— Anya, por que você ficou parada desse jeito?
O chá vai esfriar, — Igor empurrou a caneca na direção dela, como se aquilo pudesse suavizar alguma coisa.

Ela se sentou calmamente à frente dele.
Sobre a mesa estava a pasta de couro dele, que ele havia colocado com tanto cuidado como se ela fosse a convidada principal daquela mesa.
Anya sorriu de canto.
— Você parece um mágico, — disse ela.
— Daqui a pouco vai tirar um coelho da manga e dizer que tudo isso é pelo bem comum.
— Eu vim falar sério, sem brincadeiras, — ele bateu com o dedo na pasta.
— Vamos agir como adultos.
Sem histeria, sem lágrimas.
Entramos em acordo e seguimos caminhos separados como pessoas normais.
— Eu sou totalmente a favor de “agir como adultos”, — ela assentiu.
— Eu até comprei biscoitos de adulto, está vendo?
Não foram da seção infantil.
— Escuta, vamos fazer assim, — começou ele em tom prático.
— O apartamento fica comigo.
E o Tëma, bem, você praticamente já cuida dele mesmo, ele está acostumado com você.
É lógico.
Ele fica com você.
Anya tomou lentamente um gole de chá.
Tëma, o filho de sete anos de Igor do primeiro casamento, naquele momento desenhava naves espaciais no quarto ao lado.
Ele a chamava pelo nome, mas a abraçava como se abraça a pessoa mais próxima do mundo.
— Então você está me propondo uma troca, — esclareceu ela suavemente.
— Para você, as paredes; para mim, a criança.
Uma aritmética curiosa.
— Uma aritmética normal, — resmungou ele.
— Eu não sou nenhum monstro, estou pensando no menino.
Com você ele fica melhor.
E eu vou fazer o quê com ele?
Eu tenho uma vida, movimento, negócios.
— Como você é cuidadoso, — ela inclinou a cabeça.
— Um verdadeiro pai do ano.
Pena que não dão medalhas para isso.
— Não seja sarcástica, — ele fez uma careta.
— Eu vim numa boa.
Autora: Vika Trel © 5075
— Igor, eu entendi o que você disse, — falou ela com paciência.
— Só vamos esclarecer uma coisa.
Este apartamento foi presente da minha mãe.
Por escritura de doação.
Antes mesmo de nós nos casarmos.
Você sabe disso, eu te mostrei os documentos.
— Eu lembro desse seu papelzinho, — ele dispensou com um gesto.
— Mas nós moramos aqui juntos.
Eu fiz reforma, coloquei azulejo.
Isso não significa nada?
— O azulejo é maravilhoso, — concordou ela.
— Eu até agradeço pelo azulejo.
Mas azulejo é azulejo, e direito de propriedade é direito de propriedade.
Confundir desejos com fatos é o erro mais caro da vida.
— Lá vem você de novo com suas citações, — ele bufou.
— Eu estou falando da vida real, e você vem com esses sabichões.
— Sabichões às vezes são mais úteis do que parecem, — ela sorriu.
— Especialmente antes de alguém assinar “papelzinhos”.
— Anya, vamos sem isso, — ele começou a se irritar.
— Quero resolver tudo pacificamente.
Você fica com o garoto, eu fico com o apartamento.
Todo mundo sai satisfeito.
— E você perguntou ao Tëma? — ela perguntou em voz baixa.
— Ele ao menos sabe que o pai dele, pelo visto, está trocando ele por um apartamento?
— Ele é pequeno, para ele tanto faz, — cortou Igor.
— Desde que deem comida e coloquem desenho animado.
— Que compreensão profunda da alma infantil, — ela assentiu com falso respeito.
— Você deveria dar palestras.
Poderia chamar o curso de: “Como trocar um filho por metros quadrados em cinco passos simples”.
— Chega, — ele elevou a voz.
— Você está zombando de mim?
— Eu espero que sim, — disse ela seriamente.
— Espero que agora você esteja brincando.
Que eu tenha simplesmente entendido errado, e que agora você diga: “Anya, me desculpe, falei uma besteira”.
Ele ficou em silêncio e olhou para o lado.
E naquele silêncio havia mais resposta do que em quaisquer palavras.
— Sabe, — ela se levantou e recolheu as canecas, — vamos conversar amanhã em outro lugar.
Em território neutro.
Num café onde não haja nem o seu azulejo nem o nosso velho papel de parede.
— Para que um café? — ele desconfiou.
— Para você fazer uma cena na frente dos outros?
— Para você se comportar decentemente na frente dos outros, — corrigiu ela.
— Às vezes isso funciona com você.
Como uma focinheira em cachorro: parece que nem precisa, mas todo mundo fica mais tranquilo.
— Muito engraçado, — ele rangeu.
— Eu me esforço, — respondeu ela.
— Amanhã ao meio-dia.
Eu pago.
Os biscoitos, como você viu, já são de adulto.
*
O café era claro, com mesas redondas e um grande relógio acima do balcão.
Igor chegou mais cedo e escolheu um lugar no canto mais distante, de costas para o salão.
— Está se escondendo? — Anya se sentou à frente dele.
— Ou simplesmente gosta de olhar para a parede?
— Não comece, — resmungou ele.
— Eu pensei sobre a nossa conversa.
— Ah, isso já é progresso, — ela colocou a bolsa sobre os joelhos.
— Pensar é útil.
Enquanto uma pessoa pensa, ela ainda não está perdida.
— Eu consultei algumas pessoas, — disse ele, inclinando-se para a frente.
— Gente que entende do assunto.
Disseram que posso brigar pelo apartamento.
Que essa sua escritura de doação não é tão simples assim.
— Gente que entende do assunto, — repetiu Anya.
— Aqueles da área de fumantes na entrada do prédio ou aqueles que escrevem comentários embaixo de vídeos na internet?
— Não importa, — ele se tensionou.
— O importante é que eu posso.
— Claro que pode, — ela deu de ombros.
— Dá para brigar com qualquer coisa.
Com o vento, com a própria sombra, com as leis da física.
Só que o resultado geralmente é um só: hematomas.
— Você está me subestimando, — sibilou ele.
— Estou te avaliando com exatidão, — disse ela calmamente.
— Sem desconto e sem acréscimo.
Como produto na prateleira.
— Escute bem, — ele começou a falar rápido e com raiva.
— Eu coloquei minha alma naquele apartamento.
Eu morei lá, criei Tëma lá enquanto você mexia nos seus brinquedinhos.
— Dioramas, — corrigiu ela.
— Pequenos mundos de papelão e tinta.
Aliás, foram esses “brinquedinhos” que nos sustentaram no último ano, enquanto você “se movimentava” e “resolvia negócios”.
— De novo você contando dinheiro, — ele se contorceu.
— Ficou mesquinha.
— Eu não sou mesquinha, sou atenta, — ela tomou um gole de água.
— São personalidades diferentes.
O mesquinho conta o que é dos outros.
O atento se lembra de quem pagava a luz.
— Que se dane quem pagava! — ele elevou a voz, mas imediatamente olhou para o salão e baixou o tom.
— O importante é que eu tenho registro de residência lá.
*
— Registro de residência, — ela assentiu.
— Registro e propriedade são, sabe, como vizinho e dono.
O vizinho pode ouvir música alta, mas a casa ainda assim não é dele.
— Você me chamou de vizinho? — os olhos dele se estreitaram.
— Eu te dei uma analogia, — ela sorriu.
— Se doeu, quer dizer que acertei.
— Anya, — ele bateu o punho na mesa, fazendo a colher tilintar.
— Você me acha idiota?
— Deus me livre, — ela ergueu as mãos.
— Eu nunca te achei idiota.
O idiota é ingênuo, bondoso.
Aqui é outra coisa.
— Que “outra coisa”? — ele se inclinou para a frente.
— Terminamos no parque, — disse ela, levantando-se.
— Tëma está esperando.
Prometi a ele os balanços.
Ao contrário de certas pessoas, eu cumpro minhas promessas.
— Você está fugindo da conversa de novo! — ele lançou atrás dela.
— Não estou fugindo, estou transferindo, — respondeu ela por cima do ombro.
— Sente a diferença?
Quem foge são os covardes.
Eu apenas valorizo minha agenda.
Ele a alcançou na saída e a segurou pelo cotovelo.
Ela parou e olhou para a mão dele de um jeito que o fez soltá-la sozinho.
— Nunca mais faça isso, — disse ela em voz baixa.
— Estou falando sério.
Esse é meu único pedido.
— Está bem, está bem, — ele recuou.
— Por que você age como uma gata selvagem?
— Gatos, aliás, são criaturas muito inteligentes, — observou ela.
— Não deixam qualquer um agarrá-los.
Aprenda.
*
No parque, Tëma balançava no balanço com gritos de alegria, enquanto eles se sentavam num banco um pouco afastado.
— Vê como ele está feliz? — disse Anya em voz baixa.
— Agora ele não se importa nada com quem pertence a quem e o que pertence a quem.
Para ele, o importante é que alguém o empurre mais alto.
— Então empurre, — resmungou Igor.
— Você é a boazinha, não é?
— Eu empurro, — ela assentiu.
— Estou empurrando há um ano.
E onde você estava quando ele teve dor de dente às três da manhã?
— Trabalhando, — ele se eriçou.
— Dinheiro não aparece sozinho.
— Dinheiro, não, — concordou ela.
— Mas as dívidas, por algum motivo, aparecem.
Sozinhas.
Algum tipo de magia.
— Você de novo falando de dinheiro! — ele se levantou um pouco.
— O que você tem com esse dinheiro?
— Não sou eu que tenho algo com ele, — respondeu ela calmamente.
— É você que deve a alguém.
E, ao que parece, agora quer resolver a questão com o meu apartamento.
Acertei?
Ele ficou em silêncio.
Fez um movimento brusco com a cabeça e desviou o olhar.
Tëma gritou do balanço: “Anya, olha como estou alto!”
— Muito bem, gatinho! — gritou ela, acenando.
Depois se virou para Igor, e o sorriso desapareceu de seu rosto.
— Então eu acertei?
— Não é da sua conta, — ele rangeu.
— Passou a ser, — disse ela.
— No momento em que você decidiu pagar com algo que não te pertence.
— Anya, seja humana, — ele mudou de tom de repente e falou quase com carinho.
— Você é boa.
Você ama o Tëma.
O que é um apartamento para você?
Você é jovem, vai ganhar outro.
Mas me encurralaram, entende?
Me encurralaram de verdade.
— Agora você está sendo honesto, — ela assentiu.
— Já está ficando mais quente.
Te encurralaram, e você decidiu que havia uma saída conveniente: empurrar a criança para mim, pegar as paredes e tapar o seu buraco.
— E o que tem de errado nisso? — ele abriu os braços.
— O menino é mais importante para você do que os metros quadrados, você mesma disse.
— É mais importante, — concordou ela.
— Só que isso não significa que eu vá te entregar também os metros e pagar pelos seus erros.
Bondade não é estupidez.
São coisas diferentes… ah, desculpe, vou dizer de outro modo: são coisas completamente diferentes.
— Você de novo brincando com palavras, — ele apertou a mandíbula.
— Palavras são tudo o que nos restou, — ela deu de ombros.
— Então pelo menos vou brincar com elas com elegância.
— Sabe o que me irrita? — ele quase cuspiu as palavras.
— Que você está sentada aqui calma, como se tudo estivesse sob controle.
— Mas está sob controle, — disse ela suavemente.
— Só que você ainda não sabe.
— Isso é uma ameaça? — ele se tensionou.
— É uma previsão do tempo, — ela se levantou e chamou: — Tëma, vamos para casa, o sorvete está esfriando!
Quer dizer, está derretendo.
Enfim, precisamos nos apressar!
O menino saltou do balanço e correu até ela, abraçando sua perna.
Ela acariciou o topo da cabeça dele, e naquele gesto havia tudo o que Igor nunca tivera pelo filho.
— Amanhã terminamos, — disse ela a ele.
— Venha à oficina.
Vou te mostrar onde faço meus “brinquedinhos”.
Assim você também vai entender quem de nós, de fato, estava “mexendo”.
*
A oficina estava cheia de mundos minúsculos: montanhas de papel machê, pontes de madeira, figuras do tamanho de uma unha.
Igor entrou e olhou tudo com uma expressão azeda.
— E pagam por isso? — zombou ele.
— Por casinhas de boneca?
— Por histórias, — corrigiu Anya, sem tirar os olhos da mesa.
— As pessoas não compram papelão, compram a sensação de que naquele pequeno mundo tudo está no lugar.
É isso que falta a elas no mundo grande.
— Filosofia de três tostões, — bufou ele.
— Mas é minha, — respondeu ela.
— E não emprestada.
*
— Eu pensei mais uma vez, — ele caminhou entre as estantes.
— Vamos fazer assim.
Você me entrega o apartamento, e eu… eu deixo Tëma oficialmente com você.
Assino os papéis, tudo certinho.
Você o ama, então aí está sua felicidade.
Anya pousou lentamente o pincel.
— Deixe-me adivinhar, — disse ela.
— Prometeram a você que, se houver um “papel”, a questão da dívida será encerrada.
E o menino nesse esquema é só um peso.
Um reboque.
— Você distorce tudo, — ele franziu a testa.
— Eu coloco tudo no lugar, — corrigiu ela.
— Você chama a criança de “reboque”.
Eu só repito em voz alta para que você ouça a si mesmo.
*
— Não se agarre às palavras! — ele começou a se alterar.
— Estou te fazendo uma proposta humana!
— Humana é quando fica bom para os dois, — disse ela.
— No seu caso, “humana” é quando fica bom para você, e eu ainda tenho que agradecer.
— O que você entende de qualquer coisa! — ele cortou o ar com a mão.
— Me encurralaram, e você está aqui sentada com suas figurinhas, respirando tinta!
— Entendo mais do que você pensa, — respondeu ela calmamente.
— Por exemplo, entendo que uma pessoa encurralada ou pede ajuda, ou começa a morder.
Você escolheu morder.
Uma pena.
— E o que mais eu devo fazer?! — ele quase gritou.
— Sair pelo mundo sem nada?!
— Para começar, não jogar seus problemas nos ombros dos outros, — disse ela.
— Um escritor observou: o covarde procura alguém para tapar sua brecha, enquanto o corajoso a tapa com o próprio corpo.
Você, por enquanto, está na primeira categoria.
*
— Você me chamou de covarde? — ele deu um passo mais perto.
— Eu citei, — ela não se moveu.
— As conclusões você tira sozinho.
Viu como é conveniente?
Eu nem sou culpada.
— Você é mesmo venenosa, — ele sorriu com maldade.
— Antes era quietinha.
O que aconteceu?
— Abri os olhos, — disse ela secamente.
— Acontece.
Primeiro você aguenta, espera que a pessoa caia em si.
Depois entende que pode esperar até a aposentadoria, e ela continuará exatamente igual.
— E agora? — ele cruzou os braços.
— Agora parei de esperar, — ela o encarou diretamente nos olhos.
— E sabe, de repente ficou mais fácil respirar.
Até tinta.
*
— Então você não quer resolver numa boa, — ele apertou os lábios.
— Eu quis muito resolver numa boa, — disse ela.
— Durante uma semana eu quis resolver numa boa.
Servi chá para você, comprei biscoitos de adulto, te levei ao café.
E você decidiu que minha suavidade era fraqueza.
Esse é o seu erro mais caro.
— Isso é a ameaça número dois? — ele zombou.
— É o aviso final, — respondeu ela calmamente.
— Depois não serão palavras.
Depois serão documentos.
— Que documentos? — ele ficou alerta.
— Amanhã, — ela pegou novamente o pincel.
— Venha à entrada do prédio às seis.
E traga sua pasta bonita.
Ela será útil para você: vai ter onde guardar a decepção.
*
Noite.
Entrada do prédio dela.
Igor estava parado com a pasta debaixo do braço, batendo o pé.
Anya saiu exatamente às seis, segurando uma pasta plástica fina e transparente.
— Então? — ele deu um passo na direção dela.
— Trouxe o que vai entregar?
— Trouxe, — ela assentiu.
— Só que primeiro vamos registrar a sua versão.
Para depois não haver “eu nunca disse isso”.
— Combinamos assim: o apartamento fica comigo, a criança fica com você, — lembrou o ex com ênfase.
— E é assim que vamos resolver.
Anya assentiu.
E lhe entregou os documentos, onde tudo estava exatamente ao contrário.
*
— O que é isto? — ele arrancou as folhas das mãos dela e começou a correr os olhos pelas linhas.
— Isto… isto…
— Isto é uma cópia da escritura de doação, — enumerou ela calmamente.
— Aquele mesmo “papelzinho”.
O apartamento foi colocado em meu nome pela minha mãe muito antes de nós.
Você não tem relação nenhuma com ele.
Nem azulejo nem registro de residência têm papel algum aqui.
— E isto? — ele apontou para a folha de baixo, e sua voz tremeu.
— Isto é sobre Tëma, — disse ela.
— Ele é seu filho.
Biológico.
De sangue.
Eu não sou parente dele e, juridicamente, não sou ninguém.
Portanto, o menino fica com o pai.
Com você.
Conforme todas as regras.
— Espere… — ele empalideceu.
— Mas você… você o cria, ele está acostumado com você!
— Está acostumado, — ela assentiu.
— Por isso isso é o mais difícil para mim.
Mas foi você quem propôs a aritmética.
Eu só refiz as contas.
— Assim não dá! — ele elevou a voz.
— Para onde eu vou com o garoto?!
Eu tenho dívida, tenho negócios!
— Está vendo? — ela inclinou a cabeça.
— Assim que a criança deixou de ser um “reboque do apartamento” e passou a ser simplesmente seu filho, sem bônus, imediatamente virou um problema.
Obrigada por confirmar em voz alta.
— Anya, o que é isso! — ele começou a falar rápido, suplicante.
— Vamos resolver como seres humanos!
Fique com Tëma!
Você o ama!
— Amo, — disse ela em voz baixa.
— E justamente por isso não vou permitir que ele cresça pensando que pode ser trocado.
Ele precisa de um pai que um dia entenda que um filho não é um fardo.
Talvez esse pai seja você.
Quando amadurecer.
— E o apartamento?! — ele quase engasgou.
— Eu…
— O apartamento é meu, — cortou ela.
— E sempre foi meu.
Você apenas o ocupou temporariamente, como alguém pega o guarda-chuva de outra pessoa na chuva e esquece de devolver.
*
— Você não pode fazer isso comigo! — ele se agarrou à porta da entrada.
— Eu… eu vou ficar sem nada!
— Você fica com seu filho, — corrigiu ela.
— Para uma pessoa normal, isso não é “sem nada”.
Isso é “com tudo”.
— E o que eu vou fazer com ele?! — gritou ele.
— Amar, — disse ela simplesmente.
— Alimentar.
Empurrar o balanço mais alto quando ele pedir.
Sabe, isso não é tão difícil quanto cobrir dívidas dos outros.
E é muito mais barato.
— Você… você armou isso de propósito! — ele sacudiu as folhas.
— Sabia de tudo com antecedência!
— Claro que eu sabia, — respondeu ela calmamente.
*
— Então é assim que você é, — sibilou ele.
— E fingia ser boazinha.
— Eu sou boa, — ela deu de ombros.
— Só que bondade sem limites se chama de outro jeito.
Estupidez.
E eu já passei dessa idade.
— E o que eu faço agora?! — ele se sentou no degrau, abraçando a pasta como se fosse uma boia salva-vidas.
— Para começar, vá buscar Tëma, — disse ela.
— Ele está lá em cima, arrumando a mochila.
Eu disse a ele que o papai estava com muita saudade.
Não faça com que eu pareça mentirosa.
— Você está zombando de mim, — ele expirou.
— Estou te dando uma chance, — corrigiu ela.
— Não por você.
Por ele.
— E minhas coisas? — ele ergueu a cabeça.
— Estão no apartamento.
— Amanhã colocarei tudo em caixas, — disse ela calmamente.
— Com cuidado, eu sei embalar.
Hábito profissional: colocar pequenos mundos em caixas.
Também vou encaixar o seu mundo.
Acho que cabe em uma só.
— Você é mesmo venenosa, — ele sorriu torto, já sem raiva, mais resignado.
— Aprendi com bons professores, — respondeu ela.
— Obrigada pelo curso “como deixar de ser conveniente”.
Saiu caro, mas valeu a pena.
Passos soaram lá de cima, e Tëma apareceu na porta com uma mochila da qual saíam naves espaciais.
— Anya, eu e o papai vamos mesmo passear? — perguntou ele, olhando para ela de baixo para cima.
*
— Vão mesmo, gatinho, — ela se agachou diante dele e ajeitou a alça.
— Agora o papai vai passear muito com você.
E balanços, e sorvete: tudo por conta dele.
Combinado?
— E você? — ele franziu a testa.
— Eu estou sempre por perto, — disse ela.
— Se quiser desenhar o espaço, venha à oficina.
Lá eu tenho um planeta inteiro guardado para você.
O menino assentiu, abraçou-a com força, depois se aproximou do pai e pegou sua mão.
Igor ficou parado, perdido, sem saber o que fazer com aquela pequena palma dentro da sua.
— Segure com mais firmeza, — disse Anya em voz baixa.
— Não solte.
É a única coisa que você realmente tem.
— Anya, — ele se virou já na saída.
— É mesmo o fim?
— É mesmo o começo, — corrigiu ela.
— O seu.
Com seu filho.
Sem dívidas nas costas dos outros.
Uma pessoa escreveu: às vezes, tirar de você o excesso significa devolver a você o essencial.
— De novo citações, — ele sorriu fracamente.
— A última, prometo, — ela sorriu.
— Daqui para a frente, você vai pensar sozinho.
Sem “gente que entende do assunto” da área de fumantes.
Ele saiu, levando Tëma pela mão.
Anya fechou a porta atrás deles e subiu para casa — para suas paredes, para seu pequeno mundo, onde tudo estava em seu devido lugar.
FIM







