— Nós trouxemos batatas, o resto é com vocês, — parentes sem vergonha apareceram nas festas com um “presente” “chiquérrimo”.

Marina já sabia havia muito tempo que não havia esperança — eles viriam.

Viriam com certeza.

As festas de Ano-Novo, para Guennádi Pietróvitch e Zináida Ivánovna, eram como um ímã: eram puxados para o apartamento do filho na cidade com uma força implacável.

— Jênia, — chamou ela o marido, que cochilava tranquilamente diante da televisão, — acho que são os seus.

Evguêni nem abriu os olhos:

— E daí?

São meus pais.

É época de festas.

— Festas, — repetiu Marina e olhou para a geladeira, onde havia comida exatamente para duas pessoas.

Para uma semana.

Ela tinha calculado tudo de propósito, planejado, comprado.

Queria passar férias tranquilas: livros, filmes, cafés da manhã sem pressa.

Sem correria, sem multidões de parentes.

A campainha soou como uma sentença.

— Filhinho!

Marinochka! — Zináida Ivánovna invadiu o hall de entrada de braços abertos, cheirando a frio e a “Krasnaia Moskva”.

— Como é que a gente ia ficar sem vocês em dias assim!

Atrás dela, Guennádi Pietróvitch se espremeu, arrastando uma rede enorme.

— Nós trouxemos batatas, o resto é com vocês, — anunciou animado, pousando a rede bem no chão que acabara de ser lavado.

— E, diga-se de passagem, são selecionadas!

Marina sentiu a indignação crescer por dentro.

Ela olhava para a rede — vinte quilos, no mínimo — e não conseguia dizer uma palavra.

Batatas.

Eles trouxeram batatas.

— Entrem, entrem, — apressou-se Evguêni, ajudando o pai a tirar o casaco.

— A viagem foi boa?

— Foi, mas no trem estava um calor danado, — Zináida Ivánovna já estava tirando as botas.

— Mas foi rápido.

— Marinochka, e o que temos para o jantar? — a sogra já ia para a cozinha, examinando o território com olhar de dona da casa.

— Ih, a geladeira está vazia!

Ainda bem que a gente veio.

Guennádi Pietróvitch, traga as batatas para cá, vamos descascar.

— A gente acabou de almoçar, — tentou dizer Marina.

— Talvez mais tarde?

— Que isso, menina, a gente está com fome da viagem!

E além disso, tem que comemorar a festa direito.

Jênechka, vocês têm frango aí?

Ou pelo menos carne moída?

Vamos fazer batatinha com carne, alguma salada…

Marina ia abrir a boca, mas encontrou o olhar do marido.

Evguêni balançou a cabeça quase imperceptivelmente: não precisa, não se mete.

Vai passar.

São os pais, afinal.

— Tem frango, — cedeu ela.

— Mas era para amanhã…

— Então ótimo! — Zináida Ivánovna já tirava potes da geladeira, espiava o freezer.

— Olha, tem salsicha também!

E queijo!

Guennádi Pietróvitch, dá uma olhada, que linguiça!

Quem diria, ainda dá para achar uma “doutora” gostosa.

A gente não via uma dessas fazia tempo.

“Porque é cara”, pensou Marina.

À noite, a mesa realmente exibia batatas fritas com frango, salada Olivier (que consumiu toda a linguiça e metade da maionese), um prato de queijos e legumes…

Zináida Ivánovna cozinhava comentando o tempo todo:

— Estão vendo como fica bom quando todo mundo está junto!

Família tem que ficar unida.

Marina fatiava o pão e pensava que “junto”, por algum motivo, significava que ela lavava a louça enquanto a sogra dava ordens.

Que a comida dela virava um jantar “de todos”, e o agradecimento ia para as batatas trazidas.

— Marinochka, você não fez pepininhos em conserva? — perguntou Zináida Ivánovna.

— Uma pena, claro.

A gente teria trazido os nossos, mas os potes são pesados.

Guennádi Pietróvitch, lembra que a gente queria?

— Lembro, lembro, — assentiu o sogro, já acomodado no sofá com o celular.

— Mas achamos que a Marina tinha os dela.

Sempre teve, não teve?

— Este ano não deu tempo, — cortou Marina.

— Ah, eu estava contando com isso, — suspirou a sogra.

— Mas tudo bem, a gente se vira.

O importante é que tem batata.

Depois do jantar, quando os pais finalmente se acomodaram na sala (onde deveria ser o ateliê de Marina, mas agora havia um sofá-cama para hóspedes), ela empurrou o marido para a cozinha.

— Jênia, a gente não combinou isso.

— Mari, o que você queria? — ele esfregou o rosto, cansado.

— São meus pais.

É época de festas.

— Você já disse isso.

Mas, Jênia, eles nem ligaram!

Vieram do nada!

— Vieram, e daí?

— E daí que a gente tinha comida para dois.

Para uma semana.

E eles trouxeram batatas e agora comem todo o resto.

— Marina, isso até soa engraçado.

Batata também é contribuição.

— Contribuição? — ela sentiu a voz tremer.

— Jênia, essa batata custa, no máximo, cem rublos.

E eles devoraram comida de três mil.

E vão devorar mais uma semana.

— Não use a palavra “devorar”.

E, além disso, são meus pais.

Você quer que eu diga não para eles?

Marina olhou para ele — Evguêni macio, conveniente, acostumado a evitar conflitos — e entendeu que a conversa era inútil.

Ele não via problema.

Para ele era normal: os pais chegam, a mãe manda na cozinha, o pai lê notícias, e a esposa alimenta todo mundo.

— Você se lembra que eu pedi para você conversar com eles? — perguntou ela baixinho.

— Depois da última vez?

A última vez foi no feriado de maio.

Então, Guennádi Pietróvitch e Zináida Ivánovna apareceram no fim de semana e, em três dias, não só comeram todas as provisões, como também “pegaram emprestado” cinco mil rublos (que, claro, nunca devolveram).

Ao sair, levaram três potes com o resto da comida — “para não estragar”.

— Eu falei, — resmungou Evguêni.

— E o que você disse?

— Disse que, se eles quiserem vir, têm que dar a sua parte.

— E eles trouxeram batatas, — concluiu Marina.

— Entende?

Eles levaram ao pé da letra.

Trouxeram a maldita batata!

— Ora, então é bom que tenham ouvido!

Marina fechou os olhos.

Inútil.

Totalmente inútil.

Os dias seguintes confirmaram seus piores temores.

Zináida Ivánovna se comportava como dona absoluta: acordava tarde, tomava café com o que Marina ia cozinhar para o almoço, dava conselhos de limpeza (“Marinochka, você devia lavar essas cortinas, já ficaram bem cinzas”), assistia TV até de madrugada.

Guennádi Pietróvitch ficava encarando o celular, cochilava e de vez em quando perguntava se não tinha “alguma coisa para beliscar”.

Marina cozinhava.

Lavava a louça.

Ia ao mercado comprar comida — porque o que ela havia estocado para uma semana acabou no terceiro dia.

Sorria.

Aguentava.

No quarto dia, Zináida Ivánovna declarou:

— Marinochka, vamos fazer um jantar de festa de verdade!

Vamos chamar a Taniuchka e o Vova.

Taniuchka e Vova — a irmã mais nova de Evguêni e o marido.

Moravam no bairro vizinho, trabalhavam em dois empregos, alugavam um apê de um quarto e mal fechavam as contas.

Mas, ainda assim, conseguiam visitar o irmão regularmente — “em visita”, como eles chamavam.

— Talvez não seja uma boa… — tentou Marina.

— A gente já está com pouca comida…

— Ah, para!

Família tem que se reunir!

Eu já liguei, eles vêm à noite.

A gente faz algo simples.

Olha, ainda tem meio saco de batata!

Marina sentiu ferver dentro dela algo escuro e mau.

— Zina, essa batata precisa ser descascada, cozida ou frita.

Precisa de outras coisas.

Carne, por exemplo.

— Então vai comprar, — a sogra dispensou com um gesto despreocupado.

— Ou o Jênechka corre lá.

— Com que dinheiro?

— Como com que dinheiro? — Zináida Ivánovna olhou surpresa para a nora.

— Com o de vocês.

Afinal, a gente trouxe as batatas.

E aí Marina explodiu.

— Chega.

Basta. — Ela se levantou e encarou a sogra.

— Zináida Ivánovna, vocês chegaram sem avisar.

Trouxeram batatas que custam uma ninharia e, em quatro dias, consumiram comida de dez mil.

Vocês mandam na minha cozinha, assistem à minha TV, dormem no meu sofá.

E agora ainda convidam gente — para o meu apartamento! — e exigem que eu alimente todo mundo!

— Marinochka, do que você está falando? — Zináida Ivánovna empalideceu.

— Nós somos família…

— Em família as pessoas cuidam umas das outras.

E aqui o que é?

Vocês cuidam de vocês mesmos, e eu tenho que garantir o conforto de vocês?

— Jênia! — gritou a sogra em direção à sala.

— Jênia, vem aqui, sua mulher enlouqueceu!

Evguêni apareceu com o rosto assustado:

— O que houve?

— Houve que eu estou cansada! — Marina sentia a voz falhar, mas já não conseguia parar.

— Cansada de ser empregada!

Cansada de cozinhar, lavar, comprar comida que seus parentes comem sem nem dizer obrigado!

Cansada de usarem minha casa como restaurante e hotel de graça!

— Marinochka, como você pode! — Zináida Ivánovna abriu os braços.

— Nós trouxemos batatas!

— Batatas! — Marina caiu na risada.

— Marina, se acalma, — Evguêni tentou pegar a mão dela, mas ela puxou.

— Não, Jênia.

Não vou me acalmar.

Eu quero que seus pais vão embora.

Agora.

— Você não pode me expulsar! — Zináida Ivánovna se exaltou.

— Este é o apartamento do meu filho!

— Que a gente comprou junto, — respondeu Marina, fria.

— Também com meu dinheiro, aliás.

E eu tenho todo o direito de decidir quem fica aqui.

— Jênia! — a sogra se virou para o filho.

— Você está ouvindo como ela fala comigo?

Evguêni ficou entre a mãe e a esposa, e Marina via como ele se debatia.

Como não conseguia escolher.

E naquele momento ela entendeu que estava cansada não só dos parentes.

Estava cansada dessa fraqueza, desse eterno “ah, mãe”, “ah, são os pais”, “ah, é festa”.

— Se eles não forem embora, — disse ela baixo, — eu vou embora.

Caiu um silêncio pesado.

— Marinochka, que é isso, — Guennádi Pietróvitch apareceu na porta da cozinha.

— Brigar por causa de batata…

— Não é por causa de batata! — gritou Marina.

— É por causa da falta de respeito!

Porque vocês acham normal chegar sem pedir, comer a comida dos outros, mandar e ainda pensar que uma rede de batatas é pagamento digno por uma semana hospedados!

— A gente achou que vocês iam ficar felizes, — murmurou Zináida Ivánovna, perdida.

— Felizes?

Felizes com o quê?

Com meus planos de férias indo por água abaixo?

Com eu ficar no fogão em vez de descansar?

Com eu ser usada?

— Marina, chega, — Evguêni finalmente encontrou forças para intervir.

— Você está passando dos limites.

— Eu? — Ela olhou para ele por um longo tempo.

— Eu estou passando dos limites?

E eles não passam quando invadem a nossa vida?

Quando pegam dinheiro emprestado e não devolvem?

Quando levam do nosso холодильник sacolas de comida?

— Chega, basta, — Guennádi Pietróvitch foi decidido para a saída.

— Zina, vamos arrumar as coisas.

A gente não fica mais aqui.

— É, não vão ficar mesmo, — resmungou Marina.

— Marinochka, — Zináida Ivánovna de repente começou a chorar.

— Como você pode?

Nós somos parentes…

— Parentes se respeitam, — respondeu Marina, exausta.

— E vocês só se aproveitam de nós.

Em vinte minutos, os pais de Evguêni foram embora, levando consigo a tal rede de batatas (Marina fez questão de colocá-la no hall).

O apartamento mergulhou no silêncio.

— Você foi dura demais, — disse Evguêni, por fim.

— E você é mole demais, — respondeu Marina.

— E isso é um problema.

— O que você quer dizer?

— Que eu estou cansada de ser a única pessoa adulta nesta relação.

Você não consegue dizer “não” para seus pais.

Não consegue colocar limites.

Deixa tudo escorrer, esperando que se resolva sozinho.

— É a minha família, — repetiu ele, teimoso.

— E eu também sou sua família, — Marina sentiu uma fadiga selvagem e esmagadora.

— Mas, por algum motivo, os interesses deles para você sempre importam mais do que os meus.

— Não é assim.

— Então por que você não ficou do meu lado?

Por que você ficou calado quando sua mãe mandava na minha cozinha?

Por que você concordou quando ela chamou a Tânia e o Vova sem me perguntar?

Evguêni ficou em silêncio.

— Pois é, — assentiu Marina.

— Porque assim é mais fácil para você.

É mais fácil deixar eu aguentar do que dizer uma verdade incômoda para sua mãe.

Ficaram em silêncio até a noite.

Marina lavou toda a louça — com cuidado, com entrega, como se tentasse lavar não só os pratos, mas toda a mágoa acumulada.

Evguêni ficou na sala, olhando pela janela.

Já de madrugada, ele finalmente se aproximou.

— Desculpa, — disse baixo.

— Você tem razão.

Eu não tinha pensado.

Eu achava que era assim que devia ser.

— Devia ser diferente, — Marina enxugou as mãos e olhou para o marido.

— A gente tem que ser um time.

— Eu entendi. — Ele fez uma pausa.

— E agora?

— Agora você vai ligar para sua mãe e explicar as regras.

Se quiserem vir, que avisem antes.

Que tragam comida de verdade ou pratos prontos, e não batata simbólica.

E que não mandem na minha cozinha.

— Ela vai ficar ofendida.

— Que fique.

Evguêni assentiu e pegou o telefone.

Marina viu como ele discava, como hesitava, procurando palavras.

E, de repente, ela entendeu que não tinha certeza — não tinha certeza se ele conseguiria.

Não tinha certeza se ele teria força para dizer o que precisava.

— Mãe? — a voz de Evguêni tremia.

— A gente precisa conversar.

Marina saiu para a varanda.

A cidade lá embaixo cintilava de luzes, em algum lugar tocava música, alguém ainda comemorava o Ano-Novo.

E eles tinham outra festa — a festa do direito de dizer “não”.

Meia hora depois, Evguêni saiu até ela, triste e pálido.

— Eu falei, — soltou o ar.

— Falei tudo.

Ela chorou.

Disse que foi você que me virou contra eles.

— E?

— E eu disse que foi decisão minha.

Que eu concordo com você.

Marina o abraçou, e eles ficaram assim, no ar frio de janeiro, enquanto lá embaixo alguém gritava: “Feliz Ano-Novo!”

— E se eles nunca mais vierem?

— Então a gente vai até eles.

Com presentes e comida que a gente mesmo leva.

Como adultos indo visitar adultos.

— Por exemplo, com batatas? — Evguêni sorriu de leve.

Eles riram — baixo, cansados, mas de verdade.

— Pois é, de batatas a gente tem o bastante.

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