— Dá dinheiro para o presente da minha irmã, — meu marido soube que eu recebi um bônus.

O valor do bônus foi anunciado na sexta-feira, pouco antes do almoço.

Marina estava sentada no setor de contabilidade, conferindo o relatório trimestral, quando Svetlana Grigorievna, a chefe das finanças, apareceu com um sorriso leve, quase conspiratório:

— Parabéns.

Vão acrescentar cinquenta mil ao seu salário.

Marina nem entendeu de imediato do que se tratava.

Depois caiu a ficha — o bônus trimestral, no qual ela já tinha parado até de pensar.

Durante três meses o projeto esteve por um fio, a chefia andava de cara fechada, insinuava “otimização”, e Marina já tinha se acostumado à ideia de que não haveria bônus nenhum.

E então — um acréscimo tão agradável.

Não é uma fortuna, claro, mas para o orçamento da família deles é uma quantia bem significativa.

Ela voltava para casa de ônibus e fazia contas mentalmente.

As botas de inverno ela usa pelo segundo inverno, a sola está rachando.

Dá para comprar umas boas, não chinesas.

Ou guardar — para as férias de verão, quem sabe dá para viajar para algum lugar, nem que seja para o sul, para o mar.

Só que, com os ganhos do Dima, do mar só dá para sonhar.

Dima.

Ela fez uma careta, olhando a janela embaçada do ônibus.

Vai ter que contar do bônus com cuidado.

Ele vai começar a calcular na hora, decidir no que gastar, sugerir comprar alguma coisa.

Normalmente — não o que precisa.

Em casa, Dima estava mexendo na cozinha — cozinhando macarrão, pelo cheiro.

Ele estava trabalhando agora em algum depósito, separando pedidos.

Temporariamente, como sempre.

Antes disso, ficou uns dois meses sem trabalhar, procurando algo “à altura”, como ele dizia.

Marina não discutia, só trabalhava em silêncio no escritório dela, sustentava a família.

Eles não tinham filhos — não aconteceu ainda, ou talvez, às vezes ela pensava, ainda bem.

Com aquelas finanças.

— Como foi o dia? — perguntou Dima, sem se virar, mexendo o macarrão na panela.

— Normal, — Marina largou a bolsa na cadeira, tirou os sapatos.

— Cansei.

— Fiz macarrão.

Tem salsicha.

— Uhum.

Ela foi para o quarto, trocou de roupa.

Pensou em não falar do bônus ainda, mas depois decidiu — de qualquer forma ele ia descobrir.

Melhor falar logo.

No jantar, ela disse como quem não quer nada:

— Ah, a propósito, pagaram um bônus.

O trimestral.

Dima levantou a cabeça, e nos olhos dele passou um interesse:

— É?

Quanto?

— Cinquenta.

— Nada mal, — ele assentiu, mastigando um pedaço de salsicha.

— Bem na hora.

— Na hora por quê?

— Bom, — ele largou o garfo, — a Ira faz aniversário já já.

Quarenta anos.

Uma data importante.

Eu estava pensando no que dar para ela…

Marina pousou o garfo.

Claro.

Ira.

A irmã do Dima.

Como ela não pensou nisso de cara?

— E o que você pensou? — perguntou com voz neutra.

— Eu vi numa joalheria, na Komsomolskaya, uns brincos tão lindos.

Com diamantes.

Pequenos, mas ficam chiquérrimos.

A Ira gosta desses, ela já me disse uma vez.

— E quanto custam esses brincos?

— Bom, — Dima coçou a nuca, — trinta e oito mil.

Mas eu já tinha separado cinco mil dos ganhos anteriores.

E pensei em pegar uns quinze mil emprestados com o Lyokha, e o resto…

— E aí aconteceu o meu bônus, — concluiu Marina.

— Isso, — ele sorriu, como se fosse óbvio.

— Por que não?

Agora você tem.

Marina se encostou no encosto da cadeira.

Algo se apertou no estômago — uma sensação conhecida, desagradável.

Eles já tinham passado por isso.

Muitas vezes.

— Dima, — começou ela com cuidado, — eu não entendo.

Brincos de trinta e oito mil?

Para a sua irmã?

A gente mesmo não tem dinheiro.

— Como não tem?

Você acabou de receber o bônus.

— Esse bônus é meu.

Pelo meu trabalho.

— E daí?

A gente é uma família.

Eu também trabalho.

— No depósito, temporariamente, faz três meses.

O rosto do Dima escureceu.

— E o que tem de errado em trabalhar no depósito?

É trabalho honesto.

Ou você tem vergonha de o seu marido trabalhar de carregador?

— Não distorce, — Marina passou a mão no rosto, cansada.

— Não é isso.

O ponto é que eu não vou dar o meu bônus para comprar brincos para a sua irmã.

— Mas é a Ira.

— Dima, você ajuda ela todo mês.

— E daí?

— Ela tem marido, tem filho.

Que eles comprem o presente.

— O Petka não trabalha direito, você sabe.

E o Denis é estudante.

De onde eles vão tirar dinheiro para um presente decente?

— E a gente vai tirar de onde?

— Você tem!

Cinquenta mil!

A voz do Dima subiu.

Marina sentia tudo ferver por dentro, mas se segurava.

— Esse bônus é meu, Dima.

Eu trabalhei feito uma condenada por três meses para receber isso.

E eu já decidi no que vou gastar.

— Em botas, aposto, — ele bufou.

— Ou em alguma tralha.

— E se for em botas?

Ou no que eu quiser.

É meu dinheiro.

— Ah, então agora é “meu e seu”? — Dima se levantou de repente, a cadeira rangeu.

— Ótimo.

Vou lembrar disso.

— Dima, espera…

Mas ele já tinha saído da cozinha.

Marina ouviu a porta do quarto bater.

Ela ficou sentada, olhando para o macarrão esfriando.

Não queria mais comer.

Ela sabia como isso ia terminar.

Dima ia ficar magoado, ia passar uns dias emburrado, depois ia passar.

Ou não.

Ultimamente, as mágoas dele estavam durando mais.

E tudo por causa da Ira.

Ira era três anos mais velha que Dima.

Depois da morte dos pais — eles morreram num acidente quando Dima ainda estava na faculdade — ela virou para ele algo como uma segunda mãe.

Cuidava, ajudava, tirava ele de encrenca.

Dima idolatrava a irmã, e Marina sabia disso desde antes do casamento.

Mas uma coisa é saber, outra é viver com isso.

Nos primeiros anos, dava para aguentar.

Ira mantinha distância, não se metia na vida deles.

Mas depois algo deu errado — talvez ela tenha começado a ter problemas com o marido, talvez outra coisa.

Ela passou a ligar mais, pedir ajuda.

Ora precisava de ajuda com uma reforma, ora de dinheiro emprestado até o pagamento, ora para tirar o filho Denis de alguma confusão.

Dima concordava com tudo.

Nunca dizia não.

Marina tentou conversar com ele sobre isso.

Com cuidado, com jeito.

Mas Dima não ouvia.

Para ele, Ira era sagrada, e qualquer palavra crítica sobre ela era vista como traição.

— Ela é minha irmã, — ele dizia.

— A única pessoa de sangue.

Você não entende?

Marina entendia.

Mas isso não deixava mais fácil.

Naquela noite eles não conversaram.

Dima foi dormir no sofá da sala, de propósito.

Marina ficou na cama, olhando para o teto.

Pensava que talvez ela fosse mesmo egoísta.

Talvez devesse ter aceitado.

Cinquenta mil não é uma quantia tão grande a ponto de fazer um escândalo por causa disso.

Mas então ela lembrou quantas vezes já tinha cedido.

Quantas vezes tinha concordado, se sacrificado, ido ao encontro dele.

E Dima nem percebia.

Para ele era natural: ajudar a Ira, ponto.

De manhã, Dima saiu cedo para o trabalho, sem se despedir.

Marina tomou café, se vestiu, foi para o centro.

Entrou naquela mesma joalheria na Komsomolskaya.

Só por curiosidade — para ver aqueles brincos.

A vendedora, uma mulher bem cuidada de meia-idade, sorriu com gentileza:

— Posso ajudar a escolher alguma coisa?

— Estou só olhando, — disse Marina, mas se aproximou da vitrine.

Os brincos eram mesmo bonitos.

Pequenos, delicados, com pedras que cintilavam sob as luzes.

Marina imaginou os brincos na Ira — ela gostava dessas coisas, chamativas, que aparecem.

Ela usava sempre com desafio, para todo mundo ver.

— É uma peça boa, — disse a vendedora, notando o olhar dela.

— Ouro branco, diamantes, lapidação russa.

Trinta e oito mil.

— Caro, — respondeu Marina, automaticamente.

— A qualidade corresponde ao preço.

É para a vida toda.

Para a vida toda.

Marina deu um sorriso de lado.

Interessante: quanto tempo ela e Dima aguentariam, se continuasse assim?

Ela saiu da loja, caminhou pelo centro.

Entrou numa loja de sapatos, experimentou botas — confortáveis, quentes, com uma sola boa.

Exatamente vinte mil.

À noite Dima chegou tarde.

Cheirava a suor e a algum produto químico.

Enxaguou-se no chuveiro, foi para a cozinha.

Marina estava esquentando a sopa.

— Vai jantar? — perguntou ela.

— Vou.

Eles comeram em silêncio.

Dima não levantava os olhos.

Marina sentia entre eles uma parede invisível esticada.

Fria, densa.

— Eu falei com o Lyokha, — disse Dima de repente.

— Ele topou me dar quinze mil.

Disse que eu devolvo até o fim do mês.

Marina baixou a colher devagar.

— Quer dizer que você decidiu comprar os brincos mesmo assim?

— Eu juntei umas economias.

Faltam dezoito mil.

— E de onde você vai tirar?

— Não sei, — Dima apertou o maxilar.

— Vou pedir para mais alguém.

Ou vou pegar emprestado.

— De quem mais?

Dima, você entende o que está fazendo?

Você está se endividando por causa de um presente para a sua irmã!

— Ela é minha irmã! — ele elevou a voz.

— A única!

Ela faz quarenta, é importante!

E eu quero dar um presente bom para ela!

— Às minhas custas!

— Dá dinheiro para o presente da minha irmã, — disse ele, duro, olhando nos olhos dela.

— Dá logo.

Você recebeu o bônus.

Você vai fazer questão?

Marina sentiu algo quebrar de vez por dentro.

Ela se levantou e cruzou os braços.

— Vou fazer, sim.

Eu me importo com o meu bônus, e com as suas ideias malucas.

Eu não vou te dar dinheiro, Dima.

Quer dar diamantes para a sua irmã?

Então ganhe você.

— Eu trabalho!

— Há três meses no depósito!

E antes disso você passou meio ano sem fazer nada!

E eu trabalho como uma condenada para a gente pelo menos viver!

E agora você quer que eu entregue meu bônus para comprar brincos para a Ira?

— Eu sabia que você não gosta dela, — Dima se levantou, o rosto ficou branco.

— Sempre soube.

Você odeia ela.

— Eu não odeio a Ira, — Marina falou devagar, tentando manter a voz firme.

— Eu só não entendo por que a gente tem que resolver os problemas dela.

Ela tem uma família.

Que eles ajudem.

— Ela não tem uma família de verdade!

O marido é um frouxo, o filho é um inútil!

Não tem ninguém para cuidar dela além de mim!

— E quem cuida de mim? — escapou de Marina.

— Da gente?

Ou a gente não importa?

Dima ficou em silêncio.

Olhou para ela com um olhar pesado, magoado.

Depois se virou e saiu.

Dessa vez ele não bateu a porta — fechou devagar, quase sem fazer barulho.

Havia algo nesse silêncio que era ainda mais assustador do que uma briga.

Marina ficou parada na cozinha.

A cabeça estava vazia.

Ela olhava para o borsch pela metade, para os pratos sujos, para os azulejos velhos e descascados na parede.

Pensava que tinha trinta e seis anos e ainda vivia de aluguel, usava botas velhas e contava cada centavo.

E o marido se endividava para comprar brincos para a irmã.

Talvez ela fosse mesmo um monstro.

Talvez uma esposa “normal” aceitasse, ajudasse o marido.

Mas Marina estava cansada de ser uma esposa normal.

Cansada de ceder, de se sacrificar, de entender.

Nos dias seguintes, eles quase não conversaram.

Dima saía para o trabalho, voltava tarde, comia em silêncio e ia para o quarto.

Marina não tentou consertar.

Sentia dentro de si algo duro, impenetrável.

Antes ela teria ido primeiro fazer as pazes, mas agora — não.

Na quarta-feira, quando chegou do trabalho, Dima não estava em casa.

Na mesa havia um bilhete:

«Vou chegar tarde. Não me espere».

Marina amassou o papel e jogou fora.

Sentou no sofá, ligou a televisão.

Assistiu a algum programa, sem prestar atenção.

Depois foi dormir.

Dima chegou bem depois da meia-noite.

Marina não dormia, ouviu ele mexendo na entrada, depois indo para a cozinha.

Houve barulhos, sacolas, coisas rangendo.

Depois silêncio.

De manhã, ela o encontrou no sofá.

Dormia sem se despir.

Ao lado, no chão, estava uma sacola da joalheria.

O coração dela despencou.

Marina pegou a sacola.

Dentro havia uma caixinha.

Ela abriu — os brincos.

Os mesmos, com diamantes.

Ela ficou ali, segurando a caixa, sentindo algo se esticar por dentro, como uma corda.

Ele comprou.

Comprou mesmo.

Se endividou, pegou emprestado de quem pôde, mas comprou.

Dima abriu os olhos e a olhou, turvo.

— Viu? — disse ele rouco.

— Eu consegui sozinho.

Não precisei do seu dinheiro.

— Quanto você está devendo? — perguntou Marina, baixinho.

— Não é da sua conta.

— Dima, quanto?

— Vinte e três mil, — ele se sentou e esfregou o rosto com as mãos.

— Vou pagar.

Até o fim do mês eu pago.

Vou arrumar mais um bico, mas pago.

Marina se sentou ao lado dele no sofá.

Pousou a caixinha na mesa.

— Você entende o que está fazendo?

— Entendo, — Dima se levantou e foi em direção à porta.

— Eu estou dando um presente para a minha irmã no aniversário de quarenta anos dela.

Gente normal faz isso.

Cuida dos parentes.

Ele foi para o banheiro.

Marina ficou sentada, olhando para a caixinha com os brincos.

Trinta e oito mil.

Vinte e três mil de dívida.

Por causa da Ira.

No sábado era o aniversário.

Dima se arrumava desde cedo, passava a camisa, colocava o presente numa sacola bonita.

Marina observava da cozinha.

— Você vai? — perguntou ele, sem se virar.

— Não.

— Por quê?

— Não quero.

— A Ira vai ficar magoada.

— Que fique.

Dima se virou.

Nos olhos dele passou algo — talvez surpresa, talvez decepção.

— Como você quiser, — ele pegou a sacola e saiu.

Marina ficou sozinha.

Sentou na janela e olhou o pátio cinzento, as árvores nuas.

Era começo de novembro, frio e melancólico.

Ela pensava que talvez devesse ter ido.

Por educação, pela paz na família.

Mas algo dentro resistia.

Ela estava cansada de fingir.

Dima voltou tarde da noite.

Bêbado, animado.

Marina estava na cozinha tomando chá quando ele entrou cambaleando no apartamento.

— Marin! — gritou ele do corredor.

— Você devia ter visto como a Irka ficou feliz!

Ela amou os brincos!

Ela chorou!

Imagina, chorou de felicidade!

Ele entrou na cozinha, balançando.

Rosto vermelho, olhos brilhando.

— Todo mundo disse que eu sou demais.

Que presente eu dei!

O Petka até ficou com inveja, eu vi.

E o Denis disse: “Tio, você é brabo!” — Dima riu.

— É isso aí.

Marina ficou em silêncio.

Olhava para ele e pensava que estava vendo um estranho.

Bêbado, satisfeito consigo mesmo, sem entender o que tinha acontecido.

— Por que você está calada? — Dima despencou na cadeira em frente.

— Está chateada?

Ah, para.

Eu vou pagar todas as dívidas, prometo.

Vou fazer uns bicos.

Vou pegar turnos extras no depósito.

Eu dou conta.

— Dima, — disse Marina baixinho, — eu quero que você vá embora.

Ele congelou.

O sorriso escorregou do rosto.

— O quê?

— Vá embora.

More separado por um tempo.

A gente precisa dar uma pausa.

— Você… está falando sério?

— Totalmente.

Dima ficou em silêncio.

Olhou para ela sem entender, como se ela falasse uma língua estrangeira.

— Por quê?

Por causa dos brincos?

— Não é por causa dos brincos, — Marina se levantou e foi até a janela.

— É por tudo.

Porque você não enxerga ninguém além da Ira.

Porque nós dois deixamos de ser uma família.

A gente só mora junto, e pronto.

— A gente é uma família, — murmurou Dima.

— Claro que é.

— Não, — Marina se virou.

— A sua família é a Ira.

Eu, para você, sou só… a pessoa que ganha, limpa, cozinha.

E ainda tem que bancar os seus impulsos.

— Não é assim…

— É assim, Dima.

E eu estou cansada.

Muito cansada.

Ele ficou sentado com a cabeça baixa.

A alegria de bêbado evaporou.

Agora ele parecia apenas perdido e miserável.

— Eu não queria, — disse ele baixinho.

— Eu juro que não queria que chegasse a isso.

— Eu sei.

— A Ira é tudo o que eu tenho.

De família.

Fora você, claro.

Mas ela… ela é mais velha, ela fez tanto por mim…

— Eu entendo, — Marina passou a mão no rosto, exausta.

— Entendo, Dima.

Mas eu não consigo mais viver na sombra da sua irmã.

Não consigo ficar em segundo lugar.

— Você não está em segundo lugar.

— Sério?

E para quem você liga primeiro quando tem problemas?

Para quem você conta do trabalho, dos planos?

Com quem você se aconselha quando precisa decidir alguma coisa?

Dima ficou em silêncio.

— Pois é, — Marina assentiu.

— Para a Ira.

Sempre para a Ira.

E eu — só cenário.

Ela foi para o quarto e fechou a porta.

Deitou na cama e ficou olhando para o teto.

Ouviu Dima andando pelo apartamento, resmungando, depois tudo ficou quieto.

De manhã, as coisas dele já estavam num saco esportivo velho.

Dima estava no corredor, vestido, sério.

A ressaca estava estampada no rosto.

— Eu vou para a casa da Ira, — disse ele.

— Por uma semaninha.

Talvez os dois esfriem a cabeça.

Marina assentiu.

Não achou o que dizer.

Ele saiu, e o apartamento ficou assustadoramente silencioso.

Marina sentou na cozinha e se serviu de café.

As mãos tremiam.

Ela não esperava que acabasse assim.

Achava que eles iam conversar, fazer as pazes, como sempre.

Mas deu diferente.

Será que ela exagerou?

Será que passou do ponto?

Mas então lembrou do rosto dele quando contava que a Ira chorou de felicidade.

Aquele rosto satisfeito, brilhante.

Ele estava feliz por ter feito a irmã feliz.

E o fato de ter se endividado, de ter colocado a esposa numa situação constrangedora, de ter destruído a relação — isso não importava.

Ela pegou o celular e escreveu para a amiga Olga:

«Posso passar aí? Preciso conversar».

A resposta veio na hora:

«Claro. Estou te esperando».

Marina se vestiu e saiu.

O dia estava claro, gelado.

O sol cegava.

Ela caminhava pela rua pensando que talvez fosse o fim.

O fim dela e do Dima.

E, estranhamente, ela não sentia desespero.

Sentia mais alívio.

Como se um peso enorme tivesse caído dos ombros.

Na casa da Olga, ela desabou em lágrimas.

Contou tudo — o bônus, os brincos, a Ira e as dívidas do Dima.

Olga ouviu, balançou a cabeça, serviu chá.

— Ele é doente, — disse ela por fim.

— Ou dependente.

Da irmã.

— Ele ama ela.

— Amor é quando você cuida de alguém sem esquecer os outros.

Aqui é um apego doentio.

Ele vive pelos interesses dela, e você é só… um acessório.

— Você acha que ele não vai mudar?

Olga deu de ombros:

— Não sei.

Talvez, se ele quiser.

Mas ele vai querer?

Marina ficou em silêncio.

Olhou pela janela, onde flocos finos de neve rodopiavam.

À noite Dima ligou.

A voz dele estava baixa, cautelosa:

— Como você está?

— Normal.

— Eu estou na casa da Ira.

Ela… ela ficou abalada quando soube.

Disse que não valia a pena comprar os brincos se era para dar problema.

— Já é tarde.

— Marin, vamos nos encontrar.

Vamos conversar direito.

— Não sei, Dima.

Não sei sobre o que conversar.

— Eu não quero que a gente se separe, — havia algo desesperado na voz dele.

— Não quero te perder.

— Então você tem que escolher, — disse Marina, dura.

— Eu ou a Ira.

Não existe uma terceira opção.

— Isso é impossível.

Eu não posso escolher entre esposa e irmã.

— Então você já escolheu.

Ela desligou.

Ficou sentada, apertando o celular na mão, e sentiu uma calma estranha tomar conta por dentro.

A decisão estava tomada.

E dali em diante, que seja o que tiver de ser.

Compartilhe com os amigos