💖— Prepare o jantar para doze pessoas, os meus amigos vão chegar — ordenou o marido na sexta-feira à noite. Na manhã de sábado, Dasha pôs a mesa…

Oleg entrou, colocou o saco de compras no chão, mesmo junto à entrada, e encostou-se ao batente da porta.

Dasha estava sentada no sofá, com Sonia a dormir nos braços, coberta por uma manta fina.

A televisão estava ligada sem som.

Eram cerca de nove horas da noite.

— Prepare o jantar para doze pessoas, os meus amigos vão chegar — disse Oleg, com o tom de quem dita uma lista de compras.

— Amanhã, à uma da tarde.

— Kostia com Marina, Lesha com Zhenia, Stiopa e a Alina também vai aparecer.

— Vais dar conta.

Dasha levantou os olhos para ele.

Não ficou surpreendida.

Há muito tempo que deixara de se surpreender com a forma como ele formulava os seus pedidos, sem um ponto de interrogação no final.

— Oleg, amanhã é sábado.

— Eu queria chamar um técnico para ver o cano da cozinha, porque voltou a pingar.

— E a Sonia esteve irritada o dia inteiro, estão a nascer-lhe os dentes.

— O cano pode esperar.

— E a Sonia vai adormecer.

— Tu consegues, consegues sempre.

Ele disse aquilo como se fosse um elogio.

Mas soou como uma nomeação para um cargo que ela nunca escolhera.

— Doze pessoas é muita gente, Oleg.

— Talvez possamos encomendar alguma coisa.

— Ou pedir-lhes que tragam algo.

— Dasha, tenho vergonha de pedir às pessoas que tragam comida.

— Esta é a minha casa.

— Sou eu que convido.

Ela quis dizer: “A nossa casa, que nós alugamos.”

Mas não disse nada.

Colocou Sonia sobre uma almofada, ajeitou a manta e levantou-se.

— O que é que queres exatamente que eu prepare?

— O que achares melhor.

— Tu sabes cozinhar.

— Carne, saladas, alguma coisa quente.

— Não me envergonhes diante das pessoas.

Ele foi para o quarto.

Dasha olhou para o saco de compras junto à porta: um quilo e meio de frango e um pacote de massa.

Para doze pessoas.

Pegou no telefone e ligou ao pai.

— Pai, podes vir amanhã de manhã?

— Com a mãe.

— Preciso que estejam aqui às dez.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não.

— Pelo contrário.

— Acho que chegou a hora.

Houve silêncio do outro lado da linha.

Depois, Viktor disse:

— Estaremos aí.

Quatro dias antes daquela noite, Dasha estava sentada num café em frente a Polina.

Polina mexia o açúcar na chávena e escutava sem interromper.

Sabia ouvir, porque seis anos a viver com o marido em apartamentos alugados lhe tinham ensinado um tipo especial de paciência.

— Ele decide sempre por mim.

— Para onde vamos, decide ele.

— O que comemos, decide ele.

— Quem convidamos, decide ele.

— Sinto-me como uma empregada, Polina.

— Já tentaste dizer-lhe isso diretamente?

— Eu digo.

— Ele ouve-me, mas não me escuta.

— São coisas diferentes.

— Quando lhe peço para discutirmos alguma coisa juntos, ele responde: “Eu só estou a cuidar de nós.”

— E faz uma expressão como se eu fosse uma ingrata.

Polina afastou a chávena e olhou Dasha nos olhos.

— Eu e o Dima vivemos num apartamento de um quarto na rua Severnaya.

— O papel de parede está a descolar-se e os vizinhos de cima fazem barulho até à meia-noite.

— Mas nunca, estás a ouvir, nunca em seis anos ele me deu uma ordem.

— Nunca disse: “Cozinha.”

— Ele diz: “Vamos preparar alguma coisa juntos.”

— É uma moeda completamente diferente, Dasha.

— Eu sei.

— Então porque é que continuas a pagar segundo a taxa de câmbio dele?

Dasha ficou em silêncio.

Polina pousou a mão sobre a dela.

— Tu não ficas porque o amas.

— Ficas porque não tens para onde ir.

— Certo?

— Sonia.

— Nós temos a Sonia.

— Sonia é uma razão para viver bem.

— Não é uma razão para viver mal.

Dasha voltou para casa naquela noite e ficou muito tempo sentada na cozinha, a olhar para a parede onde o papel de parede criava bolhas por causa da humidade.

O apartamento era grande, tinha quatro divisões, tetos altos e ficava num prédio antigo.

Alugavam-no através de conhecidos, pois o proprietário, Arkadi Semionovitch, era um velho amigo da família de Oleg.

A renda era ridiculamente baixa para os preços da cidade.

Oleg orgulhava-se disso.

Dizia: “Fui eu que consegui o acordo.”

Como se fosse ele quem pagava.

No dia seguinte, o pai telefonou.

Não foi Dasha que lhe ligou, foi ele próprio.

— Filha, preciso de falar contigo.

— Não pelo telefone.

Encontraram-se no parque perto da casa dela.

Viktor sentou-se num banco, tirou uma folha dobrada do bolso interior do casaco e abriu-a.

— Falei com Arkadi Semionovitch.

— Através de Boris, o pai de Oleg, sabes que eles se conhecem há muitos anos.

— Arkadi está com problemas sérios.

— Precisa de dinheiro, e rapidamente.

— Está disposto a vender o apartamento que vocês alugam.

— Pai, nós não temos esse dinheiro.

— Vocês não têm.

— Mas eu tenho.

Dasha olhou para ele sem compreender.

— A avó Zoia mudou-se para nossa casa há seis meses.

— Tu sabes.

— A casa dela em Kalinovka estava vazia.

— Eu vendi-a.

— Falei com a tua mãe.

— Ela concordou.

— Vendeste a casa da avó?

— Foi a própria avó que sugeriu.

— Ela disse: “Para que quero paredes sem os meus netos?”

— “Que as paredes fiquem para a minha neta.”

Dasha olhou para a folha.

Era um acordo preliminar.

— Vou comprar este apartamento — disse Viktor.

— E vou passá-lo para o teu nome através de uma doação.

— Não para ti e para Oleg.

— Para ti.

— Pessoalmente.

— Pai…

— Espera.

— Eu não me intrometo na vossa vida.

— Mas vejo como tu vives.

— E a tua mãe também vê.

— A avó Zoia também vê, embora esteja calada.

— Este apartamento não é uma prenda.

— É o teu ponto de apoio.

— O resto decides tu.

Ela abraçou-o.

Não disse nada.

Ele também ficou em silêncio.

As palavras não eram necessárias.

*

Na manhã de sábado, Dasha levantou-se às sete.

Sonia ainda dormia.

Oleg ressonava no quarto, pois tinha-se deitado tarde depois de ver qualquer coisa no tablet até às duas da manhã.

Às nove, Dasha tinha preparado o pequeno-almoço.

Não para doze pessoas.

Para quatro: ela, Sonia, a mãe e o pai.

Na mesa havia panquecas com queijo fresco, enchidos fatiados, legumes frescos e chá num grande bule de cerâmica que ela comprara numa feira antes do casamento.

A mesa estava coberta com uma toalha limpa.

Tudo estava arrumado, silencioso e tranquilo.

Viktor e Nina chegaram exatamente às dez.

Nina pegou imediatamente em Sonia ao colo, e a menina estendeu os braços para a avó e riu.

Viktor colocou junto à porta uma pasta com os documentos.

— Está tudo pronto — disse ele em voz baixa, olhando para a filha.

— Ontem fomos juntos ao notário, e aqui tens os documentos, a certidão e o contrato de doação.

— O apartamento é teu.

Dasha pegou na pasta, abriu-a e leu.

Depois fechou-a.

Colocou-a na prateleira do corredor.

— Obrigada, pai.

— Agradece à avó Zoia.

— E à tua mãe.

Sem se virar, Nina disse da cozinha:

— Não preciso de agradecimentos.

— Preciso de saber que a minha filha e a minha neta têm um teto sobre a cabeça.

— Um teto delas.

— Um verdadeiro lar.

Sentaram-se para tomar o pequeno-almoço.

Estava quente e silencioso.

Sonia estava sentada na cadeira alta e espalhava queijo fresco pelas bochechas.

A mãe servia mais chá.

Viktor barrava manteiga no pão e contava como a avó Zoia tinha aprendido na semana anterior a fazer videochamadas e agora verificava todas as noites se ele tinha jantado.

Às dez e meia, ouviram-se passos no corredor.

*

Oleg saiu do quarto.

Estava ensonado, vestia uma T-shirt amarrotada e tinha a marca da almofada na bochecha.

Viu a mesa posta.

Viu o sogro e a sogra.

Viu que o pequeno-almoço estava preparado para quatro pessoas.

Parou à porta.

— O que é isto?

— Bom dia, Oleg — disse Nina com voz calma.

— Senta-te e come.

— As panquecas ainda estão quentes.

— Estou a perguntar o que é isto.

Ele não se sentou.

Olhou para Dasha.

— Onde está a comida?

— Ontem disse-te: doze pessoas.

— Eles chegam daqui a duas horas.

— Eu não cozinhei para doze pessoas — respondeu Dasha.

A voz dela estava firme.

Nem baixa, nem alta.

Firme.

— O que queres dizer com “não cozinhei”?

— Quero dizer que não cozinhei.

— Preparei o pequeno-almoço para a minha família.

— Para os meus pais.

— Para a minha filha.

— Para mim.

Oleg desviou lentamente o olhar para o sogro.

Ele continuou a comer sem levantar a cabeça.

— Viktor — disse Oleg, com aquele tom especial que usava quando queria mostrar quem mandava.

— Eu respeito-o, mas este não é o momento para visitas.

— Temos uma reunião.

— Peço-lhe a si e à Nina que… saiam.

O sogro pousou cuidadosamente a faca na borda do prato.

Limpou os lábios com o guardanapo.

Só então olhou para Oleg.

— Oleg, eu não vou a lado nenhum.

— E a minha mulher também não.

— Somos convidados da nossa filha.

— No apartamento dela.

— No apartamento de quem?

— Da Dasha.

A pausa foi curta, mas pesada.

— Que disparate estás a dizer? — Oleg riu, mas o sorriso saiu torto.

— Nós alugamos este apartamento ao Arkadi Semionovitch.

— Fui eu que fiz o acordo com ele.

— Arkadi Semionovitch vendeu este apartamento — disse o sogro.

— A mim.

— Há quatro dias.

— Depois passei-o para o nome da Dasha através de uma doação.

— Os documentos estão aqui, se quiseres confirmar.

Oleg ficou imóvel.

Depois virou-se para Dasha.

— Tu sabias?

— Sim.

— E não me disseste nada?

— Não.

— Porquê?

— Porque não terias perguntado a minha opinião.

— Terias dado uma ordem.

— Como fizeste ontem à noite com o jantar.

Oleg recuou um passo.

Depois voltou ao mesmo lugar.

O rosto dele mudou, passando da confusão para a indignação e da indignação para algo parecido com ofensa.

— Decidiste isto pelas minhas costas?

— Tu?

— A minha mulher?

— Eu decidi por mim.

— E pela Sonia.

— Tu não me perguntas quando tomas decisões.

— Estou a aprender contigo.

— Isto é traição — disse ele com raiva.

— Uma verdadeira traição.

— Traição é quando a tua mulher te pede para discutires os planos da família e tu respondes: “Já decidi tudo.”

— Traição é quando me obrigas a servir os teus amigos e nem sequer perguntas se estou cansada.

— Traição é quando dizes aos meus pais para saírem de um apartamento pelo qual nunca pagaste o preço total.

A sogra levantou-se e tirou Sonia da cadeira.

Foi silenciosamente para o quarto mais afastado.

Viktor ficou à mesa.

Oleg tirou o telefone e marcou um número.

— Kostia?

— Já estás a caminho?

— Ótimo.

— Vem.

— Sim, está tudo bem.

— Vem.

Guardou o telefone e olhou para a mulher com a expressão que ela conhecia demasiado bem: uma confiança cheia de desprezo.

Como se já tivesse vencido.

— Quando os rapazes chegarem, vamos discutir tudo.

— Organizaste um circo, está bem.

— Vamos resolver isto entre homens.

— Não há nada para resolver — respondeu Dasha.

— O apartamento é meu.

— Os documentos estão formalizados.

— Podes verificá-los, ligar ao Arkadi Semionovitch ou a quem quiseres.

— Os factos não mudam.

— Achas que um pedaço de papel significa alguma coisa?

— Esse pedaço de papel é a lei, Oleg.

— A lei significa mais do que a tua voz à mesa.

Kostia foi o primeiro a chegar.

Marina estava com ele, a silenciosa e pálida Marina, que nunca contrariava o marido e considerava isso normal.

Ela crescera numa família com seis filhos e estava habituada a que as decisões fossem tomadas por quem falava mais alto.

Depois chegaram os outros.

Lesha, Zhenia e Stiopa.

E Alina, a irmã de Oleg, que sempre apertava os lábios ao ver Dasha, como se lhe oferecessem algo azedo.

O apartamento encheu-se de pessoas.

Oleg ficou no meio do corredor com o ar de quem controlava a situação.

Kostia tirou o casaco e olhou em volta.

— Onde está a mesa?

— Disseste que haveria um jantar de festa.

— Vai haver uma mesa — disse Oleg.

— A Dasha vai preparar.

— A Dasha não vai preparar nada — disse Dasha da cozinha.

Ela estava parada à porta, com o ombro encostado à parede.

Calma.

— A Dasha preparou o pequeno-almoço para os pais.

— Ninguém me pediu um jantar para doze pessoas.

— Deram-me uma ordem.

Kostia olhou para Oleg.

Depois para Dasha.

Depois outra vez para Oleg.

— Oleg, o que se passa?

— A minha mulher decidiu fazer uma exibição.

— O pai dela comprou este apartamento ao Arkadi e colocou-o no nome dela.

— Sem o meu conhecimento.

Alina, que estava junto ao espelho do corredor a fingir que verificava o penteado, virou-se imediatamente.

— Sem o teu conhecimento?

— Ela colocou o apartamento no nome dela sem o consentimento do marido?

— Uma doação não exige o consentimento do cônjuge — disse Viktor da cozinha.

Ele saiu para o corredor e fechou cuidadosamente a porta atrás de si.

— Eu ofereci o apartamento à minha filha.

— É a minha oferta.

— O meu dinheiro.

— O meu direito.

A cunhada abriu a boca para protestar, mas Viktor continuou:

— Alina, lembro-me de como, no último aniversário da Sonia, disseste que a Dasha “se tinha arranjado muito bem”.

— Contaram-me.

— Pois agora ela arranjou-se.

— A sério.

Alina ficou em silêncio.

Kostia e Marina trocaram olhares.

Marina estava junto à parede, apertando a mala contra o peito e olhando para o chão.

Ela ficava sempre assim, como se tentasse ocupar o mínimo de espaço possível.

— Oleg — disse Dasha.

— Eu arrumei as tuas coisas.

— Duas malas.

— Estão no corredor, atrás do armário.

— Lá está tudo de que precisas para sobreviver.

— O resto podes vir buscar quando combinarmos um dia.

— Estás a expulsar-me?

— Estou a pedir-te que saias do meu apartamento.

— Do nosso apartamento!

— Não, Oleg.

— Do meu.

— Posso mostrar-te os documentos.

— Posso lê-los em voz alta.

— Posso ditar-te o número do registo cadastral, se isso te fizer sentir melhor.

Oleg virou-se para os amigos.

Procurava apoio.

Estava habituado a encontrá-lo entre aqueles que sempre acenavam com a cabeça quando ele falava.

Kostia fizera isso durante anos.

— Kostia, estás a ouvir isto?

— Diz-lhe alguma coisa.

Kostia ficou em silêncio por um momento.

Depois respondeu, mas não como Oleg esperava.

— Oleg, conheço-te há dez anos.

— És meu amigo.

— Mas ela tem razão.

— Se o apartamento é dela, ela tem o direito de decidir quem vive nele.

— Estás a falar a sério?

— Estou.

— E, sinceramente, no lugar dela, eu teria feito o mesmo.

— Ontem, ao telefone, disseste à minha frente: “Deixa a Dasha esforçar-se um pouco, vai fazer-lhe bem.”

— Eu não disse nada naquele momento.

— Foi um erro.

Lesha, que estava junto à porta, soltou um pequeno riso.

Zhenia deu-lhe uma cotovelada, mas ele já sorria com aquele sorriso embaraçado que surge quando alguém vê justiça num lugar inesperado.

Stiopa ficou em silêncio, mas olhava para Dasha com respeito.

Era o único de todo o grupo que nunca fizera piadas à custa dela.

Alina aproximou-se de Oleg.

— Oleg, liga ao pai.

— Deixa-o falar com Arkadi Semionovitch.

— Isto não é normal.

— Não se pode deixar as coisas assim.

— Boris Petrovitch já sabe de tudo — disse Viktor calmamente.

— Falei com ele anteontem.

— Ele disse: “Estás a fazer o que é certo.”

— São as palavras exatas dele.

A cunhada ficou pálida.

Oleg também.

— O meu pai sabia?

— O teu pai é um homem sensato, Oleg.

— Ele vê aquilo que tu te recusas a ver.

*

Vinte minutos depois, só Dasha, Sonia, Viktor e Nina ficaram no apartamento.

Os convidados foram embora rapidamente, de forma constrangida e silenciosa, com despedidas breves.

Kostia parou à porta e disse a Dasha:

— És forte.

— A Marina não conseguiria fazer isto.

— Mas talvez um dia consiga.

Marina ficou ao lado dele em silêncio.

Mas, quando saíram para as escadas, Dasha ouviu-a dizer baixinho ao marido:

— Kostia, eu também quero que fales comigo, em vez de me dares ordens.

Kostia não respondeu, mas também não acelerou o passo.

Oleg levou as malas.

Ficou junto ao elevador.

Olhou para a porta fechada.

Não bateu.

Não gritou.

Ficou apenas ali.

Depois foi embora.

Uma hora mais tarde, Alina enviou uma mensagem a Dasha:

“Vais voltar na mesma e pedir perdão.”

Dasha leu, apagou a mensagem e bloqueou o número.

À noite, Polina telefonou.

— A Zhenia contou-me tudo.

— Toda a gente já sabe.

— Dasha, como estás?

— Bem.

— Estou cansada.

— Mas estou bem.

— A Sonia está a rir, os meus pais estão aqui.

— O apartamento é meu.

— O apartamento é teu.

— Parece uma canção.

— Parece um facto.

— Já estou farta de canções.

Polina ficou em silêncio por um momento.

Depois disse baixinho:

— Eu e o Dima alugamos apartamentos há seis anos.

— Sempre que mudamos de casa, penso: “E se o próximo senhorio nos mandar embora?”

— Até agora, tudo se resolveu.

— Mas sabes como é a sensação de o chão debaixo dos pés não ser teu.

— Sei.

— Agora sei a diferença.

— Fico muito feliz por ti.

— A sério.

Dasha desligou.

Aproximou-se da mesa onde os pais tinham tomado o pequeno-almoço naquela manhã.

As chávenas já estavam lavadas e a toalha dobrada.

Nina tinha arrumado tudo enquanto Dasha falava com Oleg.

Viktor estava sentado numa poltrona, no quarto mais afastado, a ler um livro para Sonia.

Sonia não compreendia uma única palavra, mas escutava com uma expressão séria e, de vez em quando, agarrava o dedo do avô.

Dasha sentou-se ao lado dele.

— Pai, vou ter de fazer obras.

— Os canos pingam, o papel de parede está a descolar-se e a instalação elétrica é antiga.

— Vamos tratar disso.

— Não de uma vez, mas vamos tratar.

— O importante é ter as paredes.

— O resto é apenas reboco.

— Não estás arrependido?

— A casa da avó…

— A avó Zoia ligou ontem à noite e disse: “Vitia, diz à Dasha que paredes sem pessoas estão mortas.”

— “E pessoas sem paredes não têm casa.”

— “Eu escolho os vivos.”

— A tua avó é a filósofa da família.

Dasha sorriu.

A mãe espreitou para dentro do quarto.

— Ponho água para o chá?

— Põe — respondeu Dasha.

— Para quatro pessoas.

— Exatamente quatro.

A mãe assentiu e foi para a cozinha.

Um minuto depois, ouviu-se de lá o som suave do bule.

Sonia largou o dedo do avô e estendeu os braços para Dasha.

Ela pegou na filha ao colo.

Apertou-a contra si.

Olhou em volta para os tetos altos com fissuras, para o papel de parede com bolhas e para o velho chão de madeira que rangia a cada passo.

Tudo aquilo era dela.

De verdade.

Não pela bondade de alguém, não por ordem de alguém e não com a permissão de alguém.

O apartamento dela.

A decisão dela.

A vida dela.

Sonia encostou a bochecha ao ombro da mãe e começou a respirar suavemente.

Do outro lado da parede, a avó Nina servia o chá.

Na poltrona, o avô Viktor fechou o livro, recostou-se e fechou os olhos.

Estava tudo em silêncio.

Estava tudo bem.

Era o seu lar.

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