Não vais desmoronar por causa disso, se um ano a gente comemorar o Ano-Novo na tua casa, — disse a sogra com descaramento pela quinta vez seguida.

— E onde é que, na tua opinião, eu vou enfiar três quilos de kholodets? Jogo pela janela? — O telefone já estava quente, mas a voz do outro lado estava ainda mais fervida. — Lena, estás a ouvir-me? Estou a dizer que tenho a varanda entupida de frascos e no frigorífico não há espaço nem para os medicamentos.

Elena prendeu o telefone entre o ombro e a orelha, continuando a esfregar o lava-loiça com bicarbonato de sódio.

A esponja rangia no esmalte, acompanhando a irritação que lhe subia algures na zona do plexo solar.

— Zinaida Petrovna, a nossa mesa tem um metro e meio quando está aberta.

Da última vez, o Pasha ficou sentado num banco no corredor, e a senhora queixou-se de que vinha corrente de ar da janela.

— Ai, não comeces! — interrompeu a sogra.

— Eu até me sento no corredor, se te custa assim tanto arranjar lugar para a tua própria mãe.

Não é a mesa.

É o ambiente.

Aí os tetos são mais altos, respira-se melhor.

E, afinal…

A pausa alongou-se.

Elena endireitou-se e limpou as mãos na toalha.

Havia qualquer coisa estranha naquela pausa.

Normalmente, Zinaida Petrovna falava sem parar, enumerando os seus méritos perante a pátria e a família, e ali — hesitou.

— Não vais desmoronar por causa disso, se um ano a gente comemorar o Ano-Novo na tua casa, — repetiu a sogra com descaramento pela quinta vez seguida, mas agora havia na voz dela uma nota estridente, pouco natural.

— Pronto, eu já comprei o frango.

No dia trinta e um estou aí à hora do almoço.

Dá um abraço ao Pashka.

Bip.

Elena olhou para o ecrã apagado do telemóvel.

Na cozinha cheirava a pó de limpeza e a madeira velha — o cheiro da casa que ela e o Pavel tinham restaurado aos poucos ao longo dos últimos sete anos.

Sem designers, sem equipas de obras.

Foram eles que rasparam o soalho, foram eles que procuraram puxadores de latão nas feiras de velharias.

Era a fortaleza deles.

E essa fortaleza, mais uma vez, iam tentar tomar de assalto.

Mas a estranheza não estava na pressão.

A estranheza estava no motivo.

Zinaida Petrovna adorava o apartamento dela.

Era o museu dela, o templo dela, o pedestal dela.

Um T2 numa “stalinka” com estuques, onde cada tapete estava exatamente segundo o feng shui e o cristal no aparador estava tão apertado que parecia que bastava espirrar para tudo desabar.

Ela nunca deixava levar saladas para casa do filho.

“Vocês não têm os pratos certos, o sabor estraga-se”, dizia antes.

E agora — era ela que insistia.

Pelo quinto ano seguido, sim, mas com uma teimosia assim — pela primeira vez.

A porta do corredor bateu.

Pavel chegou.

Entrou na cozinha, pesado, de ombros largos, com o casaco de trabalho a cheirar a frio e a limalha de metal.

Ele era chefe de turno numa oficina de metalomecânica; as mãos dele estavam sempre um pouco acinzentadas, por mais que as lavasse, e Elena gostava dessas mãos.

Eram mãos fiáveis.

— A mãe ligou? — perguntou ele, sem sequer dizer olá.

Pelo visto, a expressão da mulher disse tudo.

— Ligou.

Disse que não tem onde pôr o kholodets.

No dia trinta e um vai estar aqui.

Com pernoita, ao que tudo indica.

Pavel caiu pesadamente na cadeira, que rangeu de forma queixosa.

— Lena, deixa-a vir.

Tu sabes, a tensão dela sobe e desce, ela tem medo de ficar sozinha.

— Pasha, na semana passada ela andou de esqui no parque.

Que tensão é essa? — Elena pôs um prato de sopa à frente do marido.

— Ela está a esconder alguma coisa.

Quando foi a última vez que estiveste lá?

— Há duas semanas.

Levei-lhe batatas.

Mas nem subi: ela saiu a correr ao portão, apanhou os sacos.

Disse que estava a fazer uma limpeza geral, os pisos estavam molhados, e que eu não devia pisar.

Elena ficou parada com a concha na mão.

— Limpeza?

Zinaida Petrovna não te deixou entrar por causa do chão molhado?

Ela, que te obriga a tirar os sapatos no patamar e a calçar chinelos de feltro?

— Sim.

Tinha pressa, ia a algum lado.

Estava toda… despenteada.

E tinha um casaco novo, por sinal.

Nunca tinha visto.

Bordô, com gola.

— Ela não tem dinheiro para casaco novo, Pasha.

No mês passado pediu-nos para ajudar a pagar as contas.

Pavel encolheu os ombros e levou uma colher de sopa à boca.

— Talvez tenha juntado.

Lena, não procures gato preto.

A mãe quer festa.

Está a envelhecer.

Quer atenção.

Aguentamos uma noite, não somos estranhos.

Ele comia, e Elena olhava para o remoinho no topo da cabeça dele, que nunca ficava no lugar, e sentia dentro de si uma corda a esticar.

A intuição feminina é uma coisa desagradável.

Coça como um mosquito de noite.

No dia seguinte, vinte e nove de dezembro, a cidade estava presa em engarrafamentos.

A neve caía em flocos grandes e pesados, virando papa cinzenta debaixo das rodas.

Elena saiu do trabalho mais cedo — oficialmente para comprar mais presentes, mas na verdade as pernas levaram-na sozinhas ao bairro onde a sogra morava.

Ela não ia espiar.

Só queria… confirmar.

Talvez passar lá, dar os parabéns adiantados, entregar uma caixa de bombons e olhar nos olhos.

O prédio de Zinaida Petrovna erguia-se imponente, com cornijas de estuque de onde pendiam pingentes de gelo perigosos.

As janelas dela, no terceiro andar, estavam escuras.

“Estranho”, pensou Elena.

Às quatro da tarde ela normalmente está a ver novelas.

Elena marcou o código do intercomunicador.

Ninguém respondeu.

Esperou que uma vizinha saísse com um dachshund e entrou a correr.

No patamar cheirava a cebola frita e ao tabaco barato de alguém.

A porta da sogra — maciça, forrada a couro sintético desde os anos noventa — parecia a mesma de sempre.

Elena levantou o dedo para tocar à campainha, mas então ouviu sons do outro lado.

Não havia silêncio.

Havia música.

Alta, ritmada, uma espécie de pop oriental.

E ouviam-se gargalhadas.

Uma risada masculina grosseira e um riso feminino agudo, nada parecido com o tremor senil de Zinaida Petrovna.

Elena recuou.

Será que tinha errado o andar?

Não, apartamento 34.

A plaquinha estava lá.

Ela tocou.

A música não baixou.

Ela tocou de novo, longo e insistente.

Lá dentro mexeram-se, a música cortou.

— Quem é que o diabo trouxe? — trovejou uma voz masculina.

Não era a do Pasha.

Era uma voz estranha, rouca.

A porta escancarou.

Na soleira estava um homem de uns quarenta anos, de camisola interior e fato de treino com joelhos alargados.

Moreno, por fazer a barba, com um dente de ouro que brilhou na penumbra do corredor.

— Quê que queres, com a dona?

Elena ficou tão atónita que se esqueceu de cumprimentar.

— A… a Zinaida Petrovna mora aqui?

— Aqui não há Zinaida nenhuma, — resmungou o homem.

— Enganaste-te na morada.

— Como assim, não há?

Este é o apartamento dela!

Eu sou a nora dela!

Do fundo do corredor, arrastando chinelos, surgiu uma mulher corpulenta de roupão.

— Quem é, Alik?

— Uma gaja aqui, diz que é a nora da dona.

A mulher semicerrrou os olhos e avaliou Elena de cima abaixo — das botas de couro ao gorro.

— Ah, a nora da Petrovna?

Ela não está.

Mudou-se.

— Mudou-se para onde?!

— Sei lá eu.

Alugou-nos a casa até maio, pegou no dinheiro de três meses adiantados e foi-se embora.

Disse que ia morar com os filhos.

Vocês não sabiam?

O chão pareceu balançar sob os pés de Elena.

— Vocês estão a mentir, — disse ela baixinho.

— Ela não podia alugar o apartamento.

Lá estão as coisas dela, o cristal dela…

— O cristal ela pôs em caixas e levou para a varanda, — disse a mulher com indiferença.

— E nós com isso?

Pagámos, há acordo, mesmo que escrito num guardanapo.

Pronto, menina, não faças corrente de ar, o pilaf está a arrefecer.

A porta fechou-se-lhe na cara.

Elena ficou no patamar sujo, a olhar para o revestimento de couro sintético.

Zinaida Petrovna alugou o seu apartamento precioso a uns feirantes do mercado?

Alugou o seu “templo”?

E planeava viver com eles, sem dizer uma palavra?

“Não vais desmoronar por causa disso, se um ano a gente comemorar o Ano-Novo na tua casa…”

Agora a frase soava completamente diferente.

Não “um ano”.

E nem “Ano-Novo”.

Elena voltou para casa quando Pavel já lá estava.

Ele estava sentado na cozinha, a arranjar a torradeira, enfiando uma chave de fendas nas entranhas do aparelho.

— Onde estiveste?

A mãe ligou cinco vezes.

Diz que não atendeste.

Pergunta se temos uma cama dobrável.

Elena tirou o casaco em silêncio e pendurou-o no cabide.

Foi para a cozinha e sentou-se em frente do marido.

— Pasha, pousa a chave de fendas.

Ele levantou a cabeça e viu o rosto pálido dela.

— O que aconteceu?

Um acidente?

Alguém ficou doente?

— A tua mãe alugou o apartamento.

Pavel ficou imóvel.

— O quê?

— Eu estive lá.

Lá moram umas pessoas, o Alik e a mulher.

Disseram que a Zinaida Petrovna recebeu dinheiro de três meses adiantados e disse que se mudava para casa dos filhos.

Ou seja, para a nossa casa.

Para sempre.

Pavel pousou lentamente a torradeira na mesa.

O rosto dele, normalmente calmo e bondoso, começou a escurecer.

— Isto é alguma brincadeira?

Ela não deixava cair uma poeira naquele parquet.

— Não é brincadeira.

Ela levou o cristal para a varanda.

Pasha, ela vendeu a nossa paz por… por quê?

Por dinheiro?

Para que é que ela precisa de tanto dinheiro de uma vez?

— Vou ligar-lhe agora.

Ele pegou no telemóvel, mas Elena cobriu-lhe a mão com a dela.

— Não ligues.

Deixa-a vir.

Amanhã é dia trinta.

Que venha e diga tudo ela mesma.

Se fizermos um escândalo ao telefone, ela vai mentir, virar o jogo, dizer que eu inventei tudo, ou que tem a tensão, ou o coração.

Que venha com as coisas.

No dia trinta e um de dezembro, às dez da manhã, tocaram à campainha.

À porta estava Zinaida Petrovna.

Ela não estava sozinha.

Ao lado dela havia dois sacos enormes aos quadrados, daqueles de feirantes, e uma velha mala soviética.

Ela própria estava naquele casaco bordô que Pavel tinha visto e num gorro novo de vison, torto na cabeça.

— Ora, vamos lá receber os convidados! — gritou ela, mas os olhos fugiam.

— Pashka, por que é que estás aí parado?

Pega nas malas, pesam como os meus pecados.

Aí há conservas, compotas, presentes…

Pavel levantou os sacos em silêncio.

Eles não eram pesados por causa das conservas.

Estavam cheios de roupa.

Quando todos entraram, ficou um silêncio pesado.

Zinaida Petrovna agitava-se, tirava o casaco, elogiava alto o cheiro vindo da cozinha (embora por enquanto cheirasse só a legumes a ferver), mas ninguém lhe dava conversa.

— Sirvam chá à mãe! — explodiu ela por fim, atirando-se para o sofá na sala.

— Cansei-me até cá chegar.

Os taxistas são mal-educados, os preços são um roubo.

Elena saiu da cozinha a limpar as mãos.

Parou no vão da porta.

Pavel estava à janela, de costas para a sala, a olhar para o pátio coberto de neve.

— Zinaida Petrovna, — começou Elena baixinho.

— Para que trouxe as coisas de inverno?

Todas as coisas de inverno?

Eu vi no saco o seu casaco de pele.

A sogra engasgou-se com o ar.

— Bem… está frio.

Nunca se sabe, talvez vamos passear.

— E a roupa de cama?

Três conjuntos?

Também é para passear?

Zinaida Petrovna ficou vermelha às manchas.

Puxou a gola da blusa.

— Que interrogatório é este, Lena?

Eu vim ao meu filho para passar a festa!

— Mãe, — Pavel virou-se.

A voz dele saiu oca, como de um barril.

— Eu sei dos inquilinos.

A Lena esteve lá.

O silêncio ficou a tilintar.

Parecia que se ouvia o relógio a bater na parede.

Zinaida Petrovna murchou, como um balão furado.

Os ombros caíram, a insolência desapareceu, restou só uma mulher velha e assustada numa blusa berrante e ridícula.

— Vocês iam pôr-me na rua, — disse ela de repente, a olhar para o chão.

— Se soubessem logo, punham-me na rua.

Ou começavam a gritar.

— Quem te punha na rua?

Nós? — Pavel deu um passo na direção dela.

— Mãe, tu estás bem da cabeça?

Por que é que alugaste o apartamento?

Tens dívidas?

Estão a chantagear-te?

— Não tenho dívidas! — ela ergueu a cabeça, e nos olhos brilharam lágrimas de raiva.

— É só que… eu quero viver!

Como gente!

— E como vivias? — admirou-se Elena.

— Eu vivia como um rato!

A pensão é uma miséria.

As contas — metade da pensão.

Os remédios — a outra metade.

E eu… eu queria arranjar os dentes!

Dentes a sério, não esta dentadura que bate como castanholas!

Eu queria implantes!

O médico fez as contas: duzentos mil.

De onde é que eu tiro isso?

Vou pedir-te a ti?

A ti, Pashka, que o teu salário não estica e ainda pagam o empréstimo da casa de campo?

E depois apareceram estes… o Alik e a Roza.

Deram logo dinheiro vivo, meio ano adiantado.

Eu pensei: passo o inverno convosco, faço os dentes e volto.

Apertem-se um bocadinho, não somos estranhos!

Eu sou a mãe!

Elena sentou-se na poltrona em frente.

Toda a raiva desapareceu de repente; ficou só uma pena meio enjoada e, ao mesmo tempo, compreensão.

Dentes.

Dentes humanos normais.

Não “negócio”, não “investimento”, não ajuda a “um sobrinho pobrezinho”.

Só a vontade de morder uma maçã sem medo de a dentadura cair.

— Mãe, — Pavel sentou-se ao lado dela no sofá e pegou-lhe na mão.

A mão dela estava seca, com dedos nodosos.

— Por que não disseste?

“Pasha, preciso de dentes.”

Nós dávamos um jeito.

Fazíamos um empréstimo.

— Empréstimo! — bufou ela, limpando o nariz com as costas da mão.

— Vocês já têm dívidas.

E eu… eu queria uma surpresa.

Achei que chegava bonita, com um sorriso de Hollywood.

E aquele médico… disse que primeiro tinha de tratar as gengivas, depois implantar os pinos, depois esperar três meses…

Enfim, foi-se arrastando.

E eu já tinha recebido o dinheiro.

E comprei o casaco…

Por estupidez.

Para não ter vergonha de tirar o velho casaco acolchoado diante do médico.

Na sala voltou a cair silêncio.

Mas agora não era um silêncio a soar; era um silêncio abafado, pesado.

— E onde está o dinheiro agora? — perguntou Elena, prática.

— Cosido no soutien, — resmungou a sogra.

— Metade já dei para a primeira fase.

O resto estou a guardar.

Elena olhou para Pavel.

Ele parecia perdido.

Viver meio ano com a mãe no mesmo apartamento.

Com o feitio dela, os conselhos constantes, a televisão aos berros.

Era uma sentença para a felicidade tranquila deles.

Mas pô-la na rua?

Com o dinheiro no soutien e sem dentes?

— Então, — disse Elena, levantando-se.

— A situação é, claro, péssima.

Zinaida Petrovna, a senhora agiu… como uma aventureira.

De forma tola e arriscada.

Esse seu Alik e a Roza podem estragar o apartamento de tal modo que a reparação sai mais cara do que os dentes.

— Eles prometeram… — começou a sogra.

— Promessa é coisa que se espera anos.

Há contrato oficial?

— Não.

Escrevemos uma declaração num papelinho.

Elena revirou os olhos.

— Pasha, depois das festas vais lá, vês como está tudo.

Mudas a fechadura de um quarto, trancas lá as coisas valiosas, se ainda estiverem inteiras.

E vais controlá-los todas as semanas.

Ela aproximou-se da janela, olhando para o céu cinzento além do vidro.

— E a senhora, Zinaida Petrovna, fica aqui.

Mas com condições.

A sogra ergueu-se, e nos olhos apareceu um brilho de combate.

— Condições de quê?

Na tua casa é que pões condições?

— Esta é a minha casa, — cortou Elena, calma mas firme.

Virou-se e olhou a sogra bem entre os olhos.

— E as condições são estas: na cozinha mando eu.

Não quero ouvir conselhos sobre como fazer borsch ou como passar as camisas do Pasha.

A senhora trata dos seus dentes e… tricota.

— Eu quê?

— Tricota.

Eu vi, a senhora faz meias excelentes.

No trabalho do Pasha os homens congelam na oficina.

Faça umas dez pares para vender — fica com um extra na pensão.

Não vai ficar sentada sem fazer nada e a chatear-nos.

Zinaida Petrovna abriu a boca para protestar, mas olhou para o filho.

Pavel não disse nada, mas olhava para a mulher com uma expressão… de gratidão e respeito, que as palavras ficaram presas na garganta da mãe.

— Está bem, — resmungou ela.

— Meias, então meias.

Mas comprem lã decente, não sintética.

A noite de trinta e um.

A mesa acabou por ficar montada, e tiveram de encostar o sofá à parede.

A árvore de Natal piscava luzes coloridas, refletidas na janela escura.

Na mesa estava o kholodets — aqueles mesmos três quilos que Zinaida Petrovna trouxe nos frascos.

Estava um pouco turvo, com alho cortado em pedaços grandes, não tão perfeito como o da Elena, mas Pavel comia com gosto, barrando mostarda numa camada grossa.

A televisão resmungava qualquer coisa sobre “A Ironia do Destino”.

Zinaida Petrovna, já de roupão (aquele que Elena lhe deu), sentava-se à cabeceira.

Parecia cansada, mais velha, sem a armadura habitual de insolência e pose.

Agora, sem maquilhagem, com o cabelo ralo, parecia apenas uma mulher idosa, com muito medo da solidão e da velhice, que fez uma asneira ao tentar fugir desse medo.

— Ficou saboroso, Lena, — disse ela de repente, provando a salada “Mimosa”.

— Escaldaste a cebola?

— Escaldei, — acenou Elena.

— Certo.

Eu sempre disse: o amargo tem de sair.

Pavel levantou a taça de champanhe.

— Vá, vamos despedir-nos do ano velho.

Que todas as asneiras fiquem nele.

— E todos os inquilinos, — acrescentou Elena, brindando com o marido.

Zinaida Petrovna suspirou e tilintou o copinho dela contra as taças deles.

— Vá lá, não exagerem.

Ao menos os dentes vão existir.

Vou sorrir como uma estrela de cinema.

— Vais, mãe, vais, — sorriu Pavel.

Nesse momento, lá fora, rebentou o primeiro fogo-de-artifício.

Os clarões coloridos iluminaram a sala, destacando os rostos: o rosto cansado de Pavel, o rosto tranquilo de Elena e o rosto confuso e feliz de Zinaida Petrovna.

Elena olhou para a sogra e pensou que meio ano é, claro, muito tempo.

Vai haver discussões, ofensas, sermões sobre como viver direito.

Mas agora, naquele instante, ela sentia um calor estranho.

Como se uma pedra enorme, espinhosa e desconfortável, que pairava sobre eles, tivesse caído e afinal não fosse uma pedra, mas apenas um saco de batatas.

Pesado, empoeirado, mas deles.

— Pash, — disse Elena quando as badaladas começaram.

— Eu vou comprar-lhe lã boa.

Merino.

Que tricote.

Zinaida Petrovna apertou os lábios para esconder o tremor do queixo e estendeu a mão para as sardinhas.

— Merino… olha-me esta.

Compra lã normal de ovelha, é melhor para as articulações.

Eles passaram o Ano-Novo.

A vida continuou — difícil, absurda, sem brilho e sem efeitos especiais, mas verdadeira.

E, nesta vida, às vezes era preciso aguentar os erros dos outros para salvar algo mais importante do que metros quadrados e silêncio.

Humanidade, talvez.

Os dias depois das festas seguiram-se numa sequência preguiçosa.

O apartamento, habituado ao silêncio de dois, encheu-se agora de sons.

Zinaida Petrovna tossia de manhã, mexia o chá alto com a colher, arrastava os chinelos.

Mas o mais surpreendente foi que ela cumpriu a palavra.

Quase não se meteu na cozinha.

No dia sete de janeiro, Pavel foi “ver como estava” o apartamento da mãe.

Voltou duas horas depois, furioso como o diabo, com o lábio aberto.

Elena soltou um grito e correu buscar a caixa de primeiros socorros.

Zinaida Petrovna, ao ver o filho, levou a mão ao coração (desta vez, de verdade).

— Pashka!

Quem te fez isso?!

O Alik?!

— O Alik, — cuspiu Pavel sangue no lava-loiça.

— Aquilo virou um antro.

Fumo por todo o lado, uns tipos estranhos.

Eu fui expulsá-los, e eles vieram para cima de mim.

— Meu Deus! — uivou a sogra.

— Tem de chamar a milícia!

A polícia!

— Eu chamei uma patrulha, — Pavel sentou-se, a fazer caretas de dor, enquanto Elena tratava o arranhão com água oxigenada.

— Puseram-nos fora.

Eu mudei as fechaduras.

Mas, mãe… aquilo está um nojo.

Rasgaram o papel de parede do corredor, entornaram vinho no tapete.

E o teu cristal… partiram uns vasinhos na varanda, pelo visto quando estavam a fumar.

Zinaida Petrovna deixou-se cair na cadeira.

O rosto ficou cinzento.

O templo dela.

O museu dela.

— Que se lixe, — disse ela de repente, baixinho.

Pavel e Elena trocaram um olhar.

— Mãe, que é isso?

— Que se lixe o cristal, — repetiu, mais firme.

— O importante é tu estares vivo.

E… os documentos do apartamento eu trazia comigo.

Lavamos as paredes.

Colamos papel novo.

Ela olhou para Elena.

O olhar era direto, sem a esperteza habitual.

— Lena, sobrou um pedaço de tarte?

Dá-me, vá.

Preciso de comer o stress.

Elena cortou-lhe um pedaço.

A sogra mastigava, a fazer careta por causa da dor nas gengivas, mas comia.

— Sabem, — disse ela, de boca cheia.

— E se eu deixar esses implantes?

É caro, demora.

Ponho uma ponte normal.

E com o resto do dinheiro… Pash, vamos arranjar o teu carro?

Tu disseste que as colunas batiam.

Ou o que é que bate aí no teu carro.

— Mãe, — Pavel sorriu com o lábio aberto.

— Come.

Das colunas trato eu.

E tu fazes os dentes.

Já que te meteste nesta aventura, vai até ao fim.

É preciso aguentar o carácter.

Elena olhava para os dois e entendia: nada acabou.

Tudo estava só a começar.

A reparação do apartamento da sogra, o tratamento dos dentes dela, meses de vida juntos.

Vai ser difícil.

Vai haver irritação.

Mas ela já não vai chamá-la, nem para si mesma, de “parva” ou “idiota”.

Porque viu por trás daquela “sogra-monstro” uma pessoa comum, que se enredou nos próprios desejos e medos.

— E eu já comecei as meias, — anunciou de repente Zinaida Petrovna, depois de terminar a tarte.

— Azuis.

E fiz elástico duplo, para não escorregarem.

Amanhã experimentas, Pash.

Lá fora, a neve caía, cobrindo as pegadas do Alik, as marcas do táxi, as marcas do ano velho.

Na cozinha cheirava a chá e a água oxigenada.

A vida seguia — atabalhoada, trabalhosa, mas quente.

Tal como deve ser.

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