A geladeira estava vazia.
Valya a escancarou, como se esperasse que atrás da porta se escondesse algo envergonhado, que tivesse escapado ao primeiro olhar.
Seu marido, Gena, pairava atrás dela, respirando em sua nuca.
As crianças, Kirill e Lena, se remexiam atrás dela, e nos olhos delas não se lia curiosidade infantil, mas decepção adulta.
Nas prateleiras, jaziam solitárias algumas maçãs, um pacote de manteiga já aberto, três ovos e um limão esquecido, já murcho de um lado.
— O que é isso? — perguntou Valya com aquela voz usada para falar de algo indecente.
Rimma estava junto à janela, olhando para o jardim.
As macieiras floresciam naquele ano com especial generosidade, e o vento balançava os galhos de tal modo que parecia que as árvores acenavam para alguém que ia embora e demorava muito a voltar.
Ela ouvia cada palavra, ouvia Gena bufar, ouvia a porta da geladeira ranger, novamente escancarada, como se uma segunda inspeção pudesse mudar o conteúdo.
— Rimmochka, e o churrasco? — Na voz de Valya surgiu algo choroso.
— Nós viemos de longe, a estrada é longa, as crianças estão com fome…
— Eu sei, — disse Rimma, sem se virar.
— Então o que vamos comer agora?
Foi então que Rimma finalmente se virou.
Seu rosto estava calmo, como a água em um barril depois da chuva, e havia nessa calma algo que fez Valya se calar de repente.
— Aquilo que vocês mesmos trouxeram.
— Vou servir a vocês o que vocês mesmos trouxeram, — disse a dona da casa com calma, como se falasse do tempo.
— Enquanto isso, sentem-se, vou pôr a chaleira no fogo.
Valya abriu a boca, fechou-a, abriu-a de novo.
Gena mudou o peso de um pé para o outro.
E do lado de fora da janela, no fundo do jardim, já subia uma fumacinha.
Lá, junto à cerca da vizinha, Taisiya Petrovna preparava o carvão.
Tudo começou em março, quando a terra ainda estava coberta de neve cinzenta e ninguém pensava seriamente na dacha.
Rimma Sergeevna tomou sua decisão em silêncio, sem anúncios teatrais.
Simplesmente, certa noite, estava sentada à mesa da cozinha do apartamento na cidade, olhando para a pilha de contas de serviços e pensando que a aposentadoria era pequena, que a dacha precisava de reforma, que a estufa pedia melhorias e que a varanda estava prestes a começar a ceder no canto esquerdo.
Ela pegou uma folha de papel e, com sua caligrafia cuidadosa de professora, escreveu duas colunas: “ficar na cidade” e “mudar para a dacha”.
Sob a primeira coluna, as linhas ficaram vazias.
Sob a segunda, juntaram-se muitas.
Decidiu alugar o apartamento da cidade.
Os inquilinos apareceram rapidamente, pessoas decentes, uma família jovem.
Assinaram o contrato em abril, e já em maio Rimma levou para a dacha as últimas coisas: a máquina de costura, uma caixa de livros, sua querida luminária de mesa com abajur verde.
A dacha era boa.
Uma casa pequena, mas sólida, que ela e o falecido marido haviam construído tijolo por tijolo cerca de trinta anos antes.
Um jardim em que Rimma conhecia cada árvore pelo nome, embora, é claro, macieiras não tenham nomes.
Ela simplesmente se lembrava de qual haviam plantado no ano em que a filha nasceu, e de qual haviam plantado quando compraram o primeiro carro.
Uma horta que, a cada verão, produzia mais do que uma pessoa só poderia comer.
Viver ali era bom.
Silencioso, verde, com outro ar.
O problema veio do lado de onde os problemas sempre vêm nas famílias: dos parentes.
Valya, a irmã mais nova, soube do aluguel do apartamento pela sobrinha, a quem a própria Rimma havia deixado escapar a informação.
Soube, e algo estalou em sua cabeça.
Estalou com precisão, como uma calculadora mecânica contando o que é dos outros.
Telefonou logo no dia seguinte.
— Rimmochka, como você está aí?
— Sozinha, imagino que esteja entediada?
— Nós estamos pensando: talvez venhamos no fim de semana, respirar um pouco de ar puro, mostrar a natureza às crianças.
— Você tem bastante espaço aí, não tem?
Não havia muito espaço.
Mas Rimma disse: venham.
Eles vieram.
Trouxeram a si mesmos, e nada mais.
Comeram tudo o que Rimma conseguira preparar em três dias.
Beberam todo o chá, comeram toda a geleia.
Gena quebrou várias ripas da cerca quando decidiu consertar ele mesmo o portãozinho, e o consertou de tal forma que agora ele só abria com um chute.
As crianças pisotearam o canteiro de rabanetes.
No domingo à noite, foram embora prometendo voltar no fim de semana seguinte.
Voltaram.
E no fim de semana depois daquele.
E de novo.
Em julho, isso virou uma tradição.
Rimma cozinhava, punha a mesa, cuidava da churrasqueira.
Valya comandava.
Gena assistia futebol no telefone, deitado na rede que Rimma havia comprado para si naquele ano e na qual ela mesma ainda não tinha se deitado nem uma vez.
As crianças corriam atrás das galinhas da vizinha do outro lado da estrada, até que ela saísse e as enxotasse.
— Você devia dizer alguma coisa a eles, — dizia Rimma com cuidado a Valya, apontando para as crianças com um gesto.
— E o que eu vou dizer? — Valya dava de ombros.
— Criança é criança, deixa correrem.
— Aqui você tem espaço.
Espaço.
Sim.
Rimma tinha espaço, isso era verdade.
Depois de cada visita dessas, formava-se silêncio na geladeira e vazio na carteira.
Embora não, o dinheiro do aluguel do apartamento entrava regularmente.
Mas Rimma planejava gastá-lo com outra coisa: janelas novas para a casa, isolamento para as paredes, uma grande estufa de policarbonato com a qual sonhava havia vários anos.
Em vez disso, todo fim de semana o dinheiro ia embora em carne, queijos e frutas, que a família devorava com uma velocidade tal que parecia estar se preparando para hibernar.
Pedir dinheiro para a comida era algo que Rimma não sabia fazer.
A educação não permitia.
Sua mãe lhe ensinara: o hóspede deve ser recebido com pão e sal, não importa se você o convidou ou não.
Essa hospitalidade soviética, camponesa, profundamente entranhada na pele, agora trabalhava contra ela mesma.
Ela suportava.
Rimma conhecia Taisiya Petrovna havia muito tempo, uns quinze anos, como vizinha do outro lado da cerca.
Trocavam algumas palavras, às vezes presenteavam uma à outra com mudas, às vezes emprestavam ferramentas.
Antes não havia uma verdadeira intimidade, apenas uma boa vizinhança.
Mas naquele verão algo mudou.
Talvez porque Rimma passara a morar permanentemente na dacha, em vez de vir apenas nos fins de semana.
Talvez porque Taisiya Petrovna também fosse uma mulher solitária, também gostasse de se sentar à noite no jardim com uma xícara de chá, e agora tivesse alguém com quem conversar.
De um jeito ou de outro, começaram a se encontrar junto à cerca cada vez mais, e aos poucos a cerca deixou de ser uma barreira e se transformou em ponto de encontro.
A primeira vez que Taisiya Petrovna falou sobre isso foi em junho, quando mais uma visita de Valya terminou, e Rimma estava junto à cerca com a aparência de uma pessoa que acabara de passar por algo desagradável.
— Sua irmã? — perguntou Taisiya Petrovna, fazendo um gesto de cabeça na direção do carro que ia embora.
— Ela mesma.
— Perdoe-me por me meter onde não fui chamada.
— Mas eu vejo como as coisas funcionam com vocês.
Rimma ficou calada.
O silêncio, por si só, era uma resposta.
— Eles chegam, você cozinha.
— Eles comem, você limpa.
— Eles descansam, você serve.
— Bem, eles são parentes.
— Parentes, — concordou Taisiya Petrovna.
— Só que parente existe de todo tipo.
— Existe aquele que vem e ajuda você.
— E existe aquele que vem e come tudo.
— Você tem o segundo tipo.
Rimma apertou os lábios.
As palavras eram verdadeiras, e por isso eram desagradáveis.
— E o que você propõe?
Taisiya Petrovna ficou calada por um momento, depois estreitou os olhos com certa esperteza.
— Proponho uma coisa.
— Mas precisa ser no momento certo.
— Não se pode declarar guerra antes da hora, entende?
Elas conversaram por muito tempo naquela noite.
Quando Rimma foi para casa, já estava escurecendo, e na grama cantavam os primeiros grilos de verão.
Algo dentro dela se moveu, como se move um ferrolho quando é lubrificado com óleo.
Nas semanas seguintes, Rimma observou a si mesma.
Observou como, por hábito, pegava o telefone quando Valya escrevia “vamos no sábado”.
Como, também por hábito, o pensamento corria para a geladeira: o que comprar, o que cozinhar, como dar tempo.
Como a alegria da dacha, do jardim, das horas tranquilas da manhã com um livro era invariavelmente encoberta pela ansiedade antes de mais uma invasão.
Invasão.
Foi exatamente essa palavra que um dia lhe veio à cabeça, e ela se surpreendeu com sua precisão.
Não visita.
Não chegada.
Invasão.
Com estoques de provisões, tomada estratégica da rede, descanso em território alheio e partida de mãos leves, deixando para trás pratos vazios, toalhas usadas e ripas quebradas.
Numa das noites, quando ela e Taisiya Petrovna assavam berinjelas numa fogueirinha e tomavam chá com hortelã, Rimma disse:
— Acho que estou pronta.
— Para quê? — Taisiya Petrovna já entendia para quê, mas perguntou.
— Para a sua proposta.
A vizinha assentiu.
Não era preciso dizer mais nada.
Elas combinaram tudo com antecedência.
Taisiya Petrovna deveria estar no jardim na hora certa, com a churrasqueira e o carvão.
Todo o resto caberia a Rimma.
O principal era dizer a verdade uma única vez, com calma, sem lágrimas, sem justificativas.
Apenas como um fato.
Alguns dias antes disso, Rimma esvaziou demonstrativamente a geladeira.
Mais precisamente, ela simplesmente parou de fazer compras pensando nos convidados.
Comprou pão, rosquinhas secas, chá e um pouco de manteiga.
Colocou as maçãs numa tigela sobre a mesa.
Era tudo.
Quando, na sexta-feira, Valya escreveu “amanhã vamos, prepare-se, Gena quer churrasco”, Rimma respondeu: “está bem, espero vocês”.
Nada mais.
No sábado, o carro entrou no terreno à uma da tarde.
Dele desceram quatro pessoas: Valya de shorts novos, Gena, Kirill com um tablet e Lena com uma boneca.
Todos com o ar de quem chegou a um restaurante onde a mesa já está posta para eles.
— Então, como você está por aqui? — Valya abraçou Rimma com aquela familiaridade íntima e mandona que ela antes confundia com carinho, mas agora enxergava com mais clareza.
— Chegamos!
— Que calor, não é?
— Crianças, vão lá para fora, nada de ficar paradas dentro de casa.
Gena já olhava na direção da churrasqueira.
— Então, e o churrasco?
— Você marinou a carne?
— Entrem, — disse Rimma.
Ela ficou de lado e observou Valya ir direto para a cozinha.
Observou-a abrir a geladeira.
Observou-a parar imóvel.
A pausa durou muito tempo.
— Rimmochka… — Na voz surgiu aquela entonação que Rimma conhecia desde a infância.
O filho mais velho decepcionado porque o mais novo recebeu algo de um jeito errado.
— Onde está tudo?
— Tudo o quê?
— Bem… os alimentos.
— A carne.
— Você sabia que nós vínhamos.
— Sabia, — concordou Rimma.
Gena se aproximou.
Olhou para dentro da geladeira por cima do ombro da esposa, depois olhou para a cunhada sem entender.
— E então, nem frios tem?
— Não.
— Mas nós… — Valya se virou, e nos olhos dela a perplexidade lutava com a mágoa.
— Nós viemos pela estrada.
— A estrada é longa.
— As crianças estão com fome.
— A estrada não é longa, — disse Rimma com voz uniforme.
— Uma hora e vinte.
Era verdade, e todos sabiam disso.
Mas a verdade, nas conversas com Valya, sempre era percebida como ofensa.
— Então o que vamos comer?! — Gena não aguentou, e em sua voz soou algo que, em outro momento, teria feito Rimma correr para acalmar, explicar, pedir desculpas pela geladeira vazia.
Mas agora ela estava ereta.
Mantinha as mãos tranquilas.
No estômago, algo se contraiu de leve e se soltou.
O silêncio era tão grande que se podia ouvir o carvão estalando no fundo do jardim.
— Você… — Valya olhava para a irmã como se visse uma desconhecida.
— Está falando sério?
— Completamente sério, — disse Rimma.
— Enquanto isso, tomem chá.
— A vizinha está me esperando, hoje vamos fazer churrasco juntas.
— Tenho convidados.
Ela colocou a chaleira no fogão, saiu para a varanda e seguiu em direção à cerca.
Taisiya Petrovna estava junto à churrasqueira com uma espátula longa nas mãos, com uma aparência serena, como a de alguém que cuida da própria vida e não se preocupa com nada.
— Pronto? — perguntou baixinho quando Rimma se aproximou.
— Pronto.
— Como eles estão?
— Em choque.
Taisiya Petrovna assentiu com o ar de uma pessoa cujas suposições foram confirmadas.
Atrás delas, uma porta bateu.
Depois outra vez.
Ouviam-se vozes, palavras que Rimma deliberadamente não tentava distinguir.
Depois bateu a porta do carro.
Uma vez, outra, terceira, quarta.
O motor ligou.
O carro saiu do terreno.
Ninguém se despediu.
Rimma olhava para as brasas, nas quais já avermelhava o coração quente do fogo, e sentia algo para o qual não encontrou nome de imediato.
Não malícia.
Não triunfo.
Algo mais simples e quente, como quando você carrega algo pesado por muito tempo e finalmente o coloca no chão.
— Você acha que ela vai se ofender? — perguntou ela.
— Vai se ofender, — disse Taisiya Petrovna sem hesitar.
— Depois vai telefonar.
— Depois vai fingir que nada aconteceu.
— Gente assim sempre faz isso.
— E o que eu faço então?
— A mesma coisa.
A vizinha lhe passou a pinça.
— Toma, vire.
— Assim.
A carne chiava na grelha, e o cheiro se espalhava por todo o jardim.
As macieiras estavam paradas na luz do entardecer, e suas sombras se alongavam.
— Uma dose? — propôs Taisiya Petrovna, indicando a mesa onde havia uma garrafa embaçada, da cor de groselha.
— Uma dose, — concordou Rimma.
Elas brindaram sem palavras.
Beberam.
Ficaram sentadas em silêncio, um silêncio completamente diferente daquele depois da partida dos convidados.
A noite descia sobre o jardim devagar, como sempre desce em julho, relutando em soltar a luz.
Rimma pegou um espeto, olhou para as brasas e pensou que instalaria a estufa de policarbonato em setembro.
As janelas passariam o inverno, mas a estufa era necessária antes.
E a rede.
Precisava finalmente se deitar na rede.
Quando escureceu, as brasas se cobriram de cinza, e Taisiya Petrovna começou a se preparar para voltar para casa, Rimma de repente percebeu que fazia muito tempo que não se sentava tão bem em seu próprio jardim.
A vizinha caminhava ao longo da cerca, e sua lanterna balançava na escuridão como uma pequena lua.
— Obrigada, — disse Rimma às suas costas.
— Não há de quê, — respondeu Taisiya Petrovna da escuridão.
— Foi você que fez tudo.
Era verdade.
Rimma tirou a mesa, cobriu a churrasqueira, ficou um minuto junto à macieira, escutando como seu jardim vivia na escuridão.
Depois entrou em casa, acendeu a luminária com o abajur verde e pegou o livro que vinha adiando havia umas três semanas.
Do lado de fora da janela, na escuridão, as macieiras farfalhavam, e nenhum carro mais roncava no caminho de entrada.








