«Você parece uma bibliotecária!» — meu marido, com nojo, me mudou de lugar à mesa para perto do técnico de som, para que eu não o envergonhasse diante da “elite”.
Eu aguentei por duas horas.

Mas quando ele gritou para a segurança: «Levem essa pobretana embora, ela é uma estranha aqui!», do seu lugar se levantou um homem diante de quem a cidade inteira tremia.
Ele não foi até a aniversariante, foi até mim, e disse em voz alta uma frase que fez minha sogra escorregar para debaixo da mesa…
— Você não vai com isso.
Tire.
Você parece uma viúva que veio enterrar o gato amado.
Vadim, com desprezo, beliscou com dois dedos a alça do meu vestido.
Veludo, aliás, vintage, refeito a partir de um figurino teatral da minha mãe.
— Vadik, isso é “Chanel” de oitenta e cinco.
Bem, quase, — tentei sorrir, embora por dentro tudo se apertasse num nó duro.
— É um clássico.
— Isso é coisa velha, Anya!
Coisa velha! — ele elevou a voz, e eu vi uma veia saltar no pescoço.
A mesma veia que pulsava toda vez que ele falava de dinheiro ou da minha “família sem rumo”.
— Hoje é o jubileu da mamãe.
Vai ter gente da prefeitura.
Vai estar lá o próprio Zhdanov!
E você está parecendo… parecendo uma bibliotecária esquecida no arquivo.
Olhei no espelho.
Uma mulher magra, com olhos enormes e assustados, e um fio de pérolas ridículo me encarava.
Talvez ele tenha razão.
Talvez eu esteja mesmo estragando a “imagem” dele.
— E o que eu visto?
O seu preferido rosa com lurex? — não consegui conter a alfinetada.
Era do meu jeito: ironizar quando dá vontade de chorar.
Vadim jogou na cama uma sacola com o logotipo de uma boutique caríssima.
— Vista isso.
A mamãe comprou.
E, pelo amor de Deus, tire essas suas… relíquias de família.
Dentro havia um vestido.
Verde-limão berrante, curto, com um decote tão profundo que dava para esconder nele um livrinho do Brodsky.
— Eu não vou vestir isso, — disse baixinho.
— Eu não sou palhaça.
Vadim se aproximou até encostar em mim.
Ele cheirava a conhaque caro e ao medo dos outros — ele tinha mais medo daquela noite do que eu.
— Você vai vestir o que eu mandei.
Ou vai ficar em casa.
Embora não, em casa você não fica.
Você vai, e vai sorrir.
Mas vai sentar onde eu mandar.
Ele saiu, batendo a porta com tanta força que uma foto do nosso casamento caiu da prateleira.
Eu peguei a moldura.
O vidro havia rachado exatamente no meio, nos separando.
Simbólico.
Eu vesti meu vestido preto.
E prendi a broche da minha avó — um raminho de prata com granadas opacas.
Que eu seja uma viúva.
Hoje eu vou enterrar meu casamento.
O restaurante “Versalhes” fazia jus ao nome cem por cento: havia estuque dourado até nos rodapés, e os lustres de cristal pendiam tão baixos que parecia que queriam provar a salada Olivier.
Os convidados brilhavam.
Minha sogra, Tamara Pavlovna, se erguia no centro do salão como um quebra-gelo nas águas árticas.
Ela usava um vestido de brocado até o chão e tanto ouro que eu temia seriamente pela postura dela.
Vadim me largou na entrada imediatamente.
— Fique aqui, vou cumprimentar as pessoas certas, — resmungou ele e se dissolveu no meio dos paletós reluzentes.
A cunhada, Irochka, veio até mim.
A garota que achava que Anna Akhmatova era uma blogueira das redes sociais.
— Ai, Anjka! — ela me mediu com um olhar que faria o leite talhar.
— Por que você está tão… sombria?
O Vadik não te deu dinheiro para um stylist?
— Eu prefiro beleza natural, Ira.
— Sei, sei.
Escuta, — ela baixou a voz e sorriu de modo predatório.
— A mamãe pediu para eu avisar.
Não sente na mesa principal.
A disposição é: parceiros, investidores, gente importante.
Não tem lugar.
— E onde é o meu lugar? — senti meus dedos ficarem gelados.
— Ali, — ela apontou para o canto mais distante, perto da saída para a cozinha.
— Com os fotógrafos e o técnico de som.
Lá dá para ouvir melhor e… você não atrapalha ninguém.
Ela girou nos saltos e foi embora.
Eu fui para a mesa número 15.
A mesa balançava.
Ao lado havia uma caixa de som enorme, que despejava um grave ensurdecedor.
À mesa estava um técnico de som abatido, mastigando uma tartelete.
— Está livre? — perguntei.
— Senta aí, mãe, — resmungou ele.
— Só não reclama que está alto.
Passou uma hora.
Vadim não olhou para o meu lado uma única vez.
Ele estava à direita da mãe, servia vinho, ria jogando a cabeça para trás.
Ele estava no seu habitat — entre dinheiro, poder e bajulação.
Eu sentava como uma parente pobre do interior, embora tivesse nascido na Fontanka.
Os garçons me ignoravam.
Eles contornavam nossa mesa “técnica” com uma habilidade tal, como se fôssemos invisíveis.
— Moça! — tentei agarrar pelo avental uma garçonete que passava correndo.
— Pode me trazer água?
— Aqui é serviço de banquete, espere a sua vez, — cortou ela, sem nem olhar para mim.
O técnico de som soltou um resmungo.
— Nem tenta.
A gente aqui é decoração.
Quer um sanduíche?
Eu trouxe comigo.
Ele tirou da mochila um pote com sanduíches caseiros.
O cheiro de linguiça me embrulhou o estômago.
Eu olhava para o meu marido.
Ele discutia com fervor alguma coisa com um homem grisalho de terno caro.
O homem ouvia, assentindo preguiçosamente.
De repente, Tamara Pavlovna bateu com o garfo no copo.
O salão se calou.
— Meus queridos! — a voz dela, amplificada pelo microfone, encheu todo o espaço.
— Hoje eu estou feliz.
Aqui estão todos os que eu amo.
Meu filho, minha filha, meus parceiros!
Ela listou os convidados por uns dez minutos.
Meu nome não estava nessa lista.
Eu era apenas “a esposa do Vadim”, um acessório do status dele que hoje decidiram esconder no depósito.
Quando começaram os brindes, eu decidi que precisava ao menos cumprimentar.
Afinal, eu sou uma pessoa educada.
Eu me levantei e, apertando nas mãos uma caixinha com o presente (uma estatueta antiga de porcelana, que eu procurei por seis meses), fui até a mesa principal.
O caminho foi longo.
Eu atravessei um corredor de olhares condenatórios.
Vadim me notou quando eu já estava a poucos metros.
O rosto dele se deformou.
Ele se levantou num pulo, derrubando a cadeira, e bloqueou a minha passagem.
— Aonde você vai? — ele sibilou, para que só os convidados mais próximos ouvissem.
— Eu quero parabenizar a sua mãe, — minha voz tremia traiçoeiramente.
— Sente no seu lugar, — ele apertou meu cotovelo com força, doendo.
— Não me faça passar vergonha.
— Como eu te faço passar vergonha?
Por eu ser sua esposa?
— Por você parecer uma pobretana! — o sussurro virou assobio.
— Olha para você.
Você aqui é estranha.
Você não é ninguém.
A mamãe não quer ouvir as suas bobagens pretensiosas sobre arte.
Sai daqui.
— Vadim, está doendo, — tentei puxar o braço.
— Vai doer quando eu bloquear seus cartões, — ele me empurrou de volta.
— Volta para o seu canto.
E não ouse abrir a boca.
Nesse momento a música baixou — o DJ trocava a faixa.
E a última frase do Vadim soou no silêncio, para o salão inteiro:
— …SAIBA O SEU LUGAR, APROVEITADORA!
VOCÊ SÓ ESTÁ AQUI POR PENA!
Centenas de olhos se voltaram para nós.
Tamara Pavlovna congelou com um pedaço de esturjão no garfo.
Irochka cobriu a boca com a mão, escondendo um sorriso.
Eu estava no meio do salão, e parecia que tinham arrancado a minha pele.
O rosto queimava de vergonha.
Eu queria sumir sob aquele parquet dourado ridículo.
— O que você disse? — perguntei num sussurro, mas no silêncio soou como um grito.
Vadim percebeu que tinha passado do limite, mas não podia recuar diante dos “parceiros”.
Decidiu terminar.
— Eu disse para você não se enfiar no meio de gente normal com seu presente mixuruca.
Saia da minha frente.
Você está estragando a festa.
Garçom!
Levem a senhora, ela está passando mal.
Um segurança veio na nossa direção.
Enorme, como um armário.
— Vamos, — ele roncou, estendendo a mão para mim.
Eu apertei a caixinha com tanta força que o papelão amassou.
As lágrimas que eu segurei a noite inteira espirraram dos meus olhos.
Era o fim.
Não só da noite, mas da vida.
Eu me virei para fugir, mas as pernas não obedeciam.
O salto ficou preso na junção do parquet.
Eu cambaleei.
— Tire as mãos.
A voz era baixa, mas tão autoritária que o segurança recolheu a mão como se tivesse se queimado.
De uma mesa ao lado, escondida na penumbra de uma coluna, um homem se levantou.
Eu o tinha visto de relance — ele estava sozinho, bebendo água, sem falar com ninguém.
Alto, com a cabeça completamente branca e um perfil afiado como navalha.
Ele usava um paletó cinza simples, mas nele caía como não caíam os “Brioni” dos ricos dali.
Ele veio devagar até nós.
O toque da bengala no chão soava como a marcação de um metrônomo.
O salão parou.
Vadim empalideceu.
Tamara Pavlovna se levantou devagar, deixando o garfo cair.
O desconhecido se aproximou de mim.
Nos olhos dele não havia pena.
Havia interesse.
E raiva.
— Vadim, não é? — perguntou ele, sem olhar para meu marido.
— Sim… e o senhor é quem? — Vadim tentou ser valente, mas a voz falhou.
O homem o ignorou.
Ele olhava para o meu broche.
— Trabalho de Fabergé?
Período inicial? — perguntou com suavidade.
— Não, é da oficina Bolin, — respondi automaticamente, fungando.
— Prata, granadas.
Relíquia de família.
Ele sorriu.
Era um sorriso incrível — quente, mudando todo o rosto.
— Sua esposa tem um gosto impecável, rapaz.
Ao contrário de você.
E de todo esse… — ele varreu o salão dourado com a bengala, — …circo.
— Quem o senhor pensa que é? — guinchou minha sogra.
— Segurança!
Por que há estranhos no salão?
O homem grisalho finalmente se virou para ela.
— Tamara, você não me reconhece?
Ou esqueceu quem te deu o primeiro milhão para abrir a sua barraquinha nos anos noventa?
Um sussurro percorreu o salão.
Minha sogra levou a mão ao peito e desabou na cadeira.
— Viktor… Sergeyevich? — murmurou Vadim com os lábios brancos.
— Dono do holding?
Mas o senhor… o senhor estava em Londres!
— Eu vim ver a quem estou passando a gestão da filial, — ele olhou duro para Vadim.
— E eu vi.
Um tirano mesquinho e grosseiro que não vale o mindinho da própria esposa.
Ele se voltou para mim outra vez.
— Anna, certo?
Eu li seus artigos sobre a arquitetura de São Petersburgo.
Uma escrita brilhante.
Ele fez uma leve reverência e me ofereceu o braço.
— Aqui ficou abafado demais por causa de perfumes baratos e gente barata.
Meu carro está na entrada.
Vamos jantar num lugar decente, onde não se grita e não se destrata mulheres.
Ele se inclinou ao meu ouvido e sussurrou a mesma frase que me arrepiou as costas:
— Pegue no meu braço, menina.
E eles vão engolir a língua quando virem quem está com você.
Você agora é uma rainha, e eles são a comitiva.
Olhei para Vadim.
Ele estava de boca aberta, parecendo um peixe jogado na areia.
Olhei para minha sogra, que bebia água convulsivamente.
Endireitei as costas.
Ajeitei o broche “de viúva”.
E coloquei a mão no braço de Viktor Sergeyevich.
O tecido do paletó dele era quente e áspero.
— Com prazer, — disse eu, em voz alta.
Nós fomos até a saída atravessando o salão inteiro.
E o silêncio era tão completo que dava para ouvir o farfalhar do meu veludo “de luto”.
Ninguém ousou soltar um som.
Na porta eu me virei.
Vadim ainda estava no meio do salão, pequeno e miserável no seu terno caro.
Eu não sentia satisfação.
Só alívio.
Eu finalmente tinha enterrado aquele casamento.
E o velório tinha sido um sucesso.







