Não, não, — Andrei tentou impedi-la.

— Não vão embora.

— A Lena é que está errada, não vocês.

— Talvez ela esteja errada, — Kátia recolhia a louça suja, e em cada movimento dava para ver a mágoa.

— Mas é bem desagradável.

— Saber que você é um peso.

— Kátia, você não é um peso…

— Tá, — Dmítri também se levantou.

— Não vamos fazer um drama.

— Vamos embora amanhã cedo.

— A Kátia tem uma reunião amanhã no almoço, e a gente já planejava sair cedo mesmo.

Eles se espalharam pelos quartos.

Andrei ficou acordado por muito tempo, ouvindo, do outro lado da parede, Dmítri e Kátia conversarem baixo, mas tensos.

Ele entendia que falavam da Lena.

Entendia que falavam dele também.

E isso o deixava péssimo.

De manhã a casa esvaziou rápido, e de um jeito meio constrangedor.

As crianças estavam sonolentas, Kátia era deliberadamente educada e fria, Dmítri estava calado.

Eles foram embora às sete e meia, e Andrei ficou sozinho no apartamento devastado.

Juntou o lixo, lavou uma montanha de louça, limpou a mesa.

Ligou para Lena — de novo ela não atendeu.

Escreveu: “Eles foram embora.

Vem pra casa, precisamos conversar.”

A resposta veio dez minutos depois: “Vou estar aí em uma hora.”

Andrei andava pelo apartamento ensaiando o que ia dizer.

Ele estava com raiva.

Magoadо.

Humilhado diante do irmão.

Mas também estava perdido — porque, pela primeira vez em sete anos de casamento, Lena simplesmente foi embora.

Não discutiu, não tentou convencê-lo, não tentou negociar.

Apenas pegou as coisas e foi.

Ela voltou exatamente uma hora depois.

Parecia calma.

Até demais.

— Oi, — disse ela, tirando a jaqueta.

— Oi, — Andrei cruzou os braços no peito.

— E aí, satisfeita?

— Satisfeita com o quê?

— Com o seu show para a família.

— Eles foram embora hoje cedo.

— A Kátia ficou magoada.

— O Dmítri acha que você não respeita a nossa família.

— Não respeito a sua família, — Lena repetiu, fria.

— Entendi.

— Lena, o que você está fazendo? — ele deu um passo na direção dela.

— Você entende que ele é meu irmão?

— Que ele é minha família?

— Entendo.

— E você não liga, né?

— Não liga que agora eu tenha que me justificar com eles?

— E você se justificou comigo? — Lena ergueu os olhos.

— Quando disse que eu tinha duas horas para preparar a mesa?

— Quando nem perguntou se eu queria que eles viessem?

— Eu não tenho que pedir permissão para convidar meu irmão!

— Você não convidou seu irmão.

— Ele decidiu vir sozinho.

— E você não perguntou se era conveniente para mim.

— Você só me comunicou e mandou eu cozinhar.

— Porque você é minha esposa! — Andrei elevou a voz.

— E é normal que a esposa cozinhe para as visitas!

— É normal quando a esposa cozinha porque quer, — Lena falou baixo, mas firme.

— Não porque mandaram.

— Eu não sou empregada nesta casa, Andrei.

— Ninguém te considera empregada!

— Sério? — ela deu um sorriso curto.

— Então por que você nunca propôs cozinhar comigo?

— Por que nem pensou em receber as visitas você mesmo?

— Por que o seu primeiro pensamento foi: “A Lena vai cozinhar”?

— Porque você cozinha melhor!

— Porque você está em casa!

— Porque é lógico, droga!

— Lógico, — Lena assentiu.

— Então é lógico eu largar meu trabalho?

— É lógico eu perder o meu dia?

— É lógico eu ter que entreter as crianças enquanto você e seu irmão bebem cerveja?

— Lena, você está exagerando…

— Não, — ela balançou a cabeça.

— Eu não estou exagerando.

— Eu só disse “não” pela primeira vez em muito tempo.

— E você não gostou.

— Eu não gostei que você me humilhou diante da família!

— E eu não gostei que você me humilha há anos, me tratando como pessoal de serviço, — Lena foi para a sala e se sentou no sofá.

— Sabe, Andrei, talvez a gente realmente precise conversar.

— Conversar sério.

— Sobre o quê?

— Sobre como a gente vive.

— Sobre o que cada um de nós espera deste casamento.

Lena levantou para ele um olhar cansado.

— Porque eu tenho a sensação de que eu e você vivemos em realidades diferentes.

— Quem vive em outra realidade é você, — ele se sentou em frente.

— Numa família normal a esposa não abandona as visitas e não foge para a casa da amiga!

— Numa família normal o marido não dá ordens à esposa, — rebateu Lena.

— E respeita o tempo e as vontades dela.

— Você não respeita a minha família.

— Se é assim, — Andrei fez uma pausa, — talvez a gente deva pensar em divórcio.

Lena ficou em silêncio por um bom tempo.

Depois assentiu.

— Talvez.

— Quer dizer que você fala sério? — ele não esperava essa resposta.

— E você? — Lena encarou-o.

— Você fala sério, Andrei?

— Porque, se para você esposa é quem cozinha ao primeiro comando, quem serve os seus parentes, quem não tem direito de dizer “não”… então sim.

— Talvez divórcio não seja uma ideia tão ruim.

— Lena…

— Eu não sou empregada, — ela se levantou.

— E eu não quero ser.

— Eu quero ser parceira.

— Quero que me perguntem, e não que me avisem em cima da hora.

— Quero que o meu tempo e o meu trabalho sejam respeitados do mesmo jeito que os seus.

— Eu respeito o seu trabalho!

— Sério?

— Então por que ontem você disse: “Eu trabalho, você está em casa”?

— Como se o que eu faço no remoto não fosse trabalho.

— Como se eu ficasse o dia inteiro sentada esperando receber ordem para cozinhar.

Andrei ficou calado.

Porque, no fundo, era isso mesmo que ele pensava.

Achava que, se a Lena estava em casa, então estava livre.

Que o tempo dela não era tão valioso quanto o dele.

Que ela tinha que estar pronta, a qualquer momento, para largar tudo e cuidar da casa, das visitas, de qualquer coisa.

— Eu preciso pensar, — disse Lena por fim.

— Sobre nós.

— Sobre se eu quero continuar vivendo assim.

— E você, Andrei, também devia pensar.

— Devia mesmo.

Ela foi para o quarto e fechou a porta.

Andrei ficou sentado na sala, olhando para o vazio.

Ontem de manhã ele tinha uma família, uma vida compreensível e habitual, tudo estava no seu lugar.

E hoje, de repente, descobriu que não entendia nada.

Que a esposa dele estava infeliz.

Que o irmão dele estava ofendido.

Que tudo desandou por causa de uma única ligação.

“O seu irmão com a família está preparando uma surpresa”, ele lembrou.

Surpresa.

Pois é, a surpresa foi um sucesso.

Só que não foi nada parecida com o que todo mundo esperava.

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