Ela não sabia que uma única ligação para o meu orientador tiraria do marido dela o título de doutor.
A cinza cinzenta ainda pairava no ar quando o telefone de Igor tocou.

— Alô? — a voz dele tremia.
Eu estava sentada na cozinha e mexia o café.
A cinza de ontem estava em um montinho sobre a mesa — eu deixei de propósito, não limpei.
Que olhe.
— Sim, sou eu… O quê? Que irregularidades?
Igor empalideceu e se deixou cair na cadeira à minha frente.
Eu ergui os olhos da xícara e o encarei com calma.
— Não, eu não entendo… Que dados? De onde?
Agora você entende, pensei, e dei um gole no café.
— Lena, isso tem alguma coisa a ver com você?
Eu dei de ombros:
— Com o quê, exatamente?
— Acabaram de me ligar do conselho de tese.
Disseram que encontraram falsificação de dados no meu doutorado.
Estão exigindo que eu compareça urgentemente à reunião.
— Ah, é mesmo, — eu coloquei a xícara com cuidado na mesa.
— E o que a sua esposa diz?
Igor ficou em silêncio.
Depois virou devagar para o corredor, de onde vinha o barulho da água — a Svetka estava tomando banho.
— Você sabe alguma coisa disso.
— Sei.
— E o que você sabe?
Eu me levantei e fui até a janela.
No pátio, crianças brincavam.
Uma manhã comum de sábado.
Só que ontem à noite tudo tinha sido diferente.
Ontem, 19:30.
Eu cheguei em casa do trabalho, cansada.
Nas mãos, sacolas de supermercado; na cabeça, planos para o fim de semana.
Eu queria cozinhar algo gostoso, talvez chamar amigos.
A porta do apartamento estava entreaberta.
Estranho, pensei.
O Igor devia estar no trabalho, e a Svetka…
— Lena, é você? — veio a voz dela do escritório.
Eu fui até lá e congelei.
No chão estavam os meus diplomas.
O da graduação, o do mestrado, certificados de cursos de aperfeiçoamento.
A Svetka estava de pé sobre eles, com um isqueiro na mão.
— O que você está fazendo?
— Estou tirando o lixo, — ela levantou os olhos para mim.
— Até quando essa papelada vai ocupar espaço?
Eu larguei as sacolas e cheguei mais perto:
— Esses são os meus documentos.
— Documentos? — a Svetka riu.
— Ah, qual é, Lena.
Todo mundo sabe como você conseguiu isso.
Alguma coisa quente subiu no meu peito.
— O que você quer dizer?
— Quero dizer que gente de verdade estuda por anos, e gente como você simplesmente passa.
Por ser bonitinha ou… — ela me lançou um olhar cheio de sentido.
— Você entende.
Eu olhei em silêncio enquanto ela levantava o meu diploma de capa vermelha.
Aquele mesmo pelo qual eu passei quatro anos sem dormir direito, escrevendo trabalhos, fazendo provas.
— São falsos mesmo! — a Svetka estalou o isqueiro.
O papel pegou fogo.
Eu fiquei ali, olhando a chama devorar o meu sobrenome, as minhas notas, a assinatura do reitor.
Olhando transformar quatro anos da minha vida em cinza cinzenta.
— O que você está fazendo?! — o Igor entrou correndo no cômodo.
— Sveta, para com isso!
Mas era tarde.
O diploma já tinha queimado.
— Não tem nada demais, — a Svetka sacudiu a cinza das mãos.
— Só estou abrindo espaço para os seus prêmios.
E esse lixo só junta poeira.
O Igor me olhou, perdido:
— Len, me perdoa por ela.
Ela não pensou…
— Eu pensei muito bem, — a Svetka se levantou e enxugou as mãos numa toalha.
— Nesta casa só podem existir conquistas de verdade.
E não papel falso.
Ela saiu do escritório.
Eu me ajoelhei e juntei a cinza nas mãos.
Os flocos cinzentos grudavam nos meus dedos.
— Lena… — o Igor se agachou ao meu lado.
— Não precisa.
— A gente consegue reemitir os diplomas…
— Não precisa, — repeti, e me levantei.
Na minha cabeça estava tudo muito silencioso.
Como se todos os sons tivessem sumido e restasse apenas um zumbido constante.
O Igor falava alguma coisa, mas eu não escutava.
Eu pensava em outra coisa.
Em como, três anos atrás, a Svetka me pediu para ajudar o Igor com a tese.
Em como eu passei dias e noites revirando bibliografia, procurando dados, conferindo cálculos.
“Len, você é inteligente, e o Igor não tem tempo, as crianças, o trabalho…”
Em como eu escrevi metade dos capítulos para ele.
Em como eu falsifiquei resultados de experimentos que ele nem fez.
Em como eu substituí pesquisas alheias pelo nome dele.
“Ninguém vai checar mesmo, e ele precisa tanto do título para a carreira…”
Em como eu fiquei calada quando ele defendeu e ganhou a promoção.
Quando se gabava do doutorado para os amigos.
Quando a Svetka tinha orgulho do “marido cientista”.
E os meus diplomas, que eu consegui honestamente, viraram “falsos”.
— Lena, fala alguma coisa, — o Igor me sacudiu pelo ombro.
Eu olhei para ele e sorri:
— Está tudo bem.
— Como “tudo bem”?
Ela queimou os seus documentos!
— Não tem nada.
Papel é papel.
O Igor franziu a testa:
— Você está agindo estranho.
— Eu só estou cansada.
Vou preparar o jantar.
Eu saí do escritório levando a cinza nas mãos.
Na cozinha, despejei a cinza num pires e coloquei sobre a mesa.
Depois peguei o telefone.
— Alô, professor Mikhail Petrovitch?
Aqui é a Elena Korshunova… Sim, claro que eu me lembro.
Escute, eu tenho uma informação que pode interessar ao senhor…
Eu falava baixo para não dar para ouvir do chuveiro.
Mikhail Petrovitch — meu orientador no mestrado — agora presidia o conselho em que o Igor tinha defendido.
— É sobre a tese do Morgunov Igor Viktorovitch… Sim, aquela mesma.
Eu tenho provas de falsificação de dados.
A cinza no pires já estava fria.
— Amanhã? Claro, eu levo todo o material.
Eu desliguei e comecei a cortar batatas para o borsch.
As mãos se moviam sozinhas, e na minha cabeça continuava aquele silêncio calmo.
A Svetka saiu do banho meia hora depois.
— E essa fumaça, foi o quê? — perguntou, amarrando o roupão.
— Eu estava tirando o lixo, — respondi sem tirar os olhos do fogão.
— Muito bem.
Porque vocês entulharam a casa inteira com essas papeladas.
Eu mexia o borsch e pensava em como, amanhã cedo, o Mikhail Petrovitch abriria a pasta que eu levaria.
Em como ele veria lá as cópias de todos os capítulos da tese do Igor com as minhas correções, os meus rascunhos das “pesquisas” dele, as mensagens em que eu explicava como falsificar resultados.
— Len, por que você está tão pensativa? — a Svetka se sentou à mesa.
— Nada.
Estou planejando o meu dia de amanhã.
— E o que tem amanhã?
— Uma reunião importante.
O Igor chegou tarde.
No jantar, ele falava de problemas no trabalho, de um novo projeto que lhe deram graças ao título de doutor.
— Aliás, o Mikhail Petrovitch mandou lembranças para você, — ele me disse.
— Encontrei com ele hoje no corredor.
Eu assenti:
— Manda lembranças também.
A Svetka falava de reforma no quarto, de cortinas novas.
Eu ouvia e olhava para a cinza no pires.
Os flocos cinzentos quase já não se mexiam.
Depois do jantar, o Igor foi ver as notícias, e a Svetka foi pintar as unhas.
Eu tirei tudo da mesa, menos o pires.
Fui dormir às onze e meia.
Adormeci na hora e dormi sem sonhar.
Manhã de sábado.
— Lena, me responde, — o Igor me olhava sério.
— O que você sabe sobre a minha tese?
Eu me sentei de novo à mesa:
— Tudo.
— Como assim, “tudo”?
— Você lembra quando, três anos atrás, você me pediu ajuda com o material?
Quando eu virava noites, escrevia capítulos para você, buscava dados?
O Igor ficou calado.
— Você lembra que você não podia fazer os experimentos porque não tinha tempo?
E que eu sugeri… “ajustar” os resultados?
— Lena…
— Você lembra das mensagens em que a gente discutia como falsificar melhor os protocolos?
Eu guardei tudo.
O Igor empalideceu ainda mais:
— Você não podia…
— Ontem, às sete da manhã, eu levei todo o material ao Mikhail Petrovitch.
Ele agora é o responsável pelo conselho onde você defendeu.
— LENA! — o Igor se levantou de um salto.
— Você tem noção do que fez?
Eu terminei o café com calma:
— Tenho.
— Isso é o fim da minha carreira!
Vão me demitir!
Vão tirar o meu título!
— Provavelmente.
— COMO “PROVAVELMENTE”?
Do corredor vieram passos.
A Svetka saía do quarto.
— Que gritaria é essa logo cedo? — ela bocejou e se espreguiçou.
O Igor se virou para ela:
— A sua cunhadinha resolveu se vingar.
Por causa dos diplomas.
— Que diplomas? — a Svetka não entendeu.
— Os que você queimou ontem, — eu me levantei e fui até o pires com a cinza.
— Lembra?
Os “papéis falsos”.
A Svetka olhou para a cinza, depois para mim, depois para o Igor.
— E o que vai acontecer agora?
— Agora todo mundo vai saber de quem é a tese realmente falsa, — eu peguei o pires e joguei a cinza no lixo.
— Pelo visto, os meus diplomas eram verdadeiros.
Mas o título de doutor do seu marido…
O telefone tocou de novo.
O Igor olhou para a tela e não atendeu.
— Eles vão ligar o dia inteiro, — eu disse.
— É melhor atender.
— Lena, a gente pode resolver isso, — a Svetka se aproximou de mim.
— Vamos conversar com calma…
— Conversar? — eu sorri.
— Sobre o quê?
Sobre como você me explicou ontem que gente de verdade estuda por anos?
Ou sobre você dizer que eu consegui diplomas por ser bonitinha?
A Svetka abriu a boca, mas não disse nada.
— Sabe, Sveta, você tinha razão.
Nesta casa, realmente só devem existir conquistas de verdade.
Eu peguei a bolsa e fui em direção à saída.
— Lena, aonde você vai? — perguntou o Igor.
— Ao instituto.
Para dar entrada na reemissão dos diplomas.
Diplomas verdadeiros.
— E nós?
Eu parei na porta:
— E vocês vivam com o que sobrou.
Atrás de mim, ouvi vozes abafadas, mas não quis escutar.
Desci as escadas e saí para a rua.
Lá fora, o sol brilhava.
As crianças ainda brincavam no pátio.
Um sábado comum.
Só que agora eu tinha no bolso o recibo do Mikhail Petrovitch confirmando o recebimento dos materiais para análise.
E, em casa, no lixo, estava a cinza dos meus diplomas.
Diplomas verdadeiros.







